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2. A “Carta da Jamaica”, de Simón Bolívar: sobre a condição intergenérica

3.1. Os lugares e os tempos do ensaio

3.1.1. Heresia e problema

Ao final de “O ensaio como forma”, Theodor Adorno reitera em tom de manifesto o que já vinha anunciando desde as primeiras frases: para o filósofo, o ensaio alemão se encontrava sufocado “entre uma ciência organizada, na qual todos se arrogam o direito de controlar a tudo e a todos [...]; e, por outro lado, uma filosofia que se acomoda ao resto vazio e abstrato”.148 No seio da academia germânica, segundo Adorno, o ensaio era visto como forma de menor importância, um devaneio primitivo e impotente que não se prestaria a exemplificar categorias universais e cujas conclusões seriam interpretações filologicamente imponderadas. Fruto das acusações de uma classe intelectual conservadora, bem como do descompasso entre a crescente especialização das disciplinas acadêmicas e a disposição do discurso ensaístico para o pensamento libertário, a falta de uma tradição que legitimasse o

ensaio na Alemanha levou o gênero a uma situação desfavorável, quase insustentável, contra a qual Adorno vem a reagir de maneira contundente. Ao mostrar como e por que o ensaio encarna o verdadeiro impulso crítico, o autor aponta as bases cartesianas da separação entre sujeito e objeto como culpadas pela conversão da ciência em dogmatismo institucionalizado. Dessa forma, no jogo de oposições que Adorno estabelece ao defender as características primordiais do élan ensaístico, a fidelidade acadêmica às regras ditadas por Descartes converte o pensador que, ortodoxamente, recusa a interpretação antropomórfica típica do ensaio num irresponsável que tenta, em vão, provar a verdade de um domínio falacioso sobre o objeto de que trata. Diante desse cerceamento, o ensaio se desenvolve como forma crítica guiada por uma lei paradoxal: a infração herética, que busca desencavar por meio da linguagem aquilo que, “através das contradições em que os conceitos se enredam, acaba revelando que a rede de objetividade desses conceitos é meramente um arranjo subjetivo”.149

À parte a circunscrição estritamente filosófica em que Adorno se detém, a situação adversa do ensaio alemão parece curiosa quando comparada com o que certo contemporâneo do autor de “O ensaio como forma” afirma sobre o universo latino- americano. Para o colombiano Germán Arciniegas, que publica “El ensayo en nuestra América” em 1956 e “América es un ensayo” sete anos mais tarde, o aparecimento de um continente insuspeitado no horizonte cultural da Europa pós- medieval e o perfil humano que se desenvolveu como resultado da exploração daquelas terras são aspectos que dão fundamento à predileção pelo ensaio em nuestra América. No primeiro texto, Arciniegas parte da afirmação da mestiçagem como traço definidor da cultura americana para descrever a relação histórica entre a escrita ensaística e a questão identitária do continente: para o autor, “nesta nossa América, que é ladina e não é latina, o romance chega tarde, o teatro não amadurece, mas floresce o ensaio. Existe uma necessidade de interpretar-nos porque somos problemáticos”.150 Adotando a mesma premissa, mas aprofundando-se em questões

149 Adorno, 2003. p. 44.

150 No original em espanhol: “En esta América nuestra, que es ladina y no es latina, la novela llega

tarde, el teatro no madura, pero florece el ensayo. Hay una necesidad de interpretarnos porque somos problemáticos” (Arciniegas, 1993b. p. 410. Tradução minha). A 22ª edição do dicionário

relativas à influência do pensamento filosófico sobre a literatura, Arciniegas escreve “América es un ensayo” por ocasião de um concurso de jovens ensaístas promovido pelo Congreso por la Libertad de la Cultura, órgão anticomunista criado e desenvolvido ao longo dos anos 1950 e 1960 por intelectuais de diversas procedências.151

