Capítulo IV SAKYAMUNI EM SUA TERRA NATAL
5. Nanda e Rahula
(1) O dia seguinte foi um dia propício, no qual deveriam ocorrer a investidura e o casamento de Nanda, o irmão de criação do Honrado pelo Mundo. Mas o Honrado pelo Mundo foi até a casa de Nanda e falou com ele, que saiu para saudá-lo. Então, o Buda entregou a ele uma tigela de mendicância e partiu. Nanda, com a tigela na mão, seguiu-o para fora da
casa. Sua noiva, a donzela Sundari, estava penteando seu cabelo naquele momento. Percebendo que Nanda estava saindo, com os cabelos na mão ela perguntou com firmeza: “Aonde você está indo?” Ignorando os pedidos de Nanda para receber de volta a tigela de mendicância, o Honrado pelo Mundo acelerou seu passo. Acompanhado por Nanda, ele foi ao Parque da Árvore Nigrodha. Ele fez com que o relutante Nanda tornasse-se um mendicante. Isto se deu no terceiro dia em que o Honrado pelo Mundo se encontrava na cidade.
(2) No sétimo dia o Honrado pelo Mundo entrou na cidade para sua ronda de mendicância. A princesa Yasodhara vestiu o príncipe Rahula de forma esplêndida e o enviou ao Honrado pelo Mundo. Ela disse: “Veja! Aquele divino mendicante, circundado por muitos mendicantes, é seu pai. Seu pai possuía muitos tesouros, depois que ele se tornou um mendicante eles não foram mais vistos. Vá até ele e receba sua herança justa. Você faria bem em dizer: ‘Pai, eu sou seu filho. Penso em ascender ao trono e me tornar rei. Por favor, conceda-me seus tesouros.’”
Como instruído, Rahula foi até o Honrado pelo Mundo. Entretanto, ele sentiu naturalmente o amor que flui entre pai e filho, e disse: “Mendicante, a sua sombra é muito agradável.” Então, ele permaneceu ao lado dele. Quando o Honrado pelo Mundo terminou sua refeição e levantou para partir, Rahula o seguiu, e com as mãos estendidas, ele disse: “Por favor, me dê minha herança, por favor, me dê minha herança.” O Honrado pelo Mundo não mandou Rahula retornar ao seu lar. Caminhando juntos, eles entraram em uma floresta de árvores nigrodha. O Honrado pelo Mundo refletiu: “Esta criança busca a herança de seu pai. Aquela herança cresce e diminui e produz sofrimento. Ao invés disso, irei conceder-lhe o tesouro espiritual que eu
alcancei com a iluminação. Farei dele um herdeiro da herança sobrenatural.” Ele chamou por Sariputta e lhe disse: “Faça de Rahula um mendicante.” Sariputta disse: “Como eu deveria fazer de Rahula um mendicante?” O Honrado pelo Mundo reuniu seus discípulos para explicar este assunto: “Discípulos, é permitido aos jovens tornarem-se mendicantes de acordo com o Darma dos Três Refúgios. Primeiro, eles raspam suas barbas e cabelos e vestem o manto açafrão. Eles dobram a parte superior do manto sobre o ombro e se curvam aos pés dos discípulos. Então, eles se ajoelham, com um joelho tocando o solo. Eles juntam as palmas das mãos e repetem: ‘Eu tomo refúgio no Buda, eu tomo refúgio no Darma, eu tomo refúgio na Sanga.’ Façam com que eles repitam os Três Refúgios três vezes.”
(3) Seguindo as instruções, Sariputta fez de Rahula um mendicante. Ao receber esta notícia, o rei Suddhodana ficou desolado; ele correu até o local onde estava o Honrado pelo Mundo e disse: “Honrado pelo Mundo, eu busco uma bênção para mim.” O Honrado pelo Mundo disse: “Grande rei, o Buda pode conceder qualquer tipo de bênçãos.” O rei disse: “Honrado pelo Mundo, a bênção que eu busco é muito apropriada e não está maculada pela cobiça. Quando o Honrado pelo Mundo se tornou um mendicante, isto me trouxe um profundo sofrimento. Foi o mesmo quando Nanda se tornou um mendicante. Hoje Rahula se tornou um mendicante. Pensamentos de amor por meu neto rasgam minha pele; eles cortam minha carne e esmagam meus ossos; eles perfuram minha medula e me trazem dor. De agora em diante, por favor proíba o abandono do lar por filhos que não tiverem o consentimento de seus pais.” O Honrado pelo Mundo assentiu, e dali em diante proibiu que os filhos que não tinham o consentimento de seus pais abandonassem o lar.
estavam confusos sobre o número de preceitos que deveriam ser seguidos. O Honrado pelo Mundo soube desta confusão e estabeleceu os dez princípios para os discípulos jovens: “Discípulos, eu recomendo dez preceitos aos discípulos jovens. Eles devem se abster de matar, de roubar, do comportamento licencioso, de mentir, de beber bebidas alcoólicas, de comer fora dos horários definidos; devem se abster do contato com canções, dança, música e apresentações; devem se abster de usar guirlandas de flores, de passar incenso em seus corpos, de usar cosméticos; devem se abster de deitar em camas decoradas; e devem se abster de receber dinheiro. Estes são os dez preceitos para os discípulos jovens. Os jovens devem observar estes dez preceitos.”
