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3 GRAÇA – AUTOCOMUNICAÇÃO LIVRE E AMOROSA DE DEUS PARA

4.2 UMA RELEITURA ATUALIZADA DO PECADO ORIGINAL

A Patrística e a Escolástica trataram da compreensão do estado da justiça original como uma experiência vivida no início pelo primeiro casal, onde eles gozavam de uma possessão do dom da graça e de outros privilégios (os dons preternaturais) (LA PEÑA, 1991, p. 160). Desta forma, estavam protegidos de experiências negativas. Desfrutavam a pureza e a inocência desta condição. Estavam poupados dos sofrimentos inerentes à condição humana, como morte, ignorância e tendências desordenadas.

Isto era compreendido como se tivesse sido realizado dentro de uma existência histórica, num lugar geográfico preciso. No entanto, esta visão não foi referendada pelo Magistério (LA PEÑA, 1991, p. 160). Acolheu-se as intuições teológicas da justiça original, mas não se definiu o modo como se processou esta situação do homem.

O diálogo da teologia com as ciências da natureza possibilitou a revisão da compreensão de posições tradicionais dos temas do paraíso, dos dons preternaturais, do sujeito do pecado originante. A imagem clássica dos primeiros homens se baseia numa concepção anti-evolucionista com relação à origem da raça humana. A imunidade da concupiscência que existia antes da queda, e a concupiscência que existe depois da queda,

pode ser explicada não propriamente na relação entre alma e corpo, mas na relação da liberdade humana com o mundo (SCHOONEMBERG, 1972, p. 348).

Deus, ao criar o ser humano, já lhe concedeu sua graça e a oferta gratuita de Salvação, e quis que ele participasse de um processo de divinização. A realidade do paraíso não é de ordem espaço-temporal, ou geográfico-histórica, mas de ordem simbólica (LA PEÑA, 1991, p. 161).

Deus, não cria o homem, e num segundo momento, decide elevá-lo à comunhão divina. O homem, já é criado por Ele, para ser divinizado. A situação originária do homem é situação de graça. A história salvífica não se inicia por causa, ou depois do pecado de Adão, mas com a vontade agraciante de Deus. O estado de justiça original do homem significa que desde sua origem ele foi criado com uma vocação sobrenatural de filho de Deus.

O Novo testamento revela o desígnio primordial divino de Adão. A encarnação não é para recuperar uma situação deteriorada ou perdida. Não se trata primeiramente de um mistério de redenção e reconciliação, mas de divinização do homem. O paraíso é símbolo do Verbo Encarnado, conforme Paulo afirma “por Ele e para Ele fomos criados” (Col 1,16).

Um dos efeitos do pecado original, foi ter provocado no homem a perda dos dons preternaturais. Assim, a imortalidade do homem inocente recebeu com a queda original a penalidade de morte, ou seja, a morte é pena do pecado. Pode ser concebida a imortalidade antes da queda, como uma ausência da morte biológica, de sorte que a necessidade da morte foi imposta à estrutura biológica do homem somente depois da queda? Tornas-se muito difícil de entender esta afirmação da doutrina clássica do pecador original. Como a queda causaria uma modificação tão impactante na natureza humana isentando-a na esfera biológica da lei da morte? Contra esta visão, se insurge a concepção evolucionista, que vê no início da humanidade uma predominante dimensão biológica no homem, uma estreita afinidade com os animais. A doutrina clássica do pecado original sobre a morte, pode ser interpretada antropologicamente de outra maneira: como uma despedida necessária que o homem prevaricador precisa fazer do mundo, para libertar-se da escravidão da concupiscência, e voltar-se para Deus (SCHOONEMBERG, 1972, p. 349).

Ora, a morte em si é algo religiosamente neutro, biologicamente compreensivo, necessário. No entanto, em sua dimensão pessoal-existencial ela se reveste de significado: é experimentada pelo homem pecador como algo angustiante.

