3 GRAÇA – AUTOCOMUNICAÇÃO LIVRE E AMOROSA DE DEUS PARA
4.4 RELAÇÕES ENTRE JUSTIFICAÇÃO E SANTIFICAÇÃO
4.4.1 O homem justificado continua simultaneamente justo e pecador?
Reside uma controvérsia na afirmação que no homem justificado coexiste a justiça e o pecado. Lutero insistiu em toda a sua atividade doutrinária neste postulado. Afirmava que Deus não debita ao homem seu pecado, e o tem como justo, mas ele continua pecador (PESCH, 1978, p. 105).
Para a visão Luterana, o homem é ao mesmo tempo justo e pecador, no sentido de que é justo porque lhe é aplicada a justiça de Cristo, e pecador porque não ama total e verdadeiramente a Deus. Deixa-se prender pelo pecado. O pecado não lhe acarreta condenação. O homem justificado precisa lutar diariamente para vencer as inclinações do pecado. Deve buscar continuamente o arrependimente, a conversão e o perdão divino.
A teologia católica não corrobora com esta expressão luterana como formulação dogmática definitiva. Ela entende que a vida de santidade pessoal engloba a luta contra o pecado, como no exemplo dos santos, que se consideravam grandes pecadores. O Concílio de Trento afirma que a justificação representa uma “santificação e renovação do homem interior pela aceitação voluntária da graça e dos dons, pelos quais o homem de injusto se torna justo” (DECRETO SOBRE A JUSTIFICAÇÃO, 1547, apud DENZINGER – HÜNERMANN, 2007, n. 1528). Não pode, portanto, ser tido como pecador. Afirma que o Batismo apaga os pecados, e o que a inclinação pecaminosa que permanece no homem não é propriamente pecado. É proveniente ao pecado e tende a ele, mas não separa o homem de Deus. A suspeita da igreja é que a tese de Lutero não considere a nova criação no homem operada pela graça.
Estas posições que aparentemente são inconciliáveis se harmonizam se aplicar uma correta interpretação da visão de Lutero. Ele entendia que o homem justificado seria durante toda a vida “em parte justo e em parte pecador e “pecador na realidade e justo em esperança” (PESCH, 1978, p. 106).
Entende-se a partir disso que toda renovação e santificação substancial procedente da justificação será sempre fragmentária. O homem, mesmo tendo sido justificado, isto é, absolvido do pecado, e empenhando-se nas boas obras, jamais atingirá um nível de acordo com a santidade da vontade de Deus.
Não obstante todo esforço de santificação, persistirá a necessidade de ser perdoado por Deus, porque é tornado santo pela graça, mas em sua natureza permanece a inclinação ao pecado. Portanto, o homem necessita do auxílio divino para perseverar no caminho de santificação. Neste sentido, o Concílio de Trento formulou esta necessidade do auxílio divino
para a perseverança na prática do bem. (DECRETO SOBRE A JUSTIFICAÇÃO, 1547, apud DENZINGER – HÜNERMANN, 2007, ns. 1536 e 1541).
Quanto ao ser justo na esperança, significa que, embora o homem continue pecador, ele espera e confia que obterá de Deus a plenitude da justiça. Analisado deste modo, fica devidamente claro que no entendimento luterano e católico, a justificação operada no homem, deixa nele a necessidade e a responsabilidade de implorar ajuda de Deus para perseverar na fé (PESCH, 1978, p. 106). Suas forças pessoais são insuficientes para perseverar em sua fidelidade a Deus. É sempre a graça que inicia, sustenta e consuma nele a obra da justificação. O pecado é uma rebelião contra Deus para obter autonomia. A justiça é a relação que Deus institui com o homem por iniciativa própria e contra o pecado do homem (PESCH, 1978, p. 107). Mesmo permanecendo no homem a inclinação egoísta, Deus permanece fiel e oferece continuamente o perdão ao pecador.
Pela justificação o pecador é recriado pela graça. Ele passa a confrontar sua fé com seu pecado, e experimenta a ação da graça divina, que prontamente lhe oferece força para saná-lo e sustenta-lo. O mesmo sujeito permanece justo e pecador, e estas duas realidades não se auto- excluem, pois, são consideradas sempre em relação à pessoa do pecador e não como propriedades.
O homem justificado continua inclinado ao pecado. Ele se torna capaz de radical fidelidade à Deus através da prática das boas obras e de expressar um amor perfeito a Deus e a outros em virtude da graça de Deus. Ao mesmo tempo permanece nele a prática de atos pecaminosos (PESCH, 1978, p. 107).
Para a visão católica a inclinação para o pecado não é pecado em si, se o homem não consentir. Esta inclinação ao pecado permanece no homem após a justificação como decorrência de sua natureza decaída. Lutero entende que a inclinação ao pecado consiste numa permanente e arraigada renitência do homem contra Deus. Ele acha impossível o homem ser ao mesmo tempo transformado pela graça e a permanência desta hostilidade contra Deus. Para Lutero a concupiscência não é algo acidental no homem, mas a sua própria realidade. O seu coração e sentidos continuam maus (PESCH, 1978, p. 107). Sua visão é pessimista. Considera que o homem é pecador em sua essência.
A teologia católica atual provocou uma reviravolta nesta questão ao compreender o conceito de concupiscência atualizando a forma como era entendida na teologia medieval. A conceituação filosófico-antropólógica da Escolástica representava a concupiscência como algo a girar em torno do homem, um acidente, não sua substância. A natureza do acidente pode, no entanto, manifestar a substância. De tal forma que a inclinação para o pecado
manifesta o ente humano, avesso a Deus, tanto antes como depois de ter infundida nele a graça do perdão (PESCH, 1978, p. 108). A graça desperta e fortalece no homem o combate ativo e intenso contra o pecado, mas permanece nele a renitência contra Deus.
