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4 Gest˜ ao Murilo Ferreira: Restri¸ c˜ oes Internas e o Fim do Boom de Commodities

5.1 Gest˜ ao operacional

5 Gest˜ ao Schvartsman & Bartolomeo: Privatiza¸ ao 100%

Ap´os a conclus˜ao do ciclo de investimentos em um contexto de contra¸c˜ao acentuada dos pre¸cos internacionais decommodities, Murilo Ferreira decidiu n˜ao renovar seu contrato com a Vale e, assim, a partir do segundo trimestre de 2017 Fabio Schvartsman, que j´a havia ocupado cargos de alto escal˜ao nas empresas Duratex, Ultra, Telemar e Klabin, foi eleito pelo Conselho de Administra¸c˜ao como novo diretor presidente da Vale (ECONOMATICA,2021b).

No in´ıcio de 2017, a Vale era a maior produtora mundial de min´erio de ferro e n´ıquel (VALE S.A.,2017d, p. 1). Quando assumiu a presidˆencia da diretoria executiva da Vale Schvartsman tinha quatro objetivos principais: (i) aumentar as margens no neg´ocio de min´erio de ferro, o core-business da Companhia; (ii) preservar a opcionalidade dos neg´ocios de n´ıquel e aumentar a produ¸c˜ao no segmento do cobre; (iii) alavancar as opera¸c˜oes de Moatize e do Corredor Log´ıstico nos neg´ocios do carv˜ao; (iv) e reduzir a d´ıvida l´ıquida da Companhia.

Para Schvartsman, os investimentos em n´ıquel da Vale nos ´ultimos anos n˜ao deram frutos porque foram baseados em expectativas de pre¸cos irreais. Por esse motivo, a Companhia passaria a utilizar uma estrat´egia que priorizava pre¸co em detrimento de volume (VALE S.A.,2017d, p.

2). Em pouco menos de um ano como diretor presidente, Schvartsman anunciou que o or¸camento de investimentos para 2018 seria de US$ 972 milh˜oes, o menor desde 2000 (Ver TabelasB.1.3 e B.3.3). O novo posicionamento da Companhia no segmento produtivo resultou em altera¸c˜oes significativas na antiga estrat´egia operacional.

Se durante a Gest˜ao Ferreira a esfera operacional recebeu maior aten¸c˜ao do que a esfera financeira, durante a Gest˜ao Schvartsman ocorreria o oposto. O novo acordo de acionistas de 2017 diminuiu a influˆencia do Governo Federal na Gest˜ao da Companhia, o que fez da Vale uma empresa sem controle definido, sujeita aos anseios dos mais diversos tipos de interesses. Al´em disso e, principalmente, a nova Pol´ıtica de Remunera¸c˜ao aos Acionistas (PRA) de 2018 ampliou a dicotomia existente entre distribui¸c˜ao de resultados e investimento produtivo. Por´em, antes de completar um ano, a PRA foi suspensa devido ao acidente em Brumadinho, em janeiro de 2019.

Foi nesse per´ıodo que Schvartsman foi afastado e o Conselho de Administra¸c˜ao elegeu Eduardo Bartolomeo como novo diretor presidente.

Ferreira. O segundo per´ıodo se d´a entre 2019 e 2021, ap´os o acidente em Brumadinho. Com o afastamento de Schvartsman e a suspens˜ao da PRA, a Vale inicia um per´ıodo de “reten¸c˜ao for¸cada”, onde ´e poss´ıvel vislumbrar algum esfor¸co relacionado ao desenvolvimento de novos projetos de investimento.

Outro fator que marca o per´ıodo entre 2017 e 2021 ´e a retomada dos pre¸cos internacionais das commodities minerais produzidas e comercializadas pela Companhia. Houve, tamb´em, a eclos˜ao de uma nova crise, a pandemia de COVID-19, al´em dos desdobramentos jur´ıdicos do evento Brumadinho.

Minerais ferrosos

A Gest˜ao Schvartsman tem in´ıcio durante o processo de rump-up do S11D, momento em que a produ¸c˜ao do Sistema Norte come¸ca a se consolidar como principal polo de extra¸c˜ao e beneficiamento de min´erio de ferro no Brasil. Por´em, para que o Sistema alcan¸casse sua capacidade plena, ainda restava a conclus˜ao do CLN S11D, o ´unico projeto em execu¸c˜ao da Vale no ano de 2017. O CLN S11D, com capex total de US$ 6,750 bilh˜oes, buscava ampliar a capacidade log´ıstica do Sistema Norte para transportar at´e 230 Mtpa de carga ´util por meio da duplica¸c˜ao de aproximadamente 570 km de ferrovias, constru¸c˜ao de ramal ferrovi´ario de 101 km, aquisi¸c˜ao de vag˜oes e locomotivas e a expans˜ao portu´aria do terminal mar´ıtimo de Ponta da Madeira (VALE S.A.,2017d, p. 74). Ao final de 2016, o ´ultimo ano da Gest˜ao Ferreira, o CLN S11D j´a contava com avan¸co f´ısico de 82,89% (VALE S.A.,2016c, p. 73).

