Capítulo III A DISSEMINAÇÃO DO DARMA
1. Girando a Roda do Darma
(1) Então, o Honrado pelo Mundo ponderou: “A quem devo expor este Darma? Quem despertará com este Darma? Alara Kalama é um douto e sábio homem, com apenas um leve traço de ignorância; ele despertará com este Darma verdadeiro.” Entretanto, o Honrado pelo Mundo percebeu com seu olho celestial que Alara Kalama havia morrido sete dias antes. Ele pensou: “A morte de Alara Kalama é uma grande perda. A quem eu poderei expor este Darma? Uddaka Ramaputta também é um douto e sábio homem, transmitirei este Darma a ele.” Mas ele descobriu que Uddaka também havia morrido, no dia anterior. Ele lamentou a perda e voltou seus pensamentos aos cinco mendicantes. E pensou: “Aqueles cinco monges me seguiram durante minha prática de treinamento ascético. Eles são homens de grande valor, irei oferecer o Darma por primeiro a eles.”
Assim, o Honrado pelo Mundo tomou essa decisão, e colocou-se no caminho que levava da floresta de Uruvela ao Parque dos Cervos de Isipatana, próximo a Baranasi.
(2) Em seu caminho, o Honrado pelo Mundo encontrou Upaka, seguidor de um caminho falso que levava uma forma negativa de vida. Upaka ficou impressionado com a serenidade da aparência do Honrado pelo Mundo e disse: “Sua aparência é realmente serena, pura e lúcida. Como mendicante, quem você tomou por professor, e que tipo de ensinamento ele prega?”
O Honrado pelo Mundo respondeu a pergunta através de um verso: “Eu alcancei a vitória na batalha; minha sabedoria é superior; não sou maculado por coisa alguma; estou livre de todos os sofrimentos; a sede da luxúria desapareceu para mim; eu estou perfeitamente iluminado. Isto se deve completamente à minha sabedoria; quem eu deveria olhar como professor? No céu ou na terra não há ninguém igual a mim. Sou o Iluminado deste mundo, sou o professor supremo. Apenas eu repouso na estabilidade pura. De agora em diante, girarei a Roda do Darma neste mundo cego; aqui tocarei o tambor da imortalidade. Para realizar isto, agora me dirijo à cidade de Kasi.”
Upaka disse: “Honrado pelo Mundo, você se autodenomina ‘o Iluminado’ e ‘o Vitorioso’?” O Honrado pelo Mundo respondeu: “Aquele que extinguiu todos os obscurecimentos e se afastou do mal – esse homem não é ‘Vitorioso’?” Upaka disse: “Talvez seja assim”, e assentindo com a cabeça, partiu, tomando um caminho diferente.
(3) O Honrado pelo Mundo chegou ao Parque dos Cervos de Isipatana. Os cinco mendicantes viram o Honrado pelo Mundo e disseram uns aos outros: “Lá vem Gotama, aquele que abandonou o treinamento espiritual fugindo para uma vida de autoindulgência e que agora se aproxima de nós. Não devemos preparar um assento para ele. Ele que sente onde desejar.”
Mas, quando o Honrado pelo Mundo aproximou-se dos cinco monges, eles esqueceram sua promessa. Um deles se dirigiu ao Honrado pelo Mundo. Outro preparou um assento, e outro buscou água para lavar seus pés. Depois de o Honrado pelo Mundo ter lavado os pés e tomado seu assento, os cinco mendicantes se voltaram a ele, e o chamaram por “Gotama” ou “amigo”. Mas, o Honrado pelo Mundo disse: “Vocês não deveriam se dirigir ao Buda pelo nome ou através de termos como ‘amigo’. Eu sou o Buda que alcançou a iluminação e sou digno de receber oferendas de todo o mundo. Ó monges, ouçam-me, irei ensinar-lhes o caminho para a imortalidade. Se vocês respeitarem e seguirem o Darma que irei ensinar agora, logo satisfarão as aspirações que os fizeram abandonar o lar e tornarem-se mendicantes. Vocês receberão práticas puras, e serão capazes de alcançar a iluminação naturalmente.”
