8. As faces do Édipo em Lavoura Arcaica
8.6. Inveja e discurso
Nesse sentido, Mezