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Surge um outro paradoxo (aparente)

INCOMPREENSÍVEL AO OLHAR

Quando conheci Valquíria e Carlos, eles ainda estavam sendo atendidos pelo Centro de Saúde Mental do município. Apesar de Valquíria ter recebido alta da fonoaudióloga há algum tempo porque havia começado a falar sem dificuldades, ela ainda estava tendo acompanhamento com psicólogos e pedagogos.

A assistente social e as monitoras comentaram que Valquíria havia se apegado demais aos irmãos menores, Robson e Paulo, mas como cada um deles saiu da instituição para morar com uma outra família52, ela estava sentindo muita falta dos dois:

As crianças estavam na sala de televisão brincando com um jogo. Alberto comentou: – Tia, sabia que o irmão da Valquíria foi adotado? [Alberto – referindo-se a mim] – Eu não. [pesquisadora]

Valquíria ficou em silêncio. Depois de alguns minutos, ela pediu à monitora Nadir para pegar a foto que ela havia tirado ao lado do irmão, para que eu pudesse conhecê-lo. Na foto estava Valquíria, Paulo e Robson. Valquíria ficou com o olhar fixo na foto e em seguida falou com a voz trêmula:

– Eu sinto muita falta dos meus irmãos. [Valquíria]

Estávamos na área dos fundos conversando. Fátima perguntou se eu era feliz. Antes que eu dissesse qualquer coisa, Valquíria interferiu:

– Eu sô feliz quando eu sei de uma notícia boa dos meus irmãos. Às vezes eu fico triste porque eu queria í embora com o meu pai. É o que eu desejo, em primeiro lugar! Eu queria í embora com a minha família, porque eu sinto saudade. Eu não vejo a minha família direito. [Valquíria – abaixando a cabeça]

– A Valquíria pergunta muito do Paulo. Às vezes ela chora por estar com saudades dele. Ela era muito apegada ao irmão. Os pais adotivos deram o telefone pra ela ligar a hora que ficasse com saudades. Mais de que adianta? O bebê ainda não fala! É uma pena! Não se deve tentar esconder da criança ou tentar fazer a criança esquecer de onde ela veio. [Nadir]

Segundo a assistente social, estes fatos, ao lado de todos os outros que Valquíria vivenciou durante a infância, contribuíram para que ela passasse a apresentar problemas de relacionamento com as outras crianças, com as monitoras e com o próprio irmão.

Carlos pegou um apito e começou a assoviar bem alto. Como as crianças menores estavam dormindo, Valquíria interferiu:

– Esse moleque! Me dá aqui! [Valquíria]

– Dona, essa semana a Valquíria pegô a faca de ponta e ia matá o irmão dela. Eu acho que o capeta tava no corpo dela! [Alberto]

52

De acordo com a monitora Marta, Paulo está morando com uma família, mas ainda não foi adotado, pois o Juiz, em princípio, concedeu ao casal somente a guarda provisória do menino por um ano, para depois concedê-la definitivamente. Marta comentou que antes de adotar uma criança, o Juiz investiga detalhadamente a vida do casal.

Valquíria ficou sem jeito. Mesmo assim, completou:

– É esse moleque besta! Ele não obedece! Qualquer um perde a paciência! [Valquíria] A monitora Nadir, que estava próxima, comentou:

– Outro dia a Valquíria brigou com o Carlos de rolar no chão, puxar o cabelo e um esmurrar o outro. E olha que são irmãos! [Nadir]

Valquíria e João estavam brincando de pega-pega. Durante a brincadeira, Valquíria se desentendeu com João e jogou uma cadeira de madeira em cima do menino, com o intuito de acertá-lo. No entanto, João conseguiu desviar o corpo da cadeira, impedindo que um acidente grave tivesse acontecido.

A monitora Nadir comentou que, em certa ocasião, Valquíria bateu tanto em Ieda que a menina chegou a sangrar. Como Valquíria estava incontrolável, ela teve que chamar a assistente social para ajudá-la a apartar a briga e a acalmar Valquíria.