Os cinco mendicantes disseram: “Mas, Gotama, mesmo em um caminho austero e através de terríveis práticas ascéticas você não foi capaz de alcançar a verdadeira sabedoria que supera todas as outras. Você abandonou esse treinamento espiritual e escapou para uma vida de autoindulgência. Como você pode ter atingido tal Darma?”
O Honrado pelo Mundo respondeu: “Mendicantes, eu não sou indulgente com a preguiça nem abandonei o treinamento espiritual. Eu sou verdadeiramente um buda que alcançou a iluminação digna de oferendas pelo mundo. Ouçam-me: irei ensinar a vocês o caminho que leva à imortalidade.” Mas os cinco monges não aceitaram as palavras do Honrado pelo Mundo e repetiram suas observações anteriores por três vezes. Finalmente, o Honrado pelo Mundo disse: “Ó mendicantes, vocês se lembram de eu ter falado desta forma antes?” Os mendicantes responderam: “Ó Honrado pelo Mundo, não, você nunca assim o fez.” “Vocês veem? O
Buda não busca uma vida de autoindulgência, nem ele abandonou seu treinamento espiritual. Eu sou um homem que, verdadeiramente, alcançou a iluminação. Ouçam-me: escutem o Darma que leva à imortalidade.” Então, pela primeira vez, os cinco mendicantes decidiram ouvir o Buda com sinceridade total.
(4) O Honrado pelo Mundo disse-lhes: “Mendicantes, existem dois caminhos extremistas que devem ser evitados. O primeiro é uma vida de prazeres tolos, viciando-se em desejos inferiores. O segundo é uma vida de práticas ascéticas tolas que mortificam o corpo em vão. Mendicantes, o Buda se iluminou através do Caminho do Meio, que está livre dos dois extremos, abrindo os olhos da mente, aprofundando a sabedoria, e guiando todos os seres à estabilidade, à sabedoria, à iluminação e ao nirvana.
“Mendicantes, o que é o Caminho do Meio? É o Nobre Caminho Óctuplo, ou seja, visão correta, pensamento correto, fala correta, ação correta, modo de vida correto, esforço correto, atenção mental correta e meditação correta.
“Mendicantes, esta é a Nobre Verdade do sofrimento. Nascimento é sofrimento. Velhice, doença e morte também são sofrimentos. Entrar em contato com algo odiado, afastar-se de alguém amado e não obter o que se procura também são sofrimentos. Em resumo, existir como um ser humano é sofrimento.
“Mendicantes, esta é a Nobre Verdade da causa do sofrimento. O desejo intenso produz uma nova vida, acompanhada por prazer e cobiça, resultando nos prazeres do desejo em algum dos reinos. Existem três tipos de desejo: o desejo da paixão, o desejo de existir e o desejo de não existir.
sofrimento cessa quando suas causas são removidas.
“Mendicantes, esta é a Nobre Verdade do caminho que leva à cessação do sofrimento. É o Nobre Caminho Óctuplo da visão correta, pensamento correto, fala correta, ação correta, modo de vida correto, esforço correto, atenção mental correta e meditação correta.
“Mendicantes, estas Quatro Nobres Verdades são um Darma que nunca foi exposto antes; este é o Darma com o qual eu me iluminei. Através deste Darma eu abri os olhos da mente e dei nascimento à sabedoria e à luz. O sofrimento deve ser compreendido, e eu o entendi. A causa do sofrimento, o desejo, deve ser cortada, e eu a cortei. Deve-se despertar para a cessação do sofrimento, e eu despertei. O caminho que leva à cessação do sofrimento deve ser praticado, e eu o pratiquei. Com base neste Darma que me permitiu a iluminação eu abri os olhos da mente e dei nascimento à sabedoria e à luz.
