II. Lanhoso, São João de Rei e Vieira: caracterização do território
2.5. Igrejas paroquiais, ermidas e os respectivos padroeiros
As igrejas, na Idade Média, desempenhavam um papel fundamental no quotidiano dos camponeses, pois aí se realizavam diversos rituais litúrgicos sob a orientação dos respectivos párocos, e ritmavam, com os respectivos sinos, as jornadas de trabalho agrícola273. Através dos rituais religiosos, as populações procuravam agradar à divindade que, segundo as suas crenças, regia “os inesperados destinos dos homens, a fecundidade das mulheres, das plantas e dos animais, a boa e má sorte dos empreendimentos individuais e colectivos”274.
Tal como se depreende pela leitura das Inquirições, o culto cristão nos julgados de Lanhoso, São João de Rei e Vieira, para além de ser celebrado nas trinta e seis igrejas paroquiais do território, era, por vezes, praticado em ermidas, construções de menores dimensões que, por servirem apenas a devoção de uma comunidade, ao invés de uma paróquia inteira, detinham um estatuto inferior ao das igrejas275.
Nos documentos em estudo, encontram-se referências a quatro ermidas, observando-se que, em torno de duas delas, a de Santiago de Calvos e a de São Simão de Real, existiam núcleos populacionais, compostos por diversas unidades de exploração agrícola.
A ermida de Santiago de Calvos situava-se no julgado de Lanhoso, junto ao lugar de Calvos, ligeiramente a oeste da igreja paroquial de São Genésio de Calvos276 e nas suas proximidades situavam-se, pelo menos, um casal e uma herdade277. A ermida de São Simão de Real, por sua vez, localizava-se a oeste da igreja paroquial de Tabuaças, perto do lugar de Cruz de Real, onde passava a já referida estrada romana, que ligava Braga a Astorga. A instalação de ermidas em locais próximos de estradas movimentadas era comum no período em análise, pois permitia aos eremitas não só
273 Cf. MATTOSO, José, KRUS, Luís, ANDRADE, Amélia Aguiar, O castelo e a feira: a Terra de Santa Maria
nos séculos XI a XIII, p. 107.
274 MATTOSO, José, Identificação de um país: ensaio sobre as origens de Portugal, vol. I – Oposição,
Lisboa, Editorial Estampa, 1995, p. 397.
275 Cf. MATTOSO, José, KRUS, Luís, ANDRADE, Amélia Aguiar, op. cit., p. 110.
276 Avelino de Jesus da Costa identificou a ermida em questão como sendo a capela de Santiago (cf.
COSTA, P. Avelino da, O bispo D. Pedro e a organização da Diocese de Braga, vol. II, p. 106). Nas Memórias Paroquiais de 1758 encontra-se mencionado que o orago foi, posteriormente, mudado para Santa Marta, pelo que a ermida em questão corresponde à actual capela de Santa Marta (cf. FREITAS, Paulo Alexandre Ribeiro, NORTON, Maria Henriqueta, Terras de Lanhoso: Monografias, p. 114).
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obter géneros e utensílios indispensáveis à sua subsistência, mas também praticar a hospitalidade aos viajantes278. Na documentação relativa a este templo são referidas doze leiras, sete casais e uma peça de terreno279.
Por não se enquadrarem nos objectivos dos inquéritos, os inquiridores não registaram muitos pormenores sobre as duas ermidas restantes. Sabe-se apenas que o direito de propriedade de uma, situada em Santiago de Lanhoso, repartia-se a meias entre o Rei e herdadores280, e que de outra, edificada na paróquia de Santa Maria de Verim, o Rei exigia um sesteiro de castanhas secas no dia de Santo Estêvão281.
Tanto nas igrejas como nas ermidas, na sequência de uma prática generalizada a partir do final do século VI na Península Ibérica, a cada templo religioso, foi associado um santo patrono282, que estaria ligado a uma ou mais festas litúrgicas, comemoradas pelos fiéis numa data específica283. Estes oragos eram, na sua maioria, mártires cristãos, uns mais populares do que outros conforme a época histórica e a localização geográfica, verificando-se, mais tarde, alguns exemplos de devoção a santos confessores, principalmente São Martinho de Tours, mas também São Bento ou São Emilião284.
Em 1258, o orago mais popular no conjunto de Lanhoso, São João de Rei e Vieira era Martinho de Tours285, cujo culto celebrava-se em seis igrejas paroquiais286. Seguia-se a Virgem Maria, celebrada em cinco paróquias. As festas celebrativas marianas variavam de acordo com os mistérios e privilégios da Virgem que cada uma das igrejas decidia honrar, verificando-se que a escolha das festas coincidia com as que eram mais populares na diocese de Braga. Assim, a festa da Expectação, a 18 de Dezembro, era celebrada em Santa Maria de Verim, a Assunção, a 15 de Agosto, em Santa Maria de Rendufinho e Santa Maria de Pinheiro, a Purificação, a 2 de Fevereiro,
278 Cf. MATTOSO, José, “Eremitas portugueses no século XII”, Religião e Cultura na Idade Média
Portuguesa, Rio de Mouro, Círculo de Leitores, 2002, p. 72.
