4.4 Satisfação Individual
4.4.3 Incômodos do Trabalho
Para verificar o que tem mais incomodado o empregado no seu trabalho, os fatores que interferem na sua satisfação individual. Por isso questionou-se ao participante: em relação ao seu trabalho, o que mais lhe incomoda? Para que fosse descrito o que está mais iminente na mente do indivíduo. Tais resultados podem oferecer aos gestores, estudiosos, como retrato do que mais influencia no bom significado do trabalho para vida.
Nas organizações a forma de pensar burocrática geralmente tem deixado de lado os valores absolutamente práticos, ou seja, o predomínio da racionalidade instrumental conduz o homem ao vazio e à luta por pequenas posições na hierarquia social de prestígio ou de consumo. Na psique humana dos indivíduos, estes são impactados diante das ações organizacionais e gera-se em muitas situações um sofrimento perante os conflitos dos traços da história individual e as formas de organização do trabalho que fazem com que anule ou ignore totalmente estes indivíduos (DEJOURS, 1996; MARGOTO; BEHR; PAULA, 2010).
Diante do grande papel que o trabalho pode desempenhar na vida humana, se apresenta os resultados. Neste tópico, as expressões em destaque se relacionam aos elementos da racionalidade instrumental e da racionalidade substantiva, e interligam-se aos critérios da qualidade de vida no trabalho no modelo de Walton (SAMPAIO et al., 1999; FREITAS; SOUZA, 2008). Serão apresentadas todas 87 respostas no totaldos participantes da pesquisa por meio dos quadros 26, 27 e 28, onde estão classificadas conforme aos elementos da racionalidade instrumental ou substantiva a que pertencem. No quadro 28 selecionaram-se as afirmações que se ligam ao modelo de Walton.
No quadro 26, interligaram-se as expressões aos atributos relacionados à racionalidade instrumental nas expressões perante os elementos: êxito, maximização de recursos e fins (RAMOS, 1989; SERVA, 1996).
Quanto ao elemento êxito(o alcance, em si mesmo, de padrões, níveis, estágios, situações, que são considerados como vitoriosos em face de processos competitivos numa sociedade capitalista) - com 01 expressão na resposta do participante 67, este demonstra que o mais lhe incomoda é “acompetitividade de alguns colegas de trabalho";
Na dimensão sobre a maximização de recursos (busca da eficácia e da eficácia máximas no tratamento de recursos disponíveis, quer sejam humanos, materiais, financeiros, técnicos, energéticos ou ainda, de tempo), com 14 expressões nas respostas dos participantes, pode-se
verificar o quanto a maximização dos recursos pode interferir em frustrações no trabalho, o que se percebe nas expressões dos participantes 8, 23 e 31:
8: "Carência de Recursos: - Humanos; - Materiais e equipamentos".
23: "A falta de recursos e pessoas para execução das tarefas". 31: "A falta de recursos para manter as subestações, gerando riscos para quem opera e
presta manutenção".
Diante do elemento fins (metas de natureza técnica, econômica ou política (aumento de poder)), 12 expressões nas respostas dos participantes retratam: o baixo salário e as interferências políticas.
Apresentam-se as respostas que configuram isso e expostas também no quadro 26:
56: "Baixo salário, pouca autonomia para decisões, material antiquado (ferramenta computacional)".
74: "Remuneração abaixo do praticado no mercado".
92: "Baixa remuneração e chefia pouco ativa". 84: "Falta de recebimento, remuneração
incompatível".
7: "Favorecimento político". 12: "Interferência política e falta de suprimentos".
27: "Política! É o mau do emprego". 57: "Politicagem”. 94: "A influência política na empresa".
107: "Ingerência política”.
78: "As estratégias políticas da empresa, onde muitas ações são feitas de forma política e não técnica".
Quanto à remuneração injusta e inadequada, verificou-se o critério compensação justa e adequada de QVT, onde diz ser justa, quando está apropriada ao trabalho executado e comparado a outro trabalho; e suficiente quando comparada com os padrões sociais determinados ou subjetivos do empregado, 04 expressões exprimiram este critério.
