4 Gest˜ ao Murilo Ferreira: Restri¸ c˜ oes Internas e o Fim do Boom de Commodities
4.2 Gest˜ ao Operacional
O principal objetivo da Gest˜ao Ferreira era concluir o amplo programa de investimentos idealizado durante a Gest˜ao Agnelli II. Desde 2006 a d´ıvida bruta da Companhia havia ultrapas-sado os US$ 20 bilh˜oes, e, em 2011, havia alcan¸cado US$ 25 bilh˜oes. Dessa forma, a expans˜ao dos investimentos por meio de endividamento era considerada arriscada (KINCH, 2011). De certa forma, o que restava `a Companhia era a expectativa de que os pre¸cos internacionais de
2 Conforme as condi¸c˜oes estabelecidas pela Lei 12.865/2013, de 9/10/2013, e pela Medida Provis´oria 627 (MP 627), de 11/11/2013.
suas principaiscommodities retornassem `as altas hist´oricas e, assim, financiar seu programa de investimentos com a gera¸c˜ao de caixa operacional.
Entretanto, o mercado decommoditiestomou dire¸c˜ao contr´aria. O per´ıodo compreendido entre 2012 e 2015 foi definido pela fraca gera¸c˜ao de caixa operacional, registro de baixa no valor de ativos fixos (impairment), ocorrˆencia de eventos n˜ao recorrentes (REFIS) e, posteriormente, pelo acidente com uma barragem de rejeitos de uma de suas subsidi´arias, a Samarco, no munic´ıpio mineiro de Mariana. Todos esses eventos ocorreram concomitantemente ao desenvolvimento do programa de investimentos. As consequˆencias foram: a expans˜ao do endividamento, a venda de ativosnon-core-business e a diminui¸c˜ao do escopo dos projetos desenvolvidos.
Minerais ferrosos
Em 2012, no primeiro ano da Gest˜ao Ferreira, a Vale estava desenvolvendo uma s´erie de projetos no segmento do min´erio de ferro. Desde o in´ıcio de sua gest˜ao ´e poss´ıvel observar maior disposi¸c˜ao para concluir os projetos no segmento do min´erio de ferro. Os Sistemas Sul e Sudeste estavam passando por processo de adapta¸c˜ao em v´arias plantas de processamento, como era o caso dos projetos Concei¸c˜ao Itabiritos, Vargem Grande Itabiritos, Concei¸c˜ao Itabiritos II e Cauˆe Itabiritos. No Sistema Norte, al´em dos projetos de constru¸c˜ao e adapta¸c˜ao dos sistemas de processamento (Serra Leste e Caraj´as Adicional 40 Mtpa), a Vale estava desenvolvendo o maior projeto de sua hist´oria, o S11D.
O desenvolvimento do S11D, e a pr´opria expans˜ao da capacidade das minas da Serra Norte, estavam sendo condicionados `a obten¸c˜ao de licen¸cas ambientais. Em junho de 2012, a Companhia recebeu Licen¸ca Pr´evia (LP) para dar prosseguimento `a primeira fase do empreendimento, sendo comprovada sua viabilidade ambiental (VALE S.A., 2012c, p. 13). As dimens˜oes do S11D se constitu´ıam na principal alavancada de crescimento da capacidade produtiva da Vale durante a Gest˜ao Ferreira, o que tamb´em assegurou a lideran¸ca da Companhia no mercado global em termos de volume e qualidade do min´erio produzido (VALE S.A.,2012e).
Ap´os a obten¸c˜ao da licen¸ca ambiental, a Vale revisou o or¸camento do projeto de US$ 11,297 bilh˜oes, para US$ 8,039 bilh˜oes, incluindo o desenvolvimento da mina e da usina de processamento.
A capacidade nominal do S11D era projetada para 90 Mtpa de min´erio de ferro com teor m´edio do min´erio da ordem de 66,48%, com entrada em opera¸c˜ao prevista para o segundo semestre de 2016. Al´em do pr´oprio desenvolvimento da unidade de extra¸c˜ao e processamento, o S11D seria acompanhado por investimentos em infraestrutura de log´ıstica que exigiriam aproximadamente US$ 11,4 bilh˜oes para expandir a capacidade de transporte da Estrada de Ferro Caraj´as (EFC) e da capacidade de embarque do Terminal Mar´ıtimo de Ponta da Madeira (VALE S.A.,2012e, p.
74). O objetivo da Vale era expandir a capacidade do Sistema Norte para produzir, transportar e embarcar at´e 230 Mtpa de min´erio de ferro (VALE S.A., 2012c). A t´ıtulo de ilustra¸c˜ao, o
Sistema Norte atingiu produ¸c˜ao de 90 Mtpa em 2007, 22 anos ap´os o in´ıcio de suas opera¸c˜oes (COMPANHIA VALE DO RIO DOCE,2007).
Como um projeto greenfield de grandes propor¸c˜oes, o S11D exigiu investimento por tonelada m´etrica de US$ 216, que consistia, principalmente, na necessidade de fazer investimentos de porte consider´avel nas atividades de suporte, como as expans˜oes na EFC e no Terminal de Ponta da Madeira (VALE S.A.,2012c, p. 13). Contudo, em 2012 a Companhia ainda carecia da Licen¸ca de Instala¸c˜ao (LI) para viabilizar o in´ıcio das obras de constru¸c˜ao da usina (VALE S.A., 2012b, p. 16).
