1.3 Teoria do Grau
1.3.2 Grau m´ odulo 2
Proposi¸c˜ao 1.3.9. Sejam X e Y variedades suaves de mesma dimens˜ao, onde X ´e uma variedade compacta com f, g : X → Y fun¸c˜oes suaves. Ent˜ao existe y ∈ Y tal que y ´e valor regular para f e g.
Demonstra¸c˜ao: Pelo teorema de Sard, existe z valor regular de f em Y. Pela demons-tra¸c˜ao da proposi¸c˜ao 4.4.15, existe V aberto tal que z ∈ V ⊆ Tr
i=1f(Ui) onde f|Ui ´e um difeomorfismo com Ui vizinhan¸ca aberta de pi em X e f(Ui) =Vi aberto de Y com Ui’s dois-a-dois disjuntos. Onde vale que para todo w ∈ V ⊆ Tr
i=1f(Ui) temos que
#f−1(w) = #f−1(z). Assim, todo ponto deV ´e valor regular para f.
ComoV ´e aberto em Y pelo teorema de Sard existe y∈V tal que y´e valor regular para
g, logoy ´e um valor regular para f eg.
Proposi¸c˜ao 1.3.10. Sejam f, g : X → Y fun¸c˜oes suavemente homot´opicas entre varie-dades de mesma dimens˜ao, onde X ´e uma variedade compacta sem fronteira.
Seja F :X×[0,1]→Y a homotopia entre f e g. Ent˜ao vale que
(i) Se y ´e valor regular de F ent˜ao #f−1(y)≡#g−1(y) mod 2.
(ii) Se z ´e valor regular de f e g ent˜ao #f−1(z)≡#g−1(z) mod 2.
Demonstra¸c˜ao: Seja F : X×[0,1] → Y a homotopia entre f e g. Como [0,1] ´e uma variedade com bordo, segue da proposi¸c˜ao 4.4.20 que X ×[0,1] ´e uma variedade com bordo onde seu bordo ´e dado por ∂(X×[0,1]) =X× {0} ∪X× {1}.
(i) Suponha que y ´e valor regular de F. Segue que y tamb´em ´e valor regular para F|∂(X×[0,1]). Como F−1(y)⊆ X×[0,1] ´e fechado, e X e [0,1] s˜ao compactos, temos que X×[0,1] ´e compacto, e segue que F−1(y) ´e compacto. Como X×[0,1] ´e uma variedade com bordo, e y´e valor regular para F e F|∂X×[0,1], pelo lema 4.4.19 temos que F−1(y) ´e uma variedade suave 1−dimensional, logo F−1(y) ´e uma variedade suave 1−dimensional compacta. Al´em disso:
∂F−1(y) =F−1(y)∩∂(X×[0,1]) =F−1(y)∩(X× {0} ∪X× {1}) =
=f−1(y)× {0} ∪g−1(y)× {1}
Segue que #∂F−1(y) = #f−1(y) + #g−1(y). Como F−1(y) ´e uma variedade suave 1−dimensional compacta pelo teorema 4.4.21 temos que F−1(y) possui um n´umero finito de componentes conexas homeomorfas a c´ırculos ou a intervalos fechados. Mas os extre-mos das componenetes conexas homeomorfas a intervalos fechados constituem o bordo
∂F−1(y). Da´ı∂F−1(y) possui um n´umero par de pontos ent˜ao #f−1(y) e #g−1(y) s˜ao finitos. Como #f−1(y) + #g−1(y) ´e um n´umero par segue que se #f−1(y) ´e par (´ımpar), temos que #g−1(y) ´e par (´ımpar). Assim, #f−1(y)≡#g−1(y) mod 2 como desejado.
(ii) Vimos na proposi¸c˜ao 1.3.9 que existe tal valor regular z. Suponha que z ´e valor regular de f e g. Se z ´e um valor regular de F pelo item (i) temos o desejado. Suponha quez n˜ao ´e um valor regular deF. Pela proposi¸c˜ao 4.4.15 existem V1 e V2 abertos de Y tais que para todoa emV1 temos que #f−1(a) = #f−1(z) e para todob emV2 temos que
#g−1(b) = #g−1(z). Segue que V1∩V2 ´e um aberto de Y, assim pelo teorema de Sard, existey valor regular deF tal quey ∈V1∩V2. Segue do item (i) que #f−1(y)≡#g−1(y) mod 2. Masy∈V1∩V2obtemos que #f−1(y) = #f−1(z) e #g−1(y) = #g−1(z). Obtemos portanto que #f−1(z)≡#g−1(z) mod 2, como desejado.