Quanto à interferência política no trabalho, um critério de Walton chamado de cidadania inclui neste aspecto, pois as interferências políticas podem refletir em processos injustos e desiguais. A cidadania atente a liberdade de expressão, o direito a tratamento igual em todos os aspectos, incluindo sistema de compensação, premiações e segurança no emprego; e o processo justo, no uso da lei em caso de problemas no emprego, privacidade, procedimentos de processos e apelações.
Perante o que pode incomodar e atrapalhar os indivíduos nas organizações é visto que é preciso ater-se ao que tem afastado a satisfação dos trabalhadores. Vasconcelos (2004) menciona
que nas organizações um excessivo enfoque econômico-financeiro em detrimento do bem-estar das pessoas nas organizações, por isso existe o desafio a dirigentes das organizações para que façam mudanças diferenciadas além do convencionalismo para proporcionar ambientes mais agradáveis e saudáveis aos empregados. Ao proporcionar a qualidade de vida no trabalho, aprimora-se também o desempenho no trabalho. Branch; Branch (2010) demonstrou o potencial da qualidade de vida no trabalho na melhoria da performance dos funcionários, no desempenho do trabalho nas organizações e ainda podem reduzir significativamente o absenteísmo, acidentes menores, queixas e desistências do trabalho.
Quanto aos incômodos no trabalho, diante das 87 respostas, e dos atributos relacionados à racionalidade substantiva expostos no quadro 27, as expressões que demonstram os elementos: autonomia, autorrealização e julgamento ético (SERVA, 1996), serão relacionados aos critérios de Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) de modelo de Walton (SAMPAIO et al., 1999; FREITAS; SOUZA, 2008; BRANCH; BRANCH, 2010)
Diante da autonomia (condição plena dos indivíduos para poder agir e expressar-se livremente nas interações), 05 expressões nas respostas dos participantes, como a falta de autonomia n o trabalho, e a rigidez das normas e fala de liberdade em expressar-se tem incomodado estes trabalhadores. Isso é demonstrado pelos participantes 48, 55 58, 70 e 80.
55: (...) Burocracia extrema". 48: "Algumas burocracias que não deviam existir". 58: "Centralização de tarefas". 72: "Intervenção de pessoas da empresa no trabalho
executado". 80: “- Falta de diálogo com a chefia. - Atribuições que não são de minha
responsabilidade".
Naautorrealização (processos de concretização do potencial inato do indivíduo, complementados pela satisfação), há 08 expressões nas respostas dos participantes. A resposta do respondente 28 da pesquisa, quanto ao que mais o incomoda no trabalho disse:"(...) pouco-caso que a empresa demonstra em relação às atividades que desenvolvo”. Este elemento da racionalidade substantiva está relacionado também ao uso e desenvolvimento da capacidade humana, afetando a participação, a autoestima e mudanças no trabalho. Neste critério o trabalho permite a autonomia e autocontrole das atividades; permite o empregado usar suas habilidades; obter informações significativas sobre o processo total do trabalho e os resultados de ação dos trabalhadores, de modo que permita ao funcionário apreciar a relevância e as consequências dessas ações.
Além também das expressões da autorrealizaçãoestarem integradas ao critério de Walton sobrea oportunidade futura para crescimento e segurança continuados que se referem à oportunidade de carreira no emprego, com o desenvolvimento pessoal perante as atribuições de trabalho e atividades educacionais; a oportunidade de progresso em termos organizacionais ou de carreira. Isso se expressa por meio do participante 34: “Não conseguir alavancar a carreira dentro da empresa, devido ao PCS (Plano de Cargos e Salários) mal formulado”.
Nos valores emancipatórios (valores de mudança e aperfeiçoamento do social, bem estar coletivo, solidariedade, respeito à individualidade, liberdade e comprometimento, presentes nos indivíduos e no contexto normativo do grupo) que integra ao critério de cidadania do modelo de QVT, há 09 expressões nas respostas. Apresentam-se respostas dos participantes 46, 75, 82, 104 e 105 quanto ao que incomoda na sua vida por meio do trabalho:
46: "Falta de privacidade, fornecedores visitam com frequência sem serem anunciados". 75 : "Desinteresse de alguns empregados". 82 : "Falta de coordenação nos trabalhos à executar".
104: "Falta de cooperação, mediocridade". 105: "Egoísmo" 103: "Falta de comprometimento das pessoas (...)”.