O in´ıcio das opera¸c˜oes do S11D consolida um processo de diminui¸c˜ao dos investimentos da Vale nos Sistemas Sul e Sudeste, situados no estado de Minas Gerais e Esp´ırito Santo, em detrimento das potencialidades de expans˜ao no Sistema Norte. SegundoParkin(2016), d´ecadas de minera¸c˜ao intensiva deixaram o estado de Minas Gerais com dep´ositos esgotados, sendo cada vez mais caros e menos vi´aveis de se explorar, uma vez que o refino do min´erio de baixo teor produz grandes volumes de res´ıduos que podem ser perigosos para armazenar. Segundo o mesmo autor, ap´os o rompimento da barragem da Samarco no final de 2015, os reguladores come¸caram a dificultar a concess˜ao de licen¸cas de que a Vale precisava para ampliar suas opera¸c˜oes na regi˜ao.

Como resultado, a Vale passou a dar prioridade aos investimentos nas vastas e ainda parcialmente inexploradas reservas em Caraj´as, onde h´a maior concentra¸c˜ao de min´erio de ferro, o que acaba por gerar menor quantidade de res´ıduos, al´em de ser vi´avel de se operar a praticamente qualquer cen´ario de pre¸cos (ECONOMATICA, 2021b). Por esse motivo, a estrat´egia da Vale para o segmento do min´erio de ferro era fornecer as margens mais altas poss´ıveis por meio da expans˜ao de suas opera¸c˜oes no Sistema Norte, uma vez que este Sistema apresentava os menores custos de manuten¸c˜ao e melhores possibilidades de expans˜ao em investimentosbrownfields (VALE S.A., 2018c, p. 9). Nesse sentido, e levando em considera¸c˜ao as dificuldades para abrir novas lavras em Minas Gerais,Parkin (2016) argumenta que a expans˜ao do Sistema Norte se configurava como a

melhor op¸c˜ao para compensar o esgotamento das minas antigas que a Vale operava nos Sistemas Sul e Sudeste.

Por conta da paralisa¸c˜ao das opera¸c˜oes da Samarco e em virtude do aumento do pre¸co do min´erio de ferro, em 2018 a Vale retomou as opera¸c˜oes de pelotiza¸c˜ao nas usinas de S˜ao Lu´ıs e Tubar˜ao I e II, que estavam suspensas desde 2012 devido `a condi¸c˜oes de mercado (VALE S.A., 2018c, p. 13). Al´em disso, o Conselho de Administra¸c˜ao aprovou em setembro o projeto Gelado, cujo objetivo consistia em recuperar aproximadamente 10 Mpta de pellet-feed das barragens de rejeitos do Complexo Caraj´as, que seriam utilizadas para alimentar a f´abrica de pelotas de S˜ao Lu´ıs. O capex do projeto foi or¸cado em US$ 428 milh˜oes, com previs˜ao destart-up para o segundo semestre de 2021 (VALE S.A.,2018c, p. 75).

Ainda em 2018, houve a aquisi¸c˜ao de dois ativos importantes para a estrat´egia de produ¸c˜ao da Vale em Minas Gerais. Em 6 de dezembro, a Companhia adquiriu aFerrous Resources(Ferrous) pelo valor de US$ 550 milh˜oes, empresa que possu´ıa e operava minas de min´erio de ferro no entorno das opera¸c˜oes da Vale em Minas Gerais (VALE S.A., 2018c, p. 11). A aquisi¸c˜ao da Ferrous se configurou um ativo produtivo convencional.

Em 10 de dezembro, houve a aquisi¸c˜ao daNew Steel (New Steel) pelo valor de US$ 500 milh˜oes, empresa que desenvolvia tecnologias inovadoras de beneficiamento de min´erio de ferro atrav´es da Separa¸c˜ao Magn´etica Seca de Finos (Fines Dry Magnetic Separation - FDMS), com patentes da nova tecnologia em 56 pa´ıses. A New Steel era a solu¸c˜ao da Vale para desenvolver projetos em Minas Gerais sem a necessidade da utiliza¸c˜ao de barragens de rejeitos (VALE S.A., 2018c, p. 9).

