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Instrumentos de Construção e Registro de Dados

3. O ENSINO DE LÍNGUA ESTRANGEIRA PARA OUVINTES E SURDOS

4.3 Instrumentos de Construção e Registro de Dados

Para Marconi e Lakatos (2003), a coleta de dados é a etapa da pesquisa em que serão aplicados os instrumentos elaborados e as técnicas selecionadas para que a construção dos dados previstos seja cumprida. Para exemplificar, os mesmos autores citam as seguintes técnicas de pesquisa: coleta documental, observação, entrevista, questionário, formulário, medidas de opiniões e de atitudes, técnicas mercadológicas, testes, sociometria, análise de conteúdo e história de vida. A essas, acrescenta-se: diário de pesquisa, notas de campos, sessões de visionamento, grupo focal, entre outros.

A seguir, apresenta-se uma tabela com os instrumentos de coleta e registro de dados utilizados neste estudo e seus objetivos gerais.

Tabela 7 - Instrumentos de Coleta e seus Objetivos

INSTRUMENTOS DE COLETA OBJETIVO(S) GERAIS

Questionários escritos

Realizados com:

-Professor de inglês regente; - Intérprete de Libras atuante; - Intérprete de Libras convidado; - Alunos surdos.

Estabelecer contato inicial com os participantes desta pesquisa e obter informações mais básicas sobre eles - como idade, grau de surdez, preferências na comunicação, tempo de estudo de inglês, formação acadêmica, experiência profissional, entre outros - a fim de traçar seus perfis.

Observação escolar não-participante Acompanhar o cotidiano de uma sala de aula, observando, sem interferência, as relações entre professor regente, intérprete de Libras, alunos surdos, material didático e estratégias de ensino.

Diário de pesquisa (elaborado pela pesquisadora)

Registrar, por meio de notas detalhadas, todas as informações obtidas por meio da observação escolar não-participante, para que pudessem ser recuperadas na etapa de análise de dados e combinadas com os outros dados construídos.

Entrevistas em áudio e vídeo

Realizadas com:

- Professor de inglês regente; - Intérprete de Libras atuante; - Intérprete de Libras convidado; - Alunos surdos.

Questionar os participantes desta pesquisa de forma mais pontual, i.e., em relação ao material didático e as estratégias de ensino, tanto aqueles utilizados em sala de aula durante as observações quanto aqueles que não se fizeram presentes, mas poderiam favorecer o processo de ensino e aprendizagem nesse contexto específico.

Na próxima seção, esses instrumentos serão definidos e detalhados, bem como será explicitado o motivo da escolha por cada um deles e o processo de aplicação dos mesmos. Eles serão descritos de acordo com a ordem em que se apresentaram durante o desenvolvimento desta pesquisa.

4.3.1 Questionários

O questionário foi o primeiro instrumento de coleta de dados utilizado nesta pesquisa, sendo ele “[...] constituído por uma série ordenada de perguntas, que devem ser respondidas por escrito e sem a presença do entrevistador (MARCONI e LAKATOS, 2003, p. 201).” Por meio dele, estabeleceu-se um primeiro contato com os participantes e buscou-se obter informações mais básicas sobre os mesmos (Apêndices A, B, C e D). Além de perguntas como idade, grau de surdez, formação acadêmica, experiência profissional, questionou-os de forma mais abrangente sobre o tempo de estudo de inglês, sobre a importância do inglês, sobre o material didático utilizado e a necessidade de sua adaptação, sobre o papel do intérprete em sala de aula, sobre as línguas participantes do processo de ensino e aprendizagem de surdos, sobre as preferências na comunicação, entre outros. Essas informações foram registradas pelos alunos surdos sem a presença do pesquisador e na modalidade escrita da língua portuguesa, refletindo, portanto, suas próprias maneiras de escreverem na L2.

Este instrumento de geração de dados se fez muito importante para que os perfis dos pesquisados pudessem ser traçados logo de início, definindo o lugar de suas falas e permitindo, mais adiante, a comparação e validação dos resultados com aqueles obtidos nas entrevistas, último instrumento utilizado.

4.3.2 Observação Escolar Não-Participante com Registro em Diário de Pesquisa

Por aproximadamente dois meses, esta pesquisadora realizou observação escolar não-participante na disciplina de Língua Inglesa de uma turma do 8º ano do Ensino Fundamental II de uma escola pública inclusiva bilíngue, mesma turma na qual os

participantes desta pesquisa atuavam (sejam como aprendizes, intérprete ou professor). Teoricamente, a observação pode ser definida como:

[...] uma técnica de coleta de dados para conseguir informações e utiliza os sentidos na obtenção de determinados aspectos da realidade. Não consiste apenas em ver e ouvir, mas também em examinar fatos ou fenômenos que se desejam estudar. (MARCONI e LAKATOS, 2003, p. 190).