Perante o julgamento ético (deliberação baseada em juízos de valor (bom, mau, verdadeiro, falso, correto, incorreto, etc.), que se dão através do debate racional das pretensões de validez emitidas, 05 expressões foram encontradas nas respostas dos participantes:
69: "A falta de comprometimento e ética de pessoas no grupo".
70: "Falta de comprometimento de superiores com resultados".
85: "Falta de ética, desonestidade, prevaricação, corrupção explícita". 86: "O descaso com que as pessoas agem perante a empresa".
91: "Decisões não transparentes".
O último critério de QVT analisado foi quanto o trabalho e o espaço total de vida que representa a experiência individual no mesmo pode trazer efeitos positivos ou negativos na vida pessoal e nas relações familiares. Prolongados períodos de trabalho podem causar sérios danos na vida familiar, 02 expressões dosparticipantes 87 e 96 relatam este aspecto:
Diante dos discursos dos participantes se percebe o quanto que a busca por autonomia, pela autorrealização, a existências de valores humanos e sociais no trabalho, além da defesa por condutas éticas, quando ausentes prejudicam a satisfação dos trabalhadores. Loch; Correia (2004) discute sobre como o trabalho pode trazer às pessoas conotações positivas com seu caráter transformador e emancipatório, ou bem trazer seu oposto: alienação e sofrimento. Margoto; Behr; Paula (2010) demonstram que os juízos de valor, a busca por maior autonomia e da autorrealização; e valores emancipatórios relacionados ao respeito à individualidade, à solidariedade e à liberdade, aparecem frequentemente como motivos de frustração e insatisfação de empregados, que levaram até a se desligarem das organizações onde trabalhavam.
Nessas apresentações, visualiza-se o quanto é necessário que a organização invista mais em ascensão profissional, inicie o desenvolvimento de uma cultura organizacional que valorize mais os conhecimentos, as habilidades e experiências dos seus profissionais. Além disso, que haja ações para valorização profissional e desenvolvimento pessoal, com a preservação de juízos de valor nas práticas e decisões no trabalho. Dejours (1996) expõe que os indivíduos são impactados diante das ações organizacionais e gera-se em muitas situações um sofrimento perante os conflitos dos traços da história individual e as formas de organização do trabalho que fazem com que anule ou ignore totalmente estes indivíduos.
A necessidade de perceber que os incômodos do trabalho aos funcionários da empresa devem ser considerados com significativa relevância por gestores e responsáveis em processos decisórios e ações administrativas nas organizações pelo reflexo que pode trazer à vida dos indivíduos e a toda sociedade. Loch, Correia (2004) apresenta que no modo de produção capitalista, o trabalho se organiza de acordo com os interesses e necessidades do capital, um contexto organizacional onde prevalece a racionalidade instrumental. E para acompanhar as mudanças do trabalho a gestão de pessoas deve flexibilizar-se por meio da busca de mecanismos e práticas que possibilitam maior participação e autonomia do trabalhador no processo do trabalho com o objetivo de resgatar a subjetividade humana.
Perante as reclamações visualizadas quanto a sua relação com o seu trabalho percebem-se: o baixo salário e injusto; desvalorização profissional, pouco reconhecimento pela organização perante as potencialidades humanas; baixa perspectiva de crescimento e desenvolvimento pessoal. Margoto; Behr ; Paula (2010), numa perspectiva crítica sobre os processos burocráticos, diante da análise da história de vida de cinco indivíduos que se desligaram da sua organização voluntariamente avaliou as causas deste acontecimento. Os autores demonstram a forma de controle psicossocial da lógica
empresarial capitalista, onde os desejos dos homens devem submeter-se aos desejos da organização, leva a dissolução das individualidades em favor do coletivo organizacional, e assim anulam as subjetividades humanas. Por isso a inserção social não ocorre conforme as necessidades e perspectivas de bem-estar dos indivíduos, mas se baseiam em imposições provenientes do exterior do indivíduo como regras, normas, padrões e regulamento estranhos a este ser humano (MARGOTO, BEHR E PAULA, 2010).
