SENHOR AND ALMANAqUE: TwO MAGAzINES IN GRAPHIC
68Imagem 1 ·Capas do nº 1 Carlos Scliar fez a capa no
1 da SR. (março 1959) e Sebastião Rodrigues a no 1 da Almanaque (outubro 1959). Sciliar ilustrou Copacabana enquanto Rodrigues, na capa no 6 da Almanaque (março 1960), ilustrou a calçada lisboeta.
Imagem 2 · Notas de abertura. Apresentação das
revistas nos respetivos nº 1, através de uma nota de abertura dirigida ao leitor. A SR. dirige-se à mulher do leitor.
Imagem 3 (coluna anterior) · Capas. Jaguar fez a capa
nº 10 da SR. (dezembro 1959) e Sebastião Rodrigues a nº 16 da Almanaque (fevereiro 1961). Dois homens de meia idade sensíveis à atualidade e à cultura: um de “paletó e gravata” e o outro a figura do Pacheco.
Em 1960, no segundo ano da Almanaque, Cardoso Pires viu-se obrigado a exilar-se em Paris e no Brasil devido ao regime salazarista. Na sua estadia no Brasil vai colaborar com a SR. e é então que conhece Carlos Scliar.
Então vou trabalhar para o Rio (onde sou extraordinariamente bem recebido), sem nunca dizer que estava fugido. (...) E escrevia também numa revista muito bem feita chamada
Senhor. Quem estava à frente daquilo era uma
quantidade de meninos muito snobes mas muito de esquerda, judeus e ricos. O Chique Buarque, o Álvaro Lins, e o diretor gráfico era o Carlos Scliar, a Paula Rego brasileira. Esse é que foi o meu grande amigo lá. (Pedrosa, 1999, p. 56). Mas, em 1961, Figueiredo de Magalhães vai convencê- lo a regressar à direção da revista e este vai retomá-la a partir do no 15 num momento em que “trazia novas ideias, a experiência no Senhor tinha-me motivado muitíssimo. Os redatores, Sttau Monteiro, Abelaira, José Cutileiro, O’Neill e Vasco Pulido Valente, aderiram à reestruturação que lhes propus e a revista apareceu nos moldes que a tornaram personalizada” (Pedrosa, p. 57) [Imagem 4].
Se antes de Cardoso Pires ir para a SR. os artigos eram identificados pelo título, depois passam a ser organizados por temas gerais. A reestruturação coincidiu com o período em que a direção gráfica se dividiu entre Sebastião Rodrigues e Abel Manta. Os contos passam a designar-se ficção e os desenhos humorísticos e satíricos alteram-se para cartoons, tal como eram designados na SR.. Surge ainda uma categoria de artigos de moda e de tendências, dirigidos ao homem, denominada por elegância [Imagem 5].
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Imagem 4 · Almanaque. Nº 15 (dezembro 1960 e janeiro
1961). À esquerda a fotografia de alguns colaboradores incluindo a do fotógrafo Armando Rosário. À direita a entrada de Cardoso Pires e a biografia de Rosário assinalando a sua colaboração na SR..
Imagem 5 · Índices. Comparação do nº 13 da SR.
(março 1960) e do no 15 da Almanaque (dezembro 1960 e janeiro 1961) com a reestruturação proposta por José Cardoso Pires.
Segundo Eduardo Gageiro, por nós entrevistado, o Armando Rosário fora à Almanaque pedir para colaborar com a revista. A sua ida coincidiu com o regresso de Cardoso Pires e vai permanecer lá até ao último número de 1961. Ao ver os números da SR. por nós disponibilizados, Gageiro questionou se o design era de Sebastião Rodrigues. A semelhança do tratamento gráfico – como a montagem da fotografia a preto e branco com a sobreposição de uma layer de cor – pareceu-lhe evidente [Imagem 6, 7, 8 e 9].
Relativamente ao processo de impressão, e após análise de alguns números das duas revistas em parceria com a Tipografia Popular e a Gráfica Saúde Sá (respetivamente em Lisboa e no Porto), concluímos que ambas foram impressas em offset, e no caso da Almanaque com as primeiras máquinas que existiram em Portugal8. No
final de 1950, só era possível imprimir uma cor de cada vez, o que explica os desacertos visíveis em algumas páginas onde se recorre à sobreposição de cores. A Almanaque, impressa na Casa Portuguesa em Lisboa, tinha o formato de 170 x 250 mm e constituía-se em cadernos de dezasseis. Cada caderno podia ter uma cor entre o vermelho, o verde, o azul, o amarelo, ou os seus derivados. Quanto à SR., impressa nas Artes Gráficas Gomes de Souza no Rio de Janeiro, constituía- se em cadernos de quatro (o seu formato de 235 x 320 mm era muito superior), impressos a uma cor, ou reimpressos três vezes com o amarelo, o vermelho e o azul o que possibilitava a impressão de fotografias a cores. Quanto à tipografia, a Almanaque manifesta a influência do modernismo europeu através do uso da
Akzidenz Grotesk Medium para o título e da Futura para
o mês e ano, enquanto que a SR. recorre à Garamond para o título, Old Face para o texto e Copperplate Gothic na numeração das páginas.
As revistas assumiram uma joie de vivre9 caracterizada
por uma vertente urbana, literária, atenta ao cinema e sobretudo ao jazz10. No nº 3 da Almanaque aparece
o artigo Que é o «jazz»?, e no nº 15 o artigo Jazz in
Lisbon que relata uma noite no Hot Club. É sobejamente
conhecida a citação de Sebastião Rodrigues associando o seu processo de trabalho ao improviso característico do cinema e do jazz11. O Filme do Mês e Actualidades
incluídos na Almanaque informam sobre a música, o cinema e notícias internacionais12. Já artigos mais
pontuais destacam atrizes como Brigitte Bardot, Marilyn Monroe e Sophia Loren, ou os carismáticos Elvis Presley, Frank Sinatra, ou Miles Davis e a cultura portuguesa. Quanto à SR. as entradas Artiguetes e Reportagens informam sobre a cultura brasileira e internacional13
[Imagem 10, 11, 12 e 13].
