4.OS MUNDOS POSSÍVEIS
“SÓ PODE HAVER ESCOLHA COM CONHECIMENTO”
2.1.7. O GRUPO DE TEATRO E ACÇÃO CULTURAL [GTAC]
2.1.7.2. GTAC – (DES)CONTINUIDADES, AUTONOMIZAÇÕES E INCURSÕES
“a travessia do deserto” (Valente, D. Entrevista)
Apesar de ter sido feito um trabalho importante e que à época marcou a diferença, na opinião de Domingas Valente, as campanhas de alfabetização não combateram as necessidades do povo português, e isso reflectiu-se noutro tipo de analfabetos que persistem nos nossos dias (analfabetismo funcional).
No entanto, Domingas Valente assegura que o trabalho de Alfabetização do GTAC não se compara aos cursos e iniciativas que se lhe seguiram. Os burocratas, ditos do Estado, que surgiram por volta de 1976 e que constituíam a outra face da alfabetização de adultos, mantiveram as suas actividades, mas não por muito tempo, pois não eram vistos com bons olhos pelos professores. Não sendo capazes de coexistir, a alfabetização de adultos começou a ser feita nas escolas.
Em 1976 fora constituída por escritura pública a Associação designada por Grupo de Trabalho e Acção Cultural (GTAC).
Em 1977, através de reunião de direcção, alterou a sua denomição para O SEMEADOR – Grupo de Trabalho e Acção Cultural,
“Considerando que:
O grupo de trabalho e acção cultural não tem nome próprio, já que o GTAC deriva da composição de uma sigla pelas letras iniciais de cada palavra;
A sigla que sempre usamos é de difícil memorização e até de pronúncia para a maioria das pessoas;
Este facto tem prejudicado a nossa imagem na cidade, dado que o considerável trabalho que vimos desenvolvendo há quase 3 anos dificilmente se tem ligado à sigla que usamos, propõe-se:
Que seja anteposto a GTAC o nome de “O Semeador”
Que esta proposta seja posta à consideração de todos os sócios, podendo os mesmos fazer outras alternativas;
Que através da recolha de respostas por parte dos sócios se decida por aquele que apresentar maior número de adesões;
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Propõe-se o nome de “O Semeador” porque:
a designação se enquadra perfeitamente no contexto sócio- económico alentejano; temos na cidade uma estátua com esse nome;
existiu um jornal progressista em Portalegre com o mesmo nome, durante a 1ª República;
Semear é na verdade a nossa missão. Semear as nossas ideias ajudando a construir a sociedade porque o Povo português anseia e necessita: a sociedade socialista.”
(Livro de Actas da Direcção, Arquivo de “O Semeador – GTAC”)
Esta proposta foi aceite por unanimidade e marcou assim, uma importante etapa no Grupo.
Fig. 27 - Cartaz do GTAC – O Semeador
«À escolha do nome não é alheia à proximidade entre a estátua do semeador e o convento. Porém, seria demasiado redutor não acrescentar a importância metafórica que deu sentido ao desejo dos seus fundadores – semear para colher, mudando qualitativamente a vida das comunidades. Tratava-se de pessoas que fizeram fileiras com as ideias pós 25 de Abril e que já anteriormente se faziam notar pela sua acção mobilizadora de consciências. Eram voluntários, generosos, altruístas, activos, cultos e jovens. Tinham a preocupação de formar e instruir. Daí a importância e o sucesso das aulas de alfabetização que procuravam resolver um problema que afectava o operariado local e os bairros mais pobres da cidade.
»
(http://www.memoriamedia.net/gcp/index.php?option=com_content&view=article&id
=38&Itemid=39
)
Por razões diversas, nomeadamente pelo facto de alguns dos estudantes que asseguravam as várias vertentes do GTAC, terem ido estudar para a universidade ou iniciado a sua vida profissional longe da cidade de Portalegre ou, ainda, porque o próprio Estado havia avocado algumas das suas funções (por exemplo a da alfabetização), acabou por se dar a separação no seio do GTAC. Nesse seguimento, deu-se a autonomização do
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Grupo de Cantares e do Grupo de Teatro, já que este último assumiu uma vertente profissional.
