2.2 Entre Equilíbrios e Desequilíbrios (2008.2)
2.2.4 Textos
Comentar a forma como algumas leituras propostas contribuíram para a reflexão e proporcionaram o aprofundamento de conhecimentos pontuados nas discussões de sala de
aula é parte essencial desse relato, tendo em vista a proposta inicial da estrutura de trabalho, que levou em consideração a necessidade dessa relação íntima entre prática e leituras teóricas.
A leitura desses textos foi bastante importante para a transformação do nível e da qualidade das observações feitas, à medida que eles ofereceram informações e discussões que possibilitaram alguma reflexão sobre um campo de conhecimento que era totalmente novo para a maior parte dos alunos, como se pode verificar pelo comentário a seguir, feito sobre a leitura de Joly (1996:60):
A imagem como geradora de conhecimento. A apreciação, a observação gera um desencadear de significados que vão além do campo artístico, abre um leque de possibilidades para decifrar tal imagem. [T]udo que já foi visto pelo indivíduo parece passar por um filtro onde tudo que se assemelha à nova imagem desperta e vem à tona para que essa seja classificada, identifica[da], decodificada e depois passe a fazer parte do repertório informativo de nossa mente. Torna-se de certo modo um ato de criação, não só para quem criou tal imagem, mas também para quem a analise.
A imagem gera expectativa, um anseio de informações e o encaixar das “informações” referentes à imagem gera o prazer do conhecimento, da descoberta. (Ilmara - Comentário a partir da leitura do texto A análise da imagem: desafios e metas)
Ao todo, doze textos foram lidos, com uma leitura média de quatro textos por mês, durante os meses de setembro, outubro e novembro. Naturalmente uns foram mais bem discutidos e assimilados do que outros, porém todos, em geral suscitaram algum comentário em sala que contribuiu para as discussões feitas.
Os dois primeiros grupos foram compostos por textos curtos, que possibilitavam a aquisição de conhecimentos específicos mínimos necessários para a compreensão do que seria trabalhado na disciplina, como a análise de imagens; e de textos como o de Lecoc (2002), sobre corpo/movimento, que lançavam discussões provocadoras sobre a temática abordada.
O último grupo foi composto por textos que discutiam questões relacionadas à Psicologia, Educação, Educação Física e trabalho corporal, selecionados a partir das discussões que se fizeram necessárias diante das dificuldades que as alunas do curso de Educação Física apresentavam em relação à expressividade de seus corpos.
Assim, partindo dos três grupos em que foram selecionados e segundo a ordem em que foram entregues aos alunos, pretendo oferecer aqui algumas observações sobre os momentos/contextos em que foram trabalhados, as temáticas que discutiam e os comentários dos alunos.
De modo geral, houve dois momentos bem distintos de trabalho com os textos: no primeiro, solicitava o resumo e que destacassem uma frase que traduzisse o que haviam encontrado de mais importante como informação. Depois, tendo em vista o longo tempo que se perdia com os comentários sobre os resumos, passei a solicitar apenas que lessem e destacassem duas frases para serem comentadas em sala, contextualizando-as dentro da discussão proposta pelo texto.
O primeiro grupo de textos foi constituído com a intenção de oferecer subsídios aos alunos sobre um conhecimento que seria necessário à compreensão sobre corpo/movimento, a leitura de imagens e imaginário — temas bastante desconhecidos ou, pelo menos, pouco aprofundado pela maior parte dos alunos da disciplina. Para tal, lancei mão dos textos:
Movimento com M Maiúsculo, de Jacques Lecoq (2002); Conceito de imaginário, que é parte
de um dos capítulos da dissertação de Jussara Trindade (2007) e Sobre o imaginário, de Josimey Costa da Silva (2000). Sobre a leitura de imagens, o primeiro texto indicado foi o de Scherer (1996), depois substituído por A análise da imagem: desafios e métodos, extraído da obra de Martine Joly (1996), porque os alunos acharam muito difícil a leitura do anterior.
O texto de Lecoq (2000) foi lido e muito comentado em sala, uma vez que fala do movimento a partir das leis que o determinam, que o caracterizam: ele se dá sempre como “um deslocamento em relação à imobilidade” (IDEM, ibidem:1) e torna perceptível o que é imóvel. Assim, estas e outras questões que ele apresenta alimentaram principalmente as primeiras reflexões sobre movimento e ofereceram uma base a que sempre se retornava, ao longo do processo.