O transcorrer de quase um século desde a chegada de Colombo ao Caribe até o lançamento dos Essais de Michel de Montaigne – que representam, nos termos da historiografia literária, a fundação da tradição ensaística – não impede Arciniegas de realizar a vinculação, levada a cabo no âmbito do conhecer, de ambos os acontecimentos como manifestações de um processo cultural mais amplo. Num primeiro momento, a antecipação do ensaio americano com relação à obra do escritor francês se elucida pelas referências que Montaigne faz aos homens “que se diz ainda viverem sob a doce liberdade das leis primitivas da natureza”.152 Porém, a empresa

exploratória do homem europeu, que, além de carregar sobre as costas a responsabilidade de procurar e tomar posse de novos portos, se empenha na missão de registrar suas impressões sobre o que encontra, repercute de tal modo no cenário intelectual das sociedades pré-capitalistas que a irrupção da América representa “algo que tenta, provoca e desafia a inteligência”153. Para o intelectual colombiano,

“em rigor, o ensaio sobre o Novo Mundo é escrito na primeira década do século XVI da Real Academia Española (RAE) registra o uso do termo ladino na área centro-americana na acepção, entre outras, de “mestizo que sólo habla español”. Em seus textos, Germán Arciniegas emprega o termo ladino em sentido semelhante ao apontado pelo dicionário da RAE, o qual traz subjacente a prevalência da matriz europeia – branca, masculina e judaico-cristã – sobre as outras matrizes que conformam a diversidade da cultura latino-americana. Tal prevalência será clarificada na seção “O surgimento do hombre-ensayo” por meio da contraposição entre a evocação do Inca Garcilaso por parte do crítico colombiano e o “discurso da harmonia impossível”, segundo formulação de Antonio Cornejo Polar.

151 Ambos os textos foram originalmente publicados em números dos Cuadernos del Congreso por

la Libertad de la Cultura. A partir de 1966, a revista Mundo Nuevo, apontada como órgão financiado da inteligência estadunidense, passaria a absorver alguns dos autores que escreviam para os Cuadernos. O texto de 1963 também é editado com o título de “Nuestra América es un ensayo”.

152 No original em francês: “[...] qu’on dict vivre encore sous la douce liberté des premieres loix de

nature” (Montaigne, 1997a. p. 9. Tradução de Rosa Freire d’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2010a. p. 37).

153 No original em espanhol: “[...] algo que tienta, provoca, desafía a la inteligencia” (Arciniegas,

pelos próprios exploradores”.154 À diferença de formas literárias desenvolvidas tardiamente no continente – como o romance, gênero próprio do que Ángel Rama virá a chamar de cidade letrada155 –, o ensaio responde ao espanto causado pela extensa faixa de terra que se ergue no meio do nada e surge, com sua geografia e seus homens, como um problema: assim, a série de eventos decorrentes do descobrimento da América deflagra, no horizonte europeu, o desenvolvimento de uma forma discursiva “em que a paisagem, a selva e a aventura multitudinária devoram o personagem”.156

A associação efetuada por Arciniegas entre a América e o ensaio só pode ser compreendida, com toda a riqueza de sentido contida na marcha cronológica que seus textos desenham, por meio de um movimento ziguezagueante entre os planos criativo e crítico, buscando extrair, de sua aproximação e de sua confrontação, determinadas guias de leitura que esclareçam a vigência do ensaio segundo os parâmetros instaurados pelo escritor colombiano. No que tange ao plano criativo, penso que a convocação de outros autores que pensaram a América e praticaram a forma do ensaio pode iluminar os vínculos realizados por Arciniegas e o perfil de seu americanismo; considerando a assertividade característica de um posicionamento que carrega um intenso componente ideológico, as noções de literatura e de ensaio que atravessam os textos que trarei para o debate se revestem de traços igualmente afirmativos, o que favorece sua vinculação a outros domínios do conhecimento.

Talvez pelos recuos teóricos empreendidos em nome de uma maior precisão analítica, a bibliografia dedicada à tradição ensaística latino-americana conta com

154 No original em espanhol: “En rigor, el ensayo sobre el Nuevo Mundo se escribe en la primera

década del siglo XVI por los propios exploradores” (Arciniegas, 1993b. p. 410. Tradução minha).

