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Good safety practices in the slope stabilization of the flood spillway of a dam

Neves, N.1 / Ribeiro, A.2

Resumo

A construção civil em Portugal apresenta diversos problemas na implementação das condições de segurança necessárias ao exercício de uma actividade profissional devido às suas características muito específicas e mudança constante das condições de trabalho. O principal indicador desse fenómeno é apresentado pelos índices de sinistralidade verificados no sector da construção civil com cerca de um terço das mortes, apesar das melhorias que vêm sendo registadas. Este artigo procura relevar a importância que as práticas de adaptação do trabalho ao homem e consideração do estado de evolução da técnica no âmbito da segurança ocupacional tiveram na gestão global desta empreitada, e de que forma, esta poderá ser repensada para melhorar os resultados na construção. Pretende-se demonstrar como o procedimento adoptado na execução de uma tarefa particular desta empreitada, pode contribuir decisivamente, neste caso, no sentido de se poder ter uma indústria da construção civil competitiva, produtiva e, sobretudo, segura para quem nela trabalha.

Palavras-chave: Segurança; acidente de trabalho, taludes, riscos ocupacionais. Abstract:

The construction industry in Portugal presents several problems in the implementation of necessary safety conditions to perform this activity due to its very specific characteristics and changing working conditions.

The main indicator of this phenomenon is presented by the accident rates that continue to impress by the number of accidents that occur in the construction sector with about one third of deaths, despite the improvements that have been registered. This article aims to realize the importance of occupational safety in the overall management of this contract and how safety on the the construction can be designed in order to achieve better results. It is intended to demonstrate how the best practices while performing a particular task of this project can contribute decisively, in order to have a competitive construction industry, productive and above all safe for the participants.

Keywords: Safety; accident at work, embankments, occupational risk.

1. Introdução

Em 2013, de acordo com o Eurostat (2016), registaram-se na União Europeia cerca de 2 milhões e 465 mil acidentes graves (considerados os acidentes dos quais resultaram mais de três dias de baixa) e 3 mil e 674 acidentes mortais. Estes números representam, ainda assim, um decréscimo considerável relativamente aos de 2010, ano em que se verificaram cerca de 528 mil acidentes graves e mais 775 acidentes mortais.

Os dados do Gabinete de Estatísticas da União Europeia colocam Portugal entre os países da UE que registam maiores índices de acidentes de trabalho e, simultaneamente, num dos primeiros lugares em termos de sinistralidade na construção civil e obras públicas.

No caso de Portugal, segundo os dados fornecidos pelo Gabinete de Estratégia e Estudos (2014) e pela Autoridade para as Condições de Trabalho (2015), para o mesmo período (2013), verificaram-se 190 mil e 103 acidentes e 160 acidentes mortais. Destes, o sector da construção civil contribuiu com 25 mil e 966 acidentes e 47 acidentes dos quais resultou a morte de trabalhadores. Assim, tendo em consideração os dados referidos anteriormente, em Portugal, durante o ano de 2013, o sector da construção foi responsável por cerca de 14% dos acidentes graves e por cerca de 30% de acidentes mortais.

Objectivamente, e a exemplo do que sucede por toda a Europa, a construção civil e as obras públicas constituem um sector de alto risco, o qual, em Portugal, regista proporções de maior

1 ISLA Leiria, Portugal; [email protected] 2 ISLA Leiria, Portugal; [email protected]

gravidade e preocupação pois é responsável, segundo a ACT, por cerca de 20% da sinistralidade laboral e por quase um terço de todos os acidentes de trabalho mortais ao longo dos últimos anos (ACT, 2015). Face aos dados apresentados e à diversidade de operações de qualquer actividade do sector da construção é urgente que se desenvolvam metodologias e produzam ferramentas que auxiliem os intervenientes a efectuar uma correcta avaliação de riscos e a estabelecer medidas preventivas e de protecção eficazes, de modo a baixar estes índices.