Desde 2015, ap´os o rompimento da barragem de rejeitos da Samarco, a Companhia passou a enfrentar atrasos na obten¸c˜ao de licen¸cas ambientais, licen¸cas relacionadas `a constru¸c˜ao e manuten¸c˜ao de barragens de rejeitos e outras instala¸c˜oes correlatas. Nesse sentido, a Vale tinha ciˆencia de que autoridades brasileiras vinham impondo condi¸c˜oes mais rigorosas em conex˜ao com o processo de licenciamento de seus projetos e opera¸c˜oes. Ademais, como acionista da Samarco, a reputa¸c˜ao da Vale foi negativamente afetada pelo acidente ocorrido em Mariana no final de 2015 (VALE S.A.,2017d, p. 17).

Como mostra Hoyle (2019), ap´os o colapso da barragem de rejeitos Mount Polley, da Imperial Metals Corp. (Imperial Metals) em 2014, no Canad´a, auditores independentes recomendaram que grandes mineradoras deveriam adotar tecnologias para remover a ´agua antes de armazenar os res´ıduos. Tradicionalmente, as mineradoras armazenam os res´ıduos (combina¸c˜ao de lama, rochas e ´agua, conhecida como rejeitos) em grandes barragens situadas nas proximidades de suas minas. Dentre as maneiras mais comuns de construir tais barragens, se destacam as barragens `a montante, que consistem no empilhamento dos rejeitos como uma escada, onde os mesmos res´ıduos que deveriam ser contidos integram a estrutura de contens˜ao quando h´a um processo de alteamento. O desenho das barragens `a montante est´a entre os mais simples e baratos, mas tamb´em, ´e visto pelos especialistas como o mais propenso `a falhas (HOYLE, 2019).

Nesse sentido, mineradoras como BHP Billiton, Rio Tinto, Vale e Anglo American passaram a buscar por tecnologias que tornassem o armazenamento de res´ıduos menos perigoso. O principal objetivo era evitar a ocorrˆencia de liquefa¸c˜ao, processo no qual materiais aparentemente s´olidos passam a se comportar como composto l´ıquido. As tecnologias desenvolvidas pelas mineradoras inclu´ıam o empilhados de rejeitos em grandes montes secos; novos aditivos para engrossar os res´ıduos e torn´a-los mais est´aveis; e experimentos com ´ım˜as de alta potˆencia com capacidade de separar min´erio sem ´agua (ROSAS,2020).

Em entrevista concedia `a (HOYLE,2019), Lindsay Newland Bowker, gerente de risco ambiental no Maine e estudiosa dos acidentes com barragens em minera¸c˜ao, argumenta que o empilhamento “a seco” pode n˜ao ser uma solu¸c˜ao vi´avel, visto que as dificuldades t´ecnicas passam a ser significativas quando o teor de min´erio processado ´e baixo, como ´e o caso em Minas Gerais.

Para a especialista, o material seco pode apresentar satura¸c˜ao na presen¸ca de ´agua, vazar ou sofrer eros˜ao quando a manuten¸c˜ao n˜ao ´e adequada, o que Lindsay chama de “dry-stack myth”. Dessa forma, a busca por novas tecnologias com intuito de diminuir os riscos operacionais fazia parte da estrat´egia das grandes mineradoras, mas resultados concretos ainda n˜ao estavam dispon´ıveis.

O objetivo da Vale com a aquisi¸c˜ao da New Steel era contornar os obst´aculos impostos por regula¸c˜oes ap´os o acidente em Mariana. No mesmo per´ıodo, a retomada dos pre¸cos internacionais do min´erio de ferro promoveu a melhora dos indicadores de rentabilidade, o que favorecia um ambiente de otimismo com rela¸c˜ao ao desenvolvimento de novas formas de explora¸c˜ao.

A Vale finalizou o ano de 2018 com recordes na produ¸c˜ao de min´erio de ferro e pelotas, com gera¸c˜ao de receita bruta advinda dessas duas atividades da ordem de US$ 27 bilh˜oes, a maior desde 2013 (VALE S.A.,2018a). Com isso, as expectativas eram otimistas para o ano de 2019. No entanto, em 25 de janeiro ocorreu o rompimento da Barragem I da mina de C´orrego do Feij˜ao, localizada no munic´ıpio de Brumadinho no estado de Minas Gerais. O fluxo de rejeitos atingiu a ´area administrativa da mina de C´orrego do Feij˜ao, parte das comunidades de C´orrego do Feij˜ao e Parque da Cachoeira, chegando ao rio Paraopeba. O rompimento da Barragem resultou em aproximadamente 300 mortes, causando tamb´em, danos extensos `a propriedade e ao meio ambiente no entorno da regi˜ao atingida (VALE S.A.,2018c, p. 1).

