Parte I – Quadro Conceptual
5.2. Uma criança com insucesso: Ambiente e o seu comportamento
comportamento
No ambiente familiar, uma criança com insucesso escolar pode apresentar confusão, preguiça, ser distraída, demonstrar incapacidade para se concentrar na realização das tarefas ou exibir um comportamento genérico de desinteresse e irresponsabilidade, o que, consequentemente, conduz a criança a sofrer do meio familiar fortes pressões e ser confrontada com punições, obrigações e promessas.
Os seus pais/ familiares impõem-lhes, por vezes, as “explicações” externas, momentos de trabalho agregados continuamente a fortes pressões, onde perduram os poucos esforços, muito desinteresse, o que conduz à impossibilidade de progressos significativos em curtos períodos de tempo que as mesmas duram.
Em ambiente escolar, segundo Muniz (1993), não há alteração nos comportamentos. Por norma, acrescem problemas comportamentais, de indisciplina, de atitudes e gestos que têm por finalidade chamar à atenção.
Segundo um estudo realizado por Elizabeth Munsterberg (in, Muniz, 1993), num grupo de crianças, com idades compreendidas entre os 6 e os 12, para as quais foi preparado um programa, sobre as causas do insucesso escolar, verificou-se que as crianças revelavam alguns dos seguintes tipos de comportamento e comummente dois ou três. Vejamos:
1- Desassossego: hiperactividade, distracção.
As crianças com êxito são capazes de transformar o desassossego em actividade dirigida para metas predominantemente construtivas e não extraviadas, conseguindo concentrar-se nas tarefas.
As crianças com insucesso são incapazes de controlar o desassossego, sendo o mesmo transformado em agitação descarregadora de tensões, com efeitos predominantemente destrutivos. Não conseguem concentrar-se nas tarefas, tendem para a dispersão.
2- Pouca tolerância à frustração: incapacidade de aceitar um insucesso ou uma critica, hipersensibilidade.
As crianças com êxito conseguem aprender com o insucesso, alterando o seu comportamento quando o mesmo não conduz ao êxito, analisam a sua própria actividade, conservam a sua auto estima sem se desmoralizarem perante os contratempos, aceitam ajuda bem como o juízo feitos pelos outros sobre o que fazem. Já as crianças em que o insucesso conduz à falta de êxito, não suportam a consciência do insucesso, mantêm comportamentos estereotipados, sem sentido, desmoralizam-se face às dificuldades, tendem a negar as
48 imperfeições do seu trabalho, mesmo quando são evidentes, a crítica torna-se num ataque insuportável, não aceitam outra atitude que não seja a de aprovação, recusando o apoio que se lhe possa dar.
3- Irritabilidade: pouco controlo interior, impulsividade, birras.
O controlo interior está infimamente relacionado com o dispersar da atenção, ou seja, se uma pessoa se concentra numa tarefa é porque na sua consciência manifesta um interesse claro pela mesma, o que implica uma renúncia a outros objectos ou actividades igualmente atraentes.
Nas crianças com insucesso escolar, verifica-se que não há motivações determinantes, os interesses são múltiplos e por vezes contraditórios que as mesmas pretendem satisfazer ao mesmo tempo, conduzindo a comportamentos desorganizados e dispersos, porque não procuram uma meta possível, clara e diferenciada. Produzindo-se um certo estado de confusão.
O pouco controlo interior pode ser visível em dois planos: plano verbal e no plano motor. No plano verbal, devido à incapacidade de se fazer compreender coerentemente, com uma linguagem confusa e desconexa, com dificuldade em se expressar ordenadamente, incorre em múltiplas contradições. Não possuem um domínio sobre as suas representações mentais – fuga de ideias, diz o que não pretendia dizer, defendendo o seu mundo interior que se escapa pelas palavras, as mensagens faladas são algo dificilmente inteligível.
A impulsividade, a passagem à acção sem reflexão ou sem uma adequada representação e previsão dos efeitos dessa acção, sem inibição, são o reflexo do pouco controlo interior do plano motor.
As birras transmitem também a desorganização do mundo interior. Através destas, há a descarga confusa, que não consegue converter a tensão em actividade, a agressão em espírito de luta, sem sentido crítico ou acção sobre o meio, para superar as situações desfavoráveis.
4- Ansiedade: tensão, constrangimento.
