O presente capítulo pretende discutir a situação de direitos humanos em relação ao género e à criança referente aos anos 2018 e 2019. Dada a vastidão dos temas em análise, em cada uma das temáticas aci-ma serão analisadas aci-matérias seleccionadas.
6.1. Igualdade de Género
No que diz respeito à situação de igualdade de género nos anos 2018 e 2019, tendo em consideração a extensão do tema em análise, serão privilegiadas algumas dimensões para análise no presente capítulo, nomeadamente, o marco normativo, a mulher na esfera privada e familiar, a mulher na esfera pública, o assédio sexual e a violência contra a mulher.
Em todo o mundo, a mulher tem vindo a lutar para que os seus direitos sejam respeitados e aqui em Moçambique, não sendo excepção, as mulheres enfrentam as mesmas lutas. Como muito bem referem vários relatórios sobre direitos humanos publicados recentemente, com destaque para o Relatório sobre Desenvolvimento Humano (2019) do Programa das nações Unidas para o Desenvolvimento (2019), destacam a existência de diferenças significativas entre homens e mulheres em todo o mundo, as bar-reiras de participação funcionam como travão à economia nacional, reprimindo a sua capacidade de crescimento74.
Para inverter esta situação, exige-se das entidades públicas moçambicanas o constante aperfeiçoamento e desenvolvimento do regime, prática e valores sobre a igualdade de género. A concretização da agenda do género e mulher exige das autoridades competentes a tomada de medidas concretas e adequadas à realidade moçambicana.
É neste contexto que a presente secção pretender avaliar as medidas legislativas, práticas e de mudança de paradigma em relação ao género tomadas pelo Estado moçambicano nos anos 2018 e 2019.
6.1.1. Marco Normativo
Fruto de várias recomendações formuladas em vários documentos e mecanismos nacionais e interna-cionais, tais como a I e II Políticas de Género e Estratégia da sua Implementação (2007) e (2018), res-pectivamente, e o II ciclodo MRPU (2016/2020), o Estado moçambicano comprometeu-se a melhorar, cada vez mais, o seu ambiente legal e institucional dos direitos humanos.
Assim, na senda desses compromissos, nos anos de 2018 e 2019, o Estado moçambicano deu passos assinaláveis em comparação com o ano 2017 na melhoria do ambiente legal e institucional para a pro-moção e protecção da igualdade de género. De seguida destacam-se as principais medidas:
i. Em 2018, aprovada a segunda Política de Género e Estratégia da sua Implementação em subs-tituição da primeira Política e Estratégia de Implementação aprovadas em 2007. Entre os nove eixos de intervenção os eixos 1 e 2, centram as suas acções na melhoria do quadro legal e institucional da igualdade do género com especial atenção para questões da mulher;
ii. Em 2018, aprovado o Plano Nacional de Prevenção e Combate à Violência Baseada no Género (Ministério da Saúde, 2018-2021), onde, entre várias questões, o Governo se compromete a melhorar o quadro legal e as respostas em matéria de igualdade do género;
iii. Em 2018, aprovado o Plano Nacional de Acção para Avanço da Mulher (2018-2024);
iv. Em 2018, aprovado o Plano Nacional de Acção sobre Mulheres, Paz e Segurança (2018-2022); v. Em 2018, aprovada a Estratégia de Inclusão de Género no sector de Saúde (2018-2023); vi. Em Dezembro de 2018, o Ministério da Educação revogou o Despacho/Circular Ministerial
de 2003 que proibia meninas grávidas e mães adolescentes de frequentarem aulas no período diurno e estipulava que a frequência as aulas fossem apenas no ensino nocturno;
vii. Em 2019, a Assembleia da República altera a Lei da Família, e entre as alterações significati-vas elimina casamentos de menores de 18 anos, que eram permitidos na lei anterior;
viii. Em Outubro de 2019, a Assembleia da República aprova a Lei n.º 19/2019, de 22 de Outubro (Lei da Prevenção e Combate a Uniões Prematuras);
ix. Em Dezembro de 2019, a Assembleia da República aprova o pacote do regime penal consti-tuído pelas Leis n.º 24/2019, de 24 de Dezembro (Aprova o Código Penal); n.º 25/2019, de 26 de Dezembro (Lei de Revisão do Código de Processo Penal); e n.º 26/2019, de 27 de Dezem-bro (Lei que aprova o Código de Execução das Penas)
x. Em Abril de 2019, aprovado o Diploma Ministerial n° 36/2019, de 17 de Abril, pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, Ensino Superior e Técnico-Profissional, que aprova o Regulamento de Combate à Corrupção, Abuso e Assédio Sexual e todo o Tipo de Abuso Sexual em todas as Instituições de Ensino Técnico Profissional (ETP)75.
