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Os diferentes momentos históricos marcaram a evolução prática da educação profissional no Brasil. É preciso uma passagem por cada decisão tomada pelos dirigentes da nação, a fim de entender o significado de cada ato no que diz respeito à evolução da forma administrativa das instituições federais de ensino tecnológico no país.

O Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia da Paraíba (IFPB) integra o que hoje se conhece por Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica. Mas sua história centenária remete ao decreto presidencial nº 7.566, de 1909, assinado por Nilo Peçanha, no qual foram criadas 19 Escolas de Aprendizes Artífices (EAA) que tinham por finalidade oferecer gratuitamente ensino profissional primário àqueles que não podiam pagar por ele. (IFPB, 2013)

Àquele tempo, a marca da centralização do poder pelo governo central podia ser sentida pela inexistência de critérios na seleção para cargo de diretor das EAAs (PEIXOTO, 2009). Os diretores ficavam sob tutela do poder central, obedientes a um estilo de "apadrinhamento político" normal para a época, dependendo pedagógica, financeira e administrativamente do Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio (CAMELO; MOURA, 2006). Em 1911, o presidente Hermes da Fonseca, e em 1918, o presidente Wenceslau Braz, instituem, respectivamente, decretos regulatórios das EAAs, com foco na gestão dessas escolas. O Decreto nº 9.070/11 (BRASIL, 1911) teve como grande diferencial incumbir o ministro da agricultura, indústria e comércio, da nomeação do diretor escolar, sendo que o preenchimento dos cargos estaria condicionado à concurso de documentos e idoneidade moral e técnica. Apesar do avanço legal pelo definição de critérios para o processo de escolha, esta ainda era feita pelo chefe de estado a partir de uma lista contendo os nomes considerados mais aptos.

Nas décadas de 1930 e 1940, as transformações políticas e econômicas na sociedade brasileira, em especial o processo de industrialização, demandaram a ampliação das oportunidades educacionais em geral e do ensino tecnológico em particular. Em 1930 essas Escolas passam para a supervisão do Ministério da Educação e Saúde Pública e, em 1937, por força da Lei nº 378, transformam-se em Liceus Industriais, destinados ao ensino profissional em vários ramos e graus. Em 1942, os liceus passam a se chamar Escolas Industriais e Técnicas um ano após o ensino profissional é considerado equivalente ao secundário (SILVA, 2009).

Foi naquele ano, através do Decreto nº 4.127, que na Paraíba o Liceu Industrial passou a ser Escola Industrial de João Pessoa, a qual ficou também conhecida por Escola Industrial Federal da Paraíba até 1959, quando então é configurada como autarquia e renomeada para Escola Técnica Federal da Paraíba (ETFPB). Isto acontece no governo do presidente Juscelino Kubitschek, que por meio da Lei Federal nº 3.552/59 (Reforma do Ensino Industrial), estabelece as normas da organização escolar e administrativa dos estabelecimentos de Ensino Industrial vinculados ao Ministério da Educação (MEC). As Escolas Técnicas Federais (ETFs)passam a ter personalidade jurídica própria e autonomia didática, administrativa, técnica e financeira (CAMELO; MOURA, 2006).

A complexidade organizacional aumenta com a criação dos conselhos de representantes, que tinham a função de administrar as ETFs, e de professores, com o encargo de deliberar sobre questões didático-pedagógicas. Com essa organização a escola tinha autonomia para elaborar seu regimento interno e o diretor passa a ter funções presidindo o Conselho de Professores e controlando as deliberações do Conselho de Representantes (PEIXOTO, 2009). Isso garantiu a participação coletiva na gestão.

Na década de 1960, a partir do Golpe de 1964, o Brasil vive um regime militar. E a medida em que a educação passou a ser mais valorizada pelo governo, pois ela permitiria o desenvolvimento almejado, muitas transformações ocorreram no ensino técnico. Neste cenário, a ETFPB implanta cursos técnicos em nível de 2º grau, que vinham atender à demanda desenvolvimentista do país. A primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação, Lei nº 4.024/61, (BRASIL, 1961) atribuiu ao ensino técnico o mesmo valor do acadêmico, permitindo assim que os concluintes de ambos pudessem ingressar no ensino superior sob as mesmas condições (IFPB, 2013). Rompeu-se a dualidade entre escolas de elite e escolas de operários.

Durante o Regime Militar, as ETFs viraram referência de ensino de qualidade no país. Mas, com o enfraquecimento do capitalismo na década de 1970 e, consequentemente, do modelo taylorista-fordista nos processos produtivos, a educação não atendia mais às necessidades do mercado de trabalho.

Uma tentativa de reestruturar o ensino médio brasileiro foi feita com a criação da Lei nº 5.692/71, que não chegou a se constituir em outra Lei de Diretrizes e Bases. Em 1974, o Decreto nº 75.079 (BRASIL, 1974), estabelece uma nova organização na administração escolar das ETFs, cuja estrutura básica contava com um órgão consultivo, denominado Conselho Técnico Consultivo, e quatro departamentos enquanto órgãos de direção superior:

Art. 1° As Escolas Técnicas Federais, autarquias educacionais criadas na forma da Lei n.º 3.552, de 16 de fevereiro de 1959, vinculadas ao Ministério da Educação e Cultura, terão a seguinte estrutura básica.

