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Painel 4 – Beneficiamento de quartzito

1 A INFORMALIDADE COMO FENÔMENO COMPLEXO E

1.1 Subdesenvolvimento, marginalidade e a guinada rumo à informalidade

Nos anos 1960, intelectuais da América Latina, sob a influência da obra de Karl Marx, especificamente de sua discussão sobre populações excedentes2 e sobre exército industrial de reserva, produziram uma agenda de pesquisas sobre as camadas populares vivendo numa situação grave de pobreza e realizando atividades de sobrevivência nas cidades sob condições de extrema precariedade. Investigavam-se as razões dos países latino-americanos não terem alcançado o patamar de desenvolvimento de grandes nações, como Estados Unidos, permanecendo num quadro de extrema pobreza e precariedade social. Os conceitos de marginalidade, dependência e subdesenvolvimento passaram a dominar o vocabulário de pesquisadores.

Os enfoques da “teoria da personalidade marginal” e da “teoria da situação de marginalidade social”, segundo Quijano (1977), ganham destaque como porta de entrada do debate em torno do conceito de marginalidade. O primeiro enfoque trata a marginalidade como um fenômeno de desorientação psicológica dos indivíduos numa situação de conflito social (QUIJANO, 1977). É uma teoria que aplica o conceito de marginalidade a determinados tipos de personalidades relacionados a membros de minorias nacionais que decorrem de mudanças culturais ocorridas nos Estados Unidos no contexto de intensos conflitos. O segundo enfoque da marginalidade está relacionado a uma situação social vivenciada por grupos sociais que migram para as grandes cidades e passam a formar povoamento sob certas condições de precariedade e de falta de acesso a direitos e serviços sociais básicos.

2 Vale lembrar que, para Marx, essa população sobrante assume três modos de existência que são os seguintes:

superpopulação flutuante, superpopulação latente e superpopulação estagnada. No tocante ao primeiro caso, Marx observa que, no interior da indústria moderna, há um duplo movimento: ora de atração ora de repulsão de trabalhadores. Isso ocorre especialmente quando o tipo de maquinaria exige um perfil de trabalhador masculino e jovem. Esses trabalhadores juvenis são atraídos e, passada a sua condição de jovem, são dispensados. A superpopulação latente é aquela que vive na iminência de transformar-se em força de trabalho para a indústria. Nesse segundo caso, a população camponesa seria a fonte dessa superpopulação sempre pronta para ser transferida para o proletariado urbano. No terceiro caso, de superpopulação estagnada, haveria um contingente que faria parte do exército ativo de trabalhadores, mas exercendo ocupações de forma irregular (MARX, 2013).

32 No debate latino-americano, sobressaem-se questões sobre os grupos que, nas sociedades nacionais, não conseguiriam ter participação nos benefícios materiais e culturais gerados pelo desenvolvimento econômico e que não se incorporaram à estrutura vigente numa dada sociedade como membros participantes. Um dos intelectuais a seguir essa linha foi José Nun, cuja preocupação foi evidenciar a relação estrutural entre o processo de acumulação capitalista específico da América Latina e os fenômenos da pobreza e da desigualdade. Ele se preocupou, também, em destacar como a heterogeneidade e a crescente fragmentação da estrutura ocupacional na América Latina repercutia na formação das identidades sociais e na trajetória de trabalhadores, havendo significativo número de pessoas que passariam pelo assalariamento3, ao mesmo tempo em que haveria os que jamais conseguiriam esta condição (NUN, 2000).

Para esse autor, o capitalismo na América Latina se desenvolveu de forma desigual e dependente. Por conseguinte, sua indústria se formou com baixa capacidade de absorção de emprego, o que explicava a existência da massa marginal. Entre os entraves ao desenvolvimento igual estavam: a estrutura agrária e a economia desenvolvida no entorno dessa estrutura que dificultaria o desenvolvimento da indústria; um processo de industrialização de escassos capitais fortemente dependente de recursos exteriores, o que contribui para o desenvolvimento de ramos com baixa capacidade de absorção de mão de obra.

A situação de dependência e o colonialismo tecnológico eram fatores que explicavam existência de uma estrutura produtiva heterogênea na qual coexistiam:

a) un conjunto de ramas altamente monopolizadas que, por exigências técnicas, sólo pueden operar en gran escala; b) otro, de actividades flexibles respecto a escala, en el que también penetra el capital monopolista, y donde coexisten unidades grandes, medianas y pequenas; c) un sector muy fragmentado y de baja produtctividad, donde las economias de escala no son importantes, y que resulta la provincia por excelência del capital competitivo. (NUN, 1971, p. 37).