Estes instrumentos são um contributo valioso para o aperfeiçoamento e desenvolvimento do ambiente legal da igualdade e equidade do género assim como para a promoção da agenda do género e da mulher.
75 Informe das Acções Realizadas na Área da Criança e Género do Ministério da Mulher e Acção Social, Maputo, No-vembro de 2018. pg. 8
6.1.2. Mulher na Esfera Privada e Familiar
Na esfera familiar em Moçambique, embora tenha havido melhorias no tratamento das questões de género, prevalecem sistemas, valores e práticas que limitam os direitos das mulheres. As mulheres con-tinuam a ocupar uma posição desigual em relação ao homem no seio familiar.
O lugar social e cultural da mulher, nomeadamente o de ser exclusivamente “cuidadora” quase como uma característica inata, traduz os processos culturais e tradicionais de socialização e de definição de papéis de género que as colocam em funções ditas frágeis, como por exemplo, cuidar dos filhos, ser enfermeira, professora, etc.
A mulher não é, portanto, apenas educadora ao nível familiar, mas também ao nível social, e a sua ac-ção fora do lar é a extensão do papel doméstico. Isto é, as relações desiguais de género estabelecem os papéis e as questões culturais pesam nessa estruturação das funções.76
A título ilustrativo, a taxa de dependência da mulher nos agregados familiares é de 115%. Ou seja, as mulheres tendem a ser mais “dependentes” nos lares, um hábito que é reforçado pelo sistema patriarcal, onde os homens são provedores e as mulheres um objecto sexual e de reprodução.
Numa outra perspectiva, o número médio de pessoas em idade produtiva nas residências chefiadas por mulheres é menor (1,9%) do que nos agregados onde o homem é responsável (2,6%). Assim, a sobre-carga dos trabalhos produtivo e reprodutivo concentra-se na figura feminina. Ao mesmo tempo, a per-centagem de mulheres que são chefes de agregados familiares é maior a partir dos 50 anos, superando a marca de 50%. Esses aspectos sinalizam um peso de trabalho que impende sobre as mulheres77.
Através da análise dos dados do Instituto Nacional de Estatística-INE (2018), constata-se a desigualda-de no acesso aos serviços básicos, aproximadamente 3,7 mil agregados familiares contam com energia eléctrica, sendo que apenas 36,2% deles são chefiados por mulheres e 63,8% por homens78.
No que diz respeito ao acesso à água potável, registaram- se 8.018 agregados com fonte de água melhorada para beber, dos quais mais de metade (61%) são chefiados por homens. Entretanto, o percentual de mulheres moçambicanas com posse exclusiva de casa é metade do percentual de homens na mesma situação, 14% contra 28%. Esse padrão de desigualdade mantém-se no que diz respeito à posse exclusiva de terra, onde 13% de titulares individuais são mulheres e 23% são homens79.
Os dados acima ilustram as questões de género prevalentes nas famílias ou na esfera privada. A mulher continua, na sua maioria, como figura subalterna e instrumento produtivo e reprodutivo.
Recomendação
O Governo deve apostar na formação das comunidades e famílias para a mudança de paradigmas. Num país diverso e multicultural como o nosso, as acções são mais que necessárias e urgentes.