A ocorrˆencia do evento alterou a estrat´egia operacional da Vale para o segmento do min´erio de ferro. Ainda em janeiro de 2019, em virtude de novas regula¸c˜oes, a Companhia decidiu acelerar seu plano para descomissionar1 barragens de rejeitos constru´ıdas usando o m´etodo `a montante.

Com o objetivo de reduzir sua dependˆencia em rela¸c˜ao `a utiliza¸c˜ao de barragens, a Companhia passou a dar maior ˆenfase ao desenvolvimento de um projeto piloto para aplicar a tecnologia da New Steel de descarte de res´ıduos por meio de filtragem e empilhamento de rejeitos, parcialmente, ou totalmente secos (VALE S.A., 2018c, p. 9). Em dezembro de 2020 o Conselho de Administra¸c˜ao aprovou a implanta¸c˜ao do Projeto NS-04, or¸cado em US$ 125 milh˜oes, que ser´a o primeiro concentrador magn´etico a seco de finos em escala industrial do mundo, com capacidade

1 “Descomissionamento” ou “descaracteriza¸c˜ao” significa reintegrar a barragem e seu conte´udo no ambiente local, de modo que a estrutura n˜ao seja mais uma barragem.

inicial de 1,5 Mtpa e comstart-upprevisto para o segundo semestre de 2022 (VALE S.A., 2020c, p. 91).

Como consequˆencia do rompimento, houve a suspens˜ao, volunt´aria ou como resultado da revoga¸c˜ao de licen¸cas ou ordens judiciais, de v´arias opera¸c˜oes da Vale. No Sistema Sul, houve a suspens˜ao das opera¸c˜oes no local do evento, C´orrego do Feij˜ao, incluindo a mina de Jangada, por determina¸c˜ao da autoridade ambiental do Estado de Minas Gerais (SEMAD). Tamb´em no Sistema Sul, em fevereiro houve a suspens˜ao, por determina¸c˜ao da Agˆencia Nacional de Minera¸c˜ao (ANM), das opera¸c˜oes em todos os complexos de Vargem Grande e F´abrica, incluindo as usinas de pelotiza¸c˜ao. A Vale estimou que o impacto da paralisa¸c˜ao dessas opera¸c˜oes acarretaria na redu¸c˜ao de aproximadamente 40 Mtpa de min´erio de ferro, j´a incluso opellet-feed necess´ario para a produ¸c˜ao de 11 Mtpa de pelotas (VALE S.A.,2018c, p. 4). No Sistema Sudeste houve a suspens˜ao das opera¸c˜oes nas minas de Timbopeba e Alegria e, em 4 de fevereiro, uma liminar suspendeu as opera¸c˜oes em Brucutu, a maior unidade de extra¸c˜ao de min´erio de ferro da Vale em Minas Gerais. Por´em, em abril, o Tribunal de Justi¸ca do Estado de Minas Gerais reverteu parcialmente a liminar.

Em suas estimativas, a Companhia informou que o impacto da suspens˜ao das opera¸c˜oes resultou em redu¸c˜ao de aproximadamente 30 Mpta de min´erio de ferro para a mina de Brucutu, 12,8 Mtpa min´erio de ferro para a mina de Timbopeba e 10 Mtpa de min´erio de ferro para a mina de Alegria. Em conjunto, o impacto das paralisa¸c˜oes sobre sua produ¸c˜ao seria de aproximadamente 92 Mtpa de min´erio de ferro no ano de 2019, uma redu¸c˜ao esperada da ordem de 25% em rela¸c˜ao ao volume produzido em 2018 (366 Mtpa de min´erio de ferro e pelotas) (VALE S.A.,2018c, p.

18).

No entanto, ao comparar a produ¸c˜ao dos Sistemas Sul e Sudeste entre 2018 e 2019, houve redu¸c˜ao de 31,3 Mtpa no Sistema Sudeste e 46,4 Mtpa no Sistema Sul. Isto ´e, a produ¸c˜ao de min´erio de ferro da Vale em Minas Gerais registrou redu¸c˜ao l´ıquida 77,7 Mtpa em 2019 quando comparada a produ¸c˜ao de 2018, uma contra¸c˜ao de 41,2% em Minas Gerais. No mesmo per´ıodo, o Sistema Norte tamb´em apresentou redu¸c˜ao, sendo influenciado pela diminui¸c˜ao da produ¸c˜ao em Serra Norte, como pode ser observado na Tabela5.1.1.

