1 MATERIAL E MÉTODOS
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Este projeto de pesquisa dispõe sobre o abandono afetivo de forma ampla, considerando os princípios norteadores do direito de família e sua repersonalização, tendo como título a “Repersonalização dos núcleos familiares: uma pesquisa sobre o abandono afetivo como modalidade de responsabilização civil.”
Inicialmente foi feito um levantamento bibliográfico, seguido de pesquisas na internet, leituras de artigos e análises de decisões, onde se reafirmou a importância do estudo de tal problemática, tendo em vista que se trata de uma questão polêmica que, indubitavelmente, vem influenciando a reestruturação das entidades familiares e suas bases fundantes.
Dando seguimento ao feito, fez-se levantamento nas Varas, juntamente com as entrevistas com as vítimas e seus familiares, fase esta mais complexa e interessante da pesquisa, onde se obteve contato direto com os casos e com todas as problemáticas ocasionadas pela ausência afetiva, na vida do abandonado e de todos os atingidos. Analisou-se também, os processos arquivados em 2011 da 22ª Vara Cível da Capital, como também do Núcleo de Promoção da Filiação.
Constatou-se, ao final da pesquisa, que com relação ao abandono afetivo dos pais para com os filhos, metade dos casos aconteceu ainda durante a gestação, enquanto que a outra metade foi durante a infância. Os motivos ensejadores de tal desamparo são em 34,21% o término do relacionamento entre os pais da criança, 21,06% o início de um novo relacionamento, 10,52% a preservação do matrimônio diante de um envolvimento extraconjugal, 5,27% o deslocamento para outra região em busca de emprego, 10,52% a negativa da paternidade e em 18,42% dos casos a não localização do pai em questão.
34,21% 21,06% 10,52% 5,27% 10,52% 18,42% 0 10 20 30 40 Término do relacionamento
entre os pais da criança
Início de um novo relacionamento Preservação do matrimônio diante de um envolvimento extraconjugal Deslocamento para outra região em busca de emprego
Negativa da paternidade Não localização do pai
Figura 1 – Motivos ensejadores do abandono afetivo dos pais para com os filhos. Fonte: Dados da pesquisa.
Como consequência da ausência paterna, as causas determinantes para o abandono das mães com relação aos filhos são em 41,67% dos casos devido à baixa renda e a impossibilidade de sustentar o abandonado, sendo obrigada a trabalhar na maioria das vezes em outras regiões, 33,33% o desinteresse em conviver com o filho, 8,33% o abandono de lar e 16,67% a localização incerta da mesma.
41,67% 33,33% 8,33% 16,67% 0 10 20 30 40 50
Impossibilidade de sustentar o abandonado, sendo obrigada a trabalhar na maioria das vezes em outras regiões
Desinteresse em conviver com o filho Abandono do lar
Localização incerta
Figura 2 – Causas determinantes para o abandono das mães com relação aos filhos. Fonte: Dados da pesquisa.
Um caso intrigante, que teve um desenlace surpreendente, foi um em que a mãe deu início a uma ação de reconhecimento de paternidade e durante a audiência demonstrou, de forma clara, seu total desinteresse em conviver com a criança, abrindo mão de sua guarda em favor do pai do menor. Observou-se que a mãe utilizou a ação para se livrar de todo o “encargo” advindo não só da criação, mas da educação de um filho, abrindo mão do importante convívio materno-filial, e, por conseguinte, ignorando todos os danos acarretados ao menor devido a tal abandono.
Quanto à guarda de fato da criança abandonada, em 55,89% dos casos a criança fica com a mãe, 32,35% é criada com a avó, enquanto que só em 8,82% a criança fica aos cuidados o pai e em 2,94% com um outro familiar.
55,89% 32,35% 8,82% 2,94% 0 25 50 75 Mãe Avós Pai Outro familiar
Figura 3 – Guarda de fato da criança abandonada. Fonte: Dados da pesquisa.
Durante esse momento da pesquisa, observou-se, de forma significativa, a alternativa de dar-se a guarda da criança aos avós. Diante disto, aferiu-se que as principais causas analisadas foram a de abandono ou falecimento do pai, adicionada a impossibilidade da mãe de sustentar o abandonado, vendo-se obrigada a trabalhar, na maioria dos casos em outras cidades, deixando a criança aos cuidados dos avós.
