3 GRAÇA – AUTOCOMUNICAÇÃO LIVRE E AMOROSA DE DEUS PARA
3.1 GRAÇA: DEUS OFERECE SEU AMOR AO HOMEM
3.1.1 A graça no Antigo Testamento
No Antigo Testamento encontram-se termos equivalentes para o que se entende na doutrina da fé cristã para expressar o conceito de graça. Não há um termo equivalente específico para nomear a graça (GROSS, 1978, p. 09). A Sagrada Escritura quer apresentar a obra salvífica de Deus para o bem do povo eleito. Compreende que a graça designa a Salvação divina realizada no homem. Os textos vétero-testamentários abordam a graça na perspectiva do diálogo amoroso, salvífico e libertador.
Os termos hebraicos que mais se aproximam do significado literal de “graça”, são a forma verbal hebraica “hanam”, e seu derivado substantivo “hen”. “Hanam” designa o inclinar-se no sentido de uma magnânima dedicação. É uma ajuda concreta concedida a alguém (SESBOÜÉ, 2013, p. 230). Revelam a ilimitada bondade de Deus como sua característica essencial (Sl 136,1).
O termo “hen” é usado para designar o favor, a benevolência divina para com o homem. Significa inclinar-se em sentido físico sobre alguém. No sentido moral, traz a ideia de inclinar-se com fervor, afeto, benevolência, proteção (SESBOÜÉ, 2013, p. 230). A imagem da mãe, que se inclina sobre sua criança pequena, ilustra o termo “hen”, equivalente à “graça”. Significa que o pobre, o desvalido e pequeno, encontra proteção, alimento e segurança.
Este termo significa também o favor que o inferior espera de seu superior. A Sagrada Escritura diz que “Abraão achou graça aos olhos de Deus” (Gn 18,3). Moisés foi acolhido, amado, isto é, também ele, “encontrou graça aos olhos de Deus” (Ex 33,12). Deus mostrou-se bom e misericordioso com eles. Concedeu-lhes seu favor, sua benevolência. Na história de Israel, Deus revela-se deste modo gratuito, soberano, livre. Ele se afeiçoou por Israel e o escolheu (Dt 7,7).
Deus volta-se sobre o seu povo com graciosa inclinação. Seu amor paternal, ou maternal, é intenso. Ele é apaixonado e enlouquecido por Israel (Os 11). O termo “rahamim” (compaixão maternal), derivado de “rehem” (colo materno) significa o amor extremado e
incondicional Dele pelo ser humano (SCHNEIDER, 2012, p. 16). Designa a infinita ternura divina que atrai o homem para oferecer-lhe seu amor e salvação.
O termo “hesed” é usado como equivalente à graça. Este termo expressa com muita propriedade a ação de Deus em favor do povo. Designa a bondade, o amor, a misericórdia, a fidelidade inquebrantável de Deus. Ele é plenamente fiel. Seu amor é incondicional e imutável (Dt 7,9; Sl 89, 29; Is 55,3). Ele se desdobra em favor do povo, e lhe oferece gratuitamente ajuda e Salvação. Apesar da infidelidade do povo, seu perdão não cansa de reerguer e renovar o pecador. Ele é um “Deus misericordioso e compassivo, lento na cólera, rico em bondade, e em fidelidade” (Ex 34,6). Ele estabelece uma aliança eterna com seu povo (Dt 5,10; 7, 9.12).
O vocábulo “hesed” tem aspecto essencialmente comunitário. Designa o relacionamento ético-religioso. Somente pela vinculação pessoal com o povo é que se pode esperar e receber o “hesed”. Pertence ao âmbito da aliança, do juramento, da promessa (GROSS, 1978, p. 15). A misericórdia divina é derramada sobre aqueles que estão abertos e comprometidos com o plano divino, para realizar neles renovação e restauração.
A realidade da graça no Antigo Testamento tem conotação dinamicamente salvífica. A primeira oferta salvífica divina como graça consiste em sua ação criadora. Através de Abraão, a Revelação e comunicação divina se configura no pacto da aliança (Gn 12, 1-2). Esta aliança terá sua culminância e consumação nos tempos messiânicos, onde acontece o auge da Revelação. A aliança será definitivamente selada com o sangue Redentor do Filho de Deus (FERNÁNDEZ, E JARNE, 2004, p. 540).
