Capítulo I A BUSCA PELO CAMINHO
2. O Nascimento do Buda
(1) Daquele momento em diante, Sumedha praticou gradualmente o caminho dos budas, e logo ele foi elevado à condição que conduz ao estado búdico. Ele renasceu no céu de Tushita e tornou-se um bodisatva.
O bodisatva residia em uma terra com árvores asoka e flores de lótus e mandarava desabrochando, onde papagaios, pavões e kalavinkas entoavam suas canções. Circundado por música oferecida por donzelas celestiais, ele subiu no Trono do Leão na Grande Sala do Verdadeiro Darma, e para o benefício de uma hoste de seres divinos, ele expôs o ensinamento.
Certo dia, em uma reunião, a música dos seres divinos produziu naturalmente uma canção: “Ó Arhat, éons atrás, sob o Buda Dipankara, você alcançou a iluminação dos budas.
“Você completou as práticas e está tomado pela sabedoria.
um longo tempo, rapidamente desça ao mundo e dê-lhes água.
“Onde o fogo dos obscurecimentos queima furiosamente, emane uma nuvem de compaixão que faça com que a chuva do Darma caia.
“Destrua os estratagemas dos demônios e seus ensinamentos falsos, revele o caminho dos bodisatvas e salve as pessoas do mundo.”
O bodisatva ouviu esta canção, e, percebendo que deveria realizar uma grande missão, fez o voto de descer ao mundo dos homens. A hoste de seres divinos elevou as suas vozes em regozijo e gritou: “Agora o Buda surgirá no mundo dos humanos.” O bodisatva analisou numerosos mundos humanos, e desejando nascer em um lar pertencente a um clã nobre, ele escolheu a família Gotama, do clã Sakya.
O rei do clã Sakya, o rei Suddhodana, realizava constantemente ações virtuosas e governava seu povo de forma magnânima. Sua consorte, a rainha Maya, possuía uma bela aparência e seu coração era puro. Era hábil em diversas artes e possuía todos os méritos necessários para se tornar a mãe de um buda.
(2) Então, o bodisatva expôs os ensinamentos para o benefício da hoste de seres divinos: “Todos vocês, primeiramente fortaleçam sua fé, venerem os ensinamentos, sustentem o Buda, o Darma e a Sanga em suas mentes, e sigam o caminho dos sábios. Sabendo que o mundo é impermanente e cheio de sofrimentos, repousem na mente livre de identidades. Com a mente pacífica, não gerem pensamentos de cobiça. Incessantemente absortos em meditação, atinjam a sabedoria; através dos meios hábeis, guiem aquelas pessoas que estão encobertas pela escuridão da ignorância.
“Até mesmo os maravilhosos ornamentos do mundo celestial caem nas terras do sofrimento quando a boa fortuna que os produziu se exaure.
Mesmo a cobiça é pateticamente volátil. Tudo é tão vazio quanto um sonho. A cobiça não será nunca saciada; é como estar morrendo de sede, e então beber água salgada.
“Portanto, movendo-se com urgência, alcancem o êxtase do não-criado. Se vocês atingirem a sabedoria transcendente alcançarão a satisfação.
“Estudem os princípios das coisas, não se apeguem às palavras. Ajam de acordo com suas palavras, e falem de acordo com suas ações.
“Sempre estejam conscientes de suas próprias negatividades, e não fiquem olhando para as falhas dos outros. Sem realizar suas próprias ações, vocês não receberão os frutos das ações realizadas pelos outros.” O bodisatva instruiu a hoste de seres divinos com estas palavras.
Quando ele estava pronto para descer do reino celestial, incontáveis seres divinos daquele mundo se reuniram no palácio do céu de Tushita, e fizeram oferendas de música ao bodisatva. Naquele momento, do corpo do bodisatva irradiou luz, que brilhou nos grandiosos três mil mundos, e dissipou a escuridão. Os céus e a terra tremeram, e a luz do sol e da lua perderam seu poder. O povo foi preenchido por alegria, e se tornaram tão amorosos uns com os outros como se fossem pais e filhos. Os seres celestiais cantaram:
“Por um tempo incomensurável ele dilacerou sua carne e pulverizou seus ossos.
Como recompensa para sua prática completa, o bodisatva atinge um corpo que não pode ser movido.
Recebendo o elmo da compaixão ele dissipa o mal perpetrado pelas negatividades. Possuindo compaixão por todos os seres, o bodisatva agora se manifesta no mundo.
Brilhando com a luz da sabedoria, ele desperta todos aqueles que estão adormecidos.
Como um grande rei dos grandiosos mil mundos, ele surge no mundo como o sol.”
(3) Nesse momento o bodisatva assumiu a forma de um enorme elefante branco com seis presas e desceu do céu de Tushita. Ele passou sob o braço direito da rainha Maya e entrou em seu útero, enquanto ela dormia pacificamente. O palácio foi preenchido por alegria e paz. Nuvens auspiciosas moviam-se pelo céu e envolveram os telhados das imponentes torres.
Certo dia, no último mês de sua gravidez, a rainha decidiu passar um dia de primavera no jardim florido. Tendo recebido a permissão do rei e acompanhada por um séquito de damas de companhia, ela foi levada até o bosque de Lumbini. As árvores estavam cobertas por belas flores que emanavam fragrâncias agradáveis; o gramado de um verde profundo era como as penas da cauda de um pavão, e dançava como fina e macia seda tocada pelo vento. A rainha se pôs a passear prazerosamente; ela se apoiou em um galho de uma árvore asoka que se inclinava devido ao peso das flores. Naquele instante o bodisatva nasceu, repentinamente, porém tranquilamente. Imediatamente após o nascimento, ele deu sete passos em cada uma das quatro direções e declarou: “No céu acima e na terra abaixo, eu sou o mais honrado. Irei dissipar o sofrimento que envolve o mundo.”
Os seres divinos que residem no espaço louvaram as virtudes da mãe, a rainha Maya. O rei Naga fez chover água fria e morna para banhar o corpo do bodisatva. A grande terra tremeu e se agitou com alegria. Logo depois, a criança foi recebida pela rainha, e como tudo havia acontecido sem
dificuldades ele foi chamado de Siddhattha (Aquele que Alcança Suas Metas). Sete dias após seu nascimento, sua mãe, a rainha Maya, partiu deste mundo e renasceu no céu de Tavatimsa, e sua irmã mais jovem Mahaprajapati assumiu o papel de uma amorosa madrasta para o príncipe.
Naquela época o sábio Asita, que vivia nas montanhas próximas à cidade de Kapilavatthu, estava alarmado com os sinais auspiciosos que acompanharam o nascimento do príncipe. Ele visitou o palácio real, levando consigo o seu sobrinho, uma criança de nome Narada. Asita embalou o príncipe com reverência e olhou para ele por um longo tempo, mas logo, soluçando com lágrimas de tristeza, ele disse: “Ó rei, se esta criança permanecer em casa irá se tornar um monarca universal e trará paz para os quatro mundos. Mas ele, sem dúvidas, deixará o lar em busca do caminho e se tornará um buda. Eu sou um homem velho e não ouvirei os ensinamentos deste buda; ao compreender isto, derramei estas lágrimas de pesar.” O rei Suddhodana ouviu essas palavras e se regozijou, fazendo diferentes tipos de oferendas ao sábio e a Narada.