Mais do que assunção das valências, pensamos que se verificou um desfocar da acção e um progressivo afastamento da ideia de alfabetização de Paulo Freire enquanto processo emancipatório.
Por um lado, existia uma intencionalidade política de cessar processos de participação popular que, grupos e associações culturais ideologicamente comprometidos à esquerda do governo de 1976, poderiam eventualmente levar a cabo; por outro, por fragilidades próprias ou por soluções alternativas avançadas pelo estado, grupos como o GTAC acabaram por ver cerceado o seu espaço de intervenção nalgumas áreas.
“O Semeador”- GTAC enquanto associação cultural foi perdendo ao longo dos anos o seu cariz mais político, fruto das alterações da sociedade, acabando por re-centrar a sua acção (a partir dos anos 80), nas iniciativas de caracter puramente cultural e recreativo.
Em 1979, fruto da dinâmica da componente teatral do GTAC, nasceu a companhia profissional Teatro d’O Semeador – A.A.C.P.T. (Associação de Animação Cultural e Produção Teatral) que a partir de Janeiro de 1985 foi qualificado como Pessoa Colectiva de Utilidade Pública e que teve actividade até Maio de 2013, altura em que, por vicissitudes diversas, foi deliberada a sua extinção.
Tal autonomização terá surgido da necessidade de emancipação e crescimento de um projecto que teria de ser independente, tanto para a candidatura a financiamentos, como para a afirmação dos seus elementos, considerados homens de cultura, e da própria entidade cultural.
No ano de 1982, pela mão de Domingos Bucho, encetou-se o trabalho de pesquisa e recolha de música tradicional no Concelho de Portalegre, alargando-se posteriormente a outros concelhos do distrito de Portalegre. As Modas de Saias salientaram-se desde logo como o género musical que mais identifica musicalmente esta região. Mas, a par destas, surgiram outros géneros musicais de beleza singular que enriquecem a diversidade da música tradicional do Norte Alentejano (descantes de casamento, cantigas de feição religiosa, de romaria, cantigas de carnaval, de trabalho, de embalar, etc.).
O Semeador – Grupo de Cantares de Portalegre, então composto por 25 elementos e sob a direcção de Domingos Bucho, estreou-se publicamente no dia 23 de Maio de 1983.
Actualmente, assumindo a preservação de toda a história e o património da Associação, O Semeador apresenta-se como o Grupo de Cantares de Portalegre – denominação assumida em 2004 e mantém como logótipo a figura do Semeador, o homem
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que lançava a semente à terra e que representa a ideia com que o Grupo continua a identificar-se.
De alguma forma, O Grupo de Cantares continua a defender alguns dos objectivos que estiveram na génese do GTAC; Para além da pesquisa e de recolha de música tradicional da região de Portalegre, numa abrangência que fica muito além desta cidade,
refira-se, por curiosidade, o trabalho efectuado nos últimos anos de recolha e revitalização da tradição da marcha da Vila Nova dos Santos Populares, numa estratégia de participação efectiva da população e da intergeracionalidade.
Podemos até considerar que os pressupostos da sua génese mantêm-se: a utopia de um espaço para o exercício da cidadania e da democracia participada com
forte afirmação popular a partir das suas raízes, potenciando raízes culturais e a memória colectiva das suas gentes.
«(…) nós, a nossa geração que fez o 25 de Abril, temos muita culpa e devíamos pensar nisso, da situação em que eles estão agora porque não fizemos, nem lá perto, fizemos o que devíamos fazer, o que era preciso e urgente fazer e não fizemos, e eu meti-me no rol, mas elas:
- “a senhora não, a senhora sempre fez”
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