279 Inq., p. 1506. 280 Inq., p. 1490. 281 Inq., p. 1500.
282 Cf. DAVID, Pierre, Études historiques sur la Galice et le Portugal du VIe au XIIe siècle, Paris, Les Belles
Lettres, p. 226.
283 Cf. COSTA, P. Avelino de Jesus, op. cit., p. 472. 284
Cf. Ibidem, p. 471.
285
Avelino de Jesus da Costa identificou o santo, referido na documentação apenas como “São Martinho”, como sendo São Martinho de Tours (Cf. COSTA, P. Avelino de Jesus da, op. cit., p. 499).
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em Santa Maria de Moure e, por fim, a Natividade, a 8 de Setembro, em Santa Maria de Ladrões287.
Santiago Maior era celebrado nas paróquias de Lanhoso, Paredes e Oliveira e na ermida de Santiago de Calvos, sendo o seu culto festejado a 30 de Dezembro288. Assinalam-se ainda alguns santos que eram oragos em três paróquias: São Miguel, cuja festa litúrica tinha lugar a 29 de Setembro289, nas freguesias de Taíde, Ferreiros e Vilela;Divino Salvador, comemorado no dia 6 de Agosto, em São Salvador de Louredo, São Salvador de Roças e no mosteiro de São Salvador de Fonte Arcada290 e São Paio, santo padroeiro das paróquias de Brunhais, Vilar Plano e São Paio de Vieira. A festa litúrgica deste orago, que era particularmente popular nas terras próximas de Lanhoso291, comemorava-se no dia 12 de Junho292.
Registam-se ainda dois oragos cujo culto se celebrava em duas paróquias: São Pedro, em Cerzedelo e Ajude; São Julião, em Sinde e Tabuaças; São Adrião, em Soutelo e Pepim, e São João Baptista, em São João de Rei e São João de Vieira. Outros santos só eram celebrados numa paróquia, o que sucedia em São Estêvão de Geraz, São Genésio de Calvos, Santa Tecla, Santo Emilião e ainda na ermida de São Simão de Real.
Não se sabendo ao certo as razões que levaram à escolha dos respectivos oragos, por parte de cada uma das igrejas referidas, observa-se, por diversas vezes, alguma proximidade geográfica entre as freguesias que dedicavam o seu culto ao mesmo santo. Efectivamente, cinco das paróquias que prestavam o culto a São Martinho de Tours não estavam afastadas mais do que algumas centenas de metros umas das outras, e mesmo a sexta, Travaços, mais a oriente, não ficava muito longe. Além disso, São Martinho de Louredo é contígua a Galegos, verificando-se o mesmo entre Águas Santas e Monçul.
287 A festa litúrgica celebrada por cada paróquia também foi identificada por Avelino de Jesus da Costa
(cf. COSTA, P. Avelino de Jesus da, op. cit., p. 490).
288Cf. PIEL, Joseph M., “Os nomes dos santos tradicionais hispânicos na toponímia peninsular”, Separata
de Biblos, vol. 25-26, Coimbra, Coimbra Ed., 1950, p. 85.
289 Cf. COSTA, P. Avelino de Jesus da, op. cit., p. 501. 290
Cf. Ibidem, p. 512.
291
Avelino de Jesus da Costa identifica trinta e seis igrejas do censual de Braga de que Santiago Maior era santo patrono (Cf. Ibidem, p. 501).
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Mapa 7 – Paróquias e respectivos oragos
Além disso, apesar de nem todas as paróquias que tinham como orago Santa Maria se situarem próximas umas das outras, realça-se, por um lado, que as de Ladrões e de Pinheiro, no extremo oriental do território, não distavam mais de uma centena de metros entre si e, por outro, que as de Rendufinho, Verim e Moure, no extremo ocidental, situavam-se relativamente perto umas das outras.
Realça-se ainda a contiguidade entre as freguesias de Santiago de Lanhoso e Santiago de Paredes, ambas próximas da ermida de Santiago de Calvos293, entre São Miguel de Vilela e São Miguel de Taíde, relativamente próximas de São Miguel de Ferreiros, e ainda entre Santo Adrião de Soutelo e Santo Adrião de Pepim.
Registe-se, por fim, a associação de algumas paróquias a santos padroeiros menos frequentes. É o que sucede na freguesia de São Bartolomeu de Esperança, que celebrava um santo pouco popular no território entre os rios Mondego e Minho, orago
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de apenas três paróquias294 e, principalmente, nas de Santa Tecla e de Santo Emilião, que eram as únicas igrejas paroquiais, de entre todas as que constituíam o censual de Braga, que prestavam culto aos referidos oragos295. Nestas circunscrições, as festar litúrgicas erma comemoradas, respectivamente, nos dias 24 de Setembro296 e 12 de Novembro297.
294Cf. DAVID, Pierre, “Les Saints Patrons d’églises entre Minho et Mondego jusqu’à la fin du XIᵉ siécle”,
Revista portuguesa de História, nº 2, 1943, p. 236.
295
Cf. COSTA, P. Avelino de Jesus da, op. cit., p. 470-471.
296 Cf. DAVID, Pierre, Études historiques sur la Galice et le Portugal du VIe au XIIe siècle, p. 232. 297Cf. PIEL, Joseph M., “Os nomes dos santos tradicionais hispânicos na toponímia peninsular”, p. 25.
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