A graça divina manifesta-se nos acontecimentos históricos. Os capítulos 63 e 64 do profeta Isaias, bem como o Salmo 136, apresentam a ação salvífica, libertadora e amorosa de Deus, na história do povo. Especialmente o livro do Êxodo mostra a paternal e libertadora ação de Deus na vida concreta. Ele se revela como Protetor e guia. Sua benevolência e ternura cercam de cuidados à Israel.
Ele vê a situação de escravidão e sofrimento (Ex 1,8-14). Chama e envia a Moisés para libertar seu povo (Ex 3,7-12); convida-os para a celebração festiva da Páscoa (Ex 12,1- 14); liberta-os do Egito (Ex 13,17-22). Salva-os milagrosamente abrindo o mar vermelho (Ex 14,15-31); conduz seu povo pelo deserto, e os sacia com águas abundantes e refrescantes (Ex 15,27; 17,1-7) e os alimenta (Ex 16,4-21). Faz com eles uma aliança (Ex 19,16-20; 20,1-21); renova com eles a aliança por terem se afastado de Deus, fazendo o bezerro de ouro (Ex 32,1- 6; 34, 10-35); os conduz através de uma nuvem (Ex 40,36-38) e os introduz na terra prometida (Js 1,1-5).
A tradição Javista-Eloísta no texto referente a promessa de Deus à Abraão, (Gn 12,1- 3), apresenta a bênção divina, que inclui eleição, orientação, guia, amparo e amizade de Deus para com seu eleito. Deus promete-lhe multiplicar a vida. As promessas de bênçãos feitas aos patriarcas se especificam na promessa de posteridade e de posse de terra. A promessa de Deus exige a fé (Gn 15,6). O eleito precisa se abrir ao apelo de Deus e lhe entregar toda a vida (PFAMMATTER, 1978, p. 10). As promessas da manifestação da misericórdia divina exigem o temor reverencial e a completa submissão à Ele (Gn 22,12).
Pode-se ver nesses textos das bênçãos divinas prometidas a manifestação da realidade da graça divina. Deus concede seus favores para Abraão e o povo eleito (Gn 15; Gn 17,1-14; Ex 19,3-8; 24,3-8).
Os textos de Gn 1-11 mostram a meta da obra salvífica divina. Deus concede ao homem inúmeros favores. Deixa-o numa posição privilegiada na criação. Faz com que ele possa gozar de imensa beleza, harmonia e prazeres. Oferece-lhe sua amizade íntima. Proporciona-lhe a comunhão feliz com Ele. Não obstante toda a riqueza oferecida por Deus, ele se recusa a viver na paz dos dons divinos. A fidelidade de Deus é inquebrantável, e novamente lhe oferece a possibilidade de participar dos dons divinos (GROSS, 1978, p. 11).
Esse conjunto de capítulos do Gênesis atesta que Deus cumula o homem de favores, e mesmo em sua infidelidade, não se cansa de perdoar-lhe, e renovar sua aliança com Ele. É a realidade da graça, que na história salvífica se manifesta como dom amoroso, gratuito e incondicional de Deus ao homem.
O livro do Deuteronômio apresenta vários textos onde Deus cerca de carinho e cuidado ao seu povo (1,31; 7,7-8; 14,2; 32,10-14). Ele espera que seu povo se abra ao seu amor. A eleição divina, totalmente gratuita e imerecida, situa Israel numa comunhão pessoal e estreita com Deus. Ele, cheio de misericórdia, se inclina sobre seu povo amado. Espera a resposta pessoal do homem. Ama-o infinitamente e quer ser amado (GROSS, 1978, p. 11).
A realidade da graça perpassa estes textos. A aliança divina é firmada e sustentada sobre ela. Ele a renova continuamente. Não desiste deles, mesmo com a indiferença e rebeldia.
Os profetas também insistem no amor extremado de Deus ao seu povo amado (GROSS, 1978, p. 11). O profeta Oséias usa a imagem esponsal para se referir ao amor divino incondicionado: “Eu te desposarei a mim para sempre, na justiça e no direito, no amor e na ternura” (Os 2,21). Fica evidente que a relação de Deus com seu povo se caracteriza por uma comunhão amorosa pessoal. Trata-se de uma dedicação maternal, apaixonada, e ilimitada de Deus. Oferece-lhe a renovação da aliança (Os 2,16-25).