155 Em texto de 1974, Rama associa o nascimento do romance a um processo sociocultural

semelhante ao que ocuparia o núcleo de sua obra póstuma, La ciudad letrada (1984): “[...] o romance vai se esboçando na América Latina timidamente quando esse circuito [a circulação da obra num grupo social coerente], que implica a existência do jornal e da palavra escrita, se articula, ainda que muito debilmente e sem que possa ser reinstaurado até muito tempo depois. A partir desse impulso, o romance latino-americano não fará senão que refazer uma história conhecida: a que conta as vicissitudes da estreita relação de um gênero com uma classe social, que é, no começo do século XIX, a burguesia mercantil e de funcionários públicos [...].” (Rama, 2001. p. 42).

156 No original em espanhol: “[...] en que el paisaje, la selva, la aventura multitudinaria se devora al

algumas brechas incômodas ao lidar com a questão da prevalência do ensaio na América. Por agora, basta lembrar a justificativa apresentada pelo crítico espanhol Teodosio Fernández na introdução de seu estudo de 1990 sobre os gêneros ensaísticos hispano-americanos: se, num primeiro momento, o autor se apoia na constatação filológica de que o termo ensayo aparece na crítica literária do continente apenas no final do século XIX, mais adiante, ao enfatizar a condição proteica do ensaio – sustentando-se na famosa metáfora do centauro de los géneros, elaborada por Alfonso Reyes –, o autor agrega as crónicas de Indias à genealogia do ensaio hispano-americano a despeito de constituírem “um gênero independente, cujo interesse literário ninguém questiona, embora ninguém tenha conseguido determinar exatamente onde ele reside”.157 Como consequência de uma ênfase excessiva em critérios formais como norteadores do exercício crítico, os textos que figuram na história dos gêneros ensaísticos elaborada por Fernández toleram apenas definições negativas, pois “não pertencem ao âmbito da ficção narrativa, nem ao da lírica, nem ao do teatro”.158 O enquadramento do ensaio a partir de características ausentes não é exclusividade de abordagens aferradas ao binômio forma-conteúdo nem daquelas centradas no âmbito latino-americano. Ao mencionar o ensaio em seu estudo sobre as articulações entre a retórica da prosa de ideias e as funções sociais desempenhadas pela literatura panfletária, Marc Angenot também se deixa guiar por traços levantados na forma negativa:

O termo ensaio abrange toda forma de uso da linguagem em que não sejam dominantes nem a narração nem a expressividade lírica.

Curiosamente, o “ensaio literário” parece se definir em relação ao “tratado”, ao “compêndio”, ao discurso didático, por uma falta – falta de sistematicidade e de distanciamento teórico, lacunas e heterogeneidade que são compensadas por uma retórica da primeira pessoa.159

157 No original em espanhol: “[...] un género independiente, cuyo interés literario nadie cuestiona,

aunque nadie haya podido determinar con exactitud dónde reside” (Fernández, 1990. p. 12. Tradução minha).

158 No original em espanhol: “[...] no pertenecen al ámbito de la ficción narrativa, ni al de la lírica, ni

al del teatro” (Fernández, 1990. p. 12. Tradução e grifos meus).

159 No original em francês: “[...] le mot d’essai parvient à recouvrir toutes sortes d’utilisations du

langage, pour autant que n’y dominent ni la narration ni l’expressivité lyrique.

Curieusement, l’’essai littéraire’ semble se définir en regard du ‘traité’, du ‘précis’, du discours didactique, par un manque – manque de systématicité, de recul théorique, lacunes et hétérogénéité compensées par une rhétorique du moi” (Angenot, 1995. p. 46. Tradução e grifos meus).

Buscando desviar dessas armadilhas, Liliana Weinberg pensa o ensaio nos termos da representação de uma atividade, o que ressalta sua proposta de investigar as articulações entre o exterior e o interior do ensaio. A construção el que piensa escribe é tratada por Weinberg como uma convenção do gênero, segundo a qual “o entendedor registra por escrito aquilo que vai pensando e predicando sobre a realidade”.160 O caráter progressivo dessa atividade pressupõe, além da atenção do leitor, que o ensaio represente um esforço intelectivo desenvolvido no tempo presente ou em função de um efeito de presentificação. É por meio desse procedimento que o ato interpretativo se entrelaça com a enunciação do discurso ensaístico.