I - ÓRGÃO CONSULTIVO 1. Conselho Técnico Consultivo II - ÓRGÃOS DE DIREÇÃO SUPERIOR 1. Departamento de Pedagogia e Apoio Didático 2. Departamento de Ensino

3. Departamento de Administração 4. Departamento de Pessoal

Art. 2° Cada Esco la s erá́ dirigidapor um Di retor, que ser á́ seu representante l egal, e

os Departamentos por chefes, cujos cargos serão providos na forma da legislação específica.

Art. 3° O Conselho Técnico Consultivo, destinado a colaborar para o aperfeiçoamento do processo educativo com informações da comunidade e zelar pela boa execução da polí ti ca educacional da Escola, será́ composto pelo Di retor da

Escola, que o presidirá, e por seis membros da comunidade designados pelo Ministério da Educação e Cultura.

De acordo com Peixoto (2009), na verdade houve um retrocesso ao princípio da colegialidade e da autonomia institucional, agora demandada apenas sob forma consultiva, pois com a extinção do Conselho de Representantes o poder ficou concentrado nos Diretores dos ETFs, cujo mandato volta às mãos do governo federal.

No período de transição entre as décadas de 1970 e 1980, os meios de produção e as relações de trabalho sofrem mudanças em escala mundial. Novos padrões de produtividade adequados à lógica de mercado levam a uma desconcentração na gestão da força de trabalho. Métodos como os Círculos de Controle de Qualidade (CCQ), a gestão participativa e a qualidade total são adotados em vários países do capitalismo avançado ao Terceiro Mundo industrializado. Nesse contexto o Brasil vive um processo de redemocratização que traz novas mudanças à educação nacional (ANTUNES, 2002).

Em 1978, três escolas federais (Rio de Janeiro, Minas Gerias e Paraná) tornam-se Centros Federais de Educação Tecnológica (Cefets), equiparando-se em termos de educação superior aos centros universitários. Quanto à administração escolar desses centros, duas mudanças merecem destaque: 1) a partir de então haveria apenas um Conselho deliberativo e consultivo, o Conselho Diretor, presidido pelo Diretor Geral da escola; 2) A escolha do Diretor e Vice-Diretor partiria de uma lista de seis nomes elaborada pelo citado Conselho, a ser feita pelo Ministro da Educação para o exercício de um mandato de quatro anos, vedada a recondução consecutiva (PEIXOTO, 2009).

Durante a década de 1990, várias outras escolas técnicas e agrotécnicas são transformadas em Cefets, formando a base do Sistema Nacional de Educação Tecnológica (SILVA, 2009). Na Paraíba, essa transformação aconteceu em 1999.

Silva (2009) afirma que após um período de indefinição e oscilação política quanto à orientação do esforço pedagógico desse Sistema, iniciou-se em 2004 a reorientação das políticas federais para a educação profissional e tecnológica. O Ministério da Educação, como parte do Plano de Desenvolvimento de Educação Pública e através do Decreto nº 6.095/2007, estabeleceu diretrizes para os processos de integração de instituições federais de educação tecnológica, visando a formação de uma rede federal. A partir disso, evidenciou-se a necessidade de discutir a organização dessas instituições, assim como estabelecer seu papel no desenvolvimento social do país e, como resultado desses esforços, a Lei 11.892/2008 cria um novo modelo de instituição de educação profissional e tecnológica (SILVA, 2009), os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (IFs), que fortalecem o desenvolvimento educacional e socioeconômico do país.

De acordo com a Lei 11.892 (BRASIL, 2008), os Institutos Federais são instituições de educação superior, básica e profissional, pluricurriculares e multicampi. A partir da sua criação, cada unidade de ensino da sua estrutura organizacional passou à condição de campus da nova instituição, tendo a reitoria como órgão executivo de administração central, a qual é composta por um reitor e cinco pró-reitores.

A Lei 11.892 (BRASIL, 2008) estabelece ainda que a administração dos IFs tem como órgãos superiores o Colégio de Dirigentes e o Conselho Superior, ambos presididos pelo reitor. O Colégio de Dirigentes tem caráter consultivo, sendo composto pelo Reitor, pelos Pró-Reitores e pelo Diretor-Geral de cada um dos campi que integram o Instituto Federal. O Conselho Superior tem caráter consultivo e deliberativo, é composto por representantes dos docentes, dos estudantes, dos servidores técnico-administrativos, dos egressos da instituição, da sociedade civil, do Ministério da Educação e do Colégio de Dirigentes do Instituto Federal, assegurando-se a representação paritária dos segmentos que compõem a comunidade acadêmica. Cada IF tem autonomia para criar seu estatuto, o qual dispõe sobre a estruturação, as competências e as normas de funcionamento do Colégio de Dirigentes e do Conselho Superior. A proposta orçamentária anual é identificada para cada campus e a reitoria, exceto no que diz respeito a pessoal, encargos sociais e benefícios aos servidores.

