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3 HISTORICIDADE E CONCEPÇÕES FORMATIVAS DO ENSINO DE ARTE

No documento HISTÓRIA E ENSINO DE ARTE NO BRASIL (páginas 22-26)

NO BRASIL

Agora que já nos deparamos com as complexidades conceituais fi losófi ca, institucional e histórica da arte, em geral, vamos nos concentrar nas veredas em que o ensino se deu em terras brasileiras. Aqui, com certeza, teremos que nos basear em subsídios históricos, ou seja, precisamos compreender a própria história do ensino de arte no país, a transformação desde a época colonial até os dias de hoje. Essas transformações fazem parte dos processos social, cultural e político, e foram tomando corpo através do tempo. Segundo Ferraz e Fusari (2009, p. 27),

“[...] assim como outras áreas do conhecimento, as práticas educativas surgem de mobilizações políticas, sociais, pedagógicas, fi losófi cas, e, no caso da arte, também, de teorias e proposições artísticas e estéticas. Quando caracterizadas nos diferentes momentos históricos, ajudam a compreender melhor a questão do processo educacional e a relação dele com a própria vida”.

Ao longo desta disciplina, estudaremos as principais fases do ensino de arte no Brasil, mas, para melhor compreendermos, de início, a relação entre o

Linha do tempo do ensino de arte no Brasil:

• 1816: Durante o governo de dom João VI, chega, ao Rio de Janeiro, a Missão Artística Francesa, e é criada a Academia Imperial de Belas Artes. Seguindo modelos europeus, é instalado, ofi cialmente, o ensino de arte nas escolas.

• 1900: Até o início do século XX, o ensino do desenho é visto como uma preparação para o trabalho em fábricas e para serviços artesanais. São valorizados o traço, a repetição de modelos e o desenho geométrico.

• 1922: Apesar da efervescência das manifestações da Semana de Arte Moderna, o ensino segue as tendências da escola tradicional, que defende a necessidade de copiar modelos para treinar habilidades manuais.

• 1930: O compositor Heitor Villa-Lobos, no governo de Getúlio Vargas, institui o projeto de canto orfeônico nas escolas. São formados corais, que se desenvolvem pela memorização de letras de músicas de caráteres folclórico e cívico.

• 1935: O escritor Mario de Andrade, então diretor do Departamento de Cultura do município de São Paulo, promove um concurso de desenho para crianças com tema livre. O ganhador recebe uma quantia em dinheiro.

• 1948: É criada, no Rio de Janeiro, a primeira "Escolinha de Arte", com a intenção de propor atividades para o aluno desenvolver a autoexpressão e a prática. Em 1971, chega a 32 o número de instituições particulares desse tipo no país.

• 1960: As experimentações que marcam a sociedade, como o movimento da bossa nova, infl uenciam o ensino de arte nas escolas de todo o país.

É a época de a tendência da livre expressão se expandir pelas redes de ensino.

• 1971: Segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), a Educação Artística (que inclui artes plásticas, educação musical e artes cênicas) passa a fazer parte do currículo escolar dos Ensinos Fundamental e Médio.

• 1973: Criação dos primeiros cursos de licenciatura em Arte, com dois anos de duração, e voltados à formação de professores capazes de lecionar música, teatro, artes visuais, desenho, dança e desenho geométrico.

• 1989: Desde 1982, desenvolvendo pesquisas acerca das três ideias (fazer, ler imagens e estudar a história da arte), Ana Mae Barbosa cria a proposta triangular, que inova, ao colocar obras, como referência, para os alunos.

• 1996: A LDB passa a considerar a Arte como disciplina obrigatória da Educação Básica. Os Parâmetros Curriculares Nacionais defi nem que ela é composta de quatro linguagens: artes visuais, dança, música e teatro.

3.1 BREVE INTRODUÇÃO ÀS CONCEPÇÕES FORMATIVAS

Ao mesmo tempo em que observamos, acerca da historicidade, que as tendências sociais, culturais e políticas exerceram uma infl uência no ensino das artes, é importante, também, salientar que houve uma forte marcação estético-psicológica-pedagógica europeia, além da norte-americana, no ensino das artes no Brasil. Nesse sentido, gostaríamos de compartilhar, com vocês, as tabelas comparativas oferecidas pelo professor americano Arthur Efl ang (1974), o qual, já na década de 1970, havia identifi cado as principais concepções formativas de ensino das artes que ocorreram nos EUA até aquele momento. Segundo Efl ang, houve um casamento entre as orientações estéticas e psicológicas da pedagogia através da história do ensino das artes. Como veremos a seguir, a tendência mimética, ou de imitação, ocorreu com a tendência psicológica comportamental, a tendência pragmática com a cognitiva, e assim por diante. Ao longo desta disciplina, perceberemos que essas mesmas concepções formativas ocorreram, também, no Brasil, mesmo que em períodos históricos levemente diferentes.

