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Há de parecer justo para que possa funcionar

Capítulo 1 – Os horizontes da liberdade: as décadas finais da escravidão no Brasil e

1.3 As liberdades condicionais como estratégia de emancipação na província

1.3.3 Há de parecer justo para que possa funcionar

Conforme discutimos até agora, as alforrias concedidas sob cláusulas de prestação de serviços permitiam (ou ao menos era isso que se esperava) que se mantivesse ainda por algum tempo a continuidade do domínio senhorial sobre a força de trabalho do liberto, dando tempo para as adaptações necessárias. Em um momento de incertezas em relação ao tempo que sobreviveria o regime servil no país, em que outras duas províncias, Ceará e Amazonas, já se tinham declarado emancipadas; em que se debatiam novos encaminhamentos para o problema da abolição (o projeto que levaria a Lei de 1885); e em que a pressão escrava e o abolicionismo radical se alastravam pelo interior da província de São Paulo, levando a fugas em massa das fazendas que ecoavam por todo império134, as possibilidades abertas pela Lei de 1871 poderiam cumprir um papel bastante importante, pois garantia em todas as hipóteses a indenização ao senhor desde uma aparência de equanimidade.

Um acordo costurado nesse sentido poderia permitir simultaneamente libertar escravos, dando resposta aos anseios e pressão dos próprios cativos e a uma opinião pública crescentemente contrária a escravidão, e garantir os interesses dos proprietários de escravos. Contudo, se houve uma estratégia de encaminhar a emancipação de escravos na província de comum acordo a liberais, republicanos e conservadores dissidentes, endossada pelo movimento abolicionista que se organizou para negociar as alforrias com os senhores em uma campanha de rua, a mesma não poderia efetuar-se à revelia da aceitação dos próprios escravos.

Desse modo, ao tomarmos as alforrias registradas nos cartórios de Porto Alegre entre 1884 e 1888, observamos o quanto estiveram amparadas em um discurso legal: foram comuns as menções à Lei de 1871, a seu regulamento do ano seguinte, e a circular expedida pelo presidente da província com a orientação sobre os procedimentos que deveriam ser adotados para as libertações em 1884. Pensamos ser possível estabelecer um

133ZUBARAN, A invenção branca da liberdade negra...

134 Cf. MACHADO, Maria Helena P. T. O Plano e o pânico: os movimentos sociais na década da abolição.

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paralelo com a concepção de E. P. Thompson sobre a lei, segundo o qual a mesma, considerada como instituição, pode muito bem ser assimilada a lei da classe dominante, servindo como instrumento de dominação de classe. Mas a lei também pode ser vista como ideologia ou regras e sanções específicas, que mantém uma relação ativa e definida com as normas sociais. A lei pode ser vista, ainda, simplesmente na sua funcionalidade, tendo relativa autonomia.135 Segundo o autor, “é inerente ao caráter específico da lei,

como corpo de regras e procedimentos, que aplique critérios lógicos referidos a padrões de universalidade e igualdade”.136 Se não fosse assim e, ao contrário, servissem explicita e invariavelmente aos interesses da classe dominante à revelia das relações existentes na sociedade, as leis não teriam efeito e não serviriam para legitimar o poder de classe alguma.

Segundo Thompson, é condição para sua eficácia ideológica que a lei pareça justa, obedecendo princípios de igualdade e universalidade. O historiador lembra que, além disso, não se pode tomar a ideologia dominante como mera ideologia, visto que mesmo os dominantes precisam legitimar seu poder conforme padrões morais, sentindo-se úteis e justos.137A lei impõe, portanto, restrições à própria classe dominante, que precisa agir conforme as regras e sanções estabelecidas, de modo que cabe àquela lei mediar e legitimar as relações de classes existentes, mascarando injustiças muitas vezes. Por outro lado, o exercício do domínio através das formas da lei não é o mesmo que fazê-los sem nenhuma mediação, arbitrariamente. Este espaço existente muitas vezes pode fornecer alguma proteção àqueles que não têm poder.

Podemos pensar, a partir desse ponto de vista, que a alforria condicional, como estratégia adotada em Porto Alegre para pôr fim à escravidão, embora carregasse consigo o interesse de que, como libertos, os alforriados deveriam continuar a servir seu senhor, a mesma deveria ter condições que, ainda que não o fossem, tivessem uma aparência justa. Esta aparência buscava suas justificativas na velha concepção da alforria como dádiva. O que a leitura das alforrias informa é que os senhores seguiam pintando a liberdade como uma concessão fruto de sua generosidade, a quem seus protegidos e tutelados ex-escravos deveriam fidelidade e boa conduta.

Se a lei de 1871 e o contexto em que foi produzida foram capazes de colocar a conquista da liberdade no patamar de direito assegurado pela lei positiva, não foram

135 THOMPSON, Costumes em comum... Op. Cit., p. 351 136 Idem, p. 353

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capazes, no entanto, de eliminar por completo uma ideologia que esperava, através das relações pessoais, produzir libertos dependentes e perpetuar relações que não afastassem muito da escravidão. Essa tensão provocada a partir das duas últimas décadas da escravidão na relação senhor-escravo tornou a conquista e a afirmação da liberdade uma questão cada vez mais política.

A legislação emancipacionista expressava de certa forma a legitimação das relações sociais existentes, sobretudo se considerarmos os aspectos que favoreciam a prerrogativa senhorial sobre a força de trabalho do libertando, como os dispositivos que previam uma liberdade marcada por restrições e ambiguidades, tal como as alforrias condicionadas à prestação de serviços e outros tantos arranjos possíveis para sair do cativeiro. Por outro lado, essa própria legislação, que no geral serviu como instrumento de dominação de classe, se configurou em um campo de conflito em torno das interpretações e expectativas que as partes nutriam sobre a “nova” relação estabelecida.138 Este conflito só pode ser percebido quando observamos o modo como as condições foram cumpridas pelos libertandos que, como demonstraremos nos capítulos seguintes, modificaram os termos de seus contratos após estabelecida a alforria, ou mesmo recusaram-se a cumpri-los.

Se as alforrias condicionais explicitavam o desejo senhorial de que o libertando seguisse servindo aos ex-senhores como um dependente, é preciso buscar compreender as cláusulas estabelecidas nas alforrias, por um lado, como tendo sido em alguma medida também objeto de negociações ou resultado de relações de força entre partes desiguais – senhor e escravo, e, por outro lado, que para cumprir o objetivo de atender aos interesses senhoriais, era preciso que estivessem pautadas sobre parâmetros mínimos de expressar certa justiça, fazendo-se cumprir sua função ideológica.