Em 13,34% dos casos analisados, pelo menos um dos pais da criança também foi abandonado por um de seus genitores. Incluso nesta estatística, um caso interessante que acendeu bastante curiosidade durante a pesquisa, foi o do ciclo contínuo de abandono afetivo presente em uma só família, atingindo três gerações seguidas, onde avó, mãe e filha foram abandonadas antes mesmo de seu nascimento, sendo privadas de qualquer contato ou convívio com a figura paterna.
Dos casos de abandono afetivo analisados, 93,34% envolviam pais ou mães que se ausentavam afetivamente da vida de seus filhos, contra 6,66% de idosos como vítimas de abandono.
93,34% 6,66% 0 25 50 75 100
Pais ou mães que abandonam afetivamente seus filhos
Idosos como vítimas de abandono
Figura 4 – Casos de abandono afetivo. Fonte: Dados da pesquisa.
Um fato que se destacou diante do abandono de idosos, foi o caso em que uma senhora sobrevivia da solidariedade de seus vizinhos, já que fora abandonada por seus dois filhos, tendo seu filho mais velho saído de casa para estudar, objetivando ser padre futuramente, e sua filha viajado para São Paulo, deixando-a, aos oitenta anos de idade, sozinha, doente e em condições lamentáveis de vida.
Por fim, em todo desenvolvimento do presente projeto, fez-se uma pesquisa constante na internet, tribunais, com análise de artigos, decisões e minucioso levantamento bibliográfico.
CONCLUSÃO
Ao término do estudo que a presente pesquisa se propôs concretizar, faz-se essencial realizar apontamentos sobre a correlação existente entre a responsabilização civil e as relações intrafamiliares.
A responsabilidade civil deriva de uma ação, ou omissão, que resulta em dano ou prejuízo para terceiro, e está associada, entre outras situações, à negligência com que o indivíduo pratica determinado ato, ou mesmo deixa de fazê-lo, quando seria essa sua incumbência.
Nessa linha de raciocínio, é possível afirmar que os pais assumem obrigações jurídicas em relação aos seus filhos, como também os filhos com relação aos seus pais, nas quais não se
limitam à manutenção básica, sendo essencial a garantia da integridade física e psicológica do ser vulnerável, e ao passo que tais deveres são negligenciados, torna-se possível a compensação pelos danos sofridos.
Como já abordado, duas correntes são destacadas com relação à responsabilização civil: a primeira, tendo como base de sua argumentação as singularidades das relações familiares - como os sentimentos e emoções -, nega a possibilidade de indenização dos danos sofridos pela omissão das obrigações parentais a que estão sujeitos; enquanto que a segunda, alega que o cuidado é fundamental para a formação do menor e do adolescente, no qual os pais assumem obrigações jurídicas em relação à sua prole, que vão muito além das necessidades materiais.
Porém, no âmbito da presente pesquisa não se encontra em discussão a impossibilidade de se impor a obrigação de amar, mas sim o cumprimento, ou não, de um dever legal, o de cuidar. Neste particular, tendo em vista o caráter subjetivo e a impossibilidade de materialização do amor, é inquestionável a faculdade de se nutrir e a impossibilidade de se impor qualquer sentimento. Outrossim, de forma completamente diversa, temos o dever de cuidar, que, além de seus elementos objetivos, é caracterizado por uma imposição biológica e legal de cuidado, havendo a possibilidade de verificação e comprovação do devido cumprimento de seus deveres legais e a ocorrência de ilicitude civil quando verificada qualquer tipo de omissão.
Por fim, conclui-se que o julgador deverá considerar a existência de cuidados parentais essenciais, que garantem, ao menos quanto à afetividade, condições para uma adequada formação psicológica e inclusão social. Isto posto, deverá ponderar, levando em consideração as normas constitucionais protetivas dos menores e idosos, as situações fáticas que tenham à disposição, avaliando sempre com fulcro no binômio, necessidade e possibilidade.
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A INSUPERABILIDADE DO MÉTODO SUBSUNTIVO E A CARÊNCIA DE