São também descritos na Lei 11.892 (BRASIL, 2008) as especificações de que, além de ter que preencher alguns critérios técnicos, o reitor é nomeado pelo Presidente da

República para um mandato de quatro anos somente após consulta eletiva à comunidade acadêmica, atribuindo-se o peso de 1/3 (um terço) para a manifestação do corpo docente, de 1/3 (um terço) para a manifestação dos servidores técnico-administrativos e de 1/3 (um terço) para a manifestação do corpo discente. Os pró-reitores são nomeados livremente pelo reitor, mas os dirigentes-gerais de cada campus só o são depois de consulta à comunidade do respectivo campus, que acontece em moldes semelhantes à escolha do reitor.

Esse é o resumo dos passos históricos que possibilitaram a implantação do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba naquele mesmo ano (2008), mediante integração do Centro Federal de Educação Tecnológica da Paraíba e da Escola Agrotécnica Federal de Sousa. O IFPB, através de seus campi em funcionamento até a conclusão desse trabalho – João Pessoa, Guarabira, Sousa, Cajazeiras, Campina Grande, Cabedelo, Monteiro, Patos, Picuí e Princesa Isabel, além de outros já em construção –, vem ofertando educação profissional e tecnológica a toda população da Paraíba (IFPB, 2013).

Pacheco e Rezende (apud SILVA, 2009) afirmam que os IFs devem responder, de forma ágil e eficaz, às demandas crescentes por difusão do conhecimento científico, entre outras. Segundo eles (PACHECO E REZENDE apud SILVA, 2009, p. 11), “o futuro dos institutos [federais] está em aberto, dependendo de nossa ousadia, competência e compromisso político com um país soberano, democrático e justo socialmente”. E assim definem o objetivo dessas entidades:

A proposta dos institutos federais entende a educação como instrumento de transformação e de enriquecimento do conhecimento, capaz de modificar a vida social e atribuir maior sentido e alcance ao conjunto da experiência humana. É nesse sentido que deve ser pensada segundo as exigências do mundo atual, concorrendo para alterar positivamente a realidade brasileira. (PACHECO E REZENDE apud SILVA, 2009, p. 10)

É importante ressaltar que, no que diz respeito às finalidades e características dos IFs11, observarmos na sua maior parte “a insistência no estabelecimento de uma relação transformadora com a sociedade” (PACHECO E REZENDE apud SILVA, 2009, p. 40).

O capítulo seguinte trata da metodologia aplicada por esta pesquisa ao estudo sobre o programa Reitoria Itinerante do IFPB, uma ferramenta de gestão criada sob a bandeira de exercer esse tipo de relação com a sua comunidade acadêmica.

   

                                                                                                               

3  METODOLOGIA  

 

Este capítulo apresenta o delineamento da pesquisa, sendo esta a etapa em que, segundo Gil (1999, p. 64) é feito o "contraste entre a teoria e os fatos e sua forma é a de uma estratégia ou plano geral que determine as operações necessárias para fazê-lo”. Trata-se do momento em que é considerada a aplicação dos métodos discretos, ou seja, daqueles que proporcionam os meios técnicos para a investigação, no sentido de atingir os objetivos estabelecidos (GIL, 1999).

Os tópicos seguintes caracterizam o tipo de pesquisa realizada e também suas técnicas e fontes de dados. São considerados também o universo e a amostra pesquisados, o instrumento de pesquisa e as variáveis por ele utilizadas, além de apresentados as formas de tratamento e de análise dos dados.

 

3.1  TIPO  DE  PESQUISA        

Ao considerar seu objetivo, o presente estudo tem caráter exploratório que, segundo Vergara (2009), aborda uma área de pesquisa onde há pouco conhecimento acumulado e sistematizado.

Trata-se também de uma pesquisa descritiva, caracterizada por Leite (2008) como o que procura conhecer e interpretar a realidade, sem interferir na mesma. Vergara (2009) acrescenta que a pesquisa descritiva pode estabelecer correlações entre variáveis e definir sua natureza, e que embora não tenha o compromisso de explicar os fenômenos, serve de base para tal explicação. Sua concretização utilizou uma abordagem eminentemente quantitativa, ou o que Tripodi et al. (1975) chama de descritiva-quantitativa, pois tem por objetivo o delineamento de características do fenômeno observado a partir do isolamento de variáveis- chave. Entretanto, como será apresentado ainda neste Capítulo, a escolha da entrevista como técnica de pesquisa leva a reconhecer traços de uma abordagem qualitativa no desenho deste estudo.

Enquanto estratégia de pesquisa, trata-se de um estudo de caso que, de acordo com Yin (2001), contribui com o conhecimento adquirido sobre o fenômeno individual, organizacional, social e político. De modo a possibilitar esse estudo e produzir um conhecimento sobre o fenômeno analisado, foram aplicadas as técnicas de pesquisa descritas a seguir.