CAPÍTULO 2
4. CERTIFICADOS BRANCOS
4.4. Obstáculos e Barreiras
A evolução na regulação e liberalização dos mercados da electricidade e do gás natural tem levado a uma maior eficiência no lado da oferta de energia em contrapartida, no lado da procura, continuam a existir inúmeras barreiras ao aumento da eficiência no consumo de energia.
O reconhecimento da existência de diversas barreiras à adopção de equipamentos e hábitos de consumo mais eficientes por parte dos consumidores, bem como a eventual existência de externalidades22 ambientais não reflectidas nos preços, justifica a implementação de medidas de promoção da eficiência no consumo.
O que é considerado muito importante, numa perspectiva de médio e longo prazo, para um aumento sustentado da eficiência energética é a falta de informação nos mercados, em particular sobre a disponibilidade de novas tecnologias, sobre os custos do próprio consumo de energia e na falta de formação dos técnicos sobre a manutenção adequada (estes aspectos não são devidamente tomados em conta pela maioria dos participantes do mercado). A falta de informação e de formação sobre as mais recentes tecnologias e o seu impacte económico e financeiro na taxa de rendimento dos investimentos, em alguns casos em combinação com a aversão ao risco, associado à adopção precoce de novas tecnologias e técnicas, pode encorajar investidores, como os bancos, a continuar a apoiar tecnologias antiquadas, ainda que não sejam as mais eficientes nem ofereçam o melhor rendimento (Comissão Europeia, 2005).
A experiência mostra que muitas instituições financeiras têm muitas vezes relutância em apoiar projectos de eficiência energética, devido à dificuldade em muitos casos, de se calcularem as poupanças originadas pelos investimentos efectuados. Uma possibilidade a explorar refere‐se a empréstimos do tipo project finance,23 em que os fundos são canalizados através de um intermediário ou de uma câmara de compensação24 com mais conhecimentos técnicos e económicos no domínio da eficiência energética, que irão por sua vez, elaborar os projectos de financiamento, de modo, a que seja possível que o projecto per se liberte poupanças para se pagar a si próprio. A grande mudança que se processa é o facto de que os resultados económicos imediatos deixarem de ser os únicos factores de decisão dos
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Externalidades ocorrem quando uma actividade ou transacção de um agente causa acidentalmente uma perda ou ganho no bem‐estar de outro agente, não havendo nenhuma compensação pela alteração do mesmo (Daly & Farley, 2003).
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Project finance, é um método de financiamento em que o financiador avalia em primeiro lugar os fluxos financeiros positivos (receitas) geradas pelo projecto como a origem fundamental dos reembolsos e como segurança doo risco. Os financiadores deste método de financiamento podem encontrar questões sociais, éticas e ambientais que são ao mesmo tempo complexas e desafiadoras, em particular, nos mercados emergentes.
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A Câmara de Compensação Ambiental tem como atribuições decidir sobre critérios quanto à gradação de impactes ambientais, bem como procedimentos administrativos e financeiros para execução da compensação ambiental; examinar e decidir sobre a distribuição das medidas compensatórias para aplicação nas unidades de conservação, existentes ou a serem criadas; examinar e decidir sobre os recursos administrativos de revisão da gradação de impactes ambientais e analisar e propor o plano de aplicação dos recursos de compensação ambiental.
agentes, e o sucesso empresarial passa a ser associado também à legitimidade social do que é produzido e da forma como é produzido.
Em teoria, as forças de mercado deveriam acabar por produzir por si mesmas os resultados mais eficientes sem interferência externa (a “mão invisível”25). Contudo, dadas as características técnicas dos mercados da energia, parece ser necessário promover e acompanhar as alterações induzidas pelo mercado, melhorando mais rapidamente a eficiência energética e reduzindo assim a procura de energia, continuando as forças de mercado a ser essenciais para adaptar a oferta à procura. Actualmente, os custos com energia já são elevados o suficiente para que haja preocupações com poupanças de energia, efectuando‐se investimentos a longo prazo (Comissão Europeia, 2005; Mundaca, 2006).
As barreiras de mercado incluem todos os factores que explicam as razões pelas quais os consumidores não tomam medidas para a introdução de tecnologias eficientes e custo eficazes. Estes obstáculos incluem por exemplo: falta de know‐how e skills técnicas; falta de informação disponível; falta de acesso a capital; falta de alinhamento de interesses entre os agentes (incluindo restrições financeiras dos consumidores) (Comissão Europeia, 2005; IIIEE et al., SD); disparidade de expectativas de rendibilidade (i.e. incerteza de margens de lucros devido às forças de mercado (oferta e procura)); obstáculos legais e administrativos; preferência de investir no seu core business em vez de em medidas de eficiência energética (Oikonomou et al., 2007) e existência de incertezas sobre o desempenho dos investimentos efectuados em novas tecnologias energeticamente eficientes (Mundaca, 2006). De facto, existem algumas condições necessárias para eliminar barreiras à eficiência energética e para desenvolver e estruturar um mercado para equipamentos eficientes, salientando‐se (WEC, 2008): • Disponibilidade de equipamentos eficientes; • Disponibilidade de informação de qualidade sobre os equipamentos para os consumidores; • Disponibilidade de serviços técnicos, comerciais e financeiros, caso seja necessário.
As decisões em matéria de investimento podem também ser influenciadas pelo problema da divergência de incentivos – como por exemplo, entre o proprietário (que instala uma caldeira) e o inquilino (que paga a factura de aquecimento) – ou, ainda, quando o orçamento para investimentos de uma empresa ou dos consumidores finais não estão devidamente delineados e coordenados com o orçamento para as poupanças de energia. Os obstáculos técnicos, como a falta de normalização dos equipamentos e componentes que consomem energia, podem também tornar mais difícil um rápido impacte no mercado por parte de novas tecnologias eficientes do ponto de vista energético.
Os intervenientes devem ser sensibilizados para a relação custo benefício muito positiva e para os períodos por vezes muito curtos – em alguns casos de menos de um ano – de recuperação dos
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Termo introduzido por Adam Smith em "A Riqueza das nações" para descrever como numa economia de mercado, apesar da inexistência de uma entidade coordenadora do interesse comunal, a interacção dos indivíduos parece resultar numa determinada ordem, como se houvesse uma "mão invisível" que os orientasse.
investimentos na eficiência energética. Poderiam ser desenvolvidos instrumentos simples para a avaliação dos riscos dos projectos, como manuais de análise do ciclo de vida, programas informáticos e auditorias energéticas por categoria de investimento (Comissão Europeia, 2005).
Assim, uma barreira importante é a organizacional e financeira: é muito mais difícil e mais caro encontrar financiamento para um grande número de pequenas intervenções do que para um único projecto do mesmo valor (IIIEE et al., SD). Além disso, o acesso a instrumentos financeiros adequados para apoiar as medidas de reforço da eficiência energética, ainda encontra algumas dificuldades, já que tais medidas de apoio são predominantemente de pequena escala, com as dificuldades apontadas atrás. Constrangimentos legislativos e normativos que afectem negativamente a efectiva penetração de uma política de medidas de poupança de energia deverão ser identificadas e removidas sempre que possível. Por exemplo, no passado, a insuficiência da regulamentação nos sectores sob monopólio criou, em alguns casos, um incentivo ao consumo descuidado de energia. A melhoria do regime regulamentar na U.E. e a introdução de forças de mercado mais transparentes graças à liberalização deverão ajudar a resolver este problema, mas os efeitos das anteriores decisões em matéria de investimento far‐se‐ão sentir ainda durante muito tempo (Comissão Europeia, 2005).