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2 SEGUNDA PARTE

2.2 PAJÉ ESMERINDA TRINDADE DA SILVA

2.2.4 O aviamento: patrões, hierarquia, exploração e

reconhecimento

O casamento da Pajé acontece após ter conhecido o Kũmu Roque da Silva num baile, nas proximidades de sua casa. O jovem Roque decide casar com a jovem Esmerinda, mais velha do que ele71, e pede para sua irmã ir até a casa dos pais da Pajé conversar com eles sobre seus interesses de casamento. Sua mãe imediatamente aceitou o casamento, pois considerou que os passeios de sua filha aos bailes do lugar comprometeriam o futuro de Esmerinda e sugeriu à filha que “fosse embora com o primeiro pretendente que aparecesse”. O julgamento de sua mãe Catarina foi precipitado, segundo a Pajé Esmerinda, lembrança que ela guardou com ressentimento.

A Pajé vai morar com seu noivo e todos ficam satisfeitos. Ambos passam a trabalhar para o sistema de aviamento do lugar. É interessante registrar que o Yaí Avelino Trindade permanece junto da irmã e do cunhado e passa a trabalhar com eles nesse sistema. O casal teve o primeiro filho que é deixado ainda bebê junto de outras pessoas que permaneciam nas casas72 do aviamento, enquanto a Pajé e o marido seguiam numa jornada de cerca de 12 horas de trabalho diário, do amanhecer ao anoitecer, “Chegava em casa com aquela lanterninha de fogo acesa, lampião.”, diz a Pajé Esmerinda.

A Pajé ressalta a exploração e a ausência de reconhecimento por parte dos brancos, “Eu fazia meu trabalho bem feito, tudo muito bom, e nunca ouvi, nunca dona Jakeline, nunca me disseram ‘obrigada’”. Esta

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Registro a marca para as diferenças entre as idades da Pajé e de seu marido, questão pontuada pela própria Pajé, como mais um indicador do tempo que a Pajé esteve exclusivamente entre seus parentes, afastada do convívio com outros indígenas. Ou seja, entendo que seu marido era mais novo por que ela demorou a conhecer homens para casar. 72 A categoria servos é utilizada por mim em referência a seu significado para o sistema econômico e político feudal, baseado em relações servo-contratuais. Substituo-a pelo uso das palavras freguês ou aviado, termos usados pela bibliografia para o sistema de aviamento, pois os indígenas narram suas experiências como próprias a escravos, indicando que eles não tinham expectativa de serem mediadores no sistema. Para não usar a categoria usada por eles “escravos”, uso a palavra servos. As características gerais do feudalismo são: poder descentralizado, economia baseada na agricultura de subsistência, trabalho servil e economia amonetária, baseada nas trocas (Pirenne, 1982). Para o uso da categoria, enfatizo as diferença nos modos como estes sistemas funcionam, tanto da perspectiva da economia quanto da política para ambos.

perspectiva apresentada é clara e objetiva para a minha compreensão, desde o primeiro momento em que a Pajé apresentou estas circunstâncias do aviamento. A idéia é exposta e minha reação é observada. Obviamente minhas expressões foram de desconforto em relação aos brancos do aviamento, o que deixou claro que eu não me identificava com o modo destes brancos orientarem as circunstâncias. Por outro lado, a minha reação, esperada pela Pajé, é coroada com outra ênfase: “nunca me disseram “obrigada”, esta é a ênfase do reconhecimento. Entendo que a Pajé nestes termos ressalta a importância de que eu sustente reconhecimento sobre seus esforços em orientar as minhas formas de relação social enquanto uma “pehkaso, pehkasozinha.”, branca, branquinha. Nesse sentido, ser antropóloga significa ser branca.

Relata a Pajé que cada servo tinha três mudas de roupa, faltava- lhes com frequência açúcar e café. O casal consegue sair do sistema de aviamento sob a condição de partir sem o Yaí Avelino. Seguem seu rumo e o Yaí é impedido de continuar viagem permanecendo preso ao sistema até adoecer, como será apresentado. Esse fato marca a relação da Pajé e de seu irmão até o momento da pesquisa.

