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1. O ensaio como discurso: aportes teóricos

1.3. Principais aportes teóricos

1.3.3. O ensaio como articulação de um sujeito social

Em La parole pamphlétaire (1982), Marc Angenot elabora um profundo estudo sobre a literatura de combate (littérature de combat), categoria da prosa de ideias que engloba diferentes formas de textos polêmicos orientados por caracteres ideológicos. Embora o autor se dedique à descrição e à análise tipológica do panfleto, certas premissas de seu trabalho servem ao exame do ensaio latino-americano: em primeiro lugar, um importante capítulo da obra, consagrado à retórica panfletária, parte do princípio de que algumas figuras-chave para a compreensão desse tipo de texto são evocadas pela função que o discurso deve desempenhar no espaço coletivo, o que reforça a importância da circulação pública como elemento incidente sobre o texto, aspecto essencial para o entendimento do ensaio em que se converte a “Carta da Jamaica”, de Simón Bolívar, e das manobras retóricas efetuadas por Julio Cortázar em favor da Revolução Sandinista. Nesses textos, as figuras de asserção, agressividade, paradoxo, dialogismo e concessão, entre outras, são entendidas como realizações conscientes, como traços perseguidos por escritores que vislumbram os efeitos de suas interpretações sobre o leitor. Tais considerações também permitem superar a noção de ensaio como gênero degenerado e (in)definível na forma negativa, além situar a prosa ensaística como correlata da prosa ficcional.

O estudo de Marc Angenot também lança o conceito de discurso entimemático (discours enthymématique), categoria que o autor distingue da narrativa apenas por questões de metodologia e que se define pela articulação de uma unidade básica, o entimema (enthymème) – em resumo, uma proposição que carrega um valor opinativo inscrito numa ordem persuasiva. No quadro tipológico dos discursos entimemáticos, Angenot situa o ensaio num ramo vizinho ao dos gêneros “agônicos”, isto é, aqueles marcados por uma atitude contradiscursiva, que configuram o cerne de seu trabalho. A razão fundamental dessa separação diz respeito à presença de um pathos exacerbado nos discursos agônicos, ao passo que o ensaio prima pelo diagnóstico ou pela meditação. Na primeira modulação do ensaio, trata-se de um discurso que “não se dá por uma reflexão sobre um mundo em movimento, mas pela reflexão de um mundo captado na teia de aranha dos conceitos por meio de um jogo

de combinações, conjunções e disjunções”.39 Por sua vez, o ensaio meditativo é compreendido como exibição do processo constitutivo do pensamento; trata-se de um discurso marcado por uma técnica expressiva ziguezagueante, na qual as imagens intuitivas sobressaem em relação às conexões de feição silogística. Segundo Angenot, tanto em Montaigne como em diversos ensaístas modernos, “essa aparência de desordem costuma esconder um desenvolvimento certamente rigoroso. Mas trata- se, em todo caso, menos de revelar um ‘conteúdo’ exterior ao pensamento que de mostrar os mecanismos íntimos pelos quais o pensamento aborda os objetos”.40

O esquema tipológico e as distinções recuperadas acima têm pertinência para a caracterização do ensaio em língua francesa, universo de onde provêm os exemplos de La parole pamphlétaire, e funcionam como pano de fundo do estudo sobre a literatura de combate. Neste trabalho, explorarei textos que desenvolvem, em diferentes graus de complexidade, os aspectos arrolados no estudo do crítico belga- canadense. No entanto, a tradição ensaística latino-americana conta com diversas obras que cruzam as fronteiras esboçadas por Angenot. Cada qual a seu modo, os casos recortados de Simón Bolívar, Germán Arciniegas e Julio Cortázar traduzem uma combinação daquelas características, na medida em que as figurações da primeira pessoa nos textos que analisarei transitam entre a captação de um estado de cultura e o desdobramento de interpretações fortemente ancoradas no tempo presente.

A flexibilização dos quadros de Marc Angenot é prevista por Beatriz Colombi em breve artigo de 2008 sobre as representações do ensaísta na literatura latino- americana dos séculos XIX e XX. Para a pesquisadora argentina, a ficção enunciativa do gênero no continente conta com algumas figuras-tipo básicas, como o polemista, o profeta, o professor (maestro), o intérprete da psique coletiva, o

39 No original em francês: “[...] ne se donne pas pour une réflexion sur un monde mouvant mais

pour la réflexion d’un monde capté dans la toile d’araignée des concepts à travers un jeu de couplages, de conjonctions et de disjonctions [...]” (Angenot, 1995. p. 47. Tradução minha).

40 No original em francês: “[...] cette apparence de désordre cache souvent un développement à

couvert rigoureux. Mais il s’agit en tout cas moins de dévoiler un ‘contenu’ extérieur à la pensée que de montrer les mécanismes intimes par lesquels la pensée se donne des objets” (Angenot, 1995. p. 57. Tradução minha).

tratadista ligado à academia, entre outros. Subscrevendo a leitura panorâmica de Colombi, consigo vislumbrar os enunciadores de cada um dos textos que constituem o corpus de minha pesquisa como mobilizações dos quadros compartimentados de Angenot: enquanto a primeira pessoa da “Carta da Jamaica”, de Bolívar, sugere a representação de um profeta e antecipa um modelo de caracterização do ser americano, o eu dos ensaios de Arciniegas percorre a história da literatura e da cultura ladino-americanas de maneira assumidamente didática.41 Já no caso de Cortázar, a escrita ensaística adota um tom majoritariamente polemista – o que evoca, segundo as indicações de Angenot, a metáfora da “garrafa lançada ao mar”.42 Além disso, o processo de conformação do enunciador em Nicaragua tan violentamente dulce está diretamente relacionado à persona do escritor profissional, o que demanda uma leitura dos ensaios da coletânea frente ao conjunto da obra ficcional cortazariana.