Por conta do rompimento, autoridades governamentais se movimentaram no sentido de propor novas regulamenta¸c˜oes, ou alterar as j´a existentes, no que diz respeito ao licenciamento, utiliza¸c˜ao, bem como a opera¸c˜ao de barragens. Em Minas Gerais, um novo estatuto foi aprovado em fevereiro de 2019, proibindo o aumento, modifica¸c˜ao ou constru¸c˜ao de qualquer barragem a montante, al´em de prever o descomissionamento total de todas as barragens de rejeitos a montante at´e fevereiro de 2022 (VALE S.A.,2018c, p. 4). Tamb´em em fevereiro, a ANM exigiu, por meio de uma nova resolu¸c˜ao, que as empresas propriet´arias de barragens de rejeitos `a montante apresentassem projeto de descomissionamento at´e agosto de 2019, e que o processo de descomissionamento fosse totalmente conclu´ıdo at´e agosto de 2021 (VALE S.A.,2018c, p. 19).

Nesse cen´ario, a Vale informou que, como resultado de novas regulamenta¸c˜oes, esperava que o processo de licenciamento de suas opera¸c˜oes poderia se tornar mais demorado e incerto,

Tabela 5.1.1 – Produ¸c˜ao de min´erio de ferro por Complexo e Sistema - Milh˜oes de toneladas m´etricas

2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019 2020

Sistema Sudeste 115,6 109,4 111,9 113,0 102,7 108,5 104,4 73,1 57,3

Itabira 37,7 34 38,8 35,6 33,4 37,8 41,7 35,9 23,9

Minas Centrais 40,7 37,8 33,7 41,3 40,9 37,6 36 25,9 15,7

Mariana 37,2 37,6 39,4 36,1 28,4 33,1 26,7 11,3 17,7

Sistema Sul 86,2 84,0 97,2 98,8 95,7 86,4 84,2 37,8 48,4

Minas Itabirito1 31,8 31 41 41,4 40,1 36,8 35,5 -

-Vargem Grande 31,8 31 25 29,3 29,2 23,3 21,4 13,1 25,1

Paraopeba 22,6 22 31,2 28,1 26,4 26,3 27,3 24,7 23,3

Sistema Norte 106,8 104,9 119,7 129,6 148,2 169,2 193,6 188,7 192,3

Serra Norte 106,8 104,9 117,5 127,6 143,6 142,7 131,5 115,3 109,4

Serra Leste - - 2,2 2 4,2 4,3 4,1 -

-Serra Sul - - - - -,4 22,2 58 73,4 82,9

Sistema Centro-Oeste 6,4 6,5 5,9 4,5 2,3 2,4 2,5 2,4 2,5

Corumb´a 4,6 4,5 3,8 2,8 1,9 2,4 2,5 2,4 2,5

Urucum 1,8 2 2,1 1,7 -,4 - -

-Vale 315,0 304,8 334,7 345,9 348,9 366,5 384,7 302,0 300,5

Samarco2 10,9 10,9 13,1 12,7 - - - -

-Total 325,9 315,7 347,8 358,6 348,9 366,5 384,6 302,0 300,4 Fonte: elabora¸c˜ao pr´opria a partir dos relat´orios da Vale.

Notas:

1. Em 2019 o Complexo Minas Itabirito foi incorporado ao Complexo Vargem Grande;

2. Os dados de produ¸c˜ao para a Samarco foram ajustados para refletir a participa¸c˜ao acion´aria da Vale de 50%.

que seus custos de monitoramento e adequa¸c˜ao deveriam aumentar, e que as novas determina¸c˜oes poderiam se configurar em restri¸c˜oes `as suas opera¸c˜oes, al´em de exigir investimentos adicionais, ou, at´e mesmo, impor a suspens˜ao de suas opera¸c˜oes (VALE S.A.,2019d, p. 9).

Foi nesse contexto que a Vale anunciou que estaria investindo US$ 770 milh˜oes para expandir a capacidade de produ¸c˜ao e log´ıstica no Sistema Norte. O Projeto Sistema Norte 240 Mtpa teve in´ıcio no primeiro trimestre de 2019, e consistia na substitui¸c˜ao de britadores, melhorias no p´atio de homogeneiza¸c˜ao, constru¸c˜ao de novo p´atio para armazenagem de produto final e expans˜ao do sistema de carregamento ferrovi´ario (VALE S.A., 2019b, p. 13). Com isso, ao final de 2019 a Vale estava desenvolvendo trˆes projetos no segmento do min´erio de ferro (CLN S11D, Gelado e Sistema Norte 240 Mtpa), todos situados no Sistema Norte, e somados, contavam com capex total de US$ 8,879 bilh˜oes (VALE S.A.,2019d, p. 86).

