A análise do conceito de responsabilidade, enquanto categoria na Teoria Geral do Direito, é um trabalho complexo, quando se considera que certas imprecisões conceituais que permeiam a discussão induzem, em alguns casos, a reduzir seu conceito a um ou alguns de seus elementos e, em outros, a limitá-lo a algum de seus objetivos. Não são poucas as situações em que a práxis forense identifica a culpabilidade, a imputabilidade ou a causalidade com alguma espécie de responsabilidade, criando a ideia de que, de certo modo, alguns desses elementos se encontram no conteúdo necessário, vale dizer, intrínseco, da noção de Responsabilidade. (LARRAÑAGA, 2004, p. 16-7).
No mesmo sentido, Dias (2006, p. 3-4) afirma que
toda manifestação da atividade humana traz em si o problema da responsabilidade. Isso talvez dificulte o problema de fixar o seu conceito, que varia tanto como os aspectos que pode abranger, conforme as teorias filosófico-jurídicas [...] Nesse terreno, onde as dificuldades filosóficas ameaçam, a cada passo, desviar a pesquisa para o plano metafísico, é que coincidem as noções de responsabilidade, culpabilidade e imputabilidade, tanto que a acepção vulgar assimila uma às outras. Não é possível atacar esse
juízo, mas é preciso não diminuir a estreita afinidade que apresentam aquelas ideias.
Ocorre que o termo “responsabilidade” não denota uma relação específica entre um conjunto determinado de condições, pois a “responsabilidade não é um fenômeno exclusivo da vida jurídica, antes se liga a todos os domínios da vida social.” (DIAS, 2006, p. 4). Dependendo do sistema de responsabilidade particular e do âmbito normativo em questão, podem ser identificados distintos conjuntos de condições com consequências normativas de diversas naturezas.
O que se procura destacar com tal afirmação é que os juízos de responsabilidade não apresentam um único propósito: dependendo do contexto e da área normativa concreta, podem se encaminhar a objetivos de naturezas distintas (LARRAÑAGA, 2004, p. 17), regrando condutas direta ou indiretamente (através da imputação de deveres ou sanções) para prevenir a ocorrência de fatos ilícitos (responsabilidade penal) ou disciplinar a compensação econômica pelos danos sofridos (responsabilidade civil).
Pode-se afirmar que a responsabilidade constitui uma das categorias centrais do sistema social e jurídico, porquanto serve como parâmetro de imputação dos atos individuais. Seu estudo, por perpassar a multiplicidade dos atos humanos, pode ser realizado sob três perspectivas bem diferenciadas: a responsabilidade moral, a responsabilidade jurídica e a responsabilidade coletiva. Enquanto a responsabilidade moral ocorre no âmbito de uma reflexão ético-filosófica de um indivíduo consciente e com liberdade de escolha (=autonomia), a responsabilidade, sob o prisma jurídico, pode se verificar tanto no campo civil como na seara penal. Nesta, o ato do ofensor confronta-se com as normas de toda uma sociedade, enquanto naquele ocorre numa relação entre particulares. (BARRETO, 2008, p. 57).
Sobre o tema, Gomes (2005, p. 219) anota que
Na linguagem cotidiana, diz-se responsável a pessoa que apresenta condições morais de assumir os seus atos; aquele que age honestamente, cumprindo a palavra dada; também se diz responsável quem dirige e controla uma atividade. Ao revés, irresponsável é a pessoa que não cumpre sua palavra nem os compromissos assumidos, não despertando confiança. Nesse contexto, a palavra responsabilidade é relacionada à honestidade, possuindo o sentido comum de “assunção de tarefas ou atividades e cumprimento dos compromissos assumidos”; ela ainda pode significar a imputação de um evento a alguém, que é seu causador ou o detentor do poder de controlar sua
ocorrência.