O resgate das subjetividades humanas, de modo que os empregados sejam mais valorizados pelo trabalho que desenvolvem e existam mais chances e oportunidades para melhorias na carreira e no desenvolvimento dos conhecimentos e habilidades das pessoas. Pois se verifica o quanto o predomínio da instrumentalização do trabalho tem “furtado” a satisfação e realização dos trabalhadores, assim necessitam-se mudanças em gestos e atitudes no trabalho,pois esses podem repercutir em famílias e pro conseqüência uma sociedade mais satisfeita.
67 : "A competitividade de alguns colegas de trabalho". Êxito 5 : "Falta de orçamento na área para atender demanda dos serviços".
6 : "As questões que são atrapalhadas por insuficiência técnica ou gerencial de algumas chefias regionais".
8 : "Carência de Recursos: - Humanos; - Materiais e equipamentos". 23 : "A falta de recursos e pessoas para execução das tarefas". 31 : "A falta de recursos para manter as subestações, gerando riscos para quem opera e presta manutenção".
61 : "Carência de material para executar os trabalhos". 76 : "Tecnologia defasada". Maximização de Recursos
64 : "Falta de recursos / Orçamento reduzido / Falta de mão de obra para executar tarefas". 96 : "Trabalhar 8 horas diárias! Pouca gente!". 106 : "A falta em executar a tarefa dada por falta de condições materiais” . 101 : "A falta de material para manutenção".
93 : " Falta de um planejamento estratégico (...) expressado através da falta de recursos".
47 : "Falta de verba para implantar projeto". 55 : "Falta de um planejamento. Dificuldades na liberação dos orçamentos (...)”.
56 : "Baixo salário, pouca autonomia para decisões, material antiquado (ferramenta computacional)". 74 : "Remuneração abaixo do praticado no mercado". 84 : "Falta de recebimento, remuneração incompatível". Fins 92 : "Baixa remuneração e chefia pouco ativa".
7 : "Favorecimento político". 12 : "Interferência política e falta de suprimentos". 27 : "Política! É o mau do emprego". 57 : "Politicagem”. 94 : "A influência política na empresa". 107 : "Ingerência política”.
78 : "As estratégias políticas da empresa, onde muitas ações são feitas de forma política e não técnica". 4 : "Viagens frequentes para um mesmo lugar".
Autonomia – Autorrealização –Valore Emancipatórios - Julgamento Ético
55: (...) Burocracia extrema". 48 : "Algumas burocracias que não deviam existir".
58 : "Centralização de tarefas". 72 : "Intervenção de pessoas da empresa no trabalho executado". Autonomia 80 : " - Falta de diálogo com a chefia. - Atribuições que não são de minha responsabilidade".
28 : "(...) pouco-caso que a empresa demonstra em relação às atividades que desenvolvo”. 34 : "Não conseguir alavancar a carreira dentro da empresa, devido ao PCS (Plano de cargos e salários) mal formulado”. 51 : "O fato de não estar enquadrado profissionalmente de acordo com a minha formação". Autorrealização 71 : "Falta da valorização do bom empregado conforme seu conhecimento técnico".
79 : "A chefia não ser aberta a conversa". 95 : "=>Falta de valorização profissional e condições de aperfeiçoamento com cursos, etc.". 98 : "Falta de valorização". 109 : " Pouco Reconhecimento".
46 : "Falta de privacidade, fornecedores visitam com frequência sem serem anunciados".
104 : "Falta de cooperação, mediocridade". 105 : "Egoísmo" Valore Emancipatórios
103 : "Falta de comprometimento das pessoas, mediocridade de alguns 75 : "Desinteresse de alguns empregados". 82 : "Falta de coordenação nos trabalhos à executar".
88 : "Baixa motilidade. Na área em que você entra na DTE (Diretoria Técnica) você fica. Não permitem M.P. (Movimentação de Pessoal). 89 : "Ser tratada de forma distinta dos demais colegas - assédio moral". 90 : "A impossibilidade de utilizar a criatividade". 91 : "Decisões não transparentes". 86 : "O descaso com que as pessoas agem perante a empresa".
69 : "A falta de comprometimento e ética de pessoas no grupo". 70 : "Falta de comprometimento de superiores com resultados". 85 : "Falta de ética, desonestidade, prevaricação, corrupção explícita". Julgamento Ético