Capítulo 2 – As alforrias e o perfil dos libertandos em Porto Alegre (1884 – 1888)
2.2 O perfil dos escravos alforriados
2.2.3 Idade
A idade dos alforriados aparece praticamente com a mesma frequência com que a cor, e os dados nos mostram uma população bastante jovem, majoritariamente em idade produtiva. Frequentemente se dizia que o alforriado tinha “tantos anos, pouco mais ou menos”, denotando a imprecisão do registro. Quanto à produtividade, consideraremos aqui a faixa etária que vai dos 11 aos 49 anos, conforme Peter Eisenberg.163 Na tabela 10 apresentamos as faixas etárias de maneira resumida de modo a enfatizar a parcela de libertandos em idade produtiva. Na tabela 11, um desdobramento da anterior, constam as faixas etárias de maneira detalhada.
163 Idem, EISENBERG, Homens esquecidos..., Op. cit., pp. 299-300. Para definir a faixa etária de
produtividade, procuramos referências em outros trabalhos e verificamos que não há um padrão entre os autores, e nem maiores explicações sobre os critérios adotados. Manolo Florentino, por exemplo, utiliza a faixa de 15 a 49 anos para indicar produtividade. Há autores que utilizam dos 15 aos 45 anos e outros que preferem indicar simplesmente a idade adulta de 40 anos em diante como parâmetro de produtividade. FLORENTINO, Manolo. Em costas negras: uma história do tráfico de escravos entre a África e o Rio de Janeiro – séculos XVIII e XIX. São Paulo, Companhia das Letras, 1997
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Tabela 10 - Faixa etária dos alforriados I
Fonte: APERS – Livros de Notas dos tabelionatos de Porto Alegre e suas freguesias
Tabela 11 - Faixa etária dos alforriados II
Faixa etária Mulheres % Homens % Total %
00 – 05 0 0 04 1,7 04 0,7 06 - 10 0 0 01 0,4 01 0,2 11 – 15 26 8,5 22 9,6 48 9,0 16 – 20 71 23,3 45 19,7 116 21,8 21 – 25 46 15,1 39 17,1 85 16,0 26 – 30 57 18,7 25 11,0 82 15,4 31 – 35 41 13,5 20 8,8 61 11,5 36 – 40 25 8,2 21 9,2 46 8,6 41 – 45 08 2,6 11 4,8 19 3,6 46 – 49 09 3,0 06 2,6 15 2,8 50 – 55 14 4,6 19 8,3 33 6,2 56 – 60 04 1,3 07 3,1 11 2,1 61 – 65 01 0,3 05 2,2 06 1,1 66 – 70 02 0,6 01 0,4 03 0,6 71 - 75 0 0 01 0,4 01 0,2 76 - 80 0 0 0 0 0 0 81 - 85 0 0 01 0,4 01 0,2 Total 304 100 228 100 532 100
Fonte: APERS – Livros de Notas dos tabelionatos de Porto Alegre e suas freguesias
Sobre esses dados nos registros do século XIX, Eisenberg chama a atenção para um elemento: embora tenham-se tornado mais precisos em relação ao período colonial, as leis anti-tráfico e as leis emancipacionistas tenderam a estimular a mentira, o que, consequentemente, exigiria cautela na hora de sua análise. A lei de 1831, por exemplo, não apenas fez com que os senhores mentissem sobre o local de procedência de seus escravos, como exagerassem em sua idade para que sua entrada no Brasil não coincidisse
Faixa etária Mulheres % Homens % Total %
00 – 10 0 0 5 2,2 5 0,9
11 – 49 283 93,1 189 82,9 472 88,7
50 – 85 21 6,9 34 14,9 55 10,3
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com a data da proibição do tráfico internacional.164 Já a lei de 1871 teria impulsionado o exagero da idade de seus escravos, para que seu nascimento não coincidisse com a liberação do ventre das escravas, enquanto a lei de 1885, por seu turno, teria estimulado a diminuição da idade dos escravos para que os mesmos não fossem contemplados pela libertação dos sexagenários.165
Não há como dimensionar este tipo de distorção e nos registros por nós compulsados talvez tenha de se olhar com um pouco mais de cautela para os libertandos mais jovens. No entanto, é interessante observar que, em relação aos africanos, para que não estivessem em condição de ilegalidade devido à lei de 1831, eles deveriam ter, pelo menos, 53 anos no ano de 1884. Entre os alforriados aqui estudados, no entanto, sete africanos foram designados com idade menor que essa sendo, portanto, ilegalmente escravizados.
Dos 532 alforriados de que sabemos a idade, temos 472 (88,7%) em plena produtividade. Deste grupo, a maioria é ainda mais jovem: 344 (64,7%) de todos os alforriados estão na faixa dos 16 aos 35 anos, o que faz com todos os tipos de alforria concentrem-se nesse grupo. Dos libertandos em idade produtiva, 283 (60%) são mulheres e 189 (40%) são homens. Em contrapartida, da faixa que vai dos 50 aos 85 anos, 34 (61,8%) são homens e 21 (38,2%), mulheres. Percebe-se, assim, que o grupo de mulheres, além de mais numeroso, era também mais jovem. Se fizermos ainda um outro recorte entre este último grupo, dos 55 libertandos, 44 (80%) tinham entre 50 e 60 anos, ou seja, apesar de mais velhos, certamente sofriam de menos limitações físicas de que os de idade ainda mais avançadas. Dos maiores de 50 anos, 16 (29,1%) eram de africanos, conforme se verá adiante.
