2.3 MODELOS DE GESTÃO 26
2.3.1 Gestão Participativa
Para falar de gestão participativa é tempo ainda de expor mais detidamente o que é a participação, bem como suas características e elementos constitutivos.
Diz Bordenave (1987) que a palavra participação vem da palavra parte, e que é possível fazer parte sem tomar parte, sendo esta a diferença entre o cidadão inerte e o cidadão engajado, entre a participação passiva e a participação ativa, respectivamente. Mas Ammann (1978) afirma que falar em participação passiva empobrece o verdadeiro processo participativo, o qual sempre supõe contribuição, determinação e, sobretudo, ação.
Para a autora (AMMANN, 1978), participação implica em usufruir dos bens da sociedade, sendo a cidadania o mais fundamental desses bens. Não se trata pois do simples ato de receber algo e sim da tarefa dinâmica de reivindicação e construção, de modo que pelo trabalho se conquista o direito. Para Bordenave (1987, p. 16):
A participação é o caminho natural para o homem exprimir sua tendência inata de realizar, fazer coisas, afirmar-se a si mesmo e dominar a natureza e o mundo. Além disso, sua prática envolve a satisfação de outras práticas não menos básicas, tais como a interação com os demais homens, a auto- expressão, o desenvolvimento do pensamento reflexivo, o prazer de criar e recriar coisas, e, ainda, a valorização de si mesmo pelos outros. [...] Conclui- se que a participação tem duas bases complementares: uma base afetiva – participamos porque sentimos prazer em fazer coisas com outros – e uma base instrumental – participamos porque fazer coisas com outros é mais eficaz e eficiente que fazê-las sozinhos.
Por envolver tantas dimensões quantas as agora listadas, Ammann (1978) conceitua participação social não apenas a partir do usufruto, mas também levando em consideração a produção e gestão dos bens em uma sociedade. Conceito este que pode facilmente ser estendido à participação dos membros em uma organização.
Para que a participação aconteça efetivamente, carece de requisitos psicossociais do indivíduo, que, por relevância, Ammann (1978) indica-os como sendo a informação, a motivação e a educação para participar.
Quanto à informação, trata-se do fato de que não basta prover os indivíduos de mecanismos de voto, plebiscito, representação política ou propiciar sua incorporação a grupos e programas que mediatizem o usufruto de benefícios, pois frequentemente nem todos sabem
da existência de tais oportunidades. Implica dizer que "não basta à sociedade prover a existências de tais mecanismos, pois somente informada a população pode fazer julgamento claro" (AMMANN, 1978, p. 35). Sem comunicação não pode existir participação, é o que afirma Bordenave (1987, p. 68): "De fato, a intervenção das pessoas na tomada de decisões requer pelo menos dois processos comunicativos: o de informação e o de diálogo".
Faria (2009, p. 10) enumera seis situações possíveis para que haja comprometimento do indivíduo para com a organização, o que acontece quando ele:
(i) possui ligação afetiva com um grupo ou uma organização ou com os objetivos e as finalidades da ação;
(ii) concorda moral e eticamente com a ação em si ou com sua finalidade; (iii) irá beneficiar-se diretamente dos resultados da ação;
(iv) acredita que o grupo ou a organização são portadores de seus desejos ou ideais; (v) participa da definição e da realização dos objetivos da organização;
(vi) partilha dos objetivos da organização e/ou de seus projetos e participa de sua difusão.
Mas mesmo informado e devidamente motivado, o indivíduo pode ainda não estar educado para participar. Tal educação diz respeito ao padrão comportamental que nasce no homem através da prática participativa contínua, o que, segundo Ammann (1978), significa penetrar cada vez mais lucidamente nas inter-relações da realidade, ampliando a percepção crítica dos fatos e da natureza das relações sociais, e aumentando a convicção de que é possível transformá-las. A esse respeito, diz Bordenave (1987, p. 16):
O homem não nasce sabendo participar, trata-se de uma habilidade que se aprende e se aperfeiçoa. A dinâmica da participação, as forças que nela operam e modo que o fazem, devem ser compreendidas e dominadas.
