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Parte II – Estudo Empírico

7.4. Recolha e tratamento dos dados

Após a recolha documental, que nos permitiu ter uma base de trabalho, recorremos, à entrevista semi-estruturada, dado que a mesma é uma técnica que possibilita a “recolha de dados de opinião que permitam não só fornecer pistas para a caracterização do processo em estudo, como também conhecer, sob alguns aspectos, os intervenientes do processo” (Estrela, 1994:342). Deste modo, ficávamos muito mais próximo da realidade de cada um dos nossos entrevistados, o que nos permitia “conhecer algo dos quadros conceptuais dos dadores dessa informação” (Estrela, 1994:342).

7.4.1. Elaboração do guião da entrevista

Construiu-se um guião, delineado por conversas exploratórias com alunos e professores externos ao estudo, baseado nas indicações propostas em Estrela (1994: 345), que assentam: Primeiro, uma formulação do tema, de forma sintética e explícita; em segundo, uma definição dos objectivos gerais; e, em terceiro, a partir dos objectivos gerais, definem-se pois objectivos específicos e prevêem-se as estratégias de concretização, ou seja, há a divisão da entrevista em blocos em que compreendem determinados objectivos. Por sua vez os objectivos específicos permitem a organização específica dos blocos.

Este guião suportou a entrevista semi-estruturada, de cariz flexível, para que no decurso da mesma se respeitasse a liberdade dos entrevistados, de forma a atingir os objectivos definidos. O guião, antes de ser aplicado aos elementos em estudo, foi submetido a um Painel de Especialistas e aplicado experimentalmente, até se chegar a uma versão final. O referido guião teve por tema “Sucesso/Insucesso escolar no Agrupamento Vertical de Ourique” e, como objectivos gerais “recolher dados que contribuam para conhecer as causas e consequências do insucesso no Agrupamento Vertical de Ourique”. Foi composto por seis blocos, que surgiram pela aglutinação dos pontos fulcrais do estudo a desenvolver, após uma exploração da bibliografia consultada e redefinidos após aplicação “piloto” a um aluno externo ao estudo, no sentido de um conhecimento gradual das vivencias dos alunos entrevistados face à situação de insucesso escolar.

87 Passamos a apresentar os 6 blocos que compõem o guião da entrevista, justificando a necessidade de integrarem a entrevista:

Bloco I - Legitimação da entrevista e incentivo à participação do entrevistado Com este primeiro bloco, pretendíamos legitimar a entrevista e incentivar a participação do entrevistado, informando-o sobre o trabalho em curso e os seus principais objectivos, bem como solicitar a sua colaboração, como fundamental para a consecução do estudo a realizar, garantindo-lhe a confidencialidade e o seu anonimato. Solicitar autorização para gravação áudio da entrevista e colocar à disposição do entrevistado os futuros resultados da investigação.

Bloco II - Contextualização e caracterização dos percursos de aprendizagem Através deste segundo bloco, pretendia-se questionar de forma a contextualizar a vida escolar do aluno, identificando o seu contexto geográfico e conhecendo o seu percurso de aprendizagem.

Bloco III - Contextualização do(s) momento(s) de insucesso

Já de um modo mais direccionado, neste terceiro bloco, a entrevista focaliza-se para contextualizar os episódios/ contextos que concorrem para o IE do entrevistado.

Bloco IV - Identificação das causas do insucesso

O quarto bloco tinha como objectivo possibilitar-nos identificar causas para os episódios/ contextos que concorrem para o IE do entrevistado.

Bloco V - Identificação das consequências

Centrando-se nos episódios/ contextos que concorrem para o IE do entrevistado, o presente bloco, visava conhecer as consequências do insucesso escolar.

Bloco VI - Atitudes posteriores e alargamento da temática

Com o VI e último bloco de questões, pretendia-se conhecer as perspectivas de futuro relacionadas ou não com o ambiente educativo, destes jovens entrevistados.

7.4.2. Realização das entrevistas

Com a disponibilidade do Conselho Executivo do Agrupamento Vertical de Ourique, o núcleo dos 24 alunos, com pelo menos uma situação de IE, conforme página 79, foi contactado, através do pedido (Anexo n.º 1) formulado aos directores de turma, para que fizessem chegar a todos os alunos, inseridos neste estudo, um pedido de autorização (Anexo n.º 2), para participarem numa entrevista. Após o contacto, apesar de alguns encarregados de educação/ alunos manifestarem o seu interesse por não participar e outros não terem

88 devolvido a autorização, obtivemos doze respostas positivas. Seguiu-se a calendarização da realização das entrevistas e, posteriormente, a sua realização, que decorreu conforme a disponibilidade entrevistadora/entrevistado entre os meses de Julho e Setembro de 2008. A duração das entrevistas variou entre os 16 e os 32 minutos, tendo existido uma preocupação em que a mesma se desenrolasse num ambiente adequado e familiar aos jovens.

Para registo dos dados, e tendo em conta a qualidade dos mesmos, recorremos, com a devida autorização dos entrevistados, à gravação áudio das entrevistas.

De modo a garantir o anonimato das entrevistas, foi atribuído um número de código a cada entrevista – de E1 a E12 – com uma ordem aleatória.