Não é objetivo deste trabalho apresentar a evolução filosófica, social e antropológica de tal categoria. As observações acima formuladas têm por objetivo ressaltar que ao longo dos
tempos, a evolução da categoria “responsabilidade” ocorreu mediante desintegração de uma noção unitária do termo, que confundia aspectos morais, religiosos, filosóficos e jurídicos, em direção à formação de distintos conceitos parciais.
Não é objetivo do presente trabalho, nessa curta digressão evolutiva, proceder à distinção entre responsabilidade jurídica e responsabilidade moral. No entanto, deve-se apenas alertar para a impropriedade comumente destacada de se separar esses âmbitos da responsabilidade utilizando somente o falso critério que põe o âmbito moral como puramente interno em contraposição ao âmbito jurídico, que seria puramente externo. Como bem adverte Dias (2006, p. 6), a responsabilidade pode resultar da violação, a um tempo, das normas, tanto morais como jurídicas; logo, não há separação estanque entre as duas disciplinas, já que tradicionalmente não se concebe uma teoria do direito estranha à moral, devendo-se ainda anotar que “o direito não deixa de apresentar seu aspecto interno, revelado na convicção jurídica do homem.”
Se nos primórdios tudo se reduzia à manutenção do equilíbrio e não se distinguia a responsabilidade entre o indivíduo e o grupo social, entre a vida privada e a atuação pública, e por vezes entre questões divinas e humanas, a progressiva delimitação de tais noções permitiu vislumbrar a ofensa a partir de distintas formas, fazendo com que fosse possível a particularização da sanção (VILLEY, 1977, p. 49) e sua evolução.
Nos últimos séculos constata-se um refinamento de tais categorias, abandonando a morte e castigos físicos que impunham ao ofensor intenso sofrimento corporal, para alternativas de arrependimento público e de compensação financeira à vítima, separando-se a pessoa do ofensor do seu patrimônio, sendo este último responsável, proporcionalmente, pelo prejuízo infligido ao ofendido.
Ao comentar o regime do Talião, Gaburri (2007, p. 75-97) anota que por muito tempo a pena não era necessariamente equivalente e poderia ser ainda maior do que o dano sofrido. O talião, fundado na experiência social e religiosa, baseava-se na autotutela. Apenas com o surgimento do Código de Hamurabi (2200 a. C.), passou a existir uma lei escrita, elaborada pelo Estado em substituição à vontade das partes, transferindo a vingança, até então privada, para o espaço público. Já o critério da compensação, baseado no pagamento de indenizações ou multas pelo causador do dano, com o objetivo de assegurar à vítima o regresso ao status quo ante, começa a ser desenvolvido a partir do Código de Manu (entre 1300 e 800 a.C.). Vale anotar ainda que nos primórdios do direito romano, até a criação da Lex Aquilia, não se distinguia responsabilidade civil e penal. Com o desenvolvimento da Lex Aquilia, passou a
ser disciplinada a aplicação de multas, responsabilização por dívidas e o damnum injuria datum, cristalizando a ideia da reparação pecuniária do dano, que serviu como uma das bases para o desenvolvimento da matéria até os dias de hoje.
Se no princípio a justiça de mão própria, também denominada de vingança privada, ou seja, a reparação do mal pelo mal, era a alternativa mais difundida, a evolução social consagrou em regra jurídica o talião, disciplinando quando e em que condições a vítima teria direito de retaliação, comportamento que perdurou até que se percebesse que era mais conveniente exigir a composição do prejuízo do que a retaliação, já que, o resultado desta era, em última instância, a duplicação do dano, pois, como ensina Dias (2006, p. 26), “[...] onde era um, passavam a ser dois os lesados.” Com a consagração da composição pelo uso, veda-se a vingança privada e transfere-se ao Estado a direção da composição dos prejuízos sofridos pelos lesados.
Aos poucos, fortaleceu-se a importância de um código de comportamento social, necessário à própria existência da comunidade, ao lado da existência de um poder político centralizado, sustentado por uma autoridade responsável pela criação e aplicação de normas que têm como suas diretrizes a proteção da vida e das estruturas econômicas, permitindo a decantação de um conceito puramente jurídico de responsabilidade.