Painel 4 – Beneficiamento de quartzito
1 A INFORMALIDADE COMO FENÔMENO COMPLEXO E
1.5 Informalidade e redes sociais
Além de observar a informalidade levando em conta os traços próprios que marcaram a consolidação do capitalismo brasileiro e a dinâmica de sua expansão no interior das regiões do país, outro aspecto que gostaríamos de incrementar é a importância das redes sociais como mecanismos estruturadores da dinâmica da informalidade, muito mais do que formas de inserção.
Ficou claro, ao longo de nossa exposição que já nos primeiros estudos que popularizaram o conceito de setor informal, se reconhece as redes sociais como a porta da entrada na informalidade. O apoio de parentes e amigos é fundamental para garantir o começo de uma atividade, seja ela a venda de produtos na rua seja a prestação de serviços a domicílio. Hart (1973) chega a afirmar, é claro que a partir de seu contexto de pesquisa, que poucas pessoas procuram um trabalho onde não haja uma pessoa com quem elas tenham uma relação particular, um parente, por exemplo. Mas, para além disso, os fatores da origem familiar, associados ao pertencimento étnico e ao lugar de origem também influenciam no ordenamento das ocupações ou nas atividades que são historicamente identificadas a um determinado grupo:
Todos os tipos de trabalho na cidade são, portanto, vistos de forma diferente de acordo com o ponto de vista do candidato ao emprego. Para além da afiliação étnica, o ordenamento das ocupações varia consoante as categorias sociais. Assim, enquanto a comunidade islâmica, por exemplo, pode atribuir grande prestígio ao sucesso comercial, outros menosprezam todas as ocupações informais. (HART, 1973, p. 77) De alguma maneira, podemos ver aqui fatores sociais presentes na estruturação do mercado de trabalho, mas ainda na heterogeneidade dele a partir atividades de “colarinho branco”, formais, informais ocupadas não só em razão da qualificação profissional, mas de
57 outros traços, como a concentração de certas atividades em determinados grupo, o nepotismo, entre outros fatores.
Retomando Machado da Silva (1972), podemos avançar na compreensão do lugar das redes sociais na estruturação das atividades informais. É este autor que colocará:
No MNF, porém, a personificação da atividade econômica permite a interveniência de outras variáveis que podem alterar a segurança da ocupação [...] em outras palavras, a habilidade profissional transcende a esfera dos conhecimentos técnicos e experiência de trabalho. A capacidade de avaliar as condições de mercado, desenvolvendo e mantendo uma rede apropriada de contatos, a dependência de patrões estrategicamente localizados, a simpatia pessoal e a autoconfiança etc. desempenham um papel marcante sobre a estabilidade que em muitos casos obscurece a influência da qualificação profissional (MACHADO DA SILVA, 1972, p. 36).
A personificação da atividade informal, levando em conta o raciocínio do autor citado, tem importância tanto quanto a qualificação de quem vende o produto ou quem presta o serviço. Certamente, não vamos pôr peso maior em uma ou em outra variável, mas consideraremos que, mesmo se o trabalhador tiver alto nível de qualificação profissional, com reconhecimento formal de universidade, faculdades ou centros de ensino, ele dependerá do meio social, ou das redes sociais, para difundir as informações sobre a qualidade de seu serviço e dos atributos pessoais que possam abrir as portas das casas para que ele venda seu produto ou preste seu serviço.
Há valores em jogo, como a responsabilidade e a urgência por meios de subsistência que se expressam, muitas vezes, na priorização de oportunidades para a pessoa desempregada e com filhos para criar. Mas outras questões também entram em jogo, como a confiabilidade da pessoa a ser chamada para a turma ou a habilidade necessária para que ele possa fazer a tarefa, enfim, há valores sociais que também fazem parte do processo de aceitação da pessoa em uma determinada atividade. Assim, a informalidade é uma complexa construção social centrada na combinação de diversos elementos, que vão das estratégias empresariais, passam pelos arcabouços institucionais e envolvem contatos e valores sociais compartilhados por pessoas de uma dada comunidade.
Hart (1973) já destacava que a instabilidade e a irregularidade (no sentido da frequência do recebimento de pagamentos pelas mercadorias vendidas ou serviços prestados) marcaria substancialmente as atividades informais. Esse, de fato, é um aspecto visível nas atividades informais, mas, como destacou Machado da Silva (1972) em relação ao caso brasileiro, os contatos que os trabalhadores informais fazem com as pessoas com potencial de serem contratantes de seus serviços ajudam a atenuar o efeito da incerteza e da instabilidade. O volume de mercadorias vendidas e de serviços prestados em atividades informais pode ter uma
58 regularidade a ponto de se ter um nível de renda tal que se consiga dar conta das necessidades básicas da família e do investimento no próprio negócio. Isso dependerá do quão flexível e articulado seja o trabalhador informal, de modo a conseguir capturar as oportunidades que lhe aparecem.