O artigo de Beatriz Colombi recupera a noção de ficção enunciativa esboçada por Roberto González Echevarría em La voz de los maestros (1985). No preâmbulo de um denso estudo sobre a retórica magisterial na obra de José Enrique Rodó, o crítico sugere a presença de uma mitologia escritural definidora de certa linhagem da tradição ensaística latino-americana: os projetos de busca pela identidade do continente estariam sujeitos às complexidades do meio em que se fundam, a linguagem, o que levaria à criação de um conceito de cultura articulado com o discurso da literatura – notadamente, no que se refere à figuração de uma voz timbrada pelo caráter autoritário.

41 Em “América es un ensayo” (1963), um dos textos analisados no terceiro capítulo deste trabalho,

o intelectual colombiano afirmará que suas associações correspondem ao “[...] afán de un profesor de literatura por clasificar géneros literarios” (Arciniegas, 1993a. p. 334).

42 Segundo Marc Angenot, essa imagem traduz, ao lado da imagem da vox clamans in deserto, as

dificuldades do autor de panfletos para se comunicar com seu destinatário: “Il lui faut espérer qu’un jour ce qu’il [le pamphlétaire] écrit rencontrera un lecteur qui ne soit pas tout à fait subjugué par l’imposture et se montrera capable de donner aux mots leur ‘juste’ valeur. D’où l’image en filigrane de tout pamphlet : celle de la bouteille-à-la-mer. Il faut écrire, c’est l’impératif du solitaire, après le naufrage idéologique, mais on ne choisit pas son destinataire, on ne s’adresse à personne, on ne compte plus être secouru [...]” (Angenot, 1995. p. 81. Grifo meu).

Para Echevarría, uma parte da crítica literária de orientação marxista obliterou as relações entre escrita e autoridade em favor de uma ênfase desmedida no enquadramento dos textos em fórmulas prévias emprestadas, em sua maioria, da sociologia. Recusando a noção desse imediatismo da linguagem, Echevarría caracteriza a literatura latino-americana como oblíqua, isto é, “violenta, perversa, dedicada à demolição da autoridade sem proporcionar projetos viáveis de ordem”43, e propõe, a partir de uma perspectiva desconstrucionista, a existência de fábulas estruturantes “repletas de contradições, de violência e figuras simbólicas”.44 Desse modo, um dos relatos fundacionais identificados por Echevarría na tradição ensaística promove o vínculo entre o autor e o professor (maestro), personagem que encarnaria a estima social de um participante dos projetos de constituição identitária do continente. Caberia ao professor, figura mencionada no trabalho posterior de Beatriz Colombi, a tarefa de “sondar as profundidades da linguagem e da história a fim de articular a voz da cultura e torná-la apta à disseminação, isto é, converter essa voz – pura e autóctone – em fonte de autoridade”.45

Na base dessa figuração típica do ensaio latino-americano, como Colombi apontará, Echevarría identifica uma característica de grande interesse para a ideia de mitologia da escritura: a autoconstituição ficcional do ensaio, qual seja, sua necessidade de “fazer-se passar por outra coisa, contraditoriamente reconhecendo, ao mesmo tempo, que ele não é o que aparenta ser”.46 A criação desse espaço ficcionalizado, do qual Ariel (1900), de José Enrique Rodó, vem a ser tornar caso exemplar, é reconhecida por Echevarría como traço inobservado pela crítica, centrada sobretudo em discutir a estilística do ensaio. Para meu trabalho, as intuições de Echevarría funcionam como retorno após o desnudamento escritural, pois abrem a possibilidade de pensar os

43 No original em espanhol: “Violenta, perversa, dedicada a la demolición de la autoridad sin

proporcionar proyectos viables de orden [...]” (Echevarría, 2001b. p. 36. Tradução minha).

44 No original em espanhol: “[...] atestadas de contradicciones, de violencia y figuras

simbólicas [...]” (Echevarría, 2001b. p. 37. Tradução minha).

45 No original em espanhol: “[...] sondear las profundidades del lenguaje y la historia con el fin de

articular la voz de la cultura y hacerla apta para la diseminación, esto es, convertir esta voz – pura, autóctona – en fuente de autoridad” (Echevarría, 2001b. p. 38. Tradução minha).

46 No original em espanhol: “[...] hacerse pasar por otra cosa, contradictoriamente reconociendo, al

mecanismos retóricos do ensaio como pontos de articulação – entre o interior e o exterior do texto, entre as estratégias de representação e significação e os esquemas ideológicos que orientam a abordagem dos conteúdos e conformam o papel do escritor na dinâmica social.