(4) O Honrado pelo Mundo havia retornado à sua terra natal após uma longa ausência. Quando a formação espiritual de sua família e de seu povo foi finalizada, ele se dirigiu novamente para Rajagaha e viajou para lugares tão distantes como a vila de Anupiya do clã Malla. Muitos membros jovens e famosos do clã Sakya se tornaram mendicantes.
No clã Sakya havia dois jovens chamados Mahanama e Anuruddha. Anuruddha era fraco fisicamente, e tinha a tendência de se isolar em seu quarto. Mas seu irmão mais velho Mahanama pensou: “As pessoas eminentes do clã Sakya se tornaram mendicantes, seguindo o Honrado pelo Mundo. Um de nós dois deve se tornar mendicante também.” Ele conversou sobre isto com Anuruddha. Inicialmente, devido à sua condição doentia, Anuruddha declinou da ideia de se tornar um mendicante. Mas ele ouviu seu irmão mais velho, que disse: “A vida em casa também não é fácil. Arando e colhendo desde o tempo de nossos distantes ancestrais, continuamos a fazer o mesmo trabalho difícil. Ano após ano repetimos este difícil trabalho. Ao ouvir
isto, Anuruddha decidiu tornar-se um mendicante. Ele solicitou a permissão a sua mãe. Ela se recusou repetidamente a conceder a permissão. Para fazer com que Anuruddha abandonasse essa aspiração de tornar-se mendicante, sua mãe, finalmente, disse: “Se o rei Bhaddyia se tornar um mendicante, eu concordarei com seu pedido.” Anuruddha correu imediatamente ao palácio do rei Bhaddyia e o pressionou a remover a obstrução que o impedia de tornar-se um mendicante. Animando-o, Anuruddha excitou a mente do rei. Levando Ananda, Bhagu, Kimbila e Devadatta consigo, e acompanhado pelo barbeiro Upali, Anuruddha deixou a cidade. Ao entrarem nos subúrbios eles retiraram seus ornamentos. Eles os entregaram a Upali e disseram-lhe para retornar à cidade. No caminho, Upali pensou: “O clã Sakya é uma tribo feroz; se eu retornar com estes tesouros agora, eles pensarão que eu matei aqueles jovens nobres e os roubei. Eles podem me matar. Os jovens nobres tornaram- se mendicantes; não há razão que me impeça de tornar-me um mendicante também.” Upali pendurou o saco em uma árvore, para que fosse um presente para aquele que o encontrasse. Então, ele se apressou para alcançar os jovens nobres.
Num relance, eles avistaram Upali, que retornava inesperadamente, e se alegraram grandemente. Eles se apresentaram ao Honrado pelo Mundo e pediram para se tornar mendicantes. Eles disseram: “Honrado pelo Mundo, nós somos do clã Sakya, arrogantes e orgulhosos. Upali vem nos servindo por um longo tempo como barbeiro. Para que possamos esmagar nosso orgulho inato e arrogância e para reverenciar Upali, desejamos que Upali se torne um mendicante em primeiro lugar.” Com isto, o Honrado pelo Mundo fez com que Upali se tornasse mendicante, e depois, também os jovens nobres.
Sentado sob uma árvore, na postura de meditação, ele desfrutava o êxtase de um sábio. Espontaneamente ele disse: “É extasiante, é extasiante!” Os outros discípulos ao ouvirem isto pensaram que Bhaddyia estava buscando os prazeres do mundo impermanente, e informaram o Honrado pelo Mundo. Como consequência, quando Bhaddyia foi convocado pelo Honrado pelo Mundo, ele disse: “Honrado pelo Mundo, quando eu sentava em um trono, em todos os lugares – dentro e fora de meu quarto, na cidade, no campo – eu era protegido por guardas. Apesar disto, eu sempre vivi com medo. Agora, apesar de estar sozinho sob uma árvore no meio da floresta, minha mente está tão pacífica quanto a de um cervo. Enquanto pensava sobre isto que eu, espontaneamente, gritei: “Ó, é extasiante, é extasiante!”
O Honrado pelo Mundo replicou com um verso: “Quem libertar-se da raiva interna e transcender o sofrimento de existência e inexistência estará livre do medo e da ansiedade, e alcançará o êxtase ilimitado. Nem mesmo os deuses conhecem esse estado mental.” O Honrado pelo Mundo, à frente de seus discípulos, retornou, então, a Rajagaha.