O profeta Isaías utiliza a imagem da ternura e do desvelo de Deus ao povo (Is 49,15). Fala das promessas messiânicas ao seu povo (Is 9,1-6; 11,1-5). Enviará seu servo para realizar a libertação, a redenção e a salvação do seu povo (Is 42,1-7). Em outro texto, Isaías mostra a vitória do amor de Deus sobre o pecado e o fracasso humano (Is 54,4-8). Utilizando uma linguagem de extrema amor, bondade, delicadeza, ternura e compaixão, Isaias mostra Deus se derramando em graça por seu povo.
Jeremias se refere à ilimitada benevolência de Deus ao seu povo, expressando o seu perdão total: “Porque vou perdoar sua culpa, e não mais me lembrarei do seu pecado” (Jr 31,34). Fala da nova aliança que Deus estabelecerá com seu povo, mais estreita e mais íntima, pois gravará sua lei em seu coração (Jr 31,33).
O profeta Ezequiel fala de um futuro brilhante e salvífico para o povo. Deus mesmo se desvelará de cuidados e será o seu pastor (Ez 34,11-24). Ele fala também de uma nova comunhão salvífica de Deus com o povo, onde Ele lhes dará um coração novo, “de carne”. É o coração transformado pela graça, onde o homem se torna mais humano, dedicado e solícito com seu Deus (Ez 36,24-28).
Estes textos proféticos seletos confirmam de maneira surpreendente, que Deus concede sua vida ao povo. Chama-o à comunhão íntima, profunda e amorosa com Ele. Nota- se que “a graça não é qualquer dom conferido por Deus aos homens, mas constitui-se na própria ação salvífica Dele” (GROSS, 1978, p. 13).
Os salmos usam abundantemente o termo hebraico “hesed”. É uma chuva do amor divino sobre seu povo. O salmo 33 afirma “A terra está cheia do amor de Deus” (Sl 33,5). No salmo 32, há a afirmação do seu desvelo “O amor envolve quem confia em Deus” (Sl 32,10). Na criação e na condução da história salvífica do povo eleito, Deus o cerca de cuidado e ternura. O refrão da ladainha do salmo 136 repete: “Porque o seu amor é para sempre”.
O salmo 32 apresenta a alegria e a paz gerados pelo perdão divino; “Feliz aquele cuja ofensa é absolvida e o pecado é perdoado” (Sl 32,1). No salmo 50, o salmista suplica o auxílio divino ao homem para libertá-lo de sua fraqueza e infidelidade. Pede um coração puro, perseverante e fiel a Deus. “Só assim poderá o homem enfrentar radical e eficientemente o perigo da infidelidade e do pecado” (GROSS, 1978, p. 13). É o reconhecimento da necessidade da graça divina para prevenir-lhe toda queda no pecado, e para conceder-lhe o perdão, a paz, e a vida nova. Afirma que a graça é o auxílio divino indispensável à salvação.
Depois da Septuaginta, a literatura judaica passou por uma evolução semântica do termo graça. Passou-se ao conceito da graça como realidade em si, unida ao conceito de justiça. Desta forma, a visão graça como disposição pessoal cedeu lugar a um “estado” de
humanidade. Torna-se presente a noção de recompensa aos eleitos. Esta literatura mostra claramente graça como uma recompensa ao justo (Eclo 32,16; Sb 3,9; 4,14). Passa a indicar a Salvação futura (SESBOÜÉ, 2013, p. 231).
No período da Diáspora a graça aparece relacionada à sabedoria criadora. Deus cria com sabedoria (Pr 3,19). Há uma associação da ação criadora e salvífica de Deus (graça) à sabedoria, enquanto antes mesmo de outra criatura. Ela preexiste às coisas (Eclo 24,5-9.10). Neste contexto ela é apresentada como princípio racional e norma ética.
Há uma identificação dela e com Lei (Torah). Mais claramente o livro dos Provérbios (8,22-31) apresenta esta personificação da sabedoria, agora identificada com a Torah. Ela é apresentada como Revelação de Deus
Ela torna-se então Revelação de Deus, que ultrapassa a sabedoria dos gregos, embora os gentios participem dela. Trata-se do mistério escondido, que vai sendo revelado. Deus revela-se a Abraão, “o justo pela fé”, o elege e faz uma aliança com ele. Ele se torna modelo de conversão, eleição e justificação (SESBOÜÉ, 2013, p. 231). Nele manifesta-se a bondade divina que inspira outros a acolherem a oferta livre e amorosa do Senhor.