7.4.3. Análise de dados

Após a realização das 12 entrevistas, procedemos à redacção dos respectivos protocolos, com a passagem a escrito, na totalidade, dos registos áudio obtidos. Seguidamente, recorremos à técnica de análise de conteúdo para o tratamento dos dados recolhidos, a qual se traduz, segundo Bardin (1997:42), no “conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por procedimentos sistemáticos e objectivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens.” Respeitante da ideia de que a análise de conteúdo assenta em regras de exaustividade, objectividade, pertinência, adequação, homogeneidade e exclusividade.

Após uma primeira leitura flutuante dos protocolos, demos início à análise de conteúdo das entrevistas, que seguiu as seguintes fases:

a) Num primeiro momento, foram seleccionados os aspectos pertinentes e relevantes do discurso dos entrevistados, embora com alguma dificuldade em eliminar as questões, visto que a fluência discursiva dos entrevistados não ficou muito esclarecedora. Assim, as questões foram eliminadas, bem como algumas passagens discursivas não concorrentes com os objectivos ambicionados.

b) Seguiu-se a construção da grelha de categorização – após a leitura flutuante do conjunto da informação recolhida e do guião da entrevista, elaborámos uma grelha de categorização dos dados, que foi sendo reajustada ao longo do processo de análise. Foram definidos temas e categorias e, dentro destes, diversas subcategorias, com o objectivo de “fornecer, por

condensação, uma representação simplificada dos dados brutos” (Bardin, 1997), tornando

esses dados mais organizados.

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Grelha 1- Grelha de categorização

Temas Categorias Subcategorias Unidades de Sentido

1. Contextualizaçã o dos percursos de aprendizagem 1.1- Contexto geográfico 1.1.1- Distância (casa – escola) 1.1.2- Deslocações 1.2- Contexto institucional 1.2.1 Percepções positivas 1.2.2 Percepções negativas 1.3- Contexto relacional 1.3.1 Com professores 1.3.2 Com os colegas 2. Contextualizaçã o dos momentos de insucesso 2.1- Os episódios/contextos indutores de insucesso escolar 2.1.1 Anos de retenção 2.1.2 Dificuldades nos anos transactos

2.1.3 Políticas educativas Conteúdos: Modelos de ensino

2.1.4 Professores Apoio às dificuldades:

Linguagem Materiais de apoio 2.1.5 Pares Apoio Comportamento da turma 2.1.6 Família Apoio: Irmãos Explicações externas Dificuldades familiares

Interesse pelas actividades escolares Momentos com a família

2.1.7 Ocupações extra lectivas Estudo Lazer 2.1.8 Sentimentos Felicidade 3. Identificação das causas do insucesso 3. 3.1-Causas do insucesso

3.1.1- Intrínsecas ao aluno Falta de estudo : Irresponsabilidade: Pouca dedicação:

Dificuldades em acompanhar a matéria: Incompreensão dos conteúdos: Comportamento:

Rebelde:

3.1.2- Extrínsecas ao aluno Muitas horas fora de casa: Exigência dos pais: Constituição da turma: 4. Identificação das consequências 4. 4.1- Consequências do insucesso 4.1.1- Mudanças após a retenção Maior dedicação: Maior motivação:

Repetição dos mesmos conteúdos:

5. Tendências e atitudes 5.1- Perspectiva s de futuro 5.1.1- Perspectivas face à escola Deixar de estudar: Importante estudar: Perspectivas de futuro: 5.1.2- Percursos alternativos Entrada num CEF:

90 Como é observável, na Grelha 1, foram delimitados cinco temas:

1) Contextualização dos percursos de aprendizagem;

2) Contextualização dos momentos/ episódios de insucesso; 3) Identificação das causas do insucesso;

4) Identificação das consequências; e, 5) Tendências e atitudes.

Na definição de categorias, estiveram subjacentes os princípios definidos por Bardin (1997): homogeneidade, a exclusão mútua, a objectividade, a pertinência, a fidelidade e a produtividade. Pelo que, cada um dos temas deu origem a categorias que, por sua vez, englobam diversas subcategorias, que agregam diversas unidades de sentido.

A análise de conteúdo evoluiu com a pré categorização das doze entrevistas, nas quais foram identificadas as diversas unidades de sentido que formavam o corpus da informação recolhida e seguiu-se a categorização das unidades de sentido. Categorização que, segundo Bardin, 1997 é “uma operação de classificação de elementos constitutivos de um conjunto, por diferenciação e, seguidamente, por reagrupamento segundo o género (analogia), com critérios previamente definidos”. Consiste, pois, em agrupar as unidades de registo que reúnem um padrão comum.

No presente estudo, após o isolamento dos diferentes elementos, seguiu-se a fase de classificação, na qual se distribuíram, progressivamente, os elementos, procurando dar uma certa organização ao conteúdo das entrevistas elaboradas.

Após a categorização de todos os dados, procedeu-se à elaboração de um quadro comparativo e agregador da categorização das doze entrevistas, de forma a facilitar a sua leitura interpretativa.

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8. Análise e interpretação de dados

A análise e interpretação dos dados elaborou-se tendo por base as tabelas de síntese da informação, executadas a partir da grelha de categorização comparativa dos dados, nelas tendo recorrido à respectiva comparação e triangulação na busca de sentido e do significado das representações verbalizadas pelos intervenientes do estudo.

Tabela 15- Percurso individual de cada aluno em estudo