Em virtude da dificuldade de desenvolver projetos em Minas Gerais, a op¸c˜ao da Vale foi tentar expandir sua produ¸c˜ao no Sistema Norte. Por´em, em 2020, devido `a pandemia de COVID-19, os projetos Sistema Norte 240 Mtpa e CLN S11D foram suspensos em abril, mas, a previs˜ao destart-uppara ambos n˜ao foi alterada (VALE S.A.,2020a, p. 14).

Por fim, em agosto de 2020 o Conselho de Administra¸c˜ao aprovou o projeto Serra Sul 120 Mtpa, cujo objetivo era aumentar a capacidade da mina e usina do S11D em 20 Mtpa. Em Minas Gerais, foi anunciado em dezembro de 2020 os projetos Capanema e New Steel (NS04), em que o primeiro tinha o objetivo de retomar a produ¸c˜ao na mina de Capanema e adquirir novos equipamentos para as instala¸c˜oes. J´a o NS04, localizado no munic´ıpio de Nova Lima, no Complexo Vargem Grande, seria o primeiro concentrador magn´etico a seco de finos em grande escala, se constituindo na tentativa da Vale em desenvolver uma nova tecnologia para continuar

Tabela 5.1.2 – Principais projetos em execu¸c˜ao em 2020 (bilh˜oes de US$)

Area de Neg´ocios´ Projetos Segmento Start-up Capex

Min´erio de Ferro CLN S11D Aumento da capacidade de log´ıstica do Sistema Norte 2H19 7,283

N´ıquel VBME Expans˜ao das minas subterrˆaneas de Voisey’s Bay 1H21 1,694

Min´erio de Ferro Gelado Recupera¸c˜ao de 10 Mpta de pellet feed das barragens de

rejeitos em Caraj´as 1H22 428

Cobre Salobo III Expans˜ao das opera¸c˜oes em Salobo. 1H22 816

Min´erio de Ferro Sistema Norte 240 Expans˜ao da capacidade de produ¸c˜ao e log´ıstica de finos

de min´erio de ferro no Sistema Norte 2H22 772

Min´erio de Ferro Serra Sul 120 Expandir a capacidade do S11D para 120 Mtpa 1H24 1,502 Min´erio de Ferro Capanema Retomar instala¸c˜oes e aquisi¸c˜ao de novos equipamentos

na mina de Capanema 2H23 495

Min´erio de Ferro New Steel (NS-04) Constru¸c˜ao de concentrador magn´etico a seco de finos 2H22 125 Fonte: elabora¸c˜ao pr´opria a partir deVale S.A.(2020c, p. 90)

explorando seus ativos nos Sistemas Sul e Sudeste. A Tabela 5.1.2 apresenta o capex total e Start-up esperado para os projetos que estavam em execu¸c˜ao no final de 2020.

Como fica evidente, ap´os a conclus˜ao do ambicioso plano de investimentos executado entre 2011 e 2016, os novos projetos da Companhia tinham por objetivo se constitu´ıam em bownfields, situados nas adjacˆencias dos projetos principais.

Carv˜ao

Ap´os os desinvestimentos no segmento do carv˜ao da Gest˜ao Ferreira, as opera¸c˜oes de carv˜ao da Vale passaram a ser realizadas de forma direta exclusivamente em Mo¸cambique, atrav´es da Vale Mo¸cambique S.A., onde as opera¸c˜oes de carv˜ao metal´urgico e t´ermico se encontravam em processo deramp-up. Al´em disso, desde 1999, a Vale detinha participa¸c˜ao minorit´aria em opera¸c˜oes de carv˜ao na China (VALE S.A.,2017d, p. 2). A estrat´egia da Gest˜ao Schvartsman para os neg´ocios com carv˜ao consistia em manter a parceria estrat´egica com a Mitsui `a medida que esperava uma redu¸c˜ao dos custos com o in´ıcio das opera¸c˜oes de uma nova usina de processamento e manejo de carv˜ao (CHPP) erump-up do Corredor Log´ıstico de Nacala (CLN) em Mo¸cambique e no Malawi (VALE S.A.,2017d, p. 5).

