CAPÍTULO 2
3. POLÍTICAS E INSTRUMENTOS COM IMPACTE NA EFICIÊNCIA ENERGÉTICA
3.3. Instrumentos de Políticas para a Eficiência Energética
3.3.4. Instrumentos e Incentivos Económicos e Financeiros
Este tipo de instrumentos tem como objectivo a internalização de custos de, por exemplo poluição, através de processos financeiros ou de mercado e incluem incentivos económicos para promover a eficiência energética (i.e. subsídios para auditoria energética ou investimentos com empréstimos bonificados) e incentivos fiscais, que têm como objectivo encorajar investimentos em equipamentos e processos mais eficientes e preços razoáveis para o consumidor final.
As vantagens mais importantes deste tipo de incentivos é a possibilidade de promover a inovação tecnológica, potenciar a geração de receitas e integrados com outras políticas sectoriais em termos de eficiência económica (Pereira, 2007).
Incentivos Económicos e Financeiros
Subsídios são definidos ou como um montante fixo ou uma percentagem sobre um determinado investimento (até um certo limite pré‐fixado) para os produtores de equipamento, estimulando‐os a desenvolver e a comercializar produtos mais eficientes, aliviando assim o investimento inicial, e, tornando à partida os investimentos efectuados com maior rendibilidade e com um período de recuperação de capital mais rápido.
Existem também esquemas de financiamento que estabelecem uma percentagem pré‐definida sobre a energia poupada ao longo do período do investimento, e que só se tornarão efectivos se o promotor do projecto alcançar estes objectivos (WEC, 2008).
Em alguns países da U.E. estes incentivos são lançados pelas instituições de crédito como mecanismos de financiamento tendo em consideração a viabilidade económica e financeira do projecto, tendo assim a vantagem de não sobrecarregarem o Orçamento de Estado (e.g. incentivos fiscais) (WEC, 2008). Os empréstimos com taxas de juros bonificadas (i.e. soft loans) para os consumidores que invistam em tecnologias e equipamentos eficientes têm uma grande vantagem, que é a relativa facilidade de serem financiados pelas instituições bancárias (WEC, 2008).
Subsídios ao investimento aos consumidores foram as primeiras medidas utilizadas nos anos setenta e inícios dos anos oitenta, e cada vez mais são vistos como medidas temporárias para a mobilização alargada de produtores e de consumidores, tendo em vista uma preparação para um novo tipo de regras e de procedimentos (mudança de paradigma) (WEC, 2008). Estes podem levar a reduções significativas de emissões de CO2, mas são muitas vezes ineficientes e apresentam custos elevados para
Este tipo de subsídios são os que estiveram em vigor em Portugal com as Medidas de Apoio ao Aproveitamento do Potencial Energético e Racionalização de Consumos (MAPE)16, sendo normalmente, subsídios reembolsáveis pelo promotor. A avaliação e controlo deste tipo de subsídios demonstraram alguns pontos fracos:
O esquema de subsídios pode falhar facilmente, em particular, os definidos ex‐ante, sem quaisquer objectivos pré‐determinados, no caso de falta de fiscalização durante a respectiva implementação e das poupanças geradas, podendo ter um impacte negativo no mercado através de lançamento de equipamentos de fraca qualidade, ou, até, em última análise o desvio, para outros interesses;
Os procedimentos para os pedidos de subsídios demonstraram‐se demasiado burocráticos e complexos com grandes atrasos para se obter os devidos acordos e demasiado caros (altos custos de transacção), especialmente quando confrontados com os incentivos fiscais. Existem casos paradigmáticos de pequenas e médias indústrias que não os utilizavam ou porque desconheciam a sua existência ou eram demasiado burocráticos para a sua dimensão, e ainda muitos consumidores que poderiam implantar melhorias relevantes mas que não possuíam os conhecimentos necessários para obterem os respectivos apoios. Estes casos demonstraram a necessidade de grandes campanhas de informação para que a respectiva existência seja publicitada a uma grande faixa de consumidores. Este esquema beneficiava consumidores que teriam efectuado os investimentos sem a necessidade de qualquer tipo de subsídio (i.e. free‐riders).
É evidente que os pontos fracos relativos à concessão de subsídios não deverá impedir a sua utilização, mas sim, estarem limitados a uma lista de equipamentos devidamente seleccionada e credenciada, com ganhos de eficiência muito elevados (i.e. energias renováveis, co‐geração e tecnologias de ponta).