1.1. Gestão de risco

As análises de risco levam a um melhor entendimento na tomada de decisões associadas à segurança em obra. Estas permitem hierarquizar os riscos, quantificando as tarefas através de uma escala, tendo em consideração os factores associados ao projecto, construção, estrutura e ao próprio local de implantação (Campos, 2011).

Para o mesmo autor, a segurança durante a execução das obras depende, em grande parte, da correcta concepção do empreendimento antes do início dos projectos.

Para Alves (2002), quando não é possível evitar um determinado risco, deve-se proceder a uma avaliação do mesmo, podendo ocorrer duas situações: se o risco para a segurança e saúde dos trabalhadores é muito acentuado, dever-se-á procurar outra opção arquitectónica ou outra opção técnica para executar os trabalhos, mas, se o risco é moderado, torna-se necessário identificar as medidas preventivas a adoptar, no sentido de evitar a ocorrência do acidente.

Como tal, a materialização da matriz metodológica de gestão de risco, que compreende as etapas de avaliação, controlo e comunicação dos riscos deve ser considerada em todos os momentos e a prática de prevenção mais relevante do processo construtivo, uma vez que, se as etapas não forem bem conduzidas, ou forem até inexistentes, não é avaliado de forma realista o nível de risco existente e as medidas de prevenção adoptadas, decorrentes do processo de decisão, não serão devidamente seleccionadas e aplicadas.

1.2. Caracterização Sumária do Local (Caso de Estudo)

Os trabalhos decorreram na barragem de Maranhão, localizada no concelho de Avis e distrito de Portalegre.

Esta infraestrutura está implantada na bacia hidrográfica do rio Tejo, na Ribeira de Seda e foi concluída no ano de 1957, tem uma capacidade de 205,4 hm³, com uma área de 1960 ha. Possui uma capacidade de descarga máxima de 1600 m³/s. O comprimento do coroamento é cerca de 204 m, com um volume de aterro de 592.000 m³ e uma altura acima do terreno natural de 55 m.

Possui uma central hidroeléctrica com um grupo gerador que produz em ano médio 13,1 GWh. Para além da produção de energia a barragem é utilizada para actividades desportivas e de lazer.

A empreitada em análise, desenrolou-se em três grandes áreas: Zona W, Zona Central e Zona SE (figura 1). Neste artigo, o enfoque incidirá sobre os trabalhos realizados na zona Central, cujas características seguidamente se apresentam:

• Na zona central da escavação, isto é, do lado Sul, verifica-se a acumulação de materiais desmoronados em toda a superfície do talude, desde o topo da boca do descarregador em betão até à crista;

• Os materiais indicados incluem blocos de grande dimensão, tendo, aparentemente atingido uma posição de equilíbrio (a inclinação do talude nesta zona é da ordem de 1/1).

• No entanto considera-se que este equilíbrio é apenas aparente pois face à ocorrência de chuvas muito intensas pode verificar-se o amolecimento e perda de resistência dos materiais e o seu deslizamento para o poço do descarregador, uma das situações mais críticas observadas.

Figura 1 - Vista Aérea do Descarregador 2. Materiais e Métodos

2.1. Objectivo do Estudo

Com este artigo pretende-se dar a conhecer um caso prático e efectivo, capaz de contribuir com as boas práticas para a melhoria das condições de SST no sector da construção e, de alguma forma, contribuir para a redução do número de acidentes que se verificam neste sector de actividade.

Esta empreitada compreendeu várias actividades nas três grandes áreas, mas optou-se pelo estudo da tarefa de “escavação e demolição parcial dos blocos soltos no talude” por esta apresentar após a aplicação da metodologia de avaliação de risco utilizada na empresa, níveis de risco críticos de exposição dos trabalhadores, devido sobretudo á dificuldade de estabilização das máquinas, probabilidade de queda em altura dos operadores e o risco de queda em altura de partes do talude (por desprendimento).