Diferentemente do que ocorreu durante a Gest˜ao Agnelli, a Gest˜ao Murilo deu maior ˆenfase aos projetos relacionados ao segmento de minerais ferrosos, o que poderia configurar um certo padr˜ao de especializa¸c˜ao em seu core-business. No entanto, a estrat´egia de retirada da cadeia do alum´ınio e entrada no segmento dos fertilizantes configura um padr˜ao de diversifica¸c˜ao que, de alguma maneira, pode ser comparado ao movimento observado durante a Gest˜ao Dauster, quando a Companhia se retirou do segmento de papel e celulose e intensificou suas opera¸c˜oes na cadeia do alum´ınio.
As potencialidades de expans˜ao da capacidade de produ¸c˜ao de min´erio de ferro da Companhia envolviam o desenvolvimento de projetos em variados sistemas. Em sua tentativa de expandir a produ¸c˜ao de min´erio de ferro fora do Brasil, o projeto mais importante estava sendo desenvolvido na Guin´e, que envolvia a constru¸c˜ao da mina de Zogota, com capacidade de 15 Mtpa de min´erio de ferro, e de uma planta de processamento em Simandou. Em 2011, o projeto se encontrava em est´agio inicial de desenvolvimento, com expectativa de entrada em opera¸c˜ao no in´ıcio de 2013 (VALE S.A.,2011e, p. 69).
Contudo, em 2012 o governo da Guin´e criou uma comiss˜ao especial para avaliar poss´ıveis irregularidades nos processos de concess˜ao e explora¸c˜ao detidas pelajoint-ventureformada entre a Vale e BSGR, aVBG—Vale BSGR Limited. Em 2010 a Vale adquiriu participa¸c˜ao de 51%
na VBG por US$ 2,5 bilh˜oes, sendo U$ 500 milh˜oes a vista e o restante `a medida em que metas pr´e-definidas fossem sendo atingidas (VALE S.A.,2012e, p. 146). Diante das suspeitas de irregularidade, a Vale decidiu suspender a execu¸c˜ao do projeto Simandou. Em dezembro de 2013, o valor cont´abil dos investimentos da Vale na Guin´e, totalizavam US$ 1,1 bilh˜ao. A revoga¸c˜ao da concess˜ao era um risco que poderia afetar negativamente o valor dos investimento da Companhia no segmento do min´erio de ferro na ´Africa, impedindo a diversifica¸c˜ao do min´erio de ferro para fora do Brasil (VALE S.A.,2013d, p. 85).
Ainda, em 2013, no Sistema Sudeste, a Companhia concluiu o projeto Concei¸c˜ao Itabiritos, com capex total de US$ 1,174 bilh˜ao. A constru¸c˜ao da nova usina de concentra¸c˜ao adicionou 12 Mtpa depellet-feed `a capacidade nominal do Sistema (VALE S.A., 2013d, p. 20). Enquanto isso, no Sistema Norte a Vale concluiu parte do projeto Caraj´as CLN 150 Mtpa, e conclui integralmente o projeto Caraj´a Planta 2, anteriormente conhecido como Caraj´as Adicional 40 Mtpa. O capex total de Caraj´as Planta 2 foi de US$ 3,475 bilh˜oes, adicionando 40 Mtpa de min´erio de ferro a capacidade nominal do Sistema Norte. Em rela¸c˜ao ao projeto Caraj´as 150 Mtpa, sua conclus˜ao
parcial, que custou US$ 3,931 bilh˜oes, resultou no aumento da capacidade ferrovi´aria da EFC em 128 Mtpa, al´em da constru¸c˜ao de um quarto p´ıer no terminal mar´ıtimo de Ponta da Madeira, elevando a capacidade de embarque do terminal para 150 Mtpa (VALE S.A.,2013d, p. 75).
J´a em 2014 a Companhia conseguiu concluir uma s´erie de projetos no segmento do min´erio de ferro e log´ıstica de apoio. No primeiro trimestre, o projeto Serra Leste foi conclu´ıdo, adicionando 6 Mtpa de sinter feed ao Sistema Norte com a constru¸c˜ao de uma nova planta de processamento localizada em Caraj´as (VALE S.A.,2013d, p. 76). O capex total no projeto green-field foi de US$ 478 milh˜oes (VALE S.A.,2014c, p. 79).
No Sistema Sul, o projeto Vargem Grande Itabiritos foi conclu´ıdo no segundo semestre (VALE S.A.,2014c, p. 25). A constru¸c˜ao da nova usina de beneficiamento custou `a Vale US$
1,910 bilh˜ao, adicionando capacidade nominal de 10 Mtpa depellet-feed ao Complexo das minas de Itabirito, em Minas Gerais (VALE S.A.,2013d, p. 76). Al´em das duas usinas de processamento e beneficiamento, tamb´em houve a conclus˜ao da oitava usina de pelotiza¸c˜ao no complexo do Porto de Tubar˜ao (ES) (VALE S.A., 2014c, p. 25). Tubar˜ao VIII, um projetobrownfield, contou com capex total de US$ 1,321 bilh˜ao, e adicionou 7 Mtpa de pelotas `a capacidade nominal de produ¸c˜ao da Vale (VALE S.A.,2014c, p. 79).