Incentivos Fiscais
Os Incentivos fiscais incluem medidas de redução nos impostos a pagar pelos consumidores e pelas empresas que investem em eficiência energética, através de amortização mais aceleradas dos projectos para a indústria e comércio, créditos fiscais e deduções à matéria colectável. Os créditos fiscais e amortizações aceleradas são menos dispendiosos em termos burocráticos e administrativos, funcionando muito bem nos casos em que os impostos são altos (WEC, 2008).
Todavia estas políticas de incentivos fiscais têm a desvantagem de nem sempre mobilizar os consumidores e empresas para a solução economicamente mais rentável, podendo originar a utilização
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Apoia projectos com investimento mínimo elegível de €25 000 (ou €10 000, no caso de projectos de utilização racional de energia com base na utilização de equipamentos de energia solar), com vista à produção de energia eléctrica e térmica com base em fontes renováveis, à utilização racional de energia e à conversão de consumos para gás natural. (i) b) Projectos de Utilização Racional de Energia ‐ Projectos de instalação de sistemas de produção combinada e distribuição de calor e ou frio e electricidade: Incentivo reembolsável até 20% do montante global das despesas elegíveis.
maciça de tecnologias maduras (i.e. promovendo a utilização das tecnologias existentes) e não promovendo directamente a inovação dedicada a novas tecnologias (Farinelli et al., 2005; IIIEE et al., SD; Koeppel et al., 2008).
Instrumentos de Mercado
Os instrumentos de mercado são políticas públicas que utilizam diversos mecanismos de mercado com a transferência de direitos de propriedade minimizando os custos para a sociedade, criando incentivos para a inovação e melhoria de desempenho (Bertoldi, 2006).
Segundo Farinelli et al. (2005), as normas, regulamentos e incentivos são sempre necessários e têm o seu papel perfeitamente definido, mas os instrumentos de mercado, bem projectados e implementados, também devem ser utilizados, dado que a sua eficácia tende a ser muito superior. Para tal, é necessário, por um lado, criar as condições apropriadas para que as forças de mercado actuem com a maior transparência possível, e que, por outro lado, orientem os consumidores para a escolha de melhores soluções, atenuando desta maneira, as eventuais falhas de mercado (Farinelli et al., 2005). Com grande parte dos países a direccionarem‐se para a liberalização dos mercados e para a utilização de mecanismos de mercados em detrimento de mecanismos de comando e de controlo, têm vindo a emergir novas maneiras para estimular o aumento da eficiência energética tanto do lado da oferta como da procura (EAESP/FGV, 2001), uma delas são os certificados transaccionáveis.
Os esforços teóricos de Coase17 (desenvolvimento das transacções de direitos de propriedade) (1960) e Dales (1968) fizeram aparecer as primeiras luzes mais ou menos promissoras na utilização de certificados transaccionáveis direccionados para problemas ambientais, em oposição à utilização dos ICC. Desde então, as bases teóricas deste instrumento económico foram demonstradas por Baumol e
Oates (1971), Montgomery (1972) e Tietenberg (1974), entre outros (Mundaca, 2008).
Os certificados transaccionáveis têm assim as suas raízes em vários instrumentos económicos, tais como, o Planeamento Integrado de Recursos (PIR), Demand Side Management (DSM) e aplicações informáticas para avaliar a satisfação dos clientes ‐ Customer Relationship Management (CRM). O PIR começou na década de setenta e foi alargado pela introdução do DSM. A noção de certificados transaccionáveis para a eficiência energética tem a sua utilização concreta, com a introdução dos sistemas cap and trade para o SO2 nos Estados Unidos da América nos anos oitenta. Desde então,
apareceu uma forte tendência favorecendo os instrumentos baseados no mercado e com bastante proeminência nos países da OCDE (Labanca & Perrels, 2008).18 17 O Teorema de Coase refere que “num mercado perfeito e competitivo na ausência de custos de transacção, uma alocação eficiente ocorre independentemente dos direitos de propriedade definidos pelo Estado” (Tietenberg, 2006). 18 Um dos esquemas de certificados transaccionáveis existentes são os Certificados Brancos que têm como princípio fundamental a obtenção de um objectivo de poupança energética definido por uma autoridade pública para um determinado período (Mundaca, 2008).
É importante referir que poderão existir diversos objectivos de políticas que podem ser atingidos com um esquema de certificados transaccionáveis. São eles por exemplo: uma melhoria na eficiência energética, uma redução no consumo de energia, melhor segurança de abastecimento e redução das emissões de CO2. Todos estes objectivos podem completar‐se mutuamente, já que o
aumento da eficiência energética por si só já apresenta diferentes finalidades (Mundaca, 2006). Para além destes poderão surgir outros benefícios como a maior difusão de tecnologia e o aumento da produtividade (Bertoldi & Rezessy, 2006).