2.2 Projecto de Estabilização

No planeamento e desenvolvimento desta empreitada foram consideradas as seguintes actividade principais:

• Desmatação, corte de árvores e decapagem (crista do talude); • Colocação de guarda corpos (base do talude);

• Escavação e demolição parcial dos blocos soltos no talude; • Desmatação e limpeza do talude;

• Pregagens (perfuração, colocação dos varões em aço e injecção); • Aplicação de betão projectado.

O nosso enfoque incidirá na tarefa de “escavação e demolição parcial dos blocos soltos no talude alvo existentes na zona Central”, devido aos níveis de risco de exposição avaliados (Tabela 1).

Tabela 1 - Análise de Tarefas

Tarefa Analisada: Escavação e demolição parcial dos blocos soltos no talude Retirar de forma controlada os materiais soltos existentes no talude

(evitar a queda de materiais para o poço, devido a fenómenos de instabilização do tipo toppling ou por deslizamentos planares).

Factores

Humanos Tecnológicos Factores Organizacionais Factores Adoptadas Práticas Condições

ambientais

Tempo Seco Sequência dos

trabalhos Início a partir do topo do talude Definição prévia dos pontos de fixação para

ancoragem dos cabos de segurança da escavadora

A escavadora, comandada à

distância Colocação de varões em aço de Ø 32mm, cravados (1,20m) e selados na rocha, afastados cerca de 15m da crista do talude. A escavadora é comandada à distância, sem operadores ou trabalhadores no seu raio de acção Escavadora giratória robotizada de lagartas com 4,3t (1) Isolamento da área de trabalhos

Impedir a execução de outras tarefas, quer acima quer abaixo do nível de acção da

escavadora

(1) No apoio a esta actividade foram ainda utilizadas duas auto gruas de 60t e 80t, equipadas com contentores de 6m³, para remoção dos solos.

2.3 Execução da Empreitada

Os trabalhos iniciaram-se com a instalação prévia dos pontos de fixação para ancoragem dos cabos de segurança da escavadora, ao longo da zona da sua intervenção no talude e a linha de vida (Figura 2 e 3). Diariamente, antes de iniciar a jornada, foram verificadas as condições de operação das máquinas e equipamentos de forma a garantir as prescrições mínimas de segurança e saúde dos trabalhadores. Os manobradores da grua e da escavadora possuíam rádios de comunicação no sentido de poderem executar a actividade de forma coordenada. A escavação e demolição parcial dos blocos soltos no talude, iniciou-se com o desenvolvimento da actividade propriamente dita, com a escavadora robotizada a intervir ao longo de toda a zona central, de cima para baixo (Figura 4, 5, 6 e 7).

Todos os resíduos e materiais foram colocados nos contentores (suportados por autogruas) e, posteriormente depositados em local próprio, fora da zona de intervenção (Figura 4).

Figura 2 - Linha de vida da giratória robotizada Figura 3 - Ancoragem da giratória robotizada

Figura 4 e 5 - Escavação na Zona Central com a Giratória Robotizada

Figura 6 e 7 - Escavação com a Giratória Robotizada na base do talude (descarregador)

A empreitada de estabilização do talude do descarregador de cheias da barragem do Maranhão decorreu durante um período de três meses.

Nesta obra laboraram em média 15 trabalhadores/mês, o que perfez um acumulado de 45 trabalhadores, sendo que o pico se verificou no segundo mês, com um total 23 efectivos. Concluída a obra, registaram-se um total de 4.653 horas de trabalho, com 2.966 horas a serem realizadas no segundo mês de actividade.

3. Discussão e Resultados

Os procedimentos apresentados relativamente à execução da tarefa seleccionada de entre as várias que compuseram as actividades desenvolvidas durante as diversas fases da empreitada, podem ser consideradas boas práticas face às características da tarefa, riscos existentes, assim como, a adequada gestão dos factores humanos, tecnológicos e organizacionais visando conforto, segurança e saúde dos operadores e uma maior produtividade da empresa.