A característica da flexibilidade, que constitui as atividades informais, especialmente quanto aos horários e locais de trabalho, formas de pagamento, disponibilidade do trabalhador conforme a demanda, contribui para a regularidade da renda e faz a atividade atrativa para os trabalhadores que podem adaptar seus horários de folga à realização de serviços. As redes sociais e a intensidade dos contatos se tornam fundamentais para a dinâmica da informalidade. É preciso estar em um fluxo contínuo de relações com os potenciais clientes para conseguir ter sempre demanda de serviço. Esse aspecto pode ser sentido por pessoas que já passaram pela necessidade de contratar pedreiros para realizar reparos em sua casa ou apartamento. Tanto a possibilidade de ter alguém para fazer o reparo no seu dia de folga é interessante, como a confiança no trabalhador por ter sido indicado por alguém do ciclo de amizades ou de parentesco podem ser fatores estimulantes à contratação do serviço. Essa disponibilidade em tempo integral para o serviço faz com que as jornadas de trabalho sejam mais extensas para o trabalhador informal e também mais intensas, a depender da quantidade de serviço que o espera.
Pedreiros, pintores, podadores de árvores, revendedoras de cosméticos etc. não podem ficar parados à espera de um chamado, mas precisam estar em movimento buscando oportunidades. E aqui retomamos o argumento de Machado da Silva (1972) de que a atividade informal pressupõe um conjunto de tarefas que precisam ser cumpridas e que não são diretamente aquelas que o trabalhador vende, mas são tarefas importantes e que garantem as condições para que se possa vender mercadorias ou serviços. Ou seja, em seu dia a dia, ele precisa tomar um conjunto de providências em relação à organização de suas ferramentas de trabalho, à sua divulgação, ao contato com as pessoas para quem possa oferecer o seu serviço, à sondagem das oportunidades de trabalho, de cultivo das suas relações sociais etc. Tais atividades que, certamente, em uma empresa, são exercidas por um setor especializado, como marketing, televendas, secretaria etc., no caso do nosso universo de pesquisa, são todas elas concentradas na figura do trabalhador informal.
Lima e Conserva (2006), ao escreverem sobre redes sociais e trabalhadores informais, pressupõem que “as interações sociais resultam em ações cooperativas que influem de forma decisiva nos processos econômicos” (LIMA; CONSERVA, 2006, p. 73) e reconhecem que o mercado está cheio de lógicas para além da econômica e que as redes podem ser uma delas. Os
59 autores referidos, ao descreverem os trabalhadores informais do comércio de rua em João Pessoa-PB, ressaltam o papel maior das redes familiares como porta de entrada na informalidade e como elemento influenciador das trajetórias laborais. Além do mais, a estruturação do negócio passa pelas relações familiares, particularmente em tarefas como o encontro do local para instalação do ponto de venda, o encontro de fornecedores de mercadorias mais baratas para revender, a ajuda nas tarefas a serem realizadas etc.
Eles destacam que, em muitos casos, as redes familiares se constituem na própria unidade de produção e citam como exemplo uma tapiocaria instalada no centro da capital paraibana, na qual há uma divisão do trabalho entre os membros da família em que o pai comanda e gerencia a atividade, definindo e distribuindo as tarefas; a mãe o auxilia nesse gerenciamento; as crianças são aprendizes da função de ajudantes; os filhos adultos, nas funções mais pesadas de carregadores ou forneiros; e as filhas adultas, na produção da tapioca e no controle do caixa (LIMA; CONSERVA, 2006, p. 88).
Mas a relevância desse tipo de abordagem não se restringe ao papel dos laços familiares nos empreendimentos informais. Na trajetória dos vendedores ambulantes de João Pessoa, particularmente aqueles que comercializam confecção, é preciso estar bem articulado para evitar os riscos da atividade, começando pela compra das mercadorias, que ocorre, geralmente, em Toretama ou Santa Cruz do Capibaribe.
No caso dos vendedores de confecção, a necessidade de proteger suas compras e de resistir às pressões do Estado para fechar os pontos de venda faz com que os trabalhadores, embora concorram entre si na comercialização, unam-se em torno dos interesses comuns. Tais interesses já começam na formação de comboios que seguem juntos para o polo de confecções10, passam pela negociação com vigilantes dos carros ou das lojas ou quiosques, chegando à constituição de entidades de representação como associações ou sindicatos.
Lima e Conserva (2006), em seu estudo sobre os vendedores de confecções, apontam para a captura cada vez mais intensa da subjetividade desse trabalhador, para a transformação dessa subjetividade em produtividade para o capital. Certamente, a flexibilidade das redes se torna o mote para uma organização do trabalho nesse momento em que se rompeu com a rigidez do fordismo e que avança em dinâmicas que favorecem a acumulação mediante a flexibilização, desregulamentação e precarização do trabalho.
10 Essa não é uma característica exclusiva dos ambulantes de João Pessoa. Nos municípios de Junco do Seridó,
Santa Luzia e Várzea, temos relatos de comerciantes que se reúnem em vans e articulam os horários de saída para Santa Cruz a fim de garantir um mínimo de proteção.