MIMETICA: Premissa principal: A arte é uma imitação da natureza. As obras de

arte seriam compreendidas quando os objetos e os eventos representados fos-sem compreendidos pelo espectador.

A qualidade do trabalho é avaliada pela fi delidade ao modelo. A teoria mimética não sofreu nenhum desenvolvimento nos últimos dois séculos; ainda assim,

os critérios miméticos são,

frequente-COMPORTAMENTAL: Premissa prin-cipal: Aprender é por imitação do

com-portamento de outros, por exemplo, as crianças aprendem a falar a língua

dos pais. Quando o modelo é imitado retamente e reforçado, o aprendizado é garantido. As crianças aprendem copiando os desenhos, o som e os movimentos feitos por outras pessoas.

Motivação para aprendizagem propor-QUADRO 1 – ALINHAMENTOS ENTRE AS TEORIAS ESTÉTICA E PSICOLÓGICA ORIENTAÇÕES DA TEORIA ESTÉTICA ORIENTAÇÕES DA TEORIA PSICOLÓGICA

PRAGMÁTICA: Premissa principal: As obras de arte podem ser conhecidas pelos efeitos que causam no público. A experiência de um espectador é

deter-minada pela transação entre o objeto de percepção e a disposição do espec-tador. Embora os artistas possam criar obras a partir da imaginação, certas suposições da natureza do público po-dem desempenhar um papel na criação

e na apresentação da obra.

COGNITIVA: Premissa principal: O comportamento é mediado pela expe-riência anterior do indivíduo. Essas ex-periências afetam as maneiras como os novos eventos são percebidos e compreendidos, e esses

entendimen-tos permitem, ao indivíduo, adaptar o comportamento ao ambiente. As crianças representam o que sabem na

expressão artística. Como eles optam por fazer essas representações é afetado pelo conhecimento do

público--alvo, ou seja, o que agrada ou evoca uma resposta.

EXPRESSIVA: Premissa principal: A arte é a expressão das emoções do artista. A arte não é um objeto legislado

por regras, mas um produto que surge como resultado do insight do artista.

A obra de arte, também, é vista como uma revelação da personalidade do artista. Embora o gênio artístico tenha começado a ser celebrado como herói cultural no Renascimento, foi, no início da era romântica do século XIX que essa visão do artista adquiriu o status

de um culto.

PSICANALÍTICA: Premissa principal:

Todo comportamento é, em parte, expressivo, e, frequentemente,

moti-vado por motivações inconscientes, como desejos reprimidos. Estes são canalizados por meio do processo de

sublimação em formas de expressão socialmente aceitas. A arte infantil é regida não pelo que elas copiam, mas

pelo que sentem. A distorção não é um erro, mas é essencial para a

auto-expressão.

OBJETIVISTA: Premissa principal: A obra de arte é uma entidade indepen-dente, e pode falar por si mesma. Não é preciso saber as intenções do artista, ou, mesmo, muito do contexto histórico, a partir do qual ele se desenvolveu, para compreender a obra em questão.

A obra deve ser um todo orgânico, au-toexistente e autossufi ciente em toda a

complexidade e a unidade.

GESTALT: Premissa principal: O signifi cado das formas é acessível, diretamente, na percepção. As formas

de arte são bons gestos que expres-sam a natureza inerente da maneira

mais clara e pelos meios mais eco-nômicos. A percepção é um processo legal regido por formas específi cas de

organização, como fechamento, sim-plicidade, semelhança, fi gura-fundo etc. A arte infantil se desenvolve de acordo com certas leis inatas que vão do simples ao complexo, através d um

processo de diferenciação.

FONTE: Efl ang (1974, p. 23)

Dos casamentos dessas tendências estéticas e psicológicas, podemos, segundo Arthur Efl ang (1979), observar as seguintes tendências no ensino das artes:

MIMÉTICA X COMPORTAMENTAL:

A ARTE é uma imitação da natureza. APRENDER é uma mudança de comportamento. O COMPORTAMENTO é adquirido e modifi cado por imitação. O ENSINO fornece, aos alunos, modelos para imitarem.

PRAGMÁTICA X COGNITIVA:

A ARTE é um instrumento que produz efeitos sobre o público. APRENDER é um instrumento que permite, ao indivíduo, adaptar-se ao meio. O COMPORTAMENTO é mediado pelo aprendizado prévio. O ENSINO proporciona, aos alunos, problemas para darem estrutura à experiência.

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