A América Latina, portanto, se caracterizaria pela existência de distintos processos de acumulação que não foram, entretanto, capazes de produzir algo como a sociedade salarial europeia (CASTEL, 1998), uma vez que, mesmo em contextos de maior crescimento, “a taxa de desocupação e a de subocupação nunca estiveram abaixo dos 30%” (NUN, 2000, p. 58).

3 Segundo Nun (2000), isso já teria sido percebido por Marx, que atribuía papel estratégico à superpopulação

relativa na sua forma flutuante para a formação de solidariedade e antagonismo de classe. Como Marx estava “centrado no operariado fabril e na parcela funcional do excedente”, teria deixado de se dedicar a observar o outro contingente de trabalhadores “absolutamente excluídos e afuncionais para o processo de acumulação” (NUN, 2000, p. 60).

33 Enquanto Nun refletiu sobre a fragmentação, a segmentação e a questão da pobreza e desigualdade, Lúcio Kowarick refletiu mais sobre a situação da marginalidade, considerando a importância das formas de inserção econômica. Kowarick (1977) desenvolveu uma abordagem influenciada pela teoria marxiana, no debate desenvolvimento x subdesenvolvimento e num diálogo muito intenso com a teoria da dependência. O elemento fundamental da condição de marginalidade ou de não marginalidade era a participação no processo produtivo. Renda, capacidade de consumo, nível de educação, entre outros, são aspectos que decorrem da forma de inserção no referido processo.

As possibilidades de inserção econômica estavam muito relacionadas ao modo como o capitalismo se estabeleceu em cada país e, no caso dos países latino-americanos, a formação capitalista ocorreu com diferenças importantes em relação à Europa e aos Estados Unidos. Entre essas diferenças destaca-se as seguintes:

• A absorção da mão de obra em atividade capitalista é quantitativamente diminuta e apenas uma pequena parcela de trabalhadores é transformada em assalariada;

• As parcelas que não são transformadas em assalariados passam a operar sob novas relações de produção, por alguns, chamadas de “arcaicas” e que integram, basicamente, o setor terciário da economia;

• As economias de subsistência não desaparecem frente ao processo de expansão do capitalismo, de modo que as atividades nesse tipo de economia são mantidas.

O capitalismo dependente da América Latina, portanto, foi considerado por Kowarick (1977) como superexcludente e estabelecido na combinação de atividades capitalistas e não capitalistas, arcaicas e modernas. Em argumento similar ao de Francisco de Oliveira (2003), Kowarick (1977) destacou que o capital, ao se expandir, recriou modalidades produtivas arcaicas (artesanato e indústria a domicílio) e também criou novas formas tradicionais (no setor urbano). O autor não está se referindo a uma estrutura dual, mas a duas faces que assume um mesmo processo de acumulação capitalista.

Como destacam Figueiredo Filho e Oliveira (2012), um dos pressupostos importantes do pensamento de Kowarick (1977) sobre a marginalidade é o de que tanto o capitalismo autônomo como o dependente possuem a mesma contradição, que é o aumento de investimentos em máquinas e em instrumental tecnológico ao mesmo tempo em que se reduz o emprego. Ocorre, entretanto, que o capitalismo na América Latina tem uma configuração estrutural diferenciada que ressalta, ou torna mais intensa, “a existência de uma população marginal que

34 tanto é numerosa quanto tem importância no processo de acumulação de riquezas” (KOWARICK, 1977, p. 31). Vejamos o que é ser marginal na abordagem de Kowarick.

O foco da análise desse autor está nas zonas urbanas e recai sobre certas categorias que, por razões conjunturais ou estruturais, não conseguem vender a sua força de trabalho no mercado e acabam se estabelecendo como trabalhadores por conta própria no setor terciário ou como trabalhadores intermitentes. Além desses, estão os trabalhadores inseridos em setores produtivos estagnados ou em decadência, como artesanato e indústria a domicílio (KOWARICK, 1977). No caso da classe trabalhadora não-marginal, o que a caracteriza é sua inserção no processo produtivo na forma de assalariados urbanos atuando nos setores fabril e terciário, organizados sob a forma de empresas (KOWARICK, 1977). Os trabalhadores marginais, por conseguinte, não são absorvidos pelas formas tipicamente capitalistas de acumulação.