76 Idem.
77 Instituto Nacional de Estatística, 2015. 78 Instituto Nacional de Estatística, 2018. 79 Idem
6.1.3. Mulher na Esfera Pública
6.1.3.1. Mulher nos órgãos de poder e tomada de decisão
Embora a participação da mulher na governação tenha melhorado bastante nos últimos anos, ainda per-sistem desafios em desfavor da mulher em Moçambique e vários países do mundo.
Em Moçambique, nos anos 2018 e 2019 a percentagem média das mulheres nos órgãos do poder e de tomada de decisões era de 25,8%80. Por outras palavras, os homens continuam a dominar os órgãos de poder e tomada de decisões, com uma percentagem média de 74,2%.
A Assembleia da República continuou sendo o órgão com maior visibilidade no que diz respeito à par-ticipação política das mulheres, com 39% de representação feminina. Para mais detalhes vide a tabela abaixo.
Gráfico n.º 10: Mulheres nos Órgãos de Poder e Tomada de Decisão.
Fonte: Informação gentilmente fornecida pelo Ministério do Género, Criança e Acção Social
80 Informe das Acções Realizadas na Área da Criança e Género do Ministério da Mulher e Acção Social, Maputo, No-vembro de 2018. p. 9.
No âmbito da participação da mulher nos cargos políticos não se registaram alterações de vulto em comparação com o ano de 2017. Excepção são os resultados das eleições autárquicas, que mostraram que dos 53 Municípios, seis são presididos por mulheres, o que corresponde a 11% e oito das Assem-bleias Municipais são presididas por mulheres, o que corresponde a 15%. As AssemAssem-bleias Municipais possuem um total de 1.196 membros, dos quais 450 são mulheres, isto é, cerca de 37.6%. Estes dados mostram claramente um grande progresso na inclusão da mulher nos cargos políticos em relação aos anos anteriores, porém, julgando pelos números ainda há muito caminho a percorrer para a igualdade e equidade do género nos cargos políticos.
De seguida apresentam-se os dados desagregados da posição da mulher nas várias esferas públicas em 2019.
Tabela 18: Participação da Mulher no Poder Legislativo em 2019
Funções Total Nº de Mulheres Nº de
Ho-mens % de Mulhe-res Observa-ções
Presidente da AR 1 1 --- ---Vice-Presidente da AR 2 --- 2 ---Deputado 250 98 153 39,2% Chefes de Bancadas 3 2 1 67% Comissão Permanente 17 6 11 35% Presidentes de A. Provinciais 10 1 9 10%
Membros das Assembleias
Provinciais 811 283 528 34,8%
Fonte: Informação gentilmente fornecida pelo Ministério do Género, Criança e Acção Social
Os dados apresentados na tabela mostram uma tendência progressiva de integrar a mulher no poder legislativo; porém, esta integração é ainda insignificante para garantir a igualdade do género no poder legislativo. A presidência das Assembleias provinciais é a função onde figuram menos mulheres. Das 10 Assembleias Provinciais, apenas uma é presidida por uma mulher o que representa apenas 10%. Toda-via, ao nível das três bancadas existentes na Assembleia da República, duas são dirigidas por mulheres, o que é de louvar tendo em conta o peso que as bancadas têm na definição das políticas do país.
Tabela 19: Participação da Mulher no Poder Executivo
Funções Total Nº de Mulheres Nº de homens % de Mulheres Observações
Presidente da República 1 --- 1
---Primeiro Ministro 1 --- 1
---Ministro 22 7 15 32%
Vice-Ministro 18 8 10 44,4%
Órgão Central Total Nº de Mulheres Nº de homens % de Mulheres Observações
Secretários Permanente 21 7 14 33,3%
Director Nacional 300 92 208 31%
Director Nacional Adjunto 34 11 23 32%
Chefe de departamentos 910 362 692 40%
Chefe de Repartição 709 349 443 49%
Chefe de Secção 391 128 249 33%
Fonte: Informação gentilmente fornecida pelo Ministério do Género, Criança e Acção Social
No que diz respeito à governação provincial (2018 e 2019) o homem continua a dominar as posições de direcção e chefia, com excepção do posto de Chefe de Secretaria onde as mulheres atingem uma percen-tagem de 56% em relação aos homens. A inclusão mais baixa da mulher verifica-se na posição de chefe de serviço provincial, onde dos 78 lugares disponíveis a mulher ocupa apenas 10, isto é, apenas 13%, segundo ilustra a tabela abaixo.
