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Identidade e memória como conceito de análise

2 CAMINHOS TEÓRICOS – METODOLÓGICOS, PERCURSOS, PERCALÇOS E

2.1 Caminhos teóricos, percursos, percalços e trilhas sonoras

2.1.3 Identidade e memória como conceito de análise

Durante as análises das entrevistas, as leituras teóricas e críticas que vem se construindo ao longo do tempo em torno da falta de olhares de como se deram as organizações dos movimentos lésbicos em Pernambuco, evidenciam-se a identidade e memória como campos importantes não apenas teórico, mas político. Através dos registros dos movimentos lésbicos, se tornou impossível pensar a organização sem articular tais conceitos.

53 A representação das lésbicas enquanto sujeitas na sociedade se constrói também quando assumem a lesbianidade de forma individual, pois diferente das normativas do sistema patriarcal, evidencia uma identidade individual através das experiências do que é ser uma lésbica, o que coaduna com o pensamento de Avta Brah (2000) que “questões de identidade estão intimamente ligadas a questões de experiência, subjetividade e relações sociais. Identidades são inscritas através de experiências culturalmente construídas em relações sociais” (BRAH, 2000, p. 371).

As memórias coletivas dos movimentos lésbicos se elaboram também, através das identidades individuais, não na soma das experiências, mas na composição das experiências que tornam a identidade coletiva, através da representatividade e significação, como Avta Brah (2000) nos ajuda a pensar:

De maneira semelhante, identidades coletivas não são redutíveis à soma das experiências individuais. Identidade coletiva é o processo de significação pelo qual experiências comuns em torno de eixos específicos de diferenciação – classe, casta ou religião – são investidas de significados particulares. Nesse sentido, uma dada identidade coletiva parcialmente apaga traços de outras identidades, mas também carrega outros traços delas. Isso quer dizer que uma consciência expandida de uma construção de identidade num dado momento sempre requer uma supressão parcial da memória ou senso subjetivo da heterogeneidade interna de um grupo. (BRAH, 2000, p. 371-2).

A construção da identidade lésbica se desvencilha do contexto heteronormativo que pensa a mulher como categoria universal. No caso das identidades lésbicas, questiona-se o sistema normativo do que é ser uma mulher e as formas possíveis de relações afetivo-sexuais. Como as memórias constroem identidades, Candau aponta: “Como a memória, a história pode recompor o passado a partir dos “pedaços escolhidos”, tornar-se um jogo, objetos de embates e servir de estratégias militantes e identitárias”. (CANDAU, 2011, p. 132).

Candau (2011) pondera que a construção da identidade é indissociável da memória. No entanto, trabalhar o conceito de identidade é entender como as narrativas/memórias individuais constroem a organização dos movimentos lésbicos e suas memórias coletivas, com o entendimento da memória coletiva como processo político, como Avta Brah (2000) nos ajuda a pensar:

A proclamação de uma identidade coletiva específica é um processo político por oposição à identidade como processo na e da subjetividade. O processo político da proclamação de uma identidade coletiva específica envolve a criação de uma identidade coletiva a partir de uma miríade de fragmentos (como colagens) da mente. O processo bem pode gerar considerável disjunção psíquica e emocional no domínio da subjetividade, mesmo que aumente o poder em termos da política de grupo. (BRAH, 2000, p. 372)

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Entendendo que a memória é indissociável da identidade, o percurso da identidade aqui é proposto como um conceito político, mas também de rasura, como apontado por Stuart Hall (1999). Logo, as identidades para Henrieta Moore (2000) passam pelas relações de reconhecimento, e, portanto, de poder.

Moore (2000) percebe através da construção antropológica da diferença do Eu e do Outro, na mesma cultura. Essa comparação constrói estranhamento e alteridade. No caso das lesbianidades, ainda se pensa na dicotomização com a heterossexualidade e seus estranhamentos, cujas disparidades estão conectadas à relação de poder e hierarquias construídas socialmente, postas como fantasias de poder e de identidade, que para a autora são voláteis.

Para a autora a identidade é marcada pela diferença, pelas questões históricas e pela exclusão, que são geridas por questões simbólicas, sociais e de conflitos, o que gera possíveis crises na constituição de novas identidades. Logo, ela questiona como a identidade funciona? Afirmando ainda que “a identidade envolve reivindicações essencialistas da história e do passado, na qual a história é construída ou representada como uma verdade” (MOORE, 2000, p. 13). Em suas reflexões de como se construiu socialmente acerca da mentalidade heterossexual instituída pelo sistema patriarcal que pensa as mulheres como ser uno, mas que são repletas de significados, como a reprodução e a dominação das mulheres pelos homens.