Por fim, em 2014 tamb´em foi conclu´ıdo o Centro de Distribui¸c˜ao de Teluk Rubiah, na Mal´asia (VALE S.A.,2014c, p. 24). A conclus˜ao deste projeto fazia parte de uma intricada rede de log´ıstica desenhada ainda durante a Gest˜ao Agnelli (VALE S.A.,2011e, p. 25). O terminal de Teluk Rubiah foi constru´ıdo com a profundidade necess´aria para receber os maiores navios graneleiros do mundo (Valemax, com 400 mil dwt) e contava com p´atio de estocagem com capacidade para at´e 3 Mtpa. Dessa forma, ao considerar a movimenta¸c˜ao durante um ano fiscal, o centro de distribui¸c˜ao contava com capacidade para movimentar 30 Mtpa de produtos de min´erio de ferro (VALE S.A., 2012e, p. 75). O capex do novo Centro de Distribui¸c˜ao da Vale foi de US$
1,371 bilh˜oes (VALE S.A.,2014c, p. 79).
Ao considerar os investimentos dispendidos na capacidade de transporte das ferrovias, aumento da frota transoceˆanica e, principalmente, pela diversifica¸c˜ao de seu portf´olio no min´erio de ferro, ficava evidente que a Vale estava construindo uma rede de distribui¸c˜ao global para se tornar mais competitiva, notadamente, na ´Asia (VALE S.A.,2012c, p. 21). De fato, os centros de distribui¸c˜ao foram constru´ıdos com instala¸c˜oes para realizar a “blendagem”do min´erio produzido pela Vale no Brasil em seus diferentes Sistemas, o que refor¸cou a capacidade da Companhia em fornecer produtos espec´ıficos para cada cliente, intensificando um movimento de aproxima¸c˜ao bastante utilizado durante as Gest˜oes Dauster e Agnelli I.
A rede de distribui¸c˜ao seria composta por uma frota de 19 navios Valemax pr´oprios e outros 16 afretados, 13 VLOCs pr´oprios e 12 navios capesize pr´oprios, centros de distribui¸c˜ao de min´erio de ferro (CDs) no Oriente M´edio, nas Filipinas, no Sudeste Asi´atico e tamb´em por Esta¸c˜oes Flutuantes de Transferˆencia (EFT) (VALE S.A.,2012e, p. 18). Nesse sentido, ap´os a conclus˜ao da rede de distribui¸c˜ao, a Vale poderia rebalancear seu portf´olio de produtos minerais de acordo com as condi¸c˜oes do mercado internacional, uma vez que seria poss´ıvel gerenciar a
estrat´egia de blendagemoffshore com o intuito de maximizar sua margem no min´erio de ferro (VALE S.A.,2017b, p. 3).
No entanto, concomitante a finaliza¸c˜ao de projetos importantes, em abril de 2014 o Governo da Guin´e cancelou direitos de concess˜ao e licen¸cas para explora¸c˜ao de min´erio de ferro em Simandou (VALE S.A.,2014c, p. 146). Com o cancelamento, a Vale, que detinha 51% da VGB, registrou redu¸c˜ao no valor dos ativos n˜ao circulantes (impairment) no valor de US$ 1,135 bilh˜ao (VALE S.A., 2014c, p. 98). Al´em disso, a Rio Tinto, que havia perdido os direitos de minera¸c˜ao para a BSGR em Simandou, ajuizou a¸c˜ao contra a BSGR, Vale e outros r´eus em Nova York alegando viola¸c˜oes do U.S. Racketeer Influenced and Corrupt Organizations Act (RICO3) (VALE S.A.,2014c, p. 144).
Nesse cen´ario, a partir de 2014 a gera¸c˜ao de fluxo de caixa operacional come¸cou a ser seriamente comprometida pela diminui¸c˜ao do pre¸co internacional de suas principaiscommodities. Apesar do aumento da produ¸c˜ao de min´erio de ferro (2,62%), pelotas (5,96%), carv˜ao t´ermico (58,68%) n´ıquel (5,02%), ouro (18,10%) e rochas fosf´aticas (3,33%) entre 2013 e 2014, a queda generalizada no pre¸co internacional das principais commodities que a Companhia produzia ampliou o impacto negativo em sua gera¸c˜ao de resultados (VALE S.A.,2014a). Em rela¸c˜ao `a dezembro de 2011 (´ultimo ano da Gest˜ao Agnelli) os pre¸cos internacionais do min´erio de ferro registraram contra¸c˜ao de 49,86% em 2014, seguido pela varia¸c˜ao negativa dos pre¸cos do carv˜ao (-44,03%), rochas fosf´aticas (-38,72%), pot´assio (-37,89%), cobre (-14,79%) e n´ıquel (-12,62%) (THE WORLD BANK,2021). Com isso, o fluxo de caixa gerado pelas atividades operacionais da Companhia registrou contra¸c˜ao de 53,34% entre 2011 e 2014 (ver TabelaB.3.3. ´E interessante observar que os pre¸cos dascommoditiespassaram a registrar contra¸c˜ao exatamente nos mercados em que a Vale estava querendo se posicionar com projetosgreenfields.
Mesmo diante do cen´ario de fim do super ciclo decommodities e com problemas judiciais acumulados (REFIS, Simandou e Rio Colorado), em 2015 a Companhia conseguiu concluir dois projetos importantes no Sistema Sudeste. Concei¸c˜ao Itabiritos II e Cauˆe Itabiritos.
Concei¸c˜ao Itabiritos promoveu a adapta¸c˜ao da planta de processamento de itabiritos de baixo teor. Seu capex total foi de US$ 1,137 bilh˜ao, com capacidade nominal de 19 Mtpa, sendo 13 Mtpa depellet feed e 6 Mtpa de sinter feed, mas, sem adi¸c˜ao de capacidade l´ıquida (VALE S.A., 2015b, p. 26). Cauˆe Itabiritos II, tinha o mesmo objetivo. Seu capex total foi de US$ 1,066 bilh˜ao, adicionando capacidade nominal de 16,5 Mtpa depellet feed e 7,2 Mtpa de sinter feed (VALE S.A.,2015b, p. 78).
