2.2 Entre Equilíbrios e Desequilíbrios (2008.2)
2.2.2 Intervalo
O final do mês de outubro e o mês de novembro se constituíram como um verdadeiro intervalo no desenvolvimento da pesquisa, tendo em vista que nesse período apenas um encontro (14/11/2008) foi realizado dentro do mesmo padrão com que, de modo geral, se davam as atividades. Participações minhas em congressos85 e a realização da Semana de Teatro86 foram parte dos acontecimentos que influíram nesse andamento.
Não houve, entretanto, uma paralisação total dos trabalhos. Algumas atividades se deram nesse tempo e, na minha avaliação, influíram positivamente no processo.
Entre as atividades da Semana de Teatro, foi realizada a oficina “Ator sem Papel” (07/11/2008), pelo Grupo de Teatro Tá na Rua. Conhecendo o tipo de trabalho desenvolvido pelo grupo, com uma proposta de criação livre a partir de estímulos trazidos por roupas, tecidos, objetos e, principalmente, a música, acreditei que essa seria uma excelente oportunidade de levar os alunos da disciplina a participarem de um trabalho altamente criativo, que lida diretamente com o imaginário e determinei que a oficina contaria como um dia de aula normal, exigindo, portanto, a presença de todos.
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Ver Anexo E – Caderno de Imagens – Fig 1 – pés na areia
85 Nesse período, participei do V Congresso da ABRACE – criação e reflexão crítica, de 28 a 31 de outubro, em Belo Horizonte/MG e do 18º ConFAEB – Congresso Nacional da Federação de Arte-Educadores do Brasil: arte/educação contemporânea, de 27 a 30 de novembro, no Crato/Ceará.
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A Semana de Teatro é tradicionalmente realizada pelo curso de Teatro da UFU no início do primeiro semestre; em 2008, entretanto, por questões internas, sua realização só se deu em novembro.
Apesar de algumas faltas, boa parte dos alunos compareceu. A princípio, participaram dos exercícios de aquecimento, propostos por outros alunos do curso enquanto os atores do grupo concluíam a organização da parte sonora da oficina: aparelhagem de som e CDs. Daqui em diante, passo a palavra a um dos alunos:
[...] começaram a tocar algumas músicas e os participantes começaram a dançar e se movimentarem pela sala. Aos poucos meus colegas foram entrando na dança. Tudo era muito divertido, dançando e se movimentando das mais diversas formas, uma verdadeira exploração do corpo. A música e a alegria dos participantes eram contagiantes; todos que passavam na porta da sala se deixavam levar pela brincadeira, inclusive algumas zeladoras do bloco, que ficaram assistindo um tempo na porta e [depois] não resistiram: deixaram as vassouras num canto e caíram na dança. (José Aparecido – Relatório de aula: o dia da fuga – 14/11/2008)
Ver os alunos que tinham tantas dificuldades de se expressar em minha aula dançando e soltando seus corpos daquela maneira, foi algo muito bom. Pela primeira vez percebia vida e alegria em alguns deles e já imaginava o que tal experiência poderia contribuir para a construção de conhecimentos pelos alunos e, dessa forma, trazer ganhos para o processo da pesquisa. Para minha decepção, entretanto, tão logo foi feito um intervalo todos sumiram da sala e não mais retornaram!
Creio que, mais uma vez, as palavras desse mesmo aluno expressam o sentimento que, a meu ver, sintetiza a razão deste não retorno coletivo:
Não saí da aula por preguiça ou por falta de interesse no que estava acontecendo ali. Ao contrário, estava encantado com a capacidade daquelas pessoas se movimentarem; poderia ficar ali observando toda aquela movimentação por horas. Porém o medo de ter que participar dela me afastou dali. (José Aparecido – Relatório de aula: o dia da fuga – 14/11/2008) (grifo meu)
Tudo foi longamente conversado e compreendido no encontro seguinte: o porquê da ausência de alguns, o porquê da fuga de outros e, principalmente, o que haviam realizado enquanto participavam da oficina, soltando seus corpos, deixando fluir emoções, imagens, felicidade. Mas ficou evidente que o ganho não se fez como poderia ter acontecido.