A igreja se posiciona contra a teologia reformista que via na justificação apenas a não imputação da culpa ao homem. Afirma que “a justificação opera no homem não apenas o efeito da remissão dos pecados, mas também a santificação e a renovação interior”. (DECRETO SOBRE A JUSTIFICAÇÃO, 1547, apud DENZINGER – HÜNERMANN, 2007, n. 1528). Mediante o livre acolhimento da graça realiza-se nele uma verdadeira e profunda transformação. Através da fé, Cristo realiza no homem o cancelamento, a absolvição de sua culpa. Além disso, infunde nele a disposição e a capacidade para realizar as boas obras.
Jesus Cristo opera no homem a santificação, que é um efeito da justificação. Santificar equivale a consagrar, isto é, converter-se em propriedade de Deus. Sua consciência e vontade se tornam inteiramente oferecidas a Deus. Ele é justificado, pois seus pecados são apagados, absolvidos. É santificado, isto é, seu ser se torna disponível para a ação da vontade divina (AUER E RATZINGER, 1975, p. 122).
A santificação se manifesta especialmente através do batismo. Por ele, o homem é associado, ao Mistério de Cristo e participa de sua vida nova (1Cor 6,11). João usa para esta realidade da vida nova em Cristo a linguagem do “nascimento”. Fomos nascidos de Deus (Jo 1,12-13). Paulo se refere ao efeito do batismo como “nova criatura”, ou seja, o homem renovado pela inserção em Cristo (Gl 6,15; 2Cor 5,17). Ele fala do efeito batismal como a incardinação sacramental em Cristo e em sua obra redentora (Rm 6,2-11). No batismo, o cristão recebe os frutos da vitória de Cristo. Nisto consiste a tarefa da vida cristã: formar em sua existência aquilo que já é misticamente, conformar a vida à realidade viva do Mistério de Cristo que habita nele (AUER E RATZINGER, 1975, p. 122).
A diferença entre inclinação e consentimento tem seu lugar no esforço ético concreto, mas se desfaz no plano orante e espiritual. O santo que se considera grande pecador não está apenas expressando um piedoso exagero. Está reconhecendo limpidamente a consciência de que nele é real e viva a realidade do pecado, que embora não consentido, está latente e o provoca. Só pela graça é que poderá estar livre (PESCH, 1978, p. 108).
Mesmo uma pessoa tendo acabado de receber a absolvição do sacramento da penitência, ela jamais poderia rezar dizendo que é justa diante de Deus. Na oração não se pode considerar a inclinação para o pecado como mero e insignificante “resto de pecado”, ou que fosse algo meramente acidental. Trata-se de quanto é difícil optar por Deus. Visto desta
forma, há um consenso fundamental entre a posição de Lutero e a tradição católica sobre a permanência do pecado no homem justificado (PESCH, 1978, p. 108).
4.5 A DIVINIZAÇÃO
A divinização do homem constitui uma temática fundamental da patrística, especialmente da grega. A reflexão teológica sobre a divinização do homem busca entender e esclarecer que ele é chamado a participar da vida de Deus, entrar em comunhão de amor com Ele. Isto não significa que a natureza humana se confunda ou se dissolva no Misério de Deus. O homem, ao participar da natureza divina, conserva sua identidade. Não se despersonaliza. Ele passa a ser enriquecido com os dons divinos. Desenvolve e amadurece a autonomia, torna-se plenamente ele mesmo. Realiza a aspiração e as potencialidades inerentes a sua natureza. Não há uma fusão com o divino no sentido de que o homem seja anulado, ao contrário, ao ser divinizado, o homem assume a verdadeira identidade e vocação do seu ser. Não há uma mutação ontológica, como se ele se tornasse como Deus. A divinização do homem não significa que ele perca a identidade ou a condição da natureza humana.
Suas diversas formas aparecem somente a partir de Clemente de Alexandria. Os termos latinos equivalentes “deificare” e “deificatio”, somente no século V obtém modesta importância. Há inúmeras palavras gregas e latinas que atestam esta realidade, como: “aphtarsia”, “methexis”, “koinonia”, “henosis”, “glorificatio” (STUDER, 2002, p. 418).
A tradição bíblica, especialmente a literatura sapiencial, paulina e joanina, oferecem base para que a reflexão sobre a divinização vá sendo desenvolvida. Em primeiro momento os Padres apostólicos e apologista gregos viam a íntima união com Deus numa perspectiva escatológica, pondo em relevo o dom divino da imortalidade, assegurado pela Ressurreição de Jesus e pela Eucaristia e conferido na parusia do Senhor (STUDER, 2002, p. 418).
A teologia paulina e joanina da graça falam da participação do homem na vida divina. Alguns textos paulinos afirmam a comunhão vital do crente com Cristo (1Cor 1,9; 10,16; 2Cor 13,13). Também o corpus joanino emprega esse mesmo sentido. Aquele que crê entra em comunhão com o Pai e o Filho (1Jo 1,3; 4,15). É a mesma vida que o Pai deu ao seu Filho, e Ele a comunicou àqueles que Nele crêem (1Jo 5,11).
Até então os cristãos não haviam elaborado uma reflexão teológica sobre a Encarnação do Verbo Divino. Somente nos séculos seguintes isto será realizado. Num ambiente profundamente influenciado pelo platonismo, a antropologia grega será influenciada por este