• Nenhum resultado encontrado

História da Evolução do Direito Internacional

6 DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO E FUNDAMENTO DO DIREITO INTERNACIONAL

6.1 História da Evolução do Direito Internacional

De todos os ramos do direito, sem dúvida, é o direito internacional que mais tem evoluído, e, por conseguinte, é vital um estudo histórico dessa evolução.

A predominância doutrinária até o início de século 20 sustentava que o direito internacional era bidimensional, ou seja, versava somente sobre a terra e o mar.

Antes de meados do mesmo século, com as conquistas de Alberto Santos Dumont e especialmente com a segunda grande guerra, o direito internacional passou a ser tridimensional.

Ainda em consonância com Accioly (2009, p.48), uma divisão absoluta entre períodos não é produtiva, pois que se entremeiam e modificam-se com o tempo, sem rupturas, mas com transições sutis.

É pacífica e sustentada pela doutrina que as normas básicas e os institutos que consolidam o direito internacional, como elucida o autor, “têm de ser situados como padrão de conduta natural e base inquestionável para estudos e escritos a respeito da história humana, há seu tempo”.

No decorrer dos séculos de registro sobre o tema, vimos que os autores ao se reportarem sobre a evolução do direito, adotaram diversas fontes, respectivos à sua visão de conceber normas, assim podemos citar Hugo Grócio apud Accioly (2009, p.49)23 que retrata precedentes bíblicos e casos da História antiga grega e romana; ou ainda Cornelius van Bynkershoek24, que cita as práticas de sua época.

22Tratado de Trianon: Regulou a situação com a Hungria, pelo qual ela perdia várias regiões: a região da Eslováquia passava para a recém-criada República da Checoslováquia; para a Ioguslávia passava a Croácia, e para a Romênia, a Transilvânia.

23 GRÓCIO, Hugo, Direito da guerra e da paz (Unijuí, Livro I, cap. I, nº IX, “ o direito é definido como regra e se divide em direito natural e direito voluntário”, p. 78-9), ou ainda, quando vai buscar em Moisés Mainonides a distinção entre direito natural e direito positivo.

24Bynkershoek, Cornelio van, 1673-1743 Cornelii van Bynkershoek.Quaestionum juris publicilibri duo, quorum primus est de rebus bellicis, secundus de rebus variiargumenti. Tomusquintus. - Editio secunda. - LugduniBatavorum : apud Joannem van Kerckhem, 1751. - [24], 384, [32] p.; 4º. - Sinal verde. - Página de título impressa a vermelho e preto com gravura a buril. - Encadernação da época em pele castanha marmoreada, com lombada de cinco nervos, gravada a ferros dourados e rótulo vermelho, rasgada e traçada. - Sinal verde. - Corte vermelho Direito público- Universidade de Coimbra Faculdade de direito. Cornelius van Bynkershoek (1673-1743) se inscreve como marco no desenvolvimento do Direito Internacional, dentre os autores mais relevantes, do século XVIII. Este internacionalista foi importante pelo foco pragmático dado à prática dos estados, como elemento determinante da formação e da consolidação de normas internacionais, mas curiosamente muito

Atualmente, são aplicados precedentes julgados, pareceres promulgados pela Corte permanente de justiça internacional e pela Corte Internacional de Justiça (CIJ).

Para a construção dos fundamentos do direito internacional ao longo da história, ocorreu com a contribuição de diversos autores, que há seu tempo traziam seus apontamentos e definições, formando pouco a pouco novos conceitos.

Nesse diapasão, podemos citar Moisés Maimonides (1135-1204)25 que favoreceu a formação de conceitos no tema citado, inclusive fazendo a diferenciação em direito natural (Mitsvoth) e o direito positivo (Khukkim), citando as palavras de Gaurier (2005, p. 08) apud Accioly (2011, p. 49), as disposições gerais dos mandamentos têm necessariamente uma razão e foram prescritas em vista de certa utilidade; mas as disposições de detalhe, como se diz, não têm outro fim além de prescrever alguma coisa”.

Também nesse sentido, o autor continua:

(...) o direito não é estático, nem tampouco opera no vácuo. Não há como deixar de tomar em conta os valores que forma o substratum das normas jurídicas. O direito internacional superou o voluntarismo ao buscar a realização de valores comuns superiores, premido pelas necessidades da comunidade internacional.

O conceito sobre o direito das gentes por Emer de Vattel (2004, p.30) é fundamentado nos seguintes dizeres:

(...) é da maior importância para as nações que o direito das gentes, base de sua própria tranquilidade, seja respeitado universalmente. Se alguma nação espezinhar abertamente esse direito, todas podem e devem insurgir-se contra ela, e ao reunirem suas forças, para punir esse inimigo comum, elas estão cumprindo seus deveres, para consigo mesmas e para com a sociedade humana, da qual são membros.

menos frequentemente citado que outros internacionalistas. Disponível em <http://bibdigital.fd.uc.pt/H-B-12-6/H-B-12-6_item2/index.html>. Acesso em 08 de mar de 2017.