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Nos anos 50 e 60, o desenvolvimento de uma nova dinâmica de produção, distribuição e consumo solicitou ao designer a conceção de um estilo universal e adequado à imagem corporativa14. A proposta estética característica
do mundo empresarial foi construída com formas simples, alinhadas sobre a grelha, letra sem serifa e ausência de ornamento. No entanto, outras propostas mais ecléticas usavam gravuras ou ilustração antiga, tipos móveis de madeira, tipografia caligráfica e decorativa, letterforms com manipulação fotográfica, diversas layers de cor, formas biomórficas, ou a pincelada larga cuja influência provinha da pintura abstrata. A sensibilidade para a ilustração e o humor subtil suscitaram composições mais individuais como as de Paul Rand, Bradbury Thompson, ou Alvin Lustig15. Tal como as propostas destes designers
americanos, o trabalho de Sebastião Rodrigues para a Almanaque e de Carlos Scliar, Glauco Rodrigues e de Jaguar para a SR. revelaram essa joie de vivre que transparecia na cultura e no dia-a-dia da cidade.
CONCLUSõES
Este texto defendeu a proximidade editorial e gráfica entre a revista brasileira SR. (1959-1964) e a portuguesa Almanaque (1959-1961). Sustentamos a comparação das revistas a partir do facto de Cardoso Pires ter colaborado com a SR. em 1960, e do fotógrafo brasileiro Armando Rosário ter colaborado com a Almanaque a partir do nº 15 e até ao último número de 1961. A afinidade entre as revistas foi justificada considerando a reformulação da Almanaque proposta por Cardoso Pires, em 1961, quando regressa do Brasil. No contexto do Estilo Internacional, ambas se dirigiam ao homem de meia idade, culto, cosmopolita, crítico e interessado na atualidade internacional e nacional. A proximidade do projeto gráfico de Carlos Scliar na SR. e de Sebastião Rodrigues na Almanaque, foi resultado da amizade de Cardoso Pires com ambos os diretores de arte. Através do confronto de duplas páginas das
Imagem 6 · Comparação gráfica.Nº 7 da SR. (setembro 1959) e nº 2 da Almanaque (novembro 1959). A fotografia a preto e branco com a sobreposição de uma layer de cor.
Imagem 7 · Comparação gráfica. Nº 11 da SR.
(janeiro 1960) e nº 5 da Almanaque (fevereiro 1960). A fotografia com uma layer de cor e a utilização de duas colunas de texto.
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revistas (exemplares compreendidos entre 1959- 1961), e dos seus conteúdos editoriais demonstrámos o seu foco literário, cultural e moderno. O layout das duas usou a ilustração e o humor, a fotografia a preto e branco associada ao ritmo inspirado na improvisação do jazz, bem como composições com diversas layers de cor, elementos gráficos históricos e contemporâneos que comunicavam um modo de vida esclarecido e descontraído que designámos por joie de vivre. NOTAS
1 Referimo-nos ao período do pós-guerra marcado pelo fim da Segunda
Guerra Mundial em 1945 e a consequente reconstrução da Europa a partir da cooperação económica com os Estados Unidos da América através do Plano Marshall. A rivalidade que então se estabeleceu entre a América e a União Soviética espoletou a tensão vivida no contexto da Guerra Fria devido à incompatibilidade entre os valores consumistas e os valores comunistas. Nas palavras de David Crowley e Jane Pavitt: “We live in a world still shaped – materially, environmentally and imaginatively – by Cold War modernity. The threat of nuclear warfare
may seem somewhat more distant today, but the legacies of aggressive industrialization in the 1950s and 1960s are all too evident in our global environment. Moreover, many of the key questions of Cold War modernity – such as how to exploit new technology for the benefit of humanity without producing inhumane effects, or how to imagine modern lives outside conditions set by the marketplace – remain present today.” (Crowley & Pavitt, 2012, p. 23).
2 Margarida Fragoso enumera as “figuras de influência” que são
identificadas pelos designers que entrevistou e, nessa tabela, o nome de Sebastião Rodrigues é referido por Luís Filipe de Abreu, José Pedro Martins Barata, José Brandão, José Cândido, Henrique Cayatte e António Ruella Ramos. Ver Fragoso, M. (2012). Capítulo 10. Análise das Entrevistas. In Design Gráfico em Portugal: Formas e expressões
da cultura visual do século xx (pp. 277-290). Lisboa: Livros Horizonte.
Sobre Sebastião Rodrigues ver Cabral, M. da C. & Silva, M. do C. M. da (Coords.) (1995). Sebastião Rodrigues, Designer. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, e Fior, R. (2005). Sebastião Rodrigues and the
development of modern graphic design in Portugal. Thesis (PhD.).
University of Reading, Reading.
3 Segundo Paul Greenhalgh o design no contexto do Movimento
Moderno engloba duas fases: a primeira constituída pelo Protomodernismo (1880-1914) e pelo Modernismo Pioneiro (1914-
Imagem 8 · Comparação gráfica. Nº 4 da SR. (junho
1959) e nº 5 da Almanaque (fevereiro 1960). A cor aparece frequentemente em bloco, podendo ou não conter informação.
Imagem 9 · Ilustração. Nº 1 da SR. (março 1959)
e nº 5 da Almanaque (fevereiro 1960).
Vemos a semelhança da ilustração linear e o humor associado às personagens.
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