“Mendicantes, enquanto o insight puro e verdadeiro das Quatro Nobres Verdades não tinha ainda surgido dentro de mim, eu não proclamei entre os vários mundos e povos que eu havia alcançado a iluminação. Mas, uma vez que tais insights surgiram em mim, agora eu proclamo que alcancei a iluminação. Além disso, o seguinte insight se manifestou em mim: ‘Minha mente, que se libertou da escravidão, nunca mais será abalada; este é meu último nascimento; para mim não haverá mais nascimentos delusórios.’”
Quando o Honrado pelo Mundo transmitiu este ensinamento, um dos mendicantes, de nome Kondanna, adquiriu o olho do Darma que é livre de obscurecimentos; ele percebeu que todas as coisas que vêm à existência perecerão, infalivelmente.
(5) Assim, o Honrado pelo Mundo girou a Roda do Darma. Os deuses da terra proclamaram em conjunto: “No Parque dos Cervos de Isipatana, em
Baranasi, o Honrado pelo Mundo girou a insuperável Roda do Darma que não havia sido girada neste mundo por ninguém.” As vozes desses deuses reverberaram nos mundos dos outros deuses e, finalmente, alcançaram o mundo de Brahma. Naquele instante, os mil mundos balançaram e tremeram, e uma luz ilimitada que transcendia a luz dos deuses brilhou sobre todos os mundos.
Naquele momento, o Honrado pelo Mundo disse: “De fato, Kondanna entendeu (annasi) tudo”; e assim ele ficou conhecido como Annata Kondanna. Ele se tornou um discípulo que seguia o ensinamento do mestre; ele entendeu o Darma com grande profundidade, transcendeu a dúvida, libertou-se da delusão e alcançou o destemor. Sem interrupções, o Honrado pelo Mundo expôs o Darma aos outros quatro mendicantes. Esses outros quatro mendicantes – Vappa, Bhaddyia, Mahanama e Assaji – também se libertaram e alcançaram o olho do Darma que percebe que todas as coisas que vêm à existência infalivelmente perecerão. E todos, assim como Kondanna, tornaram-se discípulos.
(6) O Honrado pelo Mundo os reuniu e expôs o Darma: “Discípulos, o corpo não é o eu. Se o corpo fosse o eu, deveríamos ser capazes de modificar nossos corpos livremente. Da mesma forma, a mente também não é o eu; somos incapazes de modificar livremente nossas mentes.”
Ele perguntou: “Discípulos, o que vocês acham? O corpo é permanente ou impermanente?” “É impermanente”, eles replicaram. Ele perguntou: “As coisas impermanentes são dolorosas ou prazerosas?” Os discípulos responderam: “Honrado pelo Mundo, elas são dolorosas.” Ele perguntou: “Vocês podem considerar como ‘meu’ ou ‘eu’ aquilo que é impermanente, doloroso e que muda constantemente?” Eles responderam: “Honrado pelo
Mundo, não podemos considerar isso como ‘meu’ ou ‘eu’.” Ele disse: “Discípulos, a mente é assim. Os nobres discípulos devem ouvir e entender esta mesma verdade; eles devem dar nascimento à mente que rejeita tanto a mente quanto o corpo. Se não se apegarem a ambos, vocês alcançarão a liberação e darão nascimento à sabedoria que é completamente consciente dessa realização. Esta é a sabedoria que vê que ‘o nascimento chegou ao fim; a prática dedicada foi completada; aquilo que precisava ser realizado foi realizado; e após este, não haverá outros nascimentos.’”
Os cinco homens ouviram o discurso do Honrado pelo Mundo e se regozijaram; eles se libertaram do apego, afastaram-se dos obscurecimentos e se tornaram sábios. Desta forma, agora havia seis sábios neste mundo.