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2 SEGUNDA PARTE

2.2 PAJÉ ESMERINDA TRINDADE DA SILVA

2.2.5 Sacacaria e Encantados Afro-religiosos: reciprocidade

mínimos à diversidade emergente nos contextos daquele período até o momento contemporâneo, conforme veremos a seguir.

2.2.5 Sacacaria e Encantados. Afro-religiosos: reciprocidade inclusiva

A Pajé segue com sua família em busca de lugar onde pudesse estabelecer sua própria vida, a vida de seu bebê e de seu marido, o que relata ser um trabalho que lhes possibilitasse comer e vestir roupas com as quais pudessem se apresentar entre os brancos de modo a serem respeitados.

No decurso dessa trajetória, a família da Pajé Esmerinda recebe a visita dos filhos de uma vizinha que morava perto de sua casa. Os rapazes foram pedir a seu marido, Kũmu Desana Roque José Oliveira da Silva, para tratar a mãe deles, que não conseguia andar. A Pajé Esmerinda ressalta que se tratava de uma senhora morena, “com a pele mais morena que a minha e a sua”, referindo-se à cor de minha pele.

A Pajé conta que a senhora morena não podia mais andar e que sua doença fora provocada por relações hostis entre essa senhora e outros pajés que conheciam os poderes dos encantados da floresta. Seu Roque cura a senhora, que imediatamente volta a andar, ressalta a Pajé: “melhor, a pular”. Porém, ela não tinha “nada para dar em troca, nem

alimento, nem canoa”. Nessas condições, a senhora morena oferece em pagamento sua Sacacaria em pagamento ao Pajé herdeiro das identidades Desana e Baré.

Assim, o Kũmu Roque que não falava Desana por que sua mãe Maria de Oliveira da Silva - cujo pai identificava-se pelo grupo patrilinear Tukano - ficou viúva jovem e casou com um Baré quando o Kũmu ainda era pequeno. Dessa união entre sua mãe e seu pai, ambos descendentes da sociedade exolinguística “Tukanoan”, torna-se também um Pajé Sacaca, herdeiro de conhecimentos afro-religiosos. O Kũmu Roque passa a incorporar espíritos da Sacacaria, entregues em pagamento por essa senhora morena, afro-descendente, que vivia nas proximidades de sua casa na região do Alto Rio Negro. A Sacacaria do Kũmu Roque é herdada hoje por sua filha, Pajé Sacaca Olívia da Silva.

Conheci os Encantados da Sacacaria de Olívia, herança que recebeu de seu pai, no início de uma noite em que apareci sem avisar na casa da Pajé. Bati na porta sem saber o que acontecia; foi quando encontrei Olívia, sua irmã Brígida, a Pajé Esmerinda e três mulheres com ascendência indígena. Dr. Boto estava incorporado em Olívia, depois chegou o Dr. Pajé e o Dr. Caetano, que é uma cobra. Os Encantados incorporados por Olívia são espíritos que nunca foram gente, são espíritos que vivem no fundo das águas, como Dr. Boto e Dr. Camarão, Dr. Laranjeira tem relação com plantes, e Dr. Caetano. Dr. Caetano leva nome de gente, mas explica-me a Pajé Esmerinda “ele é uma cobra”.

Os espíritos de animais e plantas com os quais a Pajé Sacaca, e todos os que participam dos rituais, mantêm contato, são espíritos que vivem no reino dos Encantados, porém também podem ser vistos em momentos especiais do dia nos rios, nas pedras, em lugares pouco visitados por humanos. Arraias, botos, cobras e todos os animais e plantas possuem consciência como a consciência humana e são Encantados, o que faz lembrar o perspectivismo ameríndio conforme proposto por Viveiros de Castro (1996; ver também LIMA, 1996), porém, neste caso, mesmo que os Encantados da Sacacaria sejam espíritos de animais e plantas que dialogam com humanos, diferem do modo como os sujeitos-animais são apresentados pelo perspectivismo por que não há relação entre predador e presa; pelo contrário, os Encantados são guias, Mestres, orientadores das ações humanas tendo como propósito a felicidade dos humanos. A consciência destes “espíritos que nunca foram gente” trabalha junto à Pajé apoaindo e orientado as pessoas que os procuram. Estes espíritos também podem castigar os humanos, porém, diferente dos espíritos Encantados do

Candomblé, que foram gente e castigam os Filhos de Santo que não cumprem com seus propósitos, os Encantados da Sacacaria só castigam quem os importuna. Ou seja, humanos que não respeitam seus lugares de morada, especialmente, os lugares mais afastados dos povoados, nos rios e matas.