O lema a seguir ´e exatamente o item (ii) da proposi¸c˜ao anterior, destacamos ele abaixo por tradi¸c˜ao.
Lema 1.3.11. (de Homotopia)
Sejam f, g : X → Y fun¸c˜oes suavemente homot´opicas entre variedades de mesma di-mens˜ao, onde X ´e uma variedade compacta sem fronteira. Se y ´e valor regular de f e g
ent˜ao #f−1(y)≡#g−1(y) mod 2.
Proposi¸c˜ao 1.3.12. Se z ∈ B(0,1) ⊆ Rn ent˜ao existe um difeomorfismo ξ : Rn → Rn com ξ(0) =z tal que ξ ´e isot´opica `a identidade do Rn, IdRn.
Demonstra¸c˜ao: Existe uma fun¸c˜ao suave ψ :Rn →R tal que ψ(x)>0 se x∈B(0,1)
ψ(x) = 0 se x /∈B(0,32)
Iremos considerar nossa ψ definida como ψ(x) =λ(32 − ||x||2) ondeλ(t) = 0 para t≤0 e λ(t) =e−1t parat >0. Segue queψ´e suave, e portanto limitada, basta usar a compacidade da bolaB[0,32] e queψ ´e nula fora dessa bola. Seja c∈Sn−1 fixo e arbitr´ario, e considere a E.D.O. x0(t) =ψ(x(t))c. Note que o campoψ(·)c:Rn →Rn dado por ψ(x)c´e suave e limitado tamb´em, assim pelo teorema de existˆencia e unicidade, existe solu¸c˜ao x(t) para o problema de Cauchy dada porx0(t) =ψ(x(t))c ex(0) = x0 qualquer que seja x0 ∈ Rn, e al´em disso a solu¸c˜ao ´e global, ou seja, a solu¸c˜ao est´a definida para todo t∈R.
Pelo teorema do fluxo local, podemos considerar o fluxoφc :R×Rn→Rnsuave do campo ψ(·)c que possui as seguintes propriedades: φct :Rn →Rn ´e um difeomorfismo para todo t ∈ R, e φct+s = φct ◦φcs. Observe que a fun¸c˜ao φc0 :Rn →Rn ´e a identidade do Rn, pois φc(0, x) =x.
Agora, fixado t ∈ R arbitr´ario, definimos G : Rn×[0,1] → Rn com G(x, s) = φc(ts, x), segue que G ´e suave. Note que G(x,0) = φc(0, x) = x = IdRn(x) e G(x,1) = φc(t, x), assim G´e uma homotopia suave entre φct e a identidade do Rn, mas como φcr : Rn→Rn
´e um difeomorfismo para todo r∈R, temos que φct ´e isot´opica a identidade do Rn. Pelo teorema de existˆencia e unicidade, para cadac∈Sn−1 existe uma trajet´oria do campo φc que passa por z ∈ B(0,1). Devido a simetria da esfera, existe d ∈ Sn−1 e t∗ ∈ R tal queφd(t∗,0) =z. Pelo par´agrafo anterior, temos que φd(t∗,·) ´e isot´opica a identidade do
Rn, e temos o desejado.
Lema 1.3.13. (de Homogeneidade)
Sejam y e z pontos arbitr´arios no interior de uma variedade suave e conexa Y. Ent˜ao existe um difeomorfismo h:Y →Y com h(y) =z que ´e isot´opica a identidade.
Demonstra¸c˜ao:
Afirma¸c˜ao (1) : Seja a um elemento fixo e arbitr´ario da variedade Y ent˜ao existe uma vizinhan¸caV dea tal que para todo a0 ∈V existe um difeomorfismo g com g(a) =a0 que
´e isot´opica a identidade.
De fato, seja a ∈ N, como Y ´e suave existe U vizinhan¸ca aberta de a em Y tal que h : U → Rn ´e um difeomorfismo. Sem perda de generalidade podemos supor h(a) = 0.
Seja V = h−1(B(0,1)) aberto em U, como U ´e aberto em Y, temos que V ´e aberto em Y.
Seja a0 ∈ V fixo e arbitr´ario segue que h(a0) ∈ B(0,1). Pela proposi¸c˜ao anterior, temos que existe ξ : Rn → Rn tal que ξ(0) = h(a0) tal que ξ ´e isot´opica a identidade do Rn, ξ∼=Id.