Apesar do rumo que tomou, a participação na oficina foi bastante positiva no sentido de me levar a ver as possibilidades reais daquelas pessoas, fora do contexto da aula. E também, a compreender que as dificuldades que apresentavam não diziam respeito
unicamente à forma como vinha desenvolvendo as atividades da pesquisa, como muitas vezes eu pensava. Suas dificuldades e defesas iam além disso.
Outra atividade diferenciada que se deu nesse período foi a apresentação de vídeos relacionados a teatro e dança, feita no encontro do dia 21/11/2008, quando assistimos e comentamos os seguintes trabalhos: encenação de Julio Cesar, de Shakespeare, pelos atores da Royal Shakespeare Academy; o filme O crime da atriz, dirigido e produzido por Elsa Cataldo, com atores do Grupo Galpão; Coreografias para filme, com Maya Deren, feito em 1935 e a gravação de um laboratório do Odin Theatre, com atores do grupo e Eugenio Barba.
Essa mostra maciça dos vídeos deu-se, em parte, por acaso. Havia programado os dois primeiros filmes, com cenas de teatro, para fazer um trabalho de observação sobre a diferença entre os trabalhos dos atores em cada um deles, principalmente no que concerne a expressividade/movimentação do corpo e ocupação do espaço — questões que se encontram no cerne de minhas preocupações no que diz respeito à formação do ator.
Havia visto o filme Julio Cesar bem no início da pesquisa (2006) e ficara impressionada com a falta de expressividade dos atores, com a forma canhestra com que se movimentavam e ocupavam o espaço: “atores que muitas vezes ‘desconhecem’ o espaço, seu próprio corpo, só têm energia emitida para frente, as costas ‘mortas’, sem expressão, o que transforma ‘corpos’ (sólidos, com volumes) em meras ‘figuras planas’ (sólidos, sem volume) em movimento” (CARNEIRO, 2008). Eram atores que se assemelhavam aos maus dançarinos e aos maus atores que, como pontua Stanislavski (1970:62), “usam o movimento e a plasticidade simplesmente pelo movimento e pela plasticidade (...) sem nenhuma relação com o conteúdo interior — e criam uma forma desprovida de sentido.” Ver este filme, inclusive, havia reforçado minha escolha de focar as investigações de minha pesquisa no tema corpo- espaço. Acreditei que mostrá-lo aos alunos poderia servir como estímulo para algumas reflexões sobre essas questões.
Já O crime da atriz apresenta atores com outras possibilidades e realizações nesse sentido, abrindo campo para uma excelente reflexão e comparação com a atuação apresentada no filme anterior; e, mais ainda, proporcionando uma nova oportunidade de discutir sobre as dificuldades apresentadas por boa parte dos alunos.
Entretanto, havia levado os outros vídeos comigo e, por interesse dos próprios alunos, todos foram vistos, tornando mais abrangente a reflexão que então se fez, uma vez que o trabalho de Maya Deren e a forma bem específica do laboratório do Odin enriqueceu as discussões sobre o trabalho corporal de atores, dançarinos — ocupação de espaço, movimentos, expressividade — e questões relacionadas a voz.
No dia 28 de novembro, com minha ida para o ConFAEB, não haveria aula. Entretanto, como já estávamos no final do período e os alunos necessitavam estruturar o trabalho final que havia solicitado, combinei com os quatro alunos do curso de teatro que participavam da disciplina que abrissem a sala para que o espaço pudesse ser utilizado e ajudassem os demais no que fosse necessário. Ficaram também encarregados de pegar as imagens em meu armário, de modo a que estivessem disponíveis para a atividade.
Esse fato atuou duplamente: os alunos do curso de teatro se sentiram responsáveis pelo andamento do trabalho, o que lhes deu mais força; os alunos dos outros cursos se sentiram mais livres para discutir suas dificuldades, solicitar ajuda aos colegas e, inclusive, desenvolver trabalhos em parceria com estes. Assim, em meu retorno, na semana seguinte, encontrei a todos com excelente disposição para continuarmos as atividades da pesquisa.