Trata-se da dificuldade de transformar a tensão em acção construtiva, assim como da persistência de comportamentos estereotipados, comportamentos não adequados para enfrentar um problema. Reacções que não contemplam a variedade das situações, tendendo o indivíduo a querê-las uniformizar e resolvê-las com um conjunto de respostas muito pobres, muito iguais ou pouco adaptadas à realidade.
49 5- Retraimento: passividade, apatia, depressão.
A criança demonstra passividade de múltiplas formas, através de lentidão que se traduz em vencer fortes resistências interiores aparecendo como uma recusa instintiva das tarefas ou actividades a realizar, com uma forte dependência. A passividade é demonstrada também quando se retrai perante qualquer dificuldade que impõe uma iniciativa, dado que a criança tendem a refugiar-se e a adoptar atitudes receptivas.
No plano da aprendizagem, implica a prática da memorização, dado que mais que aprendizagens, a criança realiza pseudo- aprendizagens.
As atitudes passivas e hipercríticas revelam aspectos depressivos, em que a crianças desanima perante as mais singelas dificuldades.
6- Agressividade: comportamento destrutivo, murros, mordidelas e pontapés. Este tipo de comportamento tem por finalidade a simples descarga, sem que tenha valor adaptativo. É uma forma tão primária de agressividade que não conduz sequer ao relaxe, não provocando alívio porque se invade pela ansiedade devido a sentir-se com instintos destrutivos provocando a insegurança, entrada num mundo paranóico com contra- ataques, castigos e todo um conjunto de represálias.
7- Procura constante de atenção: absorvente, controlador, impertinente.
Outras formas de passividade. Uma criança absorvente exige permanente atenção, efectuando pedidos insistentes comprovando permanentemente se tem um adulto à sua disposição, de modo compulsivo. É vista como uma criança egoísta, mas mais de que egoísmo poder-se-á falar em egocentrismo, com pouco amadurecimento social, sem adquirir identidade incipiente. Sentindo-se permanentemente ameaçada de perder os entes queridos (abandono, recusa,..)
A atitude controladora é uma outra reacção ao medo da perda, à solidão, ao abandono, à recusa. É uma forma de obter segurança com pouco valor adaptativo, não só porque continua a ter uma forte dependência e indiferenciação face aos adultos como também desencadeia neles comportamentos hostis.
8- Rebeldia: desafio à autoridade, falta de cooperação.
O desafio à autoridade é outra forma de demonstrar a má e inadequada orientação da agressividade. A criança manifesta a hostilidade, que lhe costuma proporcionar consequências desagradáveis.
A criança sente dificuldade em cooperar construtivamente nos trabalhos com os seus pares. Apresenta uma atitude demasiado passiva, ou, numa pequena diferença de opinião, entra em confrontação.
50 9- Distúrbios somáticos: gestos nervosos, dores de cabeça, dores de estômago, tiques, chupar o dedo, tamborilar com os dedos, bater com os pés, puxar ou enrolar o cabelo.
A expressão das tensões psíquicas através do corpo ou da motricidade, é um mecanismo de defesa normal na criança, sempre e quando não passe de situações passageiras e isoladas.
Nas crianças, a estrutura psíquica é ainda muito frágil, muito instável, pouco consolidada, com mudanças de crescimento quase constantes, o que se reflecte na desorganização repetida do seu comportamento.
10- Comportamento esquizóide: passar despercebido, falar sozinho, contacto com a realidade desorganizado e fraco, comportamento estranho.
Nesta situação, a criança desliga-se progressivamente da realidade, apresentando comportamentos bizarros, comportamentos estranhos e esquisitos, desprovidos de significado para um observador exterior.
11- Comportamento delinquente: roubar, provocar incêndios.
A criança não se importa com as leis sociais, cedendo aos impulsos dominadores, para satisfazer os desejos.
12- Autismo: incapacidade de relacionar-se com os outros, inconformista em último grau, procura da satisfação dos impulsos interiores chegando mesmo à rejeição do mundo exterior, inflexibilidade extrema, inadaptação, incapacidade de aprender pela experiência, falta de afecto, incapacidade de comunicar verbalmente.
As crianças autistas são inconformistas em último grau.
Deste estudo de Munsterberg (in Muniz, 1993) os dados permitiram chegar à conclusão que as crianças com dificuldades de aprendizagem, apesar de apresentarem múltiplos comportamentos muito diferentes entre si, tinham ou mostravam algum tipo de problema de comportamento.
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