Em 2015, a gera¸c˜ao de caixa operacional da Companhia atingiu seu menor patamar na d´ecada, registrando US$ 4,026 bilh˜oes, -82,05% em rela¸c˜ao ao caixa operacional gerado em 2011 (US$ 22,424 bilh˜oes). Em compara¸c˜ao aos anos anteriores, a gera¸c˜ao de caixa operacional de 2015 foi superior somente ao valor observado em 2004 (US$ 3,479 bilh˜oes) (ver Tabelas B.2.3 e B.3.3). Esse resultado foi influenciado pelo fim do super ciclo decommodities, conforme pode ser observado pela Tabela4.2.1.
3 Lei Americana de Combate `as Organiza¸c˜oes Corruptas Influenciadas pelo Crime Organizado.
Tabela 4.2.1 – Pre¸co internacional das principais commodities produzidas pela Vale
Trimestre Ferro N´ıquel Cobre Carv˜ao Alum´ınio Pot´assio Fosfato Ouro Prata 2010-T1 139,69 22.461,30 7.462,83 94,38 2.205,63 340,00 90,00 1.113,34 17,11 2010-T2 143,63 19.388,64 6.499,30 98,19 1.931,39 312,50 90,00 1.232,92 18,45 2010-T3 140,63 22.643,41 7.709,30 94,90 2.162,34 312,50 125,00 1.270,98 20,55 2010-T4 163,10 24.111,19 9.147,26 118,29 2.350,67 322,50 125,00 1.390,55 29,32 2011-T1 169,36 26.710,35 9.503,36 126,13 2.555,50 340,00 145,00 1.423,26 35,81 2011-T2 170,88 22.420,93 9.066,85 120,09 2.557,76 355,00 155,00 1.529,36 35,80 2011-T3 177,23 20.377,59 8.300,14 123,09 2.293,46 442,50 182,50 1.772,14 38,15 2011-T4 136,39 18.266,76 7.565,48 111,56 2.022,25 450,00 195,00 1.639,97 30,30 2012-T1 144,66 18.660,81 8.470,78 107,46 2.184,16 495,00 160,00 1.675,95 32,95 2012-T2 134,66 16.549,14 7.423,02 87,19 1.890,18 477,50 193,13 1.598,76 27,98 2012-T3 99,47 17.287,96 8.087,74 88,96 2.064,12 477,50 182,50 1.744,81 33,61 2012-T4 128,51 17.448,50 7.966,49 92,88 2.086,76 477,50 182,50 1.684,76 31,87 2013-T1 139,87 16.724,93 7.645,58 90,98 1.909,57 395,00 160,00 1.593,09 28,79 2013-T2 114,82 14.280,28 7.000,24 82,75 1.814,54 395,00 125,63 1.343,35 21,11 2013-T3 134,19 13.801,39 7.159,27 77,61 1.761,30 395,00 97,50 1.348,60 22,56 2013-T4 135,79 13.924,55 7.214,90 84,34 1.739,81 395,00 96,88 1.221,51 19,67 2014-T1 111,83 15.678,10 6.650,04 73,34 1.705,37 278,50 106,60 1.336,08 20,72 2014-T2 92,74 18.628,81 6.821,14 71,48 1.838,95 301,50 111,40 1.279,10 19,89 2014-T3 82,38 18.034,80 6.872,22 65,94 1.990,43 279,50 111,38 1.236,55 18,37 2014-T4 68,39 15.962,05 6.446,45 62,44 1.909,46 279,50 119,50 1.200,62 16,30 2015-T1 58,05 13.755,50 5.939,67 64,76 1.773,86 283,40 123,00 1.178,63 16,24 2015-T2 62,63 12.825,23 5.833,01 58,96 1.687,73 301,50 118,90 1.181,50 16,08 2015-T3 56,95 9.937,55 5.217,25 57,65 1.589,60 301,50 124,00 1.124,77 14,75 2015-T4 40,50 8.707,79 4.638,83 52,21 1.497,20 301,50 123,50 1.075,74 14,13 Desp.pa 39,70 4.341,50 1.196,99 22,02 280,44 73,77 33,31 217,38 7,70 Fonte: elabora¸c˜ao pr´opria a partir deThe World Bank(2021).
Em 2015 o pre¸co internacional das principais commodities comercializadas pela Vale atingiu o menor n´ıvel da d´ecada. O pre¸co da tonelada m´etrica do min´erio de ferro, historicamente respons´avel pela maior parte da gera¸c˜ao de receita da Companhia, e que fora comercializado por US$ 136,39/ton em dezembro de 2011, passou a ser cotado pelo valor de US$ 40,50/ton em dezembro de 2015, registrando contra¸c˜ao de 70,31% em rela¸c˜ao ao ´ultimo ano da Gest˜ao Agnelli II.
Al´em do min´erio de ferro, entre 2011 e 2015, o pre¸co m´edio de todas as principais commodities produzidas e comercializados pela Companhia registraram queda. O n´ıquel, que chegou a representar 30% da gera¸c˜ao de receita bruta em 2007, viu seu pre¸co no mercado internacional se desvalorizar em 52,33%. O mesmo movimento de contra¸c˜ao foi observado para os casos do cobre, do carv˜ao, do alum´ınio4, do pot´assio, e do fosfato, como pode ser observado pela Tabela4.2.1.