164 A Lei de 7 de Novembro de 1831 passava a considerar como atividade ilegal a importação de africanos
escravizados para o Brasil a partir daquela data, visando à extinção do seu comércio nos portos e navios brasileiros. Para apreciação segundo uma perspectiva historiográfica mais recente sobre o tema, ver dossiê temático organizado por Keila Grinberg e Beatriz Mamigonian. MAMIGONIAN, Beatriz; GRINBERG, Keila (orgs.). Dossiê – “Para inglês ver?” Revisitando a Lei de 1831. In: Revistas de Estudos Áfro-
Asiáticos. Rio de Janeiro: Conjunto Universitário Cândido Mendes, 1007, v. 29, n. /3 jan/dez. Destaco
especialmente o artigo de ZUBARAN, Maria Angélica., “Sepultados no Silêncio”: A Lei de 1831 e as Ações de Liberdade nas Fronteiras Meridionais do Brasil (1850-1880), na mesma revista, sobre a respectiva lei no Rio Grande do Sul. Ver ainda GRINBERG, Keila. Reescravização, Direitos e Justiças no Brasil do século XIX e MAMIGONIAN, Beatriz Gallotti. O direito de ser africano livre. In: LARA, Silvia H.; MENDONÇA, Joseli M. N. (org.). Direitos e Justiças no Brasil. São Paulo: Unicamp, 2006. p. 132; da mesma autora, O Estado nacional e a instabilidade da propriedade escrava: a Lei de 1831 e a matrícula dos escravos de 1872. Almanack. Guarulhos, n.02, p.20-37, 2º semestre de 2011; CHALHOUB, Sidney. A
força da escravidão: ilegalidade e costume no Brasil oitocentista. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
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Já em relação aos libertandos mais jovens, cabe frisar que, em sendo alforriados em 1884 durante a campanha abolicionista, na pior das hipóteses, qualquer criança que fosse filha de escrava e tivesse menos de treze anos seria livre pelo ventre, ou seja, um ingênuo. Ocorre que, à exceção de dois alforriados que tiveram suas liberdades concedidas em 1871 mas registradas apenas em 1884, os demais nessa faixa etária não deveriam constar como alforriados. É o caso do “crioulinho de nome Ângelo, de idade 18 meses, mais ou menos”, filho da escrava Josefa do mesmo senhor, o Barão do Caí. Parece que a desistência dos serviços que os ingênuos deveriam prestar ao senhor de suas mães até os 21 anos era entendida pelos senhores como concessão de liberdade.166
Não é novidade que os senhores, ao não poderem mais ter os filhos de suas escravas como cativos após 1871, seguiam explorando a força de trabalho dos menores tanto através dos dispositivos da lei, que obrigavam os ingênuos a servir até os 21 anos (caso contrário, o senhor seria indenizado pelo Estado), quanto pela prerrogativa da tutela dos mesmos aberta pela mesma lei (isso será discutido no capítulo 3). Em relação aos jovens escravos e sua aptidão para o trabalho, Kátia Mattoso aponta três faixas de idade: dos 0 aos 7 ou 8 anos as crianças não exerciam nenhum tipo de atividade; dos 7 ou 8 aos 12 anos, seriam aprendizes; já dos 12 ou 14 em diante, não teriam nenhuma restrição para o trabalho. Já Manolo Florentino e José Góes afirmam que uma criança já estaria praticamente pronta aos 12 anos, podendo trabalhar como um adulto já aos 14 anos.167
Não contamos com fontes ou estudos que informem o perfil etário dos escravos nas últimas décadas da escravidão. Entretanto, o que se sobressai da análise a partir das alforrias registradas em cartório é que, se as mesmas correspondem à população escrava da cidade até aquele momento, estamos tratando, então, de uma parcela da população que, mesmo em um período em que os cativos haviam reduzido consideravelmente (para o ano de 1883, temos 8% da população total de escravos, contra 18,5% em 1874, praticamente uma década antes), conformavam na capital um setor muito jovem e, portanto, bastante útil, além de majoritariamente feminino.
Informações como estas iluminam a compreensão da estratégia de emancipação através de contratos de prestação de serviços adotada em Porto Alegre. Naquele
166 APERS – Registro de alforria. 1ºT, L:27, 196v, 28/08/1884.
167 MATTOSO, Ser escravo no Brasil... p. 42; FLORENTINO, Manolo e GOÉS, José R. A paz das
senzalas: famílias escravas e tráfico atlântico (1790 – 1850). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997.
Apud , BELLINI, Lígia. Por amor e interesse: a relação senhor-escravo em cartas de alforria. In: REIS, João
José (Org.) Escravidão e invenção da liberdade: estudos sobre o negro no Brasil. São Paulo: Brasiliense; Brasília: CNPq, 1988, p. 146.
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momento, não era necessário apenas lidar com uma opinião pública crescentemente contrária à escravidão, ou com uma pressão escrava que talvez estivesse chegando à galope na província através das notícias do interior paulista e das emancipações no Ceará e no Amazonas em 1884. Ao se pensar em uma maneira de dar resposta a tais questões, era preciso considerar também que estava se tratando de uma população escrava em pleno vigor produtivo e que se ocupava de toda sorte de serviços necessários à vida doméstica e produtiva da cidade. Ou seja, era preciso pensar em formas de se assegurar que os ex- escravos não deixassem de cumprir com as suas funções no mundo do trabalho.
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