Ao caracterizar o tipo de atividade desenvolvida pelos trabalhadores marginais, o referido autor aponta a restrita capacidade produtiva e os instrumentos rudimentares e arcaicos utilizados na produção. Em relação à organização do trabalho nos empreendimentos marginais, observa Lúcio Kowarick, ou se trata de trabalhadores autônomos, portanto, não em que não ocorre separação entre os meios de produção e o trabalhador; ou se trata de empreendimentos cuja base fundamental é o trabalho familiar no qual não há distinção entre patrão e assalariado. Não se tem, no geral, a relação típica de assalariamento, não há tarefas especializadas e a jornada de trabalho não corresponde à jornada padrão (KOWARICK, 1977).

Há similaridade entre Kowarick (1977) e Quijano (1966), especificamente, quanto à compreensão de que o processo de acumulação é o gerador de excesso de mão de obra e de que esse fenômeno não deve ser abordado com base em suas “manifestações aparentes: apatia, falta de participação e anomia” (KOWARICK, 1977. p. 103). Kowarick, no entanto, se diferencia não usar a ideia de polo marginal por considerar que ela induz a se pensar os marginais como populações que se autorreproduzem e que estão isoladas.

A marginalidade é uma forma específica de inserção na estrutura produtiva que contribui para a acumulação na medida em que os produtos e serviços oferecidos aos trabalhadores não marginais possibilitam o rebaixamento dos custos de reprodução da força de trabalho da indústria, o que favorece a superexploração dessa força de trabalho pelos capitalistas. Trabalhadores, marginais e não marginais, estão sob uma mesma estrutura econômica, mas nela vivem diferentes condições de inserção que se distinguem, entre outros fatores, pelo tipo de relação com o assalariamento e pela forma de exploração do trabalho. A teoria de Kowarick

35 (1977) traz algumas chaves de leitura importantes para pensar a realidade da América Latina, das quais podemos marcar as seguintes:

• As formas de inserção estão muito marcadas, primeiro, pelo modo como se configurou o capitalismo dependente na América Latina. Sob o capitalismo dependente, o processo de industrialização brasileiro, especialmente no Nordeste, além de tardio, “não teve um dinamismo que favorecesse a incorporação da maioria da mão de obra urbana ofertada de modo que se desencadeia uma busca por ocupações que configuram um quadro de marginalidade” (KOWARICK, 1977, p. 161-162). Além disso, o processo de industrialização não eliminou a economia de subsistência;

• A camada de trabalhadores marginais, embora não inseridos no assalariamento padrão, é relevante para o processo de acumulação de capital seja porque, na maioria das atividades marginalizadas, ainda se consegue influenciar a frenagem no aumento dos salários, seja porque é um contingente de mão de obra que pode ser explorada extensivamente, ao contrário dos trabalhadores formais. Além disso, ao oferecer aos trabalhadores formais os serviços e as mercadorias a preços muito baixos, conseguem favorecer a diminuição do custo de vida dos não marginalizados;

• É muito importante esse reconhecimento de que trabalhadores marginais e não marginais, ou como diremos mais à frente, informais e formais, não estão separados da dinâmica capitalista, mas são parte dela, ainda que de formas diferentes. As relações entre ambos são porosas;

• Certas atividades, como o artesanato, o trabalho autônomo no comércio e na prestação de serviços, caracterizadas como arcaicas e vistas como incongruentes com o padrão capitalista, são tratadas por Kowarick (1977) como própria criação do capitalismo.

No capitalismo brasileiro, em suma, há uma combinação de formas produtivas desiguais, porém articuladas “em torno de uma única lógica estrutural que favorece a realização da mais valia” (KOWARICK, 1977, p. 173), tornando fundamental a permanência de formas capitalistas e não tipicamente capitalistas de produção. A interpretação desse estudioso avança mais no entendimento das dinâmicas e do papel das populações excedentes no capitalismo latino-americano.

O debate sobre informalidade, que abordaremos na sequência, avançou muito na compreensão de como se organizam as camadas que não estão no assalariamento padrão e como

36 elas conseguem se articular e conseguir as condições de sua sobrevivência operando em associação com os segmentos que estão diretamente vinculados às empresas e que têm essa vinculação socialmente reconhecida.