Parte I – Quadro Conceptual
5.4. Insucesso escolar: suas causas
As causas do IE, segundo Martins (1991), provêm de uma desarticulação do próprio sistema educativo que produz fracassos e excluídos na escola. A linguagem também se constitui como uma causa para o IE na medida em que a não descodificação da mensagem transmitida pelo professor ao aluno perturba a consequente aprendizagem. Os conteúdos transmitidos nas escolas, que não se encontram adequados à base cultural dos discentes que formam as turmas no nosso sistema de ensino, são promotores de IE.
Concepções sobre as causas do insucesso escolar dos discentes apresentam factores institucionais relacionados com a escola, a sua organização e funcionamento bem como as práticas dos docentes (Branquinho & Sanches, 2000 in Sil 2004, 32).
Considerando Grácio (1995, in Sil 2004:32), o professor é o eixo de articulação de qualquer estratégia que vise prevenir o insucesso. As suas práticas e atitudes, perante as diferentes situações podem ou não ser promocionais de sucesso escolar. Segundo esta linha de pensamento, a eficácia da escola está intimamente relacionada com a eficácia do docente, o que se encontra relacionado e influenciado com os programas de formação de professores, cada vez mais adequados às realidades vigentes.
Precioso (2005:26) aponta diversos factores que podem explicar o crescente IE, principalmente ao nível do 2.º e 3.º Ciclos, sendo eles: “a quantidade e diversidade de disciplinas; a elevada carga horária; a extensão dos currículos disciplinares; a inexistência de currículos alternativos (existindo estes apenas para os alunos com NEE).” Neste campo, o sistema educativo já evoluiu. Precioso (2005:26) acrescenta ainda “a falta de adequação dos programas à idade e fase de desenvolvimento em que os alunos se encontram; a elevada carga de conteúdos relacionados com a memorização; a falta de relação entre os conteúdos e a vida; a extrema de alguns professores; a quantidade e (má) qualidade dos manuais escolares; a aplicação de provas de avaliação mal construídas; e a concentração de várias provas de avaliação na fase final dos períodos e ano lectivo”. Estes são indicadores que contribuem para que um número significativo de alunos se veja numa situação de retenção findo o ano lectivo.
53 Como anteriormente analisámos, nas teorias explicativas do IE, as causas que o determinam provêm de diversos factores:
Ambiente social do aluno Estrutura do sistema escolar
Características individuais do aluno
Contudo, as causas do insucesso escolar podem ter origem num dos factores apontados de forma isolada ou também por todos eles em simultâneo. Um aluno ou grupos de alunos podem ser alvos de IE devido apenas a factores de ordem individual. Sobre os factores de ordem individual, torna-se necessário conhecer e identificar qual a variante causadora do insucesso escolar. Aspecto válido também para os factores do ambiente social do aluno bem como para os que se referem à estrutura escolar.
A problemática do IE afecta e condiciona práticas educativas, salientamos o projecto “TurmaMais”, apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, desde o ano lectivo 2005/2006, iniciado na Escola Secundária/3.º Ciclo “Rainha Santa Isabel de Estremoz que visou “melhorar significativamente a sobrevivência e o sucesso escolares dos alunos do 7.º ano de escolaridade” (Verdasca, 2008:139), e que actualmente, mais expandido pelas escolas do Alentejo, pretende “melhorar o desempenho escolar dos alunos. Este objectivo é tão válido para os alunos em insucesso escolar, como para os alunos com bom desempenho” (Verdasca, 2008:165). Este é um exemplo de um projecto aplicado localmente, contudo o IE é amplo e tem vindo a exigir que medidas macro venham a ser tomadas, nomeadamente o Despacho Normativo n.º 50/2005, do Ministério da Educação. Esta legislação, entre outras medidas, foi antecedida de muitos outros programas, entre eles:
- O PIPSE (1987 – 1992) – Programa Interministerial de Promoção de Sucesso Educativo criado em 1988 (Resolução do Conselho de Ministros de 10/12/1987; DR. II Série, 21/1/1988), com o objectivo de combater o IE verificado principalmente nas zonas rurais e em meios socialmente desfavorecidos. O programa cita fundamentalmente medidas relativas à primeira fase (cuidados de alimentação, cuidados de saúde, fornecimento de materiais escolares e sistemas de transporte (Benavente 1990 b): 728).
- Em 1990/91, no seguimento do PIPSE, surge o PEPT – Programa de Educação para Todos, que pretendia acelerar a universalização do acesso à escolaridade básica de nove anos, este programa investiu nas escolas como local privilegiado de intervenção através do apoio a uma rede de projectos que concorram para a prevenção do abandono escolar.
54 - Inserido neste programa, PEPT, foi criado posteriormente o Observatório da Qualidade da Escola, integrado num conjunto de projectos e acções que visam, segundo PEPT (1995):
“1) Produção de informação sistemática sobre as escolas que permita conhecer o seu funcionamento e as condições em que ocorre, bem como conhecer os resultados do esforço investido na modernização e desenvolvimento das instituições escolares;
2) Promoção da qualidade da escola, traduzida na capacidade de responder à “satisfação das necessidades de uma educação básica”, “à universalização do acesso à educação” e “à eliminação das disparidades educativas (Declaração Mundial sobre educação para todos – art. 1 e 3);
3) A mobilização das comunidades em torno das suas escolas, gerando e desenvolvendo uma cultura da escolaridade prolongada, de apreço pela instituição escolar, de valorização pessoal e de qualificação profissional (PEPT);
4) A introdução de uma reforma cultural na gestão escolar, tornando-a transparente e rigorosa, capaz de se planear de uma forma estratégica e de avaliar os seus próprios resultados, orientada “por princípios de democraticidade e de eficácia”, “ que situam a escola numa nova dimensão de liberdade e de responsabilidade” – Dec. Lei n.º 172/91.”
- Em 1991, foi criado o Serviço de Psicologia e Orientação com o objectivo de realizar acções de apoio psicológico e de orientação escolar e profissional – Decreto-lei n.º 190/91 de 17 de Maio.
- Em 1996 são instituídos os Territórios Educativos de Intervenção Prioritária (TEIP), que têm como objectivo criar meios e apoios para combater as desigualdades, apelando à ligação da escola com a comunidade e ao estabelecimento de parcerias – Despacho n.º 147- B/ME/96, de 8 de Julho.
- Também em 1996 são criados os Currículos Alternativos, destinados a grupos específicos de alunos do ensino básico, que se possam enquadrar em perfis de abandono escolar, pretendendo-se criar ambientes de aprendizagem mais adequados. As turmas de currículo alternativo destinam-se a alunos som IE repetido, com problemas de integração na comunidade escolar (Despacho n.º 22/SEEI/96).
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