25 Em 1985, decorridos oitocentos e cinquenta anos após o nascimento de Maimonides, a UNESCO propôs à Comunidade Internacional que fosse celebrada esse nascimento e recordada a figura do tolerante e cosmopolita erudito Judeu, de seu nome completo Moises Ben Maïmon. Moisés Maimônides ou Maimónides, também conhecido pelo acrônimo Rambam, foi um filósofo, religioso, codificador rabínico e médico. Nascimento: 1135, Córdova, Espanha; Falecimento: 13 de dezembro de 1204, Fustat, Egito. Educação: Universidade al Quaraouiyine.Sepultamento: Tomb of Maimonides, Tiberíades, Israel. Filho: Abraham ben Moses ben Maimon. Disponível em

<http://www.ofilosofo.com/maimonides-bio.htm>.Acesso em 09 de mar de 2017.

Considerando as formulações acima, sobre o direito das gentes, é o que se denomina como direito internacional cogente (jus cogens) ou ainda, de normas cogentes, que por sua vez ressaltam os direitos humanos.

O Instituto de Direito Internacional – I.D.I.26 traz em sua concepção sobre os direitos do homem como a “expressão direta da dignidade e da personalidade humana”. Veja-se transcrição do artigo 1º:

Article 1 Human rights are a direct expression of the dignity of the human person. The obligation of States to ensure their observance derives from the recognition of this dignity as proclaimed in the Charter of the United Nations and in the Universal Declaration of Human Rights.Tradução: artigo 1 Os direitos humanos são a expressão direta da dignidade e da personalidade humana. A obrigação para os Estado de assegurar o respeito decorre do próprio reconhecimento dessa dignidade, já proclamada pela Carta das Nações Unidas e pela Declaração Universal dos Direitos do Homem”.

Por essa definição, vê-se que cabe a todos (indivíduo e estados) a proteção dos direitos do homem, o que equivale dizer: o dever de solidariedade entre todos os estados, Bercocivi, (2003, 279-284), cujo objetivo não é senão assegurar a proteção universal e eficaz desses direitos, com a diligência que o caso requer.

Segue que no parecer o I.D.I. sob nenhuma hipótese, pode o Estado violador dessa obrigação, se eximir de sua responsabilidade perante a comunidade internacional, com eventual argumentação de que tal matéria é de arbítrio nacional.

26 O Instituto de Direito Internacional foi fundada 08 de setembro de 1873, na Câmara Municipal de Ghent, na Bélgica. Onze internacionalistas renome tinha decidido se juntam para criar uma instituição independente da influência do governo que contribui para o desenvolvimento do direito internacional e agir para que possa ser aplicada. Inicialmente, a reunião Ghent, nós especialmente reconhecer os esforços de Gustave Rolin-Jaequemyns e Gustave Moynier. Isso foi em 1863, um dos cinco membros fundadores do Comitê Internacional da Cruz Vermelha. Como muitos outros, ele ficou chocado ao observar que durante a Guerra Franco-Prussiana de 1870-71, a Convenção para a Melhoria dos feridos nos exércitos em campo de 1864 foi muito pouco respeitada. Tivemos que reagir, e é transportado pelo impulso que os fundadores estabeleceram uma associação privada a que a sua autoridade científica, a qualidade do seu trabalho e da sua independência tinham a intenção de

"promover o progresso do direito internacional", nas palavras de seu estatutos (artigo). O Instituto reúne a cada dois anos. Entre sessões, as comissões científicas estudar temas que são escolhidos pela Assembleia Plenária. Ele recebe o trabalho das Comissões, examina-los com cuidado, e quando parece adequado, adopta uma resolução de caráter normativo. Estas resoluções são levadas ao conhecimento das autoridades governamentais, organizações internacionais, a comunidade científica. Desta forma, o Instituto procura destacar as características dos lata lex para recomendar respeito, que atribui também, às vezes, a aprovar lege ferenda de contribuir para o desenvolvimento do direito internacional. Em 1904, o Instituto de Direito Internacional recebeu o Nobel da Paz em reconhecimento da sua acção em favor da arbitragem entre os estados, meios pacíficos de resolução de conflitos. Extraído do site oficial do Instituto originalmente no idioma francês. Grifo nosso.

Disponível em <http://justitiaetpace.org/historique.php?lang=fr>. Acesso em 08 de mar de 2017

Desta feita, aos membros da referida organização compete à adoção de medidas diplomáticas e econômicas admitidas pelo direito internacional, desde é claro, que não seja com uso de força armada, contra os estados que individual ou coletivamente infrinjam o compromisso assumido de proteção.

As violações que corroborem o uso de tais medidas, necessariamente serão devidamente apreciadas e de modo consistente27, levando em conta a gravidade da denúncia.