Agora, lembre queh(a) = 0, assim ξ(h(a)) =ξ(0) =h(a0)
(h−1◦ξ◦h)(a) =a0
Masξ ∼=Id,h∼=h e h−1 ∼=h−1 segue da proposi¸c˜ao 1.3.4 que h−1◦ξ◦h∼=h−1◦h=Id.
Definindog :=h−1◦ξ◦h, pelo que fizemos acima temos queg(a) =a0 eg ∼=Id. Por fim, g ´e um difeomorfismo pois ´e a composi¸c˜ao de difeomorfismos, e vale a afirma¸c˜ao.
Dizemos quew1 e w2 pontos de Y s˜aopontos isot´opicos se existeg difeomorfismo com g(w1) = w2 tal que g ´e isot´opica a identidade, g ∼=Id. Denotamos por w1 ∼ w2 quando w1 e w2 s˜ao pontos isot´opicos.
Afirma¸c˜ao (2): ∼´e rela¸c˜ao de equivalˆencia
(Reflexividade) Sejaw∈Y considere g =Id assimg(w) =weg ∼=Id, e portantow∼w.
(Simetria) Sejam w1 e w2 em Y com w1 ∼ w2, assim existe g difeomorfismo tal que g(w1) = w2 com g ∼=Id. Como g−1 ∼=g−1 segue da proposi¸c˜ao 1.3.4 que Id =g−1◦g ∼= g−1 ◦Id = g−1, e portanto Id ∼= g−1 mas g−1(w2) = w1 e g−1 tamb´em ´e difeomorfismo, temos quew2 ∼w1.
(Transitividade) Sejamw1,w2 e w3 em Y e suponha w1 ∼ w2 e w2 ∼ w3. Assim existem g1 e g2 difeomorfismos tais que g1(w1) = w2 e g2(w2) =w3 com g1 ∼= Id e g2 ∼= Id. Pela proposi¸c˜ao 1.3.4 temos que g2 ◦g1 ∼= Id◦Id = Id, da´ıg2◦g1 ∼= Id. Defina g :=g2◦g1 temos queg(w1) =w3 eg´e um difeomorfismo portantow1 ∼w3 e temos o desejado. Vale a afirma¸c˜ao.
Assim ∼ quocienta Y em classes de equivalˆencias, digamos [w] := {x ∈ Y : x ∼ w}.
ComoY ´e conexo basta mostrar a seguinte Afirma¸c˜ao (3): [y] ´e um aberto fechado de Y.
([y] ´e aberto) Sejaw∈[y] fixo e arbitr´ario, temos quew∼y. Comow∈Y pela afirma¸c˜ao (1) temos que existeVw aberto de Y tal que para todow0 ∈Vw temos quew0 ∼w. Como w∼ y temos que w0 ∼ y para todo w0 ∈ Vw. Assim, w ∈Vw ⊆[y]. Como w foi tomado arbitrariamente temos que [y] ´e aberto.
([y] ´e fechado) Seja b ∈[y] assim bn →b quando n → ∞onde bn ∈ [y] logo bn ∼y para todo n ∈ N. Pela afirma¸c˜ao (1) existe Vb aberto de Y tal que para todo b0 ∈ Vb temos que b0 ∼ b. Por defini¸c˜ao de convergˆencia, existe n0 ∈ N tal que para n ≥ n0 temos que bn ∈ Vb, assimbn ∼ b. Como bn ∼ y temos que b ∼ y, e b ∈ [y]. Portanto [y] ´e fechado.
Vale a afirma¸c˜ao.
Pela conexidade deY, temos que Y = [y], e temos o desejado.
Teorema 1.3.14. Sejam f : X →Y fun¸c˜ao suave entre variedades de mesma dimens˜ao onde X ´e uma variedade compacta sem fronteira e Y conexo.
Se y e z s˜ao valores regulares de f ent˜ao #f−1(y)≡#f−1(z) mod 2.
Seja n ∈ {0,1} tal que #f−1(y) ≡ n mod 2 onde y ´e valor regular de f. Dizemos que n ´e a classe de res´ıduo de f. Essa classe de res´ıduo ´e denominada grau m´odulo 2 da fun¸c˜ao f denotamos como deg2f e depende apenas da classe de homotopia de f. Demonstra¸c˜ao: Devemos mostrar que
(i) Sey e z s˜ao valores regulares de f ent˜ao #f−1(y)≡#f−1(z) mod 2.