O texto de Scherer, apesar de lido apenas por poucos alunos, também possibilitou reflexões que, uma vez levadas para o espaço comum da sala, auxiliou na compreensão de pontos importantes:
“[A imagem] diz em cores, em formatos, em movimentos. E cada indivíduo vai fazer sua leitura, sua descrição.”
(...). Acho que durante as aulas explicamos o que vemos com movimentos, com a proposta de partir de uma foto e construir movimentos; por mais que desliguemos da foto depois de determinado momento, ela desencadeou o primeiro movimento a intenção o ritmo dos movimentos seguintes. (Ilmara - Texto do
Caderno de Antropologia e Imagem (Joana Scherer)
Em sua reflexão, a aluna conseguiu estabelecer um elo entre a leitura e a linguagem em que se fazia o comentário sobre esta, na pesquisa — a linguagem corporal. Uma compreensão que não era simples para a maior parte dos alunos e que ao ser comentada certamente despertou algumas atenções para isso.
Também os textos sobre imaginário foram importantes, principalmente ao estabelecer relação entre imaginário e a cultura que cada um possui:
Os textos me deram a noção da infinita capacidade que temos para criar imagens, criar situações, criar objetos, transformar formas.
Fotos de corpos em posições diferentes, lugares diferentes. O primeiro olhar traz uma lembrança e logo construímos uma narrativa partindo daquilo que estamos vendo. E essa narrativa torna-se mais rica conforme nosso imaginário foi alimentado, conforme nossos olhares já captarem situações ou visões semelhantes ou que de algum modo fazemos relação com a nova imagem. (Ilmara - Texto Sobre
o imaginário – Josymei Costa da Silva)
A segunda etapa das leituras, realizada num momento em que já estávamos trabalhando mais intensamente com as imagens e com as questões de expressividade e movimento, procurou levar adiante esses conhecimentos e reflexões, como foi o caso, por exemplo, do texto Sensibilidades e sociabilidades, um pequeno trecho que reforça a discussão do levantada pela leitura de Josymei (2000), ao frisar a indissociabilidade entre as sensibilidades e as sociabilidades.
Excluindo o texto de Mauad (2008), que gerou comentários muito pontuais e menos relevantes para a discussão, os outros textos lidos no período foram bem comentados. O texto de Duarte (2008) sobre análise de imagem levou alguns alunos a compreensões importantes
sobre o conceito de imagem. Uma das alunas, ao ler o texto, procurou no dicionário o seu significado:
Mas o significado que mais me ajudou a entender a imagem foi “metáfora pela qual as idéias se tornam mais vivas apresentando-as sob uma forma sensível.”
É incrível pensar que a imagem é o resultado de pensamentos, idéias, sensações e por que não das observações do autor que a representa ali em forma de imagem de uma maneira sensível, ou seja, que passa por sua sensibilidade e se expressa em forma de imagem. (Flávia Amorim: Texto Introdução à crítica de arte (Análise de imagem) – Aninha Duarte)
A compreensão que teve foi tão forte e clara, que em vários momentos ela tornou a comentar sobre isso, inclusive no dia em que trabalhamos com os poemas, estabelecendo relação entre a metáfora poética e as imagens.
A outro aluno, o mesmo texto e a mesma palavra permitiram estabelecer relações com seus estudos de música:
“Pensar a imagem é ir para além daquilo que ali se vê.” Metáforas:
Assim como no estudo da imagem, no estudo da música e da voz criamos um repertório de metáforas para sistematizar esse estudo, tais como: sol leve/pesado, claro/escuro, encorpado, cor, ponta, brilho. (Thiago - Texto Introdução à crítica da
arte - Aninha Duarte)
O texto de Nóbrega (2000) permitiu levá-los a conhecer alguma coisa sobre o pensamento de Merleau-Ponty, uma vez que ela discute exatamente sobre a questão de corporeidade a partir desse autor. A frase destacada por um dos alunos — “Quer se trate do corpo do outro ou de meu próprio corpo, não tenho outro meio de conhecer o corpo senão vivê-lo.” (MERLEAU-PONTY, 1994:269, apud NÓBREGA, 2000:5) — e várias outras passagens do texto permitiram reflexões sobre o corpo como unidade, como ser operante capaz de movimento, sensibilidade, expressividade própria.