A agência europeia alerta para necessidade de adopção de boas práticas de segurança do trabalho em todas as actividades ocupacionais e enfatiza a importância a materialização dessa necessidade no sector da indústria da construção e nos respectivos sistemas de gestão de SST. Estas práticas são fundamentais para a empresa, principalmente devido a factores que ajudam a demonstrar a responsabilidade social, aumentar o valor da marca, ajudar a maximizar a produtividade e empenhamento dos trabalhadores, permitir a construção de uma força de trabalho mais competente e saudável, reduzir os gastos e encorajar os trabalhadores a ficar mais tempo. A lei que estabelece o regime jurídico aplicável à promoção da SST (Lei 03/2014, de 28 de fevereiro) refere que prevenção dos riscos profissionais deve assentar numa correta e permanente avaliação de riscos e ser desenvolvida segundo princípios, políticas, normas e programas. A mesma norma relativamente às obrigações gerais do empregador, descreve que este deve zelar, de forma continuada e permanente, pelo exercício da atividade em condições de segurança e de saúde para o trabalhador.

As estatísticas portuguesas, apesar das melhorias apresentadas sobretudo na última década relativamente à frequência e à gravidade dos acidentes de trabalho, continuam insatisfatórias e a colocar Portugal na cauda da Europa.

Por isso, muito se tem falado na prevenção como a principal arma de combate à sinistralidade laboral.

A prevenção passa, sobretudo, por uma aposta forte na formação para uma consequente mudança da mentalidade e de comportamentos com adopção de boas práticas de trabalho por todos os intervenientes aos vários níveis, entidades patronais ou gestores e colaboradores nos locais de trabalho (cultura de segurança).

No mercado actual, as condições de SST ocupam um lugar privilegiado, fazendo a diferenciação das empresas que se empenham na sua implementação. No caso específico da construção civil não faltam opções para as construtoras interessadas na implementação de uma adequada gestão de risco, não obstante o facto de muitas se escudarem nas actuais limitações financeiras.

Neste caso específico, após a implementação do procedimento de prevenção de risco é possível ajuizar que as medidas adoptadas se revelaram adequadas por reduzirem o número de trabalhadores que se encontram expostos aos riscos, físicos, de capotamento, quedas em altura, queda de objectos e, como tal, recomenda-se que as mesmas possam ser adoptadas em futuras intervenções.

4. Considerações Finais

A gestão da prevenção numa obra caso de estudo, com características muito próprias, provavelmente únicas em Portugal, o trabalho desenvolvido em conjunto entre a produção e a segurança ocupacional resultou em pleno, pois a obra foi concluída no prazo definido, gerou mais-valia do ponto de vista financeiro para a empresa e não se registou qualquer acidente de trabalho.

Para a obtenção desses resultados muito contribuiu a concretização efectiva das obrigações do empregador com a intervenção e acompanhamento permanente do departamento qualidade, produção, ambiente e SST, das condições de execução da tarefa de “escavação e demolição parcial dos blocos soltos no talude existentes na zona Central”, escolhida.

Considerando a desejável optimização do interface Homem-Máquina-Ambiente de trabalho, parece adequado e oportuno destacar a aplicação prática nesta empreitada dos seguintes princípios gerais de prevenção:

• O combate aos riscos na origem eliminando a exposição através da intervenção nos factores materiais e tecnológicos (utilização da escavadora giratória robotizada de lagartas com 4,3t);

• A adaptação do trabalho ao homem, especialmente no que se refere à escolha de equipamentos de trabalho e aos métodos de trabalho e produção agindo ao nível dos factores humanos e factores de risco ergonómico;

• A adaptação ao estado de evolução da técnica, bem como a novas formas de organização do trabalho;

• Finalmente a implementação de procedimentos e divulgação de instruções aos trabalhadores envolvidos sobre formas de operação e riscos existentes.

5. Referências Bibliográficas

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Avaliação da Qualidade do Ar Interior em Infantários e os seus efeitos

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