Historicamente, as identidades criam normativas impostas por reproduções de um padrão de normalidade criando hierarquias de sexo, de orientação sexual, de poder, como Brah (2000, p. 371) afirma: “como num caleidoscópio, diante de conjuntos particulares de circunstâncias pessoais, sociais e históricas”.

Kathryn Woodward (2014) expõe que a identidade é simbólica e social marcada pela diferença, mas pode ser denominada também como essencialista, ligada as condições materiais e oposicionadas pela relação “nós” e “eles”. O questionamento é realizado em torno de até que ponto a identidade é fixa, fluída ou cambiante e que podem levar a representação. Citando Nixon (1997), pensa-se a identificação produzindo relações de poder, inclusão e exclusão, o que está conectado com a globalização, afirmando que as novas identidades podem ser desestabilizadas, mas também desestabilizadoras, colocando-as em crise.

Logo, articulo que a identidade é permeada pelo social, criando conflitos em oposição às regras impostas socialmente, assim como representações e normativas que se constroem em torno das “novas identidades”. No caso da identidade lésbica, existe a tentativa de uma

55 identidade pura que cria códigos morais de normatização, no sentido de que se precisa ser uma lésbica pura sem poder cambiar com outras identidades no sentido da prática sexual.

Se a história está baseada em uma sociedade patriarcal, as “novas” identidades são vistas com estranheza, inclusões, exclusões, colisões, fricções, conflitos e outras hierarquizações, já expondo que a identidade lésbica também cria suas normativas, o que vamos perceber com mais afinco no decorrer do percurso etnográfico.

Pensando na realidade social construída pelas lésbicas em Pernambuco, articulo o trabalho com os conceitos de memória como uma questão política, conforme Marilena de Souza Chauí apud BOSI (1979) afirma que “a sociedade capitalista impede a lembrança”, já vimos que no decorrer da construção da sexualidade as lembranças e memórias são mais favorecidas as relações heterossexuais.

A partir desse contexto, as memórias individuais que para Maurice Halbwachs (2003) são memórias partilhadas por todas, devido à universalidade do conceito trazido pelo autor, que pensa as lembranças limitadas ao tempo, aos interesses e as noções comuns que são compartilhadas. Entendo que em partes, há um compartilhamento das memórias, devido ao sistema patriarcal. No entanto, as especificidades de memória estão entrelaçadas com o que o próprio autor levanta, uma vez que as testemunhas podem “reforçar, enfraquecer e completar” as memórias, logo, as memórias que se constroem dependem do lugar de onde se analisa, pois o lugar influencia o ângulo de análise.

Na construção da memória foi preciso entrar em contato com as lembranças individuais das interlocutoras/pensadoras da pesquisa, assim como as minhas próprias lembranças, trazendo fricções. Entendo que, enquanto mais de dentro das constituições dos movimentos vão se construindo particularidades, não podendo universalizar as memórias dos movimentos lésbicos, pois as lembranças que se constroem dependem do lugar, da experiência, subjetividades e do contexto histórico.

Para Joel Candau (2011) a memória está conectada com a construção da identidade, sendo a memória que alimenta a identidade. Influenciado por Ricouer como a “conservação de si através do tempo, que implica na conservação do esquecimento”, expondo a memória individual e coletiva, como construções indissociáveis, permeada pelo ato de lembrar e esquecer.

O conceito de experiência (SCOTT, 1999) foi importante para refletir como as experiências constituem as sujeitas, as oposições identitárias e suas constituições políticas, uma vez que “a experiência é sempre uma interpretação e, ao mesmo tempo, precisa de

56 interpretação”. Logo, a experiência é constituidora da identidade lésbicas e das memórias que as constituem.

Partindo do pressuposto de ter acesso a vários dados dos movimentos lésbicos, por ser de dentro, me beneficiou a ter acesso a alguns dados dos grupos, reunir documentos, fotos, materiais digitais e disponibilizar nos anexos deste trabalho, como um acervo das memórias das interlocutoras/pensadoras, dos grupos e redes. Fazendo o levantamento do que me foi disponibilizado nas entrevistas e outras visitas.

O levantamento dos documentos foi construído também na troca de e-mails, redes sociais nas páginas pessoais e dos grupos, além do acervo dos mesmos. Esse fato me permitiu identificar datas e momentos enfáticos na articulação dos movimentos lésbicos, refletindo a partir do que Ecléa Bossi (1979, p. XII) pondera “a intersecção metodológica da autora mostra a sua verdadeira face: é a própria realidade social que articula memória”.

As discussões de identidade e memória neste trabalho não estão dissociadas da antropologia feminista, o que dá norte/sul para refletir sobre o campo, mas também sobre a minha construção enquanto pesquisadora e forasteira de dentro dos movimentos lésbicos, o que nos leva a compreender o campo polifônico e cheios de caminhos.

2.1.4 Antropologia Feminista e suas intersecções - problematizando o lugar de