Tabela 20: Participação da Mulher no Poder Provincial 2019
Funções Total Nº de Mulheres Nº de homens % de Mulheres Observações
Governadores 11 4 7 36,3%
Secretários Permanentes 11 4 7 36,
Directores Provinciais 80 36 44 45%
Directores Provinciais Adjuntos 41 11 30 27%
Chefes de Departamentos 1020 304 716 30%
Chefes de Repartição 1362 497 865 36%
Chefes de Secção 563 197 366 35%
Chefes de Secretaria 9 5 4 56%
Chefes de Serviço provincial 78 10 68 13%
Constata-se a evolução do número de mulheres como presidentes dos Conselhos Municipais/ Autárqui-cos e presidentes das Assembleias Municipais/Autárquicas desde as primeiras eleições municipais de 1998.Também se pode constatar a evolução do número de mulheres membros das Assembleias Muni-cipais/Autárquicas.81
Nas eleições autárquicas de 2018 assumiram o posto de Presidente do Município seis mulheres, contra cinco no mandato anterior. Todavia, esta evolução ainda está aquém do desejável, pois a percentagem de participação da mulher é muito baixa, apenas 11,3%.
Tabela 21: Participação da Mulher no Poder Autárquico 2019
Funções Total Nº de Mulheres Nº de homens % de Mulheres Observações
Presidentes dos Municípios 53 6 47 11,3
Presidentes das Assembleias
Muni-cipais 53 8 45 15%
Membros das Assembleias
Munici-pais 1196 450 746 37,6
Fonte: Informação gentilmente fornecida pelo Ministério do Género, Criança e Acção Social
É nesta perspectiva que o IV Plano Nacional de Acção para o Avanço da Mulher (PNAM, 2018-2024) tem como objectivo geral “promover a emancipação e o Empoderamento da Mulher e a sua participa-ção nas esferas económica, social e política do País”.
Recomendação
Embora as mudanças a favor da mulher sejam visíveis e encorajadoras, é necessário adoptar e aper-feiçoar medidas que visem promover a representação das mulheres em todos os níveis do poder, nomeadamente assegurar a capacitação das mulheres e fortalecer, através de quotas, a participação efectiva da mulher nos processos de tomada de decisão; introduzir leis que assegurem a inclusão equitativa das mulheres nas listas eleitorais; assegurar o aumento proporcional das mulheres nas posições de chefia na função pública a todos os níveis e nas empresas participadas pelo Estado; promover um ambiente político inclusivo82.
6.1.3.2. A Mulher na Educação
82Um dos indicadores fundamentais para aferir o nível de implementação e de observância da igualdade do género é o grau de acesso igual à educação. O acesso à educação é um direito humano crucial para a garantia da igualdade e equidade do género.
81 Osório, Conceição. Mulher e Democracia: Indo para Além das Quotas. O Caso das Eleições Autárquicas de 2018. Maputo, 2019
82 Osório, Conceição. Mulher e Democracia: Indo para Além das Quotas. O Caso das Eleições Autárquicas de 2018. Maputo, 2019
Embora nos últimos anos se tenham registados progressos significativos nesta matéria, em Moçambique a desigualdade social e prática entre géneros na educação é estrutural. O homem continua a dominar vários indicadores de acesso à educação. Existem vários factores que podem explicar esta situação, mas um dos factores está relacionado com valores e práticas sociais ofensivos ou nocivos à igualdade de gé-nero, que devem ser desafiados a fim de permitir o exercício do direito à educação por parte de raparigas e rapazes em igualdade de circunstâncias e oportunidades.
As crenças instaladas sobre os papéis de género promovem um círculo vicioso de oportunidades redu-zidas na educação. Os factores que influenciam o acesso e a qualidade da educação das raparigas são complexos, de várias naturezas e específicos de cada contexto.