Observe-se a expressiva evolução cultural quanto ao objeto do direito internacional que se refere ao respeito das identidades culturais. Nesse sentido, o IDI (s.d, s.p) traz a seguinte afirmação:

(...) essa dimensão do direito internacional pós-moderno, ao lado do reconhecimento de outras dimensões inovadoras do direito internacional pós-moderno pelo Instituto de Direito Internacional, tais como o reconhecimento da existência e conteúdo de normas inderrogáveis e de obrigações erga omnes. A existência e extensão, em direito internacional pós-moderno, está entre as mais relevantes e as mais controvertidas evoluções recentes do cenário jurídico internacional.

Em que pese o trabalho do IDI, suas Resoluções são balizas para definições de desenvolvimento no direito internacional, sendo oportuno frisar que textos recentes desse Instituto, tiveram expressiva influência sobre o direito internacional pós-moderno de forma geral, e não apenas em matéria penal. Cabido aqui, ilustrarmos alguns desses textos: Resoluções sobre a sucessão de estado, em matéria de bens e de dívidas (Vancouver, 2001, s.p), a assistência humanitária (Bruges, 2003, s.p), as obrigações erga omnes (Cracóvia, 2005, s.p), e agora mais recentemente28: sobre

27 I.D.I. Resolução de Santiago de Compostela, adotada em 13 de setembro de 1989, em seu artigo 6º assim transcrito: Os dispositivos da presente resolução se aplicam, sem prejuízo dos procedimentos instituídos em matéria de direitos do homem, nos termos ou em virtude de instrumentos constitutivos e das convenções da Organização das Nações Unidas e das instituições especializadas ou regionais. Article 6 the provisions of this Resolution apply without prejudice to the procedures prescribed in matters of human rights by the terms of or pursuant to the constitutive instruments and the conventions of the United Nations and of specialized agencies or regional organizations.

28 Disponível em http://justitiaetpace.org/ e http://justitiaetpace.org/resolutions_chrono.php? Start

=2001&end=2007> Acesso em 09 de mar de 2017. Resoluções do Instituto de Direito Internacional.

Resolution on the Immunity from Jurisdictio nof the State and of Persons Who Acton Behalf of the State in case ofInternational Crimes - 2009 Naples (tradução: Resolução sobre a imunidade de jurisdição do estado e das pessoas que lei sobre ser parte do estado em caso de Crimes internacionais 2009 NápolesI.Universal Civil Jurisdiction with regard to Reparation for International Crimes 2015 Tallinn - Competência Civil Universal em matéria de reparação dos Crimes internacionais 2015 TallinnII.Present Problems of the Use ofArmed Force in International Law - Sub-group D: Authorization of the Use of Force by the United Nations 2011 Rhodes - Apresentar

imunidade de jurisdição do estado e das pessoas em caso de crimes internacional (Nápoles, 2009, s.p); autorização do uso de força por parte das Nações Unidas (Rhodes, 2011, s.p) e competência civil em matéria de reparação dos Crimes Internacionais (Tallinn, 2015, s.p).

Como se observa, o referendo do IDI direciona as comunidades internacionais para a preocupação da crise pós-modernidade, assim como, oferece diligência para sua superação, contribuindo para verdadeira construção do direito internacional pós-moderno.

Para uma melhor compreensão, trazemos a definição do autor em comento quanto à obrigação erga omnes, nesse contexto, cujas palavras transcrevemos:

Obrigação erga omnes é a obrigação decorrente do direito internacional geral, em relação ao qual o estado, em qualquer circunstância, tem a obrigação de observar, quando à comunidade internacional, com base em valores comuns e no próprio interesse do estado, que tal obrigação seja respeitada, de maneira que a sua violação autoriza todos os estados a reagirem contra a referida violação.

Destarte, no que se refere então à obrigação erga omnes, defendida pelo Instituto, conforme cita Accioly, (2011, p.55) “em virtude do direito internacional, algumas obrigações se impõem a todos os sujeitos do direito internacional, com o fim de preservar os valores fundamentais da comunidade internacional”. Nesse modelo, algumas das obrigações que refletem diretamente em valores fundamentais, poderíamos citar a título de exemplo: a proteção ao meio ambiente, proibição de genocídio; interdição de atos de agressão, e aquelas ligadas ao direito de autodeterminação dos povos.

Com tal característica, o Instituto oferece um padrão de reflexões, bem como, soluções para sanar referidas violações, dentre outras, estendendo inclusive para outros sujeitos de direito internacional, além dos estados, conforme analisaremos mais à frente.

Na atualidade existem diversas organizações que tratam do direito internacional e ainda sobre a cooperação jurídica internacional, as quais citaremos no decurso do presente trabalho.

problemas do uso da força armada em direito internacional - subgrupo d: autorização do uso da força por parte das Nações Unidas 2011 Rhodes.