(ii) Sef ´e homot´opica a g ent˜ao deg2f ≡deg2g mod 2.
(i) Sejam y ez valores regulares def. Pelo lema de Homogeneidade, existe um difeomor-fismo h: Y →Y com h(y) =z tal queh ´e isot´opica a identidade, id, em particular, h e id s˜ao homot´opicas, assim h 'id. Como h ´e um difeomorfismo, z ´e um valor regular de h◦f, segue que z ´e um valor regular de f e h◦f. Note que h ' id e f ' f ent˜ao pela proposi¸c˜ao 1.3.4 temos que h◦f ' id◦f = f, i.e., h◦f e f s˜ao homot´opicas. Estamos nas condi¸c˜oes do lema de Homotopia, assim
#(h◦f)−1(z)≡#f−1(z) mod 2
Mas (h◦f)−1(z) = f−1(h−1(z)) = f−1(y). Da´ı #f−1(y)≡ #f−1(z) mod 2, como dese-jado.
Definamos deg2f ≡#f−1(y) mod 2 para um y valor regular qualquer de f, o qual est´a
bem definido pelo que acabamos de fazer.
(ii) Suponha f homot´opica a g, pela proposi¸c˜ao 1.3.9 temos que existe z valor regular para f e g, pelo lema de Homotopia temos que #f−1(z) ≡#g−1(z) mod 2. Agora, z ´e valor regular para f, assim deg2f ≡ #f−1(z) mod 2; por outro lado z ´e valor regular para g logo deg2g ≡#g−1(z) mod 2 portanto deg2f ≡deg2g mod 2.
Vejamos algumas consequˆencias desse teorema.
Proposi¸c˜ao 1.3.15. SejamX eY variedades de mesma dimens˜ao tais queX ´e compacta e sem fronteira e Y ´e conexa. Valem os seguintes resultados:
(i) A fun¸c˜ao constante f : X → Y tal que f(x) = c∈ Y para todo x em X possui grau m´odulo 2 par, i.e., deg2f ≡0.
(ii) Se X ´e conexo, ent˜ao a fun¸c˜ao identidade Id : X → X possui grau m´odulo 2
´ımpar, i.e., deg2Id≡1.
(iii) Se X ´e conexo, ent˜ao a fun¸c˜ao constante f : X → X e a fun¸c˜ao identidade Id :X →X n˜ao s˜ao homot´opicas.
Demonstra¸c˜ao: (i) Basta observar que #f−1(y) = 0 para todo y valor regular de f. Pelo teorema anterior, deg2f ≡0 mod 2.
(ii) Como Id ´e uma bije¸c˜ao, temos que #Id−1(y) = 1 para todo y ∈ X. Pelo teorema anterior, deg2Id≡1 mod 2.
(iii) Suponha, por absurdo, quef eIdsejam homot´opicas, pelo teorema anterior, ter´ıamos que deg2f ≡ deg2Id mod 2, o que n˜ao ocorre por (i) e (ii). Logo f e Id n˜ao s˜ao
homot´opicas.
Seja Bn a bola fechada de raio unit´ario e centrada na origem do Rn. Mostramos utili-zando o teorema de Sard que n˜ao existe retra¸c˜ao da bola fechada na esfera. Vejamos a demonstra¸c˜ao desse mesmo teorema pela teoria de homotopia.
Lembre que dado F ⊆ E dizemos que uma fun¸c˜ao r : E → F ´e uma retra¸c˜ao se r ´e cont´ınua er(x) =x para todox em F.
Teorema 1.3.16. (do Ponto Fixo de Brouwer re-visitado) N˜ao existe retra¸c˜ao r:Bn→ Sn−1.
Demonstra¸c˜ao: Suponha, por absurdo, que exista retra¸c˜ao r : Bn → Sn−1 cont´ınua.
Assim,r(x) =xpara todox∈Sn−1, logor|Sn−1 =IdSn−1 :Sn−1 →Sn−1comIdSn−1(x) =
x. Note que r ´e uma extens˜ao de IdSn−1. Tomando X = Sn−1, pela proposi¸c˜ao 1.3.5 temos queIdSn−1 ´e homot´opica a uma aplica¸c˜ao constante Sn−1 →c∈Sn−1, o que ´e um absurdo pelo item (iii) da proposi¸c˜ao anterior. Portanto n˜ao existe tal retra¸c˜ao, e temos
o desejado.