Verifica-se, por exemplo, que a média do Índice de Desenvolvimento Humano-IDH para as mulheres é 6% mais baixo do que para os homens, em consequência de níveis de educação precários comparativa-mente aos homens.
Em 2018, em Moçambique o número de alunos no sistema educativo cresceu em todos os níveis de ensino, com especial enfoque para o ES2 que cresceu 14,4%. O ES1 registou o crescimento mais baixo (6,1%). De modo global o crescimento dos alunos no sistema foi de 7,1%. Comparativamente a 2017, a participação feminina continua a melhorar ligeiramente no ES2 (49,7%). O fenómeno inverso registou-se no EP2 e ES1, com a participação feminina a não registar alterações no EP1.83
À semelhança do ano lectivo 2017, o desempenho das raparigas, em geral, supera o dos rapazes. Com efeito, a taxa de aprovação escolar das raparigas é mais alta que a dos rapazes em todas as províncias, com a excepção das províncias de Sofala e Zambézia.84
A taxa líquida de escolarização da rapariga cresceu de 83,9% em 2017 para 92,5% em 2018, o que re-vela uma melhoria nos índices de retenção e conclusão escolar da rapariga85.
O efectivo de raparigas na escola aumentou ligeiramente comparado com o ano de 2017. Do universo de 7.759.209 alunos que frequentavam a escola do Ensino Primário do Primeiro Grau (EP1) ao Ensino Secundário do Segundo Grau (ES2) em 2018, 3.740.754 eram do sexo feminino, contra 3.491.340 de um total de 7.241.34186 do ano de 2017
Segundo os mesmos dados estatísticos há uma clara tendência de aproximação à paridade do género (48,2%). Todavia, os resultados diferem de região para região. De um modo geral, a escola é mais fre-quentada por rapazes, que representam 52,4% dos graduados no ensino primário e 51,0% no secundário, onde a tendência do equilíbrio de género é maior. É de notar, no entanto, que no nível médio, pelo menos quatro províncias do país (Zambézia, Inhambane, Gaza e Sofala) graduam mais raparigas que rapazes87. No 1º Ciclo do Ensino Secundário Geral, em 2018, foram matriculados 621.940 alunos dos quais 456.989 foram aprovados, o que corresponde a 73,5% contra 70,8% em 2017. A taxa de aprovação mais alta foi de 82,3% na província de Cabo Delgado, enquanto a mais baixa foi de 64,3%, apurada na província de Inhambane.88 Em média, não há diferenças significativas de desempenho entre rapazes
83 Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano, 2019 84 Idem
85 Informe das Acções Realizadas na Área da Criança e Género do Ministério da Mulher e Acção Social, Maputo, No-vembro de 2018. p. 11
86 Idem
87 Idem, p. 12 88 Idem
e raparigas, porém, nas províncias de Cabo Delgado, Gaza, Inhambane, Maputo, Sofala e Cidade de Maputo, as raparigas tiveram taxas de aprovação mais altas que os rapazes, enquanto na província de Zambézia se registou o inverso ou uma diferença pouco significativa.
Em 2018, o 2º Ciclo do Ensino Secundário Geral foi frequentado por 203.257 alunos, dos quais 156.247 foram aprovados (76,9%). A taxa de aprovação mais alta atingiu os 85,4% na província de Maputo, enquanto a mais baixa, 68,7%, foi registada em Inhambane.
A taxa de aprovação, neste ciclo, não apresenta diferenças significativas entre rapazes e raparigas, com excepção das províncias de Gaza, Maputo e Cidade de Maputo, onde o desempenho das raparigas supe-ra o dos supe-rapazes. Nas outsupe-ras províncias não há uma variação significativa.
A retenção das raparigas na escola permanece um desafio no Centro e Sul do país e sobretudo nas zonas rurais. O elevado número de desistências continua a afectar a participação da rapariga nos níveis primá-rios e secundáprimá-rios.
A taxa de desistência foi de 5,1% tendo registado uma melhoria em relação ao ano lectivo precedente (com 6,5% de desistências). Esta taxa corresponde a 31.742 alunos que abandonaram a escola, contra os 37.662 em 2017, não tendo havido uma variação importante entre rapazes e raparigas. As províncias de Niassa e Inhambane registaram as taxas de desistências mais altas, 7,6% e 7,7% respectivamente, e a mais baixa foi apurada na Província de Maputo (2,8%).