No estado inocente o homem a experimentava como abertura à graça, e, portanto, de forma transformante, pascal, um mergulho em Deus. O batismo, que apaga toda culpa e toda

pena devida ao pecado, não evita a morte física, mas associa o homem à morte de Cristo. Nele a morte é vencida.

Outro dom preternatural que gozava o homem em seu estado de inocência, é a integridade, ou a imunidade à concupiscência. No estado de justiça original, o homem possuía a capacidade para a perfeita posse de si mesmo (SHOONEMBERG, 1972, p. 256). A concupiscência afetou o livre-arbítrio, não anulando, mas debilitando-o. Ela dificulta no homem a decisão para o bem e o inclina ao mal. O Concílio de Orange afirma que a concupiscência “não deixou ilesa a liberdade” (II CONCÍLIO DE ORANGE, 529, apud DENZINGER – HÜNERMANN, 2007, n. 371).

A concupiscência é a tendência apetitiva, espontânea e indeliberada, que precede, ou vai contra aos ditames da razão e da decisão livre da vontade. Provoca uma dolorosa divisão no interior do homem.

Na versão Rhaneriana, há no ser humano uma distância entre o seu projeto e a realidade. Portanto, na versão Rahneriana da concupiscência, permanece no homem uma dificuldade de integrar o natural e o pessoal na opção por Deus. A ação da graça no homem fortalece sua liberdade, e o leva a decidir-se firmemente na prática do bem. Exige luta contínua, porém, com a força da graça que brota da cruz, experimenta-se a vitória sobre o pecado. O desígnio divino mostra uma estreita relação entre a natureza e a graça. Ela penetra e transforma a condição humana (LA PEÑA, 1991, p. 172).

Os dons da imortalidade e da integridade não são privilégios exclusivos desfrutados no início da história. Podem ser experimentados hoje pelo homem, desde que busque uma comunhão vital com Deus. Brotam do auxílio da graça, que os concede a partir da liberdade, a quem busca pelo ato de fé, entrar na comunhão divina. Como a graça coexiste com o pecado, a imortalidade e a integridade estão constantemente ameaçadas pela morte e a concupiscência e exigem árduo combate para serem superadas.

Entre a criação do ser humano e sua existência atual e concreta, algo no homem fez com que ele se tornasse pecador, pois Deus não cria pecadores. Os efeitos do pecado original provocaram debilidade e desordem no homem. Ele necessita da graça redentora de Cristo para recuperar sua condição original.

Não se pode atribuir a Adão, como singular personagem histórico, a causalidade universal do pecado. Ele pode ser entendido como uma mediação falida da liberdade humana oposta a Deus, que ao fazer o homem partícipe do seu ser, confere-lhe a graça divinizante, respeitando sua estrutura ontológica (LA PEÑA, 1991, p. 177). Esta recepção do dom divino,

ou esta mediação humana (Adão) falhou, e assim se compreende a história do pecado original. Há três concepções sobre o modo de se conceber o pecado originante.

A resposta do monoculpismo, é que o primeiro pecado da história basta para constituir o pecado originante. Esta tese sustenta que sendo a humanidade surgida de um processo evolutivo a partir de organismos inferiores, necessariamente ela passou por uma fase de amadurecimento antes de alcançar seu estado atual (LA PEÑA, 1991, p. 178). Nesta evolução histórica, tendo o homem alcançado o domínio de suas faculdades espirituais, deveria ter avançado ao nível sobrenatural, conforme o fim que Deus lhe havia criado. A oposição ao plano divino é o ponto crítico da evolução. Há uma ruptura. O ato culpável do homem, que havia alcançado capacidade de resposta livre, bloqueia o processo de efetuar um avanço qualitativo na evolução rumo ao sobrenatural. Este primeiro pecado da humanidade, que deveria ser função mediadora da graça, ocasionou a história do pecado.