Conforme a monitora Irene relatou, há momentos em que Valquíria tem “uma espécie de crise” que ninguém consegue controlar. Durante uma conversa informal, Silvia, a menina mais velha da instituição, também mencionou “estas crises” que Valquíria geralmente tem:

– Valquíria sofreu muito na infância. Ela ficou traumatizada e às vezes tem umas crises. Ela bate nos pequenos, xinga todo mundo, sobe no telhado da casa e sai quebrando tudo o que vê pela frente. Ela faz isso porque quer chamar a atenção de todo mundo, principalmente da tia Laura, a assistente social. Outro dia a Valquíria subiu em cima do telhado e a tia Marta pediu pra ela descer porque ela podia cair de lá. Ela não obedeceu e começou a batucar tão forte no telhado que acabou quebrando um pedaço dele. A tia Laura teve que sair correndo e ir até lá pra falar com a Valquíria. [Silvia]

Por outro lado, a assistente social comentou que considerava ser inacreditável o fato de Valquíria ter sido capaz de se levantar depois de vivenciar tantos acontecimentos difíceis e conflituosos. Ela disse que o mais impressionante de toda a situação, é que Valquíria havia mudado muito, porque mesmo a violência física/simbólica tendo sido mais por parte do pai, hoje Valquíria demonstra adorar esse pai e ter uma expectativa muito grande de voltar a viver com o mesmo. A assistente social afirmou, ainda, que esse modo de agir também podia ser observado em relação a Carlos.

Algumas situações que ocorreram em ocasiões distintas envolvendo Valquíria e Carlos acenavam para estes aspectos destacados pela assistente social:

No dia vinte e dois de dezembro, eu, meu marido e minha filha fomos levar um presente de Natal para as crianças. Logo que chegamos, vimos Valquíria sentada na varanda com a cadeira posicionada de frente para um homem moreno e magro. Parecia uma visita formal e distante. No entanto, assim que nos viu, Valquíria se levantou e apresentou com orgulho e empolgação o homem com o qual ela estava conversando. Era seu pai. Ele também se levantou para nos cumprimentar e aproveitou para se despedir da filha.

Estava no degrau da escada da padaria observando André Luís, Tales e Alberto fazerem as atividades escolares. Valquíria aproximou-se e, sem mais nem menos, comentou sobre a última visita que o pai havia feito a ela e ao irmão. Ela disse:

– Tem dia que meu pai vem visitá a gente e depois que ele vai embora, o Carlos fica andano pela casa nervoso. Dessa última veiz que meu pai veio aqui, o Carlos chorou. Ele queria í embora daqui. Até eu queria í embora com meu pai! [Valquíria]

Estávamos na padaria. Como eu havia levado o gravador, Carlos queria que eu gravasse a sua voz. Ele disse:

– Tia, eu tô nessa casa porque a polícia me pegô e me trouxe aqui. [Carlos] – O que aconteceu? [pesquisadora]

– Nada. Meu pai tava levano eu pra escola, aí a polícia pediu eu pro meu pai. Daí meu pai dexô. Aí eu vim aqui. Meu pai não tem culpa de nada. Agora grava. [Carlos]

– Tá gravando. [pesquisadora]

Viviane aproximou-se nesse momento e disse: – Eu quelo í embola. [Viviane – chorando]

– Não é só você, Viviane! Eu tamém quero í embora com meu pai. [Carlos]

João, Tales, Roberto, André Luís, Dagoberto e Carlos estavam na padaria assistindo a um filme. Carlos estava com um crucifixo pendurado no pescoço. André Luís falou em tom de sarcasmo:

– Tá se protegendo de vampiro? Tá com medo? [André Luís]

– Não, ô! É meu pai que me protege e que cuida de mim! Logo eu vô morá com ele! [Carlos] – Um dia, dona, o Carlos assistiu “O exorcista” e não saiu mais do pé das tias, de tanto medo! Quando ele ia dormi eu batia na porta e falava assim: “Cuidado heim, Carlos!” Aí ele começava a pedir o pai. Era maior da hora, dona! [André Luís]

Estávamos na área dos fundos. Fátima estava entrevistando algumas crianças a partir de um roteiro de perguntas que Alberto havia trazido da escola e que fazia parte de uma atividade a ser entregue no dia seguinte. Como eu estava com o gravador, Alberto me pediu para gravar a entrevista. Fátima perguntou para Carlos:

– Onde você mora? [Fátima]

– Eu moro com a minha família. [Carlos]

– Cê mora aqui, ô, na Casa do Menor! [Fátima – falando com ironia]

– Desgrava isso, então, dona! [Carlos – referindo-se a mim]. Em seguida, aproximando-se do gravador, Carlos falou baixinho:

– Eu queria í embora com o meu papai. [Carlos]

Nesse momento, ao ter em conta as diversas situações observadas envolvendo Valquíria e Carlos, comecei a suspeitar que as explicações dadas pela assistente social e pelas monitoras com relação ao modo de agir dos dois irmãos, também revelavam apenas a “superfície”. Por esse motivo, com o intuito de estudar os pontos nodais distintos da problemática que os envolvia, decidi retomar novamente a dialética entre essência e aparência e lançar um novo olhar sobre as profundezas dessa realidade.

Episódio 2