Bordenave (1987) afirma ainda que a participação pode ter uma intenção e efeitos integradores, adaptadores e até transformadores, modificando as estruturas sociais e econômicas. E sua qualidade se eleva quando as pessoas aprendem a conhecer sua própria realidade e refletir sobre ela.
Mas, o fato é que os sistemas sociais modernos procuram educar para a participação utilizando o condicionamento ideológico das motivações dos sujeitos de acordo com os interesses de seus dirigentes (PARSONS apud AMMANN, 1978). Para Bordenave (1987), mesmo nesses casos há benefícios na prática, pois, quando a população participa, os serviços públicos tendem a melhorar em qualidade e oportunidade.
Para seguir adiante, é válido distinguir agora a macroparticipação, a participação macrossocial das pessoas intervindo nos processos dinâmicos que constituem ou modificam a
sociedade, da microparticipação, a que acontece nos grupos primários como a família e a vizinhança, e também nos grupos secundários, como associações profissionais e empresas (BORDENAVE, 1987). De acordo com Bordenave (1987), as duas formas são complementares e reforçam-se mutuamente, pois a microparticipação cumpre objetivos de elevada relevância função social, sendo fundamental numa democracia que se pretende participativa, onde o exercício e a educação para a participação se desenvolvem e ampliam, preparando para a macroparticipação. Nesta ordem de ideias,
a construção de uma sociedade participativa converte-se na utopia-força que dá sentido a todas as microparticipações. [...] Aos sistemas educativos, formais e não- formais, caberia desenvolver mentalidades participativas, pela prática constante da participação. (BORDENAVE, 1987, p.25).
Mas Bordenave (1987) chama atenção para o fato de que não se deve "sacralizar" a participação, pois ela não é panaceia universal, nem um enfoque participatório significa que todo mundo deve participar em tudo, o tempo todo. Participação não equivale a uma assembleia permanente, nem implica eliminar mecanismos de representação, sendo totalmente compatível com uma autoridade escolhida democraticamente. Para isto, é preciso apenas que uma demarcação rigorosa dos canais de participação.
Como foi apresentado no tópico anterior deste capítulo, nem toda organização propicia a participação social. Além disso, existem circunstâncias de diversos tipos que condicionam o grau, o nível e a qualidade da participação. Bordenave (1987, p. 43) afirma que: "Além dos condicionamentos impostos pela estrutura social geral, cada organização, formal ou informal cria um ambiente interno que pode ser favorável ou desfavorável à participação".
Segundo Bordenave (1987), para facilitar a participação deve existir, acima de tudo, um consenso ideológico, ou seja, alguns valores e crenças fundamentais devem ser aceitos por todos na organização, pois assim todos compartilham do objetivo comum a ela. O tipo democrático de liderança ou direção também são favoráveis à participação, ao contrário do tipo autocrático, oligárquico ou centralizado. Mas não só isso, às vezes, independentemente do tipo de liderança, a própria estrutura da organização influencia na participação. Pois quanto mais a organização cresce, mais difícil fica a participação de todos nas decisões, o que exige mecanismos de delegação e representação. Neste sentido, quando mais a organização seja flexível e descentralizada, com atribuições de funções e instituição de comitês, será mais natural o desenvolvimento da participação (BORDENAVE, 1987).
Bernstein (apud FARIA, 2009, p. 88) atribui uma responsabilidade considerável do processo de participação aos administradores, cujo comportamento é por ele definido como
"variável-chave no estímulo ou inibição de tal processo". Entretanto, para estudar as formas de gestão, devem ser levados em conta, tanto as ações dos administradores tanto quanto as dos trabalhadores. De outro modo, incorreria-se, inevitavelmente, em "uma concepção unilateral e ideológica." (FARIA, 2009, p. 89)
Na circunstância de falar da relação entre administradores e administrados, o estudo conduz agora a uma apreciação dos diferentes graus e níveis possíveis de participação, quanto ao controle e à importância das decisões tomadas em uma organização.