60 Boltanski e Chiapello (2009) 11, a propósito, enfatizam a flexibilidade como questão crucial na dinâmica do capitalismo e isso tem significado mudanças na gestão do trabalho – no mundo empresarial – a partir das quais a carreira vai sendo substituída por uma trajetória profissional de envolvimento com projetos de trabalho. A empregabilidade se conquista à medida em que, na passagem de um projeto a outro, o indivíduo incorpore competências, habilidades e, sobretudo, consiga se estabelecer em uma ampla rede de contatos interpessoais. Nesse processo de se tornar empregável e da necessidade de se estabelecer profissionalmente mediante as conexões interpessoais, vão desaparecendo os demarcadores entre a vida privada e a vida profissional, tendências já presentes nas atividades informais. “Torna-se, então, difícil fazer a distinção entre o tempo da vida privada e o tempo da vida profissional, entre jantares com amigos e jantares de negócios, entre elos afetivos e relações úteis” (BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009, p.193). As redes sociais, portanto, deixam de ser espaços estritamente de compartilhamento de afetividades, de troca de informações – mesmo sobre empregos – e passam a ser meios de se atuar gerenciando a força de trabalho para torná-la mais produtiva e mais adaptável às demandas que aparecem.
A informalidade é uma característica do capitalismo brasileiro, decorrente da forma como a industrialização se desdobrou e das imensas desigualdades regionais que permitiram formar uma base econômica na qual há atividades mais capitalizadas, que alcançaram nível de tecnologia mais elevado, trabalhadores especializados, com registros de carteira, salário; e, também, há atividades que são de sobrevivência, com pouca capitalização, mas responsáveis tanto por oferecer os braços que serão usados no trabalho das atividades formais quanto por colaborar com o rebaixamento dos custos de reprodução da força de trabalho.
Pressupõe-se, em concordância com parte da literatura revisitada neste capítulo, que a informalidade se tornou complexa, mas manteve características do que se chamou de uma velha informalidade, atividades voltadas para o expediente da sobrevivência, com produtividade relativamente baixa, se comparada ao setor industrial, trabalhadores por conta própria, venda de produtos em centros de comércio popular, ambulantes, condições de trabalho extremamente precárias. Em suma: persistem as atividades voltadas para obtenção de renda com vistas à
11 Os autores franceses Luc Boltanski e Even Chiapello escreveram este livro em 1995 e refletiram acerca das
transformações engendradas no capitalismo a partir do “Maio de 68”. Ao descreverem essas mudanças, os autores formulam um quadro teórico que aponta para o fato de que o salário e o desemprego não bastam para provocar o empenho dos trabalhadores nos processo capitalistas e, sendo o capitalismo definido pela “exigência de acumulação ilimitada do capital por meios formalmente pacíficos”, o envolvimento pessoal no processo de trabalho exige uma “ideologia que justifica o engajamento no capitalismo” – o que os autores chamam de espírito do capitalismo (BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009, p. 39).
61 manutenção individual e familiar, desempenhadas por trabalhadores que empregam sua força de trabalho e a da sua família, havendo ajudantes (CACCIAMALI, 1982).
Mas, associam-se a esses traços outros, como a incorporação de trabalhadores com trajetórias originárias das atividades formalizadas que, em decorrência dos processos de flexibilização, buscaram na informalidade uma saída para atenuar os efeitos do desemprego ou uma nova forma de sobrevivência. Além disso, não se tem, necessariamente, produtividade baixa. A ideia de interstícios não parece mais dar conta da complexidade dos processos, criam- se institucionalidades que definem um padrão de tolerância à informalidade, ao mesmo tempo em que descaracterizam a relação capital e trabalho para eliminar as obrigações sociais definidas pela legislação. O capital passa a atuar em espaços não regulados estimulando a oferta de serviços via microempreendedores individuais, cooperativas, redes de subcontratação dos quais se consegue explorar o trabalho e manter o trabalho de acumulação.
Esses elementos teóricos que levantamos ao longo do presente capítulo vão sendo desdobrados e encaixados na análise que se seguirá nas quatro seções seguintes. O próximo capítulo tem uma finalidade de contextualização da atividade mineral, especificando o tipo de minério, de extração e de beneficiamento. Isso faz diferença para entendermos os processos de trabalho. É interessante notar que o terceiro e o quarto capítulo acabam mostrando que a informalidade é um fenômeno dinâmico e histórico. Ela assume diferentes configurações a depender do conjunto de forças que estejam em ação na estruturação do mercado de trabalho. Ficará evidente que o modelo de industrialização que foi incentivado no Nordeste favoreceu a estruturação do setor da mineração na região e proporcionou a entrada em operação de empreendimentos de beneficiamento mineral ligados a atores externos que se instalaram na microrregião do Seridó. No movimento de passagem de uma predominância de atores externos para atores internos operando a atividade mineral em Junco do Seridó e Várzea, reproduziu-se a informalidade como um elemento estruturante do território produtivo da mineração, tendo como diferencial, além do perfil dos atores que passaram a explorar, o arcabouço das políticas públicas tocadas pelo governo do Estado sob a lógica do APL.
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