Como visto anteriormente, o desenvolvimento do Corredor Log´ıstico Nacala ocorreu no per´ıodo de baixa dos pre¸cos internacionais das principaiscommoditiesproduzidas e comercializadas pela Vale. O financiamento do projeto se mostrou mais complicado do que a Companhia esperava, sendo somente em novembro de 2017 que foi assinado oProject Financepara o Corredor Log´ıstico de Nacala, pelo qual a Vale recebeu US$ 2,730 bilh˜oes (PAUL, 2016;VALE S.A., 2017d, p. 7). Os recursos foram disponibilizados da seguinte forma: (i) US$ 1,030 bilh˜ao de empr´estimo oferecido peloJapan Bank for International Cooperation (JBIC); (ii) US$ 1,000 bilh˜ao de empr´estimo, com seguro oferecido peloNippon Export and Investment Insurance (NEXI);2 (iii) US$ 400 milh˜oes de

2 Das seguintes institui¸c˜oes: Sumitomo Mitsui Banking Corporation; The Bank of Tokyo Mitsubishi UFJ Ltd;

Mizuho Bank Limited; Sumitomo Mitsui Trust Bank Limited; Nippon Life Insurance Company e Standard Chartered Bank.

empr´estimo, com seguro oferecido peloExport Credit Insurance of South Africa Limited (ECIC);3 e (iv) US$ 300 milh˜oes de empr´estimo oferecidos peloAfrican Development Bank (AfDB). A Companhia utilizou os fundos recebidos para saldar parte dos empr´estimos contra´ıdos na forma de shareholders loans, que foram concedidos para a constru¸c˜ao do CLN (ECONOMATICA, 2021b). A estrat´egia era consistente com o objetivo de reduzir a d´ıvida da Vale ao mesmo tempo em que fortalecia sua posi¸c˜ao de caixa (VALE S.A.,2018c, p. 11).

Em 2018, a Vale vendeu seus projetos de carv˜ao na Austr´alia. Na ocasi˜ao, foi conclu´ıda a venda da participa¸c˜ao de 50% no projeto deEagle Downs(incluindo todos os direitos e obriga¸c˜oes associados), para aBS Coal Pty Ltd (BS Coal) pelo valor total de: (i) US$ 90 milh˜oes em recursos

`a vista, (ii) US$ 27 milh˜oes ao completar trˆes anos do neg´ocio e (iii) pagamento deroyalties em mais de 50% sobre o carv˜ao produzido em Eagle Downs(VALE S.A., 2018c, p. 11). Como parte do programa de simplifica¸c˜ao de seu portf´olio, em dezembro de 2019, vendeu sua participa¸c˜ao minorit´aria na usina de pelotiza¸c˜ao Zhuhai e na mina de carv˜ao Henan Longyu, na China, pelo valor total de US$ 196 milh˜oes (VALE S.A.,2019d, p. 18). Com isso, os ativos de carv˜ao da Vale passaram ser operados de forma exclusiva em Moatize (VALE S.A.,2019d, p. 68).

Ap´os todo o trabalho e esfor¸co para desenvolver os ativos de carv˜ao na ´Africa, a Vale anunciou no in´ıcio de 2021 que estaria se retirando dos neg´ocios do carv˜ao. Mas antes disso, teve que estruturar a sa´ıda da Mitsui da mina de Moatize e daNacala Logistics Corridor (NLC) (ECONOMATICA,2021b). Em abril de 2021 a sa´ıda da Mitsui foi conclu´ıda e em junho a Vale informou sobre o pagamento antecipado doProject Finance do Corredor Log´ıstico de Nacala (VALE S.A.,2021a).

Por fim, em dezembro de 2021 a Vale acordou a venda de seus ativos de carv˜ao na ´Africa com aVulcan Minerals (Vulcan), uma empresa doJindal Group(Jindal Group), que j´a mantinha atua¸c˜ao em Mo¸cambique. Com essa transa¸c˜ao, a Vale se desfez de suas participa¸c˜oes na mina de carv˜ao de Moatize e no Corredor Log´ıstico Nacala (CLN) pelo valor total de US$ 270 milh˜oes, sendo US$ 80 milh˜oes no ato da venda, e US$ 190 milh˜oes como pagamento inicial de um fluxo de pagamento deroyalties com prazo de 10 anos, condicionados `a produtividade da mina de Moatize e ao pre¸co de venda do carv˜ao. Com isso, a Vale encerra seus neg´ocios no segmento do carv˜ao, iniciados em 1999 durante a Gest˜ao Dauster (PIMENTA,2021a).

N´ıquel

Assim que Schvartsman assumiu a presidˆencia da Vale a estrat´egia para o segmento do n´ıquel foi modificada. SegundoPaul(2017), Schvartsman disse que os investimentos em n´ıquel da Companhia nos ´ultimos anos se basearam em expectativas de pre¸cos irreais e, a partir de sua gest˜ao, cada unidade de produ¸c˜ao de n´ıquel deveria ser economicamente vi´avel mesmo com

3 Das seguintes institui¸c˜oes: ABSA Bank Limited; Investec Bank Limited; Rand Merchant Bank e The Standard Bank of South Africa Limited.

os pre¸cos internacionais do n´ıquel sendo mantidos em patamares menores. A estrat´egia da Vale para o segmento consistia em “preservar a opcionalidade dos neg´ocios de n´ıquel”, passando a priorizar valor em rela¸c˜ao ao volume (VALE S.A.,2017d, p. 7).