A observação foi necessária para que a pesquisadora investigasse a interação <material didático/estratégia de ensino-alunos surdos-professor de inglês-intérprete> em sala de aula, uma vez que há outros fatores relacionados ao material didático/estratégias de ensino que poderiam ser bastante úteis para o desenvolvimento desta investigação, como seu uso (ou não), sua aplicabilidade (ou não), a motivação (ou desmotivação) proporcionada, o grau de dificuldade (ou facilidade), entre outros. Não houve interferência da pesquisadora durante as práticas, sobretudo para que não alterasse o cotidiano escolar dos alunos e os resultados pudessem ser os mais próximos possíveis da realidade. Caso os participantes se sentissem desconfortáveis com a presença da pesquisadora, eles poderiam fazer uma pausa, solicitando que a mesma se retirasse da sala de aula e voltasse apenas quando autorizada novamente. Isso não aconteceu, pois os alunos desenvolveram vínculos afetivos e educacionais muito fortes com a pesquisadora, questionando-a não só em relação ao conteúdo das aulas, mas também sobre sua vida pessoal46.

A figura 3 ilustra a configuração física da sala de aula durante o período das observações e mostra que a pesquisadora se posicionou em um lugar que pudesse observar todos os participantes.

46Quando o professor não estava disponível, os alunos surdos consultavam a pesquisadora em relação a

dúvidas sobre o conteúdo, por mais que ela tenha deixado claro que só estava lá observando, que não era a professora responsável. Ademais, entre uma atividade ou outra, os alunos se interessavam por saber da vida pessoal da pesquisadora (desde quando dava aulas, como aprendeu libras etc.), bem como por contar sobre as suas próprias.

Figura 3 - Configuração da Sala de Aula Durante as Observações47

Fonte: Elaborado pela autora (2018).

As aulas observadas foram registradas em notas de campos que, em seguida, tornaram-se um diário de pesquisa, uma vez que a pesquisadora posteriormente revisitava as breves anotações feitas em sala de aula e tecia comentários mais críticos e reflexivos sobre eles. Em relação a esses instrumentos, Vieira-Abrahão (2006, p. 226) enfatiza:

No contexto de sala de aula, o pesquisador observa e escreve notas objetivas e sucintas que serão retomadas em curto espaço de tempo pelo pesquisador para a confecção dos seus diários de pesquisa. Eles promovem relatos contínuos com as percepções dos eventos e questões críticas que se sobressaem no contexto de sala de aula. Comparados às notas de campo, são mais pessoais, subjetivos e interpretativos (VIEIRA-ABRAHÃO, 2006, p. 226).

47Esta figura foi elaborada apenas para ilustrar a posição física dos participantes da pesquisa durante as

práticas em relação à sala de aula como um todo. Outras informações (como a quantidade total de alunos) não dizem respeito à realidade.

4.3.3 Entrevistas

Tradicionalmente, a entrevista é definida como “[...] um encontro entre duas pessoas, a fim de que uma delas obtenha informações a respeito de determinado assunto, mediante uma conversação de natureza profissional (MARCONI e LAKATOS, 2003, p. 195).” Neste estudo, ela foi aplicada com todos os participantes e registrada por meio de gravações, em áudio com os participantes ouvintes (professor de inglês regente, intérprete de Libras atuante e intérprete de Libras convidado) e em vídeo com os participantes surdos (alunos surdos), já que a Libras era a língua de mediação e comunicação entre pesquisadora e alunos. Optou-se pela utilização do recurso da gravação, pois este não limita as respostas dos participantes, podendo ocasionar em uma maior quantidade e subjetividade de dados se comparadas ao registro escrito. Sobre isso, Banister et al (1994 apud SZYMANSKI, 2011) salienta que a entrevista na pesquisa permite o estudo de significados subjetivos e tópicos mais complexos, os quais não estariam tão disponíveis assim se fossem coletados por meio de instrumentos mais fechados e em formato padronizado. Nesse sentido, intentou-se obter respostas mais pessoais, extensas e que exigiriam maior reflexão por parte dos participantes, estando eles livres para falarem o quanto acharem necessário e exporem suas opiniões sobre o assunto. Para corroborar essa questão, optou-se pela utilização da Libras como mediadora das entrevistas com os alunos surdos para que eles se sentissem mais confortáveis em suas respostas, já que se utilizariam da L1 para a conclusão dessa tarefa e perceberiam o esforço da pesquisadora em se dirigir diretamente a eles (sem interferência direta do intérprete), o que poderia aproximá-los ainda mais e oportunizar dados mais verdadeiros e espontâneos.

Segundo Cunha (2007), as entrevistas podem ser de 3 tipos: (1) Estruturada ou

padronizada, em que há perguntas pré-estabelecidas e que são repetidas com a mesma

ordem e com as mesmas palavras caso haja mais de um entrevistado; (2) Semi-

estruturada, que parte de um roteiro inicial de perguntas pré-estabelecidas, mas que, no

decorrer da interação, pode ser modificado, tanto com a inclusão de novas perguntas quanto com a alteração das já existentes; e (3) Informal, em que não há estruturação alguma, ocorrendo casualmente e sem hora e lugar marcados. Neste trabalho, realizou- se entrevistas semi-estruturadas com os alunos surdos e com o professor regente, uma vez que outras perguntas foram acrescentadas em decorrência de suas respostas, e

estruturadas com os intérpretes, uma vez que as respostas foram gravadas em áudio sem a presença da pesquisadora e enviadas a ela por meio digital48.