Nessa conjuntura, a Vale revisou mais uma vez o capex do S11D, de US$ 8,039 bilh˜oes, para US$ 6,878 bilh˜oes (-14,44%) e do CLN S11D de US$ 11,582 bilh˜oes para US$ 9,484 bilh˜oes (-18,11) (VALE S.A.,2014c, p. 79). Como forma de angariar recursos, em fevereiro de 2014, a Companhia emitiu R$ 1 bilh˜ao em debˆentures de infraestrutura para financiar parte do Projeto CLN S11D (VALE S.A.,2015b, p. 106).
4 Apesar de sua retirada da Cadeia do Alum´ınio em 2011, a Companha ainda mantinha participa¸c˜oes minorit´arias em duas empresas de minera¸c˜ao de bauxita e tamb´em contava com participa¸c˜ao indireta de 13,63% na Hydro (VALE S.A.,2015b, p. 67)
No entanto, a “ajuda” mais efetiva veio por parte do Governo Federal. Em 2015 o BNDES, que controlava um dos maiores acionistas da Valepar, o BNDESPar,5 forneceu `a Companhia:
(i) linha de cr´edito de at´e R$ 7,3 bilh˜oes (US$ 2,732 bilh˜oes), que deveria ser utilizada para financiar os programas de investimento; (ii) cr´editos gerais no valor de R$ 985 milh˜oes (US$ 368 milh˜oes), utilizados para financiar a aquisi¸c˜ao de equipamentos no Brasil; (iii) financiamento de R$ 3,9 bilh˜oes (US$ 1,459 bilh˜ao) para dar prosseguimento ao projeto CLN 150 Mtpa e; (iv) financiamento de R$ 6,2 bilh˜oes (US$ 2,320 bilh˜oes) para sustentar parte dos dispˆendios com o projeto S11D e toda sua infraestrutura (VALE S.A.,2015b, p. 108).
Nesse cen´ario, n˜ao restavam d´uvidas de que a capacidade de gera¸c˜ao de caixa da Vale estava muito aqu´em da observada no per´ıodo entre 2007 e 2011. Apesar disso, foi exatamente nesse contexto que ocorreu o maior acidente com barragens, em termos de volume de res´ıduos e distˆancia percorrida, do mundo (OLIVEIRA, 2016). O rompimento da barragem de rejeitos da Samarco, uma joint-venture formada entre Vale e BHPB, em 5 de novembro de 2015, foi respons´avel pelo vazamento de 50 a 60 milh˜oes de metros c´ubicos (m3) de rejeitos de min´erio de ferro, destruindo o distrito de Bento Rodrigues, em Minas Gerais, e atingido a bacia do Rio Doce. O material vazado percorreu aproximadamente 600 km, alcan¸cado o Oceano Atlˆantico em 21 de novembro de 2015 (ESCOBAR,2015).
Como consequˆencia do evento, a mina de Alegria, da Vale, localizada no entorno da barragem que se rompeu, passou a operar apenas com o beneficiamento a seco e aqu´em de sua capacidade normal de produ¸c˜ao. Al´em disso, a venda dos min´erios run-of-mine (ROM) da mina de Fazend˜ao `a Samarco foi interrompida em raz˜ao do acontecimento (VALE S.A.,2015b, p. 8).
Em suas estimativas, a Vale esperava que o impacto do rompimento em sua produ¸c˜ao para o ano de 2016 fosse se reduzir em aproximadamente 9 Mtpa de min´erio de ferro (VALE S.A., 2015b, p.
28).
Como a Samarco se constitui emjoint-venture formada entre Vale e BHPB, a Companhia passou a estar envolvida em mais uma s´erie de processos judiciais, com desfechos que poderiam resultar em obriga¸c˜oes com potencial de afetar de modo substancial os neg´ocios da Vale, n˜ao s´o em termos de produ¸c˜ao, como tamb´em, na revis˜ao de uma s´erie de concess˜oes miner´arias ativas em pose da Vale (VALE S.A.,2016c, p. 3). Dentre os processos judiciais relacionados `a ruptura da barragem de rejeitos da Samarco, os mais importantes, listados at´e 2016, eram: (i) potenciais a¸c˜oes coletivas nos Estados Unidos; (ii) A¸c˜ao Civil P´ublica da Uni˜ao Federal e outros entes; (iii) A¸c˜ao Civil P´ublica movida pelo Minist´erio P´ublico Federal e; (iv) Processo criminal movido contra funcion´arios da Samarco (VALE S.A.,2016c, p. 143).
Em rela¸c˜ao aos Estados Unidos, a Vale, e alguns de seus diretores, figuravam como r´eus em a¸c˜oes coletivas c´ıveis no tribunal federal de Nova York. Os autores alegavam que a Companhia realizava declara¸c˜oes falsas e enganosas, ou deixava de fazer divulga¸c˜oes sobre os riscos potenciais relacionados `as opera¸c˜oes com barragens de rejeito. Na ocasi˜ao, ainda n˜ao constava valores de supostas indeniza¸c˜oes (VALE S.A.,2015b, p. 141).
5 Em 2015 o BNDESPar detinha 6,5% das a¸c˜oes ordin´arias da Vale, al´em de R$ 871 milh˜oes (US$ 328 milh˜oes) em debˆentures emitidas pela Salobo Metais S.A, subsidi´aria integral da Vale.