Assim, a semelhança das referências etnográficas que ancoram o perspectivismo, os “espíritos de animais” são sujeitos com consciência e condições de se comunicar com humanos. Por outro lado, os Encantados atuam junto à Pajé em atividades de cura, orientação e interpretação de situações cotidianas, ou seja, não existe uma ênfase na relação entre presa e predador; o contato entre o “mundo dos Encantados” e os humanos se dá a partir da incorporação dos espíritos no corpo da Pajé Sacaca de modo semelhante ao que acontece com os médiuns no Candomblé76 e seu propósito e sustentar a vida social. Os Encantados servem à continuidade da vida social humana, e a condição do “mundo dos Encantados” é de plena fatura, bem estar, beleza, saúde, equilíbrio, trata-se do ideal enquanto modo específico de vida social.

Por outro lado, os Encantados da Sacacaria são diferentes dos Encantados incorporados no Candomblé cruzado com Umbanda, que tive a oportunidade de conhecer. A principal diferença é que os Encantados entre afro-religiosos são espíritos de humanos, espíritos que viveram como mulheres e homens. Porém, seus espíritos saem de seus corpos antes da morte, antes do falecimento completo do organismo, quando seus corpos ainda estão vivos. Ou seja, antes de morrer há um desprendimento do espírito em relação ao corpo e quando acontece a morte física o espírito já não está mais presente, por isso tornam-se Encantados.

Voltando a situação vivida pelo Kũmu Roque, que apresenta um exemplo de reconhecimento mútuo entre diferentes saberes, indígena e afro-religioso, ou seja, tanto o conhecimento de quem realiza a cura quanto o conhecimento oferecido em forma de pagamento são compartilhados e reconhecidos reciprocamente por ambos os sujeitos e seus respectivos grupos sociais em relação. Entendo que o

76 O Yaí Avelino, em nosso último encontro, em março de 2010, menciona o fato de que os Yaiwá, plural de Yaí em Tukano/Yepamahsã, vivenciavam manifestações dos espíritos em seus corpos. Com este relato do Yaí, lembrei dos rituais dos Pajés Yanomami, que tive a oportunidade de presenciar quando estive entre eles: há uma alteração da expressão física dos Pajés que se assemelhava à incorporação dos espíritos nos corpos dos médiuns nos rituais afro- religiosos, com a diferença de que os espíritos incorporados nos Pajés Yanomami eram espíritos de animais, macacos, antas, veados, e outros que não pude identificar, chamados xapori.

reconhecimento e a reciprocidade presentes nessa negociação são apresentados como referência para as negociações entre conhecimento antropológico e tradicional, sendo indicadores das expectativas da Pajé em nossas negociações em pesquisa. Se tanto a Pajé como a pesquisadora conseguirem acessar o nível de satisfação apresentado nesta negociação entre o Kũmu Roque e a senhora afro-religiosa, então a pesquisa corresponderá às expectativas da Pajé. Assim, como o Yaí Roque aprendeu algo que lhe serviu por toda a vida e a senhora afro- religiosa conseguiu andar imediatamente, “saiu pulando”, o reconhecimento e reciprocidade para as relações em pesquisa deve proporcionar satisfação enquanto parte da vida da Pajé Esmerinda e dos indígenas com os quais trabalho e parte das demandas da antropologia e de seus sujeitos. Ou seja, a satisfação para as relações entre sujeitos sociais em pesquisa gera satisfação para os resultados da pesquisa, nesta ordem.