Para o policulpismo, não é o primeiro pecado que desencadeia na história a sua herança, mas o conjunto das ações pecaminosas é que provocam sua extensão universal. O primeiro pecado não influencia de forma direta e imediata sobre cada ser humano, mas os pecados próximos se amplificam e acabam exercendo efeito sobre ele (LA PEÑA, 1991, p. 180).

A terceira opinião, atribui o pecado originante à concausalidade do primeiro pecado e dos restantes. O monoculpismo e o policulpismo não são antinômicos, mas complementares. Acontece um movimento crescente, onde o primeiro pecado histórico se soma aos outros subsequentes, e assim, a ação pecaminosa se acentua sobre cada homem, gerando nele esta raiz causadora e dominadora sobre sua natureza, que é o pecado original (LA PEÑA, 1991, p. 181).

Alguns elementos são comuns na compreensão do pecado original: uma situação negativa diante de Deus; esta situação é proveniente de uma ação pecaminosa; é anterior à própria decisão; está presente em todo gênero humano.

As teorias tradicionais acerca do pecado original, apresentam uma antropologia subjacente, que vê o homem como natureza. É uma concepção estática e conservadora da realidade. Apregoa o monogenismo (LA PEÑA, 1991, p. 185). Vê apenas o aspecto físico- biológico como mecanismo de transmissão. Ora, o homem é uma realidade dinâmica. Ele se configura e se constrói histórica e culturalmente. A estrutura histórica e social humana afeta também a ordem sobrenatural. A comunidade humana tem papel ativo na elaboração de sua personalidade e consciência. O homem alcança a Salvação e experimenta a graça, exerce a liberdade a partir da realidade e condicionamentos que o rodeiam. Ele vive numa comunidade

que exerce sobre ele uma influência decisiva (LA PEÑA, 1991, p. 187). Ela pode ser resistente e opaca à graça. Dessa forma o homem pode ser negativamente afetado em sua opção de adesão à graça.

A pertença a esta comunidade, que é pecadora, provoca no indivíduo, ao fazer sua opção pessoal, uma incapacidade de se abrir à graça e fazer o bem. Ele se sente incitado ao pecado pessoal. Há uma situação objetiva de degradação, de propensão ao mal, que acarreta nele uma debilidade em fazer o bem, em optar pela santidade. O pecado original emerge e se faz presente no pecado pessoal.

A irrupção da graça, dom gratuito de Cristo, vem em auxílio do homem, que se encontra num estado de incapacidade para obter a Salvação. De modo ordinário, pelo batismo, ela lhe concede um novo nascimento, e o regenera. Dá-lhe o influxo necessário para que ele se liberte da influência nefasta do pecado, contraído através de sua pertença à comunidade humana.

O pecado está no âmbito do pessoal, não do natural. Caracteriza a relação do homem com Deus. Neste sentido, expressões como “pecado natural”, “pecado hereditário”, são inapropriadas. Não é certo considerar o pecado original desligando-o do pecado pessoal. Ao nascer, todo ser humano é pecador em potência, pois nele está em germe, em estado de latência a realidade do pecado (LA PEÑA, 1991, p. 191). Só a graça pode mudar esta condição. Pode torná-lo capaz de ser livre (Gl 5,1).

O homem é essencialmente um ser social e pessoal. Enquanto ser social,a liberdade é situada, condicionada, e determinada pelo meio em que nasceu e foi educado. Sendo um ser pessoal, sua liberdade é autônoma e responsável.

A culpabilidade do homem só é possível devido à sua natureza social. Não é pela prática das obras, ou somente pela força do seu livre arbítrio que ele é salvo. Ele precisa cultivar relacionamentos.Por meio das relações humanas ele é tocado em sua estrutura essencial e íntima, e realiza a experiência da graça como dom que o salva (LA PEÑA, 1991, p. 194). A liberdade humana é suscitada e sustentada pela graça, pois somente na ação salvífica de Cristo é que se pode falar em pecado de Adão.