No Brasil, no final de 2016 havia trˆes processos relevantes relacionados `a ruptura da barragem da Samarco. O primeiro deles, movido em novembro de 2015 pela Uni˜ao Federal e os Estados de Minas Gerais e Esp´ırito Santo, representados por ´org˜aos federais e estaduais, ingressaram com A¸c˜ao Civil P´ublica junto ao Tribunal Federal de Minas Gerais contra a Samarco e seus dois acionistas, a Vale e a BHPB. Nesse processo, os autores reivindicavam cerca de R$
20,2 bilh˜oes em indeniza¸c˜oes e v´arias medidas para tentar mitigar danos ambientais (VALE S.A.,2016c, p. 143). Em mar¸co de 2016 a Samarco, Vale e BHPB, entraram em acordo com o Governo Federal, e os Estados de Minas Gerais e Esp´ırito Santo, bem como, outras autoridades governamentais, com o intuito de implementar programas de repara¸c˜ao e compensa¸c˜ao das ´areas e comunidades atingidas (VALE S.A.,2016c, p. 24).
Em junho de 2016, Samarco, Vale e BHPB criaram a funda¸c˜ao Renova, que ficaria respons´avel por desenvolver e implementar programas de repara¸c˜ao e compensa¸c˜ao socioeconˆomica.
A funda¸c˜ao passou a ser financiada pela Samarco, nos termos do seguinte cronograma: R$ 2,0 bilh˜oes (US$ 614 milh˜oes) em 2016, R$ 1,2 bilh˜ao (US$ 368 milh˜oes) em 2017 e R$ 1,2 bilh˜ao (US$ 368 milh˜oes) em 2018. Entre 2019 e 2021, deveriam ser realizados aportes anuais pela Samarco a fim de implementar os projetos aprovados, condicionados ao valor m´ınimo anual de R$ 800 milh˜oes (US$ 245 milh˜oes) e m´aximo anual de R$ 1,6 bilh˜ao (US$ 491 milh˜oes). A partir de 2022, a funda¸c˜ao Renova passaria a alocar o valor anual de R$ 240 milh˜oes (US$ 74 milh˜oes), integralmente financiados pela Samarco, ao longo de 15 anos para execu¸c˜ao dos programas de compensa¸c˜ao (VALE S.A.,2016c, p. 87).
Outra A¸c˜ao civil p´ublica foi movida pelo Minist´erio P´ublico Federal (MPF) em maio de 2016. Dessa vez, a a¸c˜ao foi interposta contra a Samarco, a Vale, a BHPB, bem como autoridades governamentais6 que, de alguma forma, estavam relacionadas ao rompimento da barragem de rejeitos da Samarco. No entanto, em junho de 2016 o tribunal excluiu o BNDES e todas as autoridades governamentais, restando somente a Samarco e suas acionistas. Nesta a¸c˜ao, o MPF solicitou que o tribunal estipulasse uma ampla gama de a¸c˜oes reparat´orias e indenizat´orias a serem executadas pelos r´eus. Na ocasi˜ao, os procuradores do MPF estimaram, em termos de garantias, R$ 155 bilh˜oes como valor preliminar de repara¸c˜ao (ECONOMATICA,2021b):
A menos que se queira supor que o mil´ımetro do meio ambiente no Brasil valesse menos que nos Estados Unidos, ´e inadmiss´ıvel que a valora¸c˜ao do dano ambiental provocado pelas empresas r´es fique aqu´em, prima facie, dos US$ 43,8 bilh˜oes, ou R$ 155.052.000.000,00 (cento e cinquenta e cinco bilh˜oes e cinquenta e dois milh˜oes de reais), reconhecidos pela respons´avel pela trag´edia no Golfo do M´exico. Esse deve ser o ponto de partida no estado em que as coisas est˜ao (FORC¸A TAREFA RIO DOCE,2016, p. 267).
6 a Uni˜ao, os Estados de Minas Gerais e Esp´ırito Santo, a Agˆencia Nacional das ´Aguas (ANA), o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov´aveis (IBAMA), o Departamento Nacional de Produ¸c˜ao Mineral (DNPM), o Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio), a Funda¸c˜ao Nacional do
´Indio (FUNAI), a Agˆencia Nacional de Vigilˆancia Sanit´aria (ANVISA), o Instituto do Patrimˆonio Hist´orico e Art´ıstico Nacional (IFAN), o Banco Nacional de Desenvolvimento Econˆomico e Social (BNDES), o Instituto Estadual de Florestas (IEF), o Instituto Mineiro de Gest˜ao de ´Aguas (IGAM), a Funda¸c˜ao Estadual de Meio Ambiente (FEAM), o Instituto Estadual do Patrimˆonio Hist´orico e Art´ıstico de Minas Gerais (IEPHA), o Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos H´ıdricos (IEMA), o Instituto de Defesa Agropecu´aria e Florestal do Esp´ırito Santo (IDAF) e a Agˆencia Estadual de Recursos H´ıdricos (AGERH).
Em nota vinculada `a imprensa,7 os procuradores afirmaram: “N˜ao parece cr´ıvel, nem t´ecnica, nem moralmente, que o valor do meio ambiente humano, cultural e ambiental no Brasil seja inferior ao de outros pa´ıses”. Al´em disso, a a¸c˜ao inclu´ıa mais de 200 pedidos, dentre os quais, que as mineradoras depositassem em um fundo privado pr´oprio, sob gest˜ao e fiscaliza¸c˜ao independente, o valor preliminar de R$ 7,7 bilh˜oes, e que apresentassem garantias `a repara¸c˜ao integral dos preju´ızos (ORDO˜NEZ,2016).
