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3 PROPOSTA METODOLÓGICA

4 ESTUDO DE CASO

4.3 Descrevendo e analisando as entrevistas

4.3.5 Desejos e sonhos

4.3.5.2 Imaginando um computador em casa

Nesta questão, foi solicitado que os pais imaginassem o que gostariam de fazer, se tivessem um computador em casa. A resposta mais freqüente relacionou-se ao desejo de aprender, de descobrir como ligar, como utilizar os recursos desse computador:

“Ah, eu ia aprender. Por que em primeiro lugar eu não sei mexer.”

“Eu não sei, por que eu não sei mexer no computador... Gostaria de aprender a mexer entendesse? Se fosse pra mim ficar ali, eu não saberia o que fazer. Se fosse uma pessoa que fosse pra me ensinar era melhor.”

“Ia aprender a mexer pra fazer as coisa... escrever”.

“Não sei, talvez eu ia saber procurar o que que tinha ali [...] Descobrir o que que tem no computador. Eu nem tanto. Mas o meu marido é enxerido, ele já ia tentar saber o que tava passando, o que tava programado.”

Dois dos entrevistados, que pareciam já ter tido algum contato com o computador em casa ou no trabalho, gostariam de “navegar pela internet”, com o objetivo de pesquisar e ter acesso a informações que não obteriam de outra forma. Pode-se dizer que assim manifestavam o desejo de viajar pelo mundo, realizar um sonho quase impossível na “vida real”:

“Bom eu acho que como todo mundo, eu queria ir na Internet”.

“Ah, eu ia descobrir tudo que tem na internet. Eu ia viajar o mundo pela internet, eu acho [...] Por que eu não gosto assim, tipo de pegar e ir pro computador e fazer alguma coisa assim, tipo em vão. Tipo, se eu tenho um trabalho pra fazer no computador, eu vou lá digitar, eu adoro digitar, mas se eu tenho alguma coisa pra

algum fim, eu não gosto de ir lá e ficar fazendo besteira, isso não gosto. Tipo, na internet mesmo, às vezes o meu marido fica horas lá, os amigo dele mandam sacanagem, aí eu não gosto. Até me mandam, mas os meus e-mail são coisas assim que eu vejo, eu nem abro, não tô nem aí. Eu gosto de abrir coisas que são importantes. Que em tragam alguma coisa. Essas coisa assim eu não tenho paciência. Eu gosto de coisas mais instrutivas mesmo”.

O final desta resposta parece ser uma crítica ao uso da internet para informações julgadas “inúteis”, como piadas veiculadas pelo correio eletrônico que a fazem “perder tempo”.

Uma mãe revelou o desejo de entrar numa sala de bate-papo (chat), para discutir religião: “Eu queria entrar assim mais na parte de religião, eu gosto muito da opinião das pessoas, tipo, tem aquele bate-papo na internet, essas coisa, então eu queria esse tipo de coisa.”

A avó entrevistada relatou que não faria questão de ter um computador em casa para seu uso, apenas para os netos: “Ai meu Deus, uma coisa que servisse de útil pra eles [...] Que é pro futuro deles [...] É. Que de vez em quando, ‘Ai vó não sei o quê [...]’ Até no trabalho eles vão precisar de computação. Seria ótimo.”

Dos outros pais, um respondeu que faria pesquisa, trabalho através do computador; um disse que aproveitaria o que tivesse (não conhecia muito); e dois responderam não saber, porque nunca tiveram computador.

Ao se perguntar o que gostariam que os filhos fizessem com computador, alguns pais manifestaram o desconhecimento sobre o que o computador poderia oferecer, enquanto outros externaram o desejo de que a criança usufruísse daquilo que o computador tivesse de melhor, que aprendesse, pesquisasse e que, principalmente, esta atividade o deixasse feliz. Esses pais colocam os filhos em uma situação

privilegiada em relação a eles, pois os filhos freqüentavam o EMI, na creche, e já sabiam utilizar o computador e por isso, tinham condições de escolher o que fazer com este recurso:

“Não sei nem que existia computador. Ele é que ia me ensinar”.

“Com certeza ela já saberia ligar [...] Ia aprender alguma coisa ali dentro. Eu não sei. Sei lá. Eu nunca fiz um curso de computação. Eu não sei te explicar o que tem no computador”.

“Que ele fizesse uma coisa pra ele, pro futuro dele, né? Ah, uma pesquisa. Pra cada vez melhorar mais”.

“Algo que deixasse feliz”.

“Eu não sei o quê que eu gostaria que ele fizesse, eu ia jogar pra ele o que tem, iria expor pra ele e ele iria escolher”.

“As atividades assim [...] Aqui da creche, que ele já faz assim, pra ele aprender. Escrever, fazer conta, essas coisa”.

“Que ele aprendesse muito, muito, muito. Que servisse bastante pra ele [...] E pra inteligência dele mesmo”.

“Ah, eu queria que ele mexesse pra aprender alguma coisa. Que nem o trabalho que ele tava fazendo lá embaixo, lá na creche, escrevesse um livro, usasse a imaginação dele”.

“Agora, assim pra ele, não sei assim. Não tenho idéia [...] Aquele passatempo”. “Eu queria que ela fizesse uma coisa que fosse somente instruir ela. Coisas, tipo, joguinho da memória, no início parecia que ela gostava, depois ela não gostava, não gostava e era uma coisa que eu gostava, gosto, pro que eu acho que é uma coisa que é importante, é um aprendizado aquilo ali, se memorizasse, então eu gosto de coisas mais instrutivos mesmo. Não que seja coisas assim só vagas [...] Tipo

dominó, eu gosto que ela jogue, porque são coisas que ela vai aprender os números, tipo, ela tem aquele “Tapete de letras”, eu gosto de brincar com ela com aquilo lá também, que daí eu tento ensinar as letrinhas pra ela assim. Só coisas boas assim”.

“Fotos, para fazer desenhos, escrever”.

“Ah, eu queria assim que ele se interessasse por coisa de ciências, sabe, de tipo botânica, zoológico, essas coisa. Animais, plantas, essas coisas [...] Pra fazer pesquisa”.

Sobre as representações que os pais fazem sobre o computador e a internet, destaca-se que a creche tem o papel fundamental de mediar e contextualizar essa forma cultural, já que os pais têm uma compreensão bastante limitada dela. As respostas dos familiares revelaram um desconhecimento do que o computador e a internet podem oferecer à criança, ou ao adulto. O EMI pode então significar, para essa comunidade, uma alternativa à exclusão digital, através de ações planejadas com as crianças e seus familiares.