A partir do segundo trimestre de 2017 a Companhia realizou a otimiza¸c˜ao de suas opera¸c˜oes com o n´ıquel no Canad´a. Em setembro, houve a convers˜ao de dois fornos em Sudbury em um ´unico, cujo objetivo era aumentar a propor¸c˜ao da produ¸c˜ao de cobre em concentrado, e maximizar a capacidade de fundi¸c˜ao de n´ıquel. Em Thompson, a Companhia optou pela desativa¸c˜ao permanente dos fornos de fundi¸c˜ao, e passou a enviar a maior parte do feed extra´ıdo em Thompson para ser refinado em Long Harbour e Sudbury (VALE S.A.,2017d, p. 17). No final de 2017 a Companhia anunciou que estava interessada em vender, ou aceitar propostas de parceria, por sua participa¸c˜ao na mina de n´ıquel da Vale Nova Caledˆonia (VNC) (ECONOMATICA, 2021b).

Com essas altera¸c˜oes, ao comparar a produ¸c˜ao de n´ıquel nas opera¸c˜oes do Canad´a entre 2016 (´ultimo ano da Gest˜ao Ferreira) e 2018, houve contra¸c˜ao da produ¸c˜ao em Sudbury, Thompson e Voisey’s Bay da ordem de 37,06%, 44,15% e 21,22%, respectivamente. Em conjunto a produ¸c˜ao de n´ıquel no Canad´a foi reduzida em 33,29% (VALE S.A.,2018c, p. 49).

Em 2019 ocorreram modifica¸c˜oes significativas nos neg´ocios de n´ıquel. Primeiro, a Com-panhia concordou em vender parte de seus ativos na PT Vale Indon´esia (PTVI) `a Inalum, pelo valor de US$ 278 milh˜oes, e o neg´ocio foi efetivado em 2020 (VALE S.A.,2020c, p. 9). Segundo, anunciou nova estrat´egia dehedgepara os pre¸cos do n´ıquel, na inten¸c˜ao de garantir a estabilidade do fluxo de caixa em per´ıodos de incerteza (VALE S.A., 2019d, p. 16). Terceiro, anunciou possibilidade de expans˜ao em novos investimentos na Indon´esia por meio dejoint-ventures em Sorowako, Bahodopi e Pomalaa (PIRES, 2019). Quarto, por conta do rompimento da Barragem I em Brumadinho, houve paralisa¸c˜ao das opera¸c˜oes em On¸ca Puma por determina¸c˜ao judicial em junho de 2019. Ap´os decis˜ao do STF, as opera¸c˜oes foram retomadas em setembro do mesmo ano (VALE S.A.,2019d, p. 19).

Em 2020 a Vale teve que adiar o in´ıcio das opera¸c˜oes em dois projetos de reposi¸c˜ao no Canad´a por conta da pandemia de COVID-19. Os projetos de extens˜aobrownfield das minas de Voisey’s Bay (VBME) e Copper Cliff (CCM) foram entregues no final de 2021 (VALE S.A.,2021e, p. 23). A Companhia deixou em aberto a possibilidade de expandir as opera¸c˜oes em On¸ca Puma no Brasil e a op¸c˜ao de desenvolver, por meio de parcerias emjoint-ventures, os projetos Pomalaa e Bahodopi, na Indon´esia (VALE S.A.,2021e, p. 27). A Tabela 5.1.3apresenta a produ¸c˜ao de n´ıquel da Vale entre 2012 e 2020, onde ´e poss´ıvel observar redu¸c˜ao significativa da produ¸c˜ao a partir de 2017, com o in´ıcio da Gest˜ao Schvartsman.

Entre 2016 e 2020 a produ¸c˜ao de n´ıquel foi reduzida de 311 Ktpa em 2016 para menos de 215 Ktpa em 2020, registrando redu¸c˜ao de aproximadamente 32%. No entanto, a receita bruta das vendas de n´ıquel apresentou expans˜ao de 5,72% no mesmo per´ıodo (VALE S.A.,2016c; VALE S.A., 2020c). Evidentemente, a melhora do resultado foi alcan¸cada por conta da recupera¸c˜ao dos pre¸cos m´edios do n´ıquel no mercado internacional. Em janeiro de 2016 a tonelada m´etrica do

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