Por fim, em outubro de 2016, o MPF interpˆos a¸c˜ao criminal contra a Samarco, BHPB e Vale, bem como funcion´arios da Samarco e membros dos ´org˜aos de governan¸ca ou conselhos da Samarco, junto `a Justi¸ca Federal de Ponte Nova (MG). As acusa¸c˜oes envolviam assassinato, les˜ao corporal, danos ao patrimˆonio e uma s´erie de crimes ambientais. O MPF tentou liminar para apreender R$ 20 bilh˜oes em ativos das trˆes empresas, mas n˜ao logrou sucesso (VALE S.A., 2016c, p. 143).
Diante das incertezas relacionadas a ruptura da barragem de rejeito da Samarco, a Vale provisionou, no segundo trimestre de 2016, R$ 5,560 bilh˜oes. Ao ser descontada por uma taxa livre de risco, a provis˜ao registrada balan¸co patrimonial da Vale em 30 de junho de 2016 era de R$ 3.733 bilh˜oes (US$ 1.163 bilh˜oes) (VALE S.A., 2016c, p. 87). No entanto, diante dos impactos ainda incertos, o valor provisionado refletia as melhores estimativas que a Companhia tinha na
´epoca, podendo ser novamente revista, a depender da situa¸c˜ao (VALE S.A.,2017d, p. 111).
Em um cen´ario de queda no pre¸co internacional dascommoditiesminerais e diante de uma s´erie de contesta¸c˜oes jur´ıdicas, a Vale registrou seu primeiro preju´ızo no per´ıodo p´os- privatiza¸c˜ao.
Em 2015, a Companhia registrou preju´ızo l´ıquido de US$ 11,323 bilh˜oes, que foi influenciado pela queda do lucro operacional, em 60,75% em rela¸c˜ao a 2014, e preju´ızo das opera¸c˜oes continuadas de US$ 11,780 bilh˜oes (ECONOMATICA,2021a).
Ap´os o rompimento da barragem da Samarco, a Vale reduziu drasticamente o n´umero de projetos em sua gest˜ao operacional. Em 2016, a Companhia estava desenvolvendo somente quatro projetos, Caraj´as S11D, CLN S11D, no Brasil, Moatize II, em Mo¸cambique, e a expans˜ao da mina deVoisey’s Bay, no Canad´a (VALE S.A., 2016c, p. 73). A partir de ent˜ao, o objetivo principal da Vale foi concluir o projeto S11D, bem como a infraestrutura log´ıstica associada.
Do or¸camento total de US$ 3,172 bilh˜oes destinado `a execu¸c˜ao de projetos, somente o S11D consumiu 72,3% do total (VALE S.A.,2016c, p. 78). Em dezembro de 2016, ap´os a obten¸c˜ao de licen¸ca ambiental operacional, a Vale iniciou a produ¸c˜ao da mina e usina de minera¸c˜ao do S11D, que no processo derump-up, produziu 0,4 Mtpa de min´erio de ferro em 2016 (VALE S.A.,2016c, p. 20).
Com a conclus˜ao do S11D, a Vale contava com a melhor plataforma de crescimento de min´erio de ferro no mundo, com reservas da ordem de 4,239 bilh˜oes de toneladas m´etricas e com possibilidade de expans˜ao mediante implanta¸c˜ao de projetosbrowfields de baixo custo em sua adjacˆencia. O S11D foi desenvolvido com a aplica¸c˜ao do conceito de minera¸c˜ao sem
7 http://www.mpf.mp.br/mg/sala-de-imprensa/noticias-mg/mpf-entra-com-acao-para-total-reparacao-dos-danos-sociais-ambientais-e-economicos-causados-pelo-rompimento-da-barragem-da-samarco-1
caminh˜oes (truckless), onde o min´erio ´e extra´ıdo por uma estrutura composta por escavadeiras e britadores m´oveis que alimentam correias encarregadas de transportar o min´erio at´e `a usina de beneficiamento (ECONOMATICA,2021b).
Al´em disso, o projeto incorporou a tecnologia de processamento a partir da unidade natural, (sem adi¸c˜ao de ´agua) ou processamento `a seco, se constitu´ıdo em uma tecnologia com menor impacto ambiental. Essa t´ecnica permitiu a elimina¸c˜ao de rejeitos ´umidos, garantindo o m´aximo de aproveitamento do min´erio, uma vez que as part´ıculas mais finas, que seriam eliminadas no processo convencional, fossem dilu´ıdas em produto final. Por fim, a Vale estimava que ao alcan¸car plena capacidade operacional, a mina e a usina do S11D passariam a produzir com economia de 93% e 77%, respectivamente, no consumo de ´agua e combust´ıvel, possibilitando a redu¸c˜ao de at´e 50% na emiss˜ao de gases de efeito estufa, quando comparado aos m´etodos convencionais. O processamento a seco permitiu tamb´em a redu¸c˜ao do consumo de energia el´etrica em 18.000 MW ao ano, e a elimina¸c˜ao do uso de barragem de rejeito, minimizando a interven¸c˜ao em ambientes nativos (ECONOMATICA,2021b).
Com o desenvolvimento do S11D e a melhoria das plantas de beneficiamento em Minas Gerais, a Vale estava finalmente pronta para desenvolver sua estrat´egia de blendagemoff-shore e, assim, conseguiria ampliar sua competitividade e capacidade de fornecimento de produtos variados para as principais sider´urgicas asi´aticas.
A gest˜ao dos neg´ocios com Minerais Ferrosos foi direcionada `a melhoria da capacidade de beneficiamento das unidades em Minas Gerais, ao aumento da capacidade de extra¸c˜ao e distribui¸c˜ao no Sistema Norte, e `a finaliza¸c˜ao de uma intricada rede log´ıstica ligando o Brasil `a ´Asia.