No Ensino Técnico Profissional há também um aumento do número de raparigas. Em 2018, o número total dos efectivos foi de 91.615 formandos, 46% dos quais raparigas, ou seja, 42.143 raparigas. Estes valores traduzem um ligeiro aumento de cerca de 1% em relação a 2017, que registou 85.313 forman-dos, com 45%, 38.391, de raparigas.
No ensino superior a proporção de mulheres matriculadas em 2017 e 2018, situa-se na ordem dos 45,1% e 45,15%, respectivamente, superando a meta estabelecida para o ano 2020 que era de 44% conforme a tabela abaixo.
Tabela 22: Evolução da proporção de mulheres matriculadas nas IES 2017-2018
Ano 2017 2018
Proporção de mulheres em relação aos estudantes matriculados 45,1% 45,15%
Número de estudantes do sexo feminino 90.322 96.590
Total de estudantes 200.649 213.930
Fonte: MCTESTP (2018)
Entretanto, no ensino privado, o quadro inverte-se, havendo uma predominância de estudantes do sexo feminino. Em 2017, houve um total de 6.689 graduados, dos quais 3.568 eram mulheres e 3.121 ho-mens. Em 2018, de um total de 9.773 graduados, 53,5% eram mulheres e 46,5% hoho-mens.
A tabela abaixo traz uma visão geral da distribuição por sexo na formação universitária pública e priva-da. Como se pode perceber, os cursos de Ciências Sociais, Letras e Educação são aqueles que mais re-cebem alunos, independentemente da universidade. O curso de Engenharia é maioritariamente frequen-tado por estudantes do sexo masculino. Em termos de obtenção do grau de formação, no ensino público
as estudantes do sexo feminino são em menor número em Ciências Naturais, Engenharias, Agricultura e Serviços, enquanto que no privado, a menor proporção de mulheres é registada nas áreas de Letras, Ciências Naturais, Engenharias e Agricultura.
Tabela 23: Relação de estudantes por sexo segundo área de formação no ensino
su-perior
ÁREA DE FORMA-ÇÃO NOVOS INGRESSOS Público-2018 GRADUADOS Público-2018 NOVOS INGRESSOS Particular-2018 GRADUADOS Particular-2018 M H M H M H M H Educação 3.374 4.651 2.444 3.602 2.008 2.335 840 838 Letras e Humanidades/ 279 333 107 94 18 73 45 52Ciências Sociais,
Ges-tão, Direito 4.678 4.267 2.091 1.908 6.750 6.569 3.527 2.594 Ciências Naturais 425 1.054 150 320 98 480 24 64 Engenharias, Indústrias e Construção 866 2.451 245 666 548 1.469 258 587 Agricultura 295 386 93 147 240 315 56 125 Saúde e Bem-Estar 527 2.402 1.538 388 1.591 845 445 267 Serviços 261 635 158 481 3 28 33 18 TOTAL 10.705 16.179 6.826 7.606 11.256 12.114 5.228 4.545
Fonte: Ministério de Ciência e Tecnologia, Ensino Superior e Técnico Profissional,2018
Nos dados acima apresentados nota-se claramente um esforço das autoridades do sector de educação em garantir o acesso igual ao ensino entre homens e mulheres. Porém, nota-se também que as desigual-dades estão longe de ser eliminadas. As mulheres continuam a ocupar uma posição inferior em termos de acesso à educação.
Recomendação
É fundamental e urgente que o governo aposte em programas e projectos que estimulem um maior acesso à educação por parte das mulheres. São necessárias medidas de discriminação positiva a fa-vor das mulheres, como, por exemplo, quotas no acesso à educação.
6.1.3.3. Assédio Sexual
A questão do assédio sexual continua a ser um desafio em Moçambique. Da pesquisa realizada consta-tou-se que nos anos 2018 e 2019 o problema ainda continua por resolver.