Os últimos textos, conforme já explicitado, foram escolhidos, principalmente, como tentativa de aprofundar algumas reflexões que surgiam a partir das dificuldades apresentadas pelos alunos do curso de Educação Física. Eram textos, porém, cujas discussões também contribuíram para a compreensão dos temas trabalhados, uma vez que abordavam questões importantes sobre a criação artística e a arte como conhecimento (ZIMMERMANN, 2008);
sobre a importância da educação física na escola, tendo em vista a relação entre motricidade e formação do pensamento, da necessidade de provocar o trabalho da imaginação em ação por meio do jogo simbólico (DIAS, 2008); ou ainda discussões sobre a relação do ritmo com a noção espacial e com outros aprendizados que se fazem necessários à criança, entre os quais se incluem a capacidade expressiva (RETONDAR, 2008).
As anotações abaixo refletem em parte algumas questões discutidas a partir dos textos:
Acredito que o que é interiorizado não se esquece, diferente de fórmulas matemáticas decoradas.
O que o aluno aprende e expressa por meio de expressão corporal (no meu caso, a percussão corporal104) dificilmente é esquecido, pois se torna algo natural, movimentos que se tornam naturais e automáticos para o corpo. (José Aparecido – Texto A importância do ensino rítmico na escola – Jeferson Tadeu Moebus Retondar)
Uma composição nem sempre é finalizada com base no que o autor queria transmitir no início da criação da mesma. (...) Em alguns processos de composições, as harmonias e melodias surgem de momentos de descontração onde o compositor está “brincando com seu instrumento” e da brincadeira, de uma seqüência de acordes e ritmos surge uma idéia para composição. Inspiração divina ou exteriorização de emoções guardadas no subconsciente? (José Aparecido - Texto A relação da criação
artística com a psicologia profunda - Elizabeth Zimmermann)
Também nas anotações gerais sobre o trabalho, percebem-se discussões que têm como base as leituras trabalhadas, aliadas às experiências vividas no trabalho e fora dele. Uma das alunas da Educação Física, principalmente, expressa amplamente as reflexões que faz a partir do que está vivenciando, então:
No curso de Educação Física estamos acostumados a seguir regras, modelos, movimentos já pré-determinados por alguém e não buscamos sentir qual a necessidade que nosso corpo tem em determinado momento, qual a maneira mais confortável de nos movimentar. Estamos sempre pensando muito no que vamos fazer ao invés de sentir o que o corpo deseja para termos atitudes mais espontâneas.
Apesar do discurso que a educação física defende acerca da importância de se trabalhar com consciência corporal, muitas vezes o verdadeiro significado, o que realmente representa ter consciência corporal é vivido por poucos. (Muriel - Anotações - 14/11/2008)
Muitas vezes pensamos estar trabalhando o mesmo, mas estamos apenas reproduzindo movimentos que nos são ensinados desde cedo. Nossos movimentos se tornam mecanizados e não sabemos nem sequer nossos limites e nem o que o nosso corpo é capaz de fazer. Refletindo sobre a disciplina e os conhecimentos que ela me proporcionou eu pude concluir que às vezes nos esquecemos que o nosso corpo é vivo. Deixamos o nosso corpo adormecer, limitamos as possibilidades de
104
O aluno se refere aqui ao aprendizado adquirido em aulas da disciplina de Percussão do curso de Música/UFU, do qual participava.
movimentos. Isso nos torna incapaz de saber o que conseguiríamos ou não fazer se nós tentássemos.
Apesar de na Educação Física trabalharmos com o corpo humano, nem sempre pensamos nele com relação a esse aspecto. Nas aulas de educação física muitas vezes o professor busca ensinar gestos técnicos, regras esportivas, higiene do corpo, movimentos pré-estabelecidos e não estimulam a reflexão da criança quanto à importância do seu próprio corpo. Até mesmo no ensino superior não se tem esse tipo de preocupação. Durante a nossa formação aprendemos fisiologia, anatomia humana, bioquímica, biomecânica, modalidades esportivas, disciplinas que a sociedade julga necessário para entendermos o corpo. Este é visto sobre outro ponto de vista.
Esse novo olhar sobre o corpo poderia trazer um indivíduo mais preparado, mais completo e ser incorporado ao papel da educação física. (Muriel - Anotações – 19/12/2008)
Apenas o último texto selecionado não chegou a ser trabalhado, tanto pelo acúmulo de trabalho prático, como pela qualidade das informações que continha, que eram por demais superficiais.