Com exce¸c˜ao do projeto Simandou, ´e poss´ıvel afirmar que a Gest˜ao Ferreira foi respons´avel pela integraliza¸c˜ao do programa de investimentos desenhado durante a Gest˜ao Agnelli II para o min´erio de ferro. A conclus˜ao desse plano de investimentos foi de extrema importˆancia para consolidar a posi¸c˜ao de lideran¸ca da Vale na exporta¸c˜ao de min´erio de ferro. Al´em disso, ´e importante mencionar que esses investimentos foram executados no fim do super ciclo de commodities. A partir de 2016 a Vale era a Companhia com maior possibilidade de expans˜ao no setor mineral met´alico no mundo (VALE S.A.,2016c).
Ferro ligas
No segmento de ferro ligas, em outubro de 2012, a Vale encerrou suas opera¸c˜oes de ferro ligas de manganˆes na Europa. Foram vendidas a totalidade daVale Manganese France SAS, localizada em Dunkerque, na Franca, e daVale Manganese Norway, situada em Mo I Rana, na Noruega, `as subsidi´arias daGlencore International Plc (Glencore) pelo valor de US$ 160 milh˜oes (VALE S.A.,2012e, p. 37). Durante a Gest˜ao Agnelli, o objetivo da constitui¸c˜ao e manuten¸c˜ao dessas unidades na Europa era ganhar profundidade no mercado e, com isso, ter contato mais direto com seus clientes no continente europeu.
Apesar das unidades europeias terem se mostrado economicamente n˜ao vi´aveis em certos per´ıodos, a localiza¸c˜ao geogr´afica possibilitava a forma¸c˜ao de parcerias estrat´egicas. Al´em disso, ap´os a conclus˜ao do neg´ocio, a Vale contratou a Glencore para atuar fora do Brasil como sua agente de marketing para o segmento de min´erio de manganˆes (ECONOMATICA, 2021b). Neste
´ultimo ponto, cabe relembrar que um dos principais impedimentos para a n˜ao aquisi¸c˜ao da Xstrata em 2008 foi o posicionamento da Glencore, que queria ter o direito de marketing, com exce¸c˜ao do min´erio de ferro, para comercializar a produ¸c˜ao mineral da Vale/Xstrata, caso o neg´ocio fosse efetivado. Nesse sentido, j´a no in´ıcio da Gest˜ao Ferreira, a Vale indicava que n˜ao estava disposta `a continuar com a estrat´egia agressiva de diversifica¸c˜ao, n˜ao mais se posicionando como grandeplayer mundial.
Em 2012 a Vale encerrou suas atividades relacionadas `a produ¸c˜ao de ferroligas fora do Brasil, onde ainda contava com trˆes unidades de extra¸c˜ao de min´erio de manganˆes (Azul, Morro da Mina e Urucum), e trˆes unidades de produ¸c˜ao de ferroligas (Barbacena - 66.000 Ctpa, Ouro Preto - 64.000 Ctpa e Sim˜oes Filho - 135 Ktpa) (VALE S.A.,2012e, p. 36).
Em rela¸c˜ao `a produ¸c˜ao de ferroligas nas unidades de Barbacena, Ouro Preto e Sim˜oes Filho, o principal componente do custo de produ¸c˜ao era a energia el´etrica. Em 2015, 2,7% de toda a energia el´etrica consumida pela Vale era utilizada no processo de produ¸c˜ao de ferroligas (VALE S.A., 2015b, p. 40). Levando em considera¸c˜ao a diminui¸c˜ao generalizada do pre¸co internacional de commodities, em fevereiro de 2014 a Companhia decidiu suspender as opera¸c˜oes da usina de Ouro Preto e, ao t´ermino do contrato de compra de energia el´etrica em janeiro de 2015, optou pela n˜ao renova¸c˜ao e suspens˜ao das opera¸c˜oes na usina de Barbacena, ficando mantidas as opera¸c˜oes apenas na unidade de Sim˜oes Filho, na Bahia (VALE S.A., 2015b, p. 41). Em fevereiro de 2016 a usina de Barbacena voltou a operar, mas as opera¸c˜oes nas unidades de Ouro Preto continuaram suspensas (VALE S.A.,2016c, p. 37).
A condu¸c˜ao dos neg´ocios com min´erio de manganˆes e ferroligas de manganˆes durante a Gest˜ao Ferreira foi ca´otica, muito por conta da diminui¸c˜ao do pre¸co das mat´erias-primas da cadeia produtiva do a¸co. Em 2008, a receita bruta gerada pela produ¸c˜ao de ferroligas atingiu US$ 1,073 bilh˜ao, em 2015, foi de US$ 62,05 milh˜oes, uma redu¸c˜ao de 94,22% (VALE S.A.,2008c;VALE S.A.,2015a). Quando comparada `a Gest˜ao Agnelli, que buscou manter as opera¸c˜oes intensivas em energia el´etrica fora do Brasil, a Gest˜ao Ferreira, n˜ao s´o se desfez das usinas situadas em um dos principais mercados consumidores da Companhia, como tamb´em delegou os diretos de marketing de um produto complementar ao min´erio de ferro na cadeia produtiva do a¸co para uma de suas principais concorrentes, a Glencore. Em 2008 a aquisi¸c˜ao da Xstrata n˜ao ocorreu, dentre outros motivos, porque Agnelli n˜ao queria ceder seus direitos de marketing `a Glencore.