Nesse período passado, está evidente para a Pajé que as perspectivas de enfrentamento das condições historicamente determinadas na região prescreviam o fim do direito ao respeito recíproco para as relações entre os grupos sociais envolvidos. E a Pajé guarda como referência a satisfação proporcionada pelas relações sociais vivenciadas junto a seus pais e antepassados antes da chegada dos brancos em sua própria vida, o que é comparativamente revisitado durante todas as suas reflexões e análises sobre as relações sociais presentes no curso de sua vida.

A Pajé mostra as diferenças entre o passado e o presente imediato do mesmo passado, momento em que as condições históricas determinadas impactam a compreensão da Pajé sobre suas perspectivas de vida social. Ou seja, é nesse período que é compreendida o que é a vida em relação aos brancos; antes disso a Pajé desconhecia esta realidade.

Dessa perspectiva crítica, a Pajé traz a categoria “patrão, patroa” atualizada ao curso de nossas relações em pesquisa. A atualização é apresentada pela Pajé como uma estratégia eficaz e necessária para a continuidade das relações sociais e como indicador de uma perspectiva emergente para as relações em pesquisa, conforme veremos.

Aqui, a noção de atualização das narrativas como criadoras e recriadoras de modelos de realidade e também, reciprocamente,

fornecendo modelos para a ação, ao estruturaeem os eventos e “instru[indo] os ouvidores na interpretação de suas experiências”, é apresentada por Jean Langdon (2002). Neste caso, apresentamos a atualização do sentido de uma categoria, “patroa”. No passado uma categoria associada ao abuso e no presente associada a reciprocidade, reconhecimento e, portanto, ao respeito aos esforços da Pajé.

Para apresentar essa atualização lembro de um momento em que a definição da Pajé sobre a nossa relação é o fato de ter me chamado de “patroa”. É a primeira vez que a Pajé me indica a partir de uma categoria, os outros foram chamados de Mestres, eu fui chamada de pehskásozinha, branquinha; foram categorizados também os espíritos, os diferentes tipos de pajés, também apresentado pelo Yaí Avelino, conforme veremos.

Estávamos no Bosque da Ciência, espaço do INPA destinado a visitação de estudantes e turistas, aguardando a chegada de Otacila e do Kũmu Justino para uma das reuniões destinadas à elaboração do artigo a ser apresentado na VIII RAM. Após o almoço, sentamos em um banco e eu pergunto a ela como se sente; ela diz que sente desconforto nas pernas, então eu peço para que ela me alcance seus pés, para massageá- los pois teremos uma longa jornada de trabalho durante aquela tarde73.

Enquanto massageio seus pés, se aproxima de nós uma mulher, ambas ficam conversando em língua geral e depois de algumas palavras trocadas ela diz, “essa moça, conheci a mãe dela em Santa Isabel, ela perguntou se a senhora era minha nora, daí eu disse pra ela que não, que a senhora é minha patroa. A relação entre quem serve e quem é servido, nesse momento, é muito diferenciada da que me foi apresentada anteriormente, para as relações entre patrão e quem serve ao patrão junto aos brancos. Por outro lado, seu avô “tuixá” também é apresentado com patrão, sem, no entanto, ser detalhada o modo como se estabelecia a relação entre seu avô e os homens que lhe serviam, sempre mencionado homens, nunca ouvi sobre uma mulher serva de seu avô. Porém, se não tive acesso a uma interpretação política objetiva sobre a relação de seu avô enquanto patrão,também não há sinais de desconforto entre as partes em relação quando é apresentada a situação de seu avô como patrão, diferente do modo como são apresentadas as relações junto a patrões brancos, que são direta e explicitamente criticados.

Nesse momento, a perspectiva da Pajé para estas categorias, a patroa e serva, apresenta de modo direto uma massagem da patroa nos

73 Esta tarde é do dia 30 de junho de 2009, quando tivemos a segunda reunião para a elaboração do artigo assinado pela Pajé, em anexo nesta tese.

pés da serva, para que ela se sinta bem e possa trabalhar, motivo pelo qual eu iniciei a massagem. Ora, isso é muito diferente do sistema de aviamento. Daí, imagino que essa seja uma perspectiva relacional para os “servos” entre indígenas.

A bibliografia apresenta descrições e análises das relações entre povos rionegrinos e entre clãs74. Chernela (1993: 110-122) classifica relações de troca entre indígenas no Alto Rio Negro, entre afins como sendo de reciprocidade e equivalência; entre índios de rio e da floresta, de reciprocidade não igualitária; entre agnatos e entre sibs como sendo hierárquicas. Ramos, 1980, apresenta como relações de patrono/cliente, categorias próprias ao aviamento; Christine Hugh-Jones (1979: 59), também traz nas categorias “senhor e escravo”. Também podemos questionar se existe relação entre a interpretação da autora e o deslocamento das categorias próprias ao aviamento para as relações entre indígenas; Renato Athias (1995), dialogando com Luis Dumont e com a “matriz dos sistemas interétnicos” apresentada por Cardoso de Oliveira (1976: 55), traz a proposta de análise comparativa entre o sistema de castas na Índia e o sistema social indígena no Uaupés75.

Mas, porque os indígenas se submeteram à exploração do aviamento mesmo sendo contrários a ela? É interessante notar que a Pajé apresenta a apreensão do sistema de aviamento pelos indígenas como estratégia de transformação dos contextos históricos insuportáveis, conforme narrado. Esta perspectiva está em sincronia com a trajetória do Yaí Avelino Trindade, seu irmão, conforme veremos adiante. Acredito na compreensão de que a abordagem da Pajé para as ações indígenas apresenta a servidão como estratégia pacífica dos indígenas em relação à presença dos brancos. Estratégias de pacificação dos brancos a partir das situações de contato recebem atenção detalhada junto às discussões próprias à Antropologia do outro em “Pacificando o Branco” (ALBERT e RAMOS, 2002).

Durante minha pesquisa de campo as hierarquias são apresentadas como parte das negociações em pesquisa. Há uma estrutura hierárquica referenciada diretamente ao espaço social ocupado pelo indivíduo em relação ao grupo, sendo que cada indivíduo é compreendido como parte do grupo. Assim, a reciprocidade parece estar em maior evidência que a hierarquia, ainda que a hierarquia exista. Esta perspectiva é explicitada no artigo em anexo. O artigo traz uma proposta elaborada pelos sujeitos sociais pesquisados, para o reconhecimento dos

74 Veremos um pouco sobre as relações entre clãs nos penúltimo e último capítulos da tese. 75 Ver também, Goldman 1979 [1963]: 105; Jean Jackson, 1983: 154.

“pesquisados” enquanto sujeitos do conhecimento antropológico. Mudamos a estrutura da autoria estabelecendo uma hierarquia própria para a autoridade sobre o conhecimento apresentado no artigo, no entanto é possível identificar a interdependência entre autores para que o artigo seja elaborado. É interessante notar como a hierarquia existe sem diminuir a importância do grupo de autores.

Esta situação é acompanhada pelo relato da frustração em relação à falta de reconhecimento de seus patrões brancos sobre seus esforços para um excelente desempenho; conta: “a gente trabalhava e eu nunca recebi um elogio da minha patroa, nunca disse que tava bom o que eu fazia.”. O reconhecimento é apontado pela Pajé como a ênfase para suas críticas às relações no sistema de aviamento, acompanhada do relato sobre as restrições ao uso de alimentos e sobre o trabalho ininterrupto por cerca de doze horas por dia, do nascer do sol ao anoitecer.

Posteriormente, a Pajé apresenta, comparativamente, a singularidade dos encontros posteriores com outros conhecimentos, indígenas e afro-brasileiros, em que a troca de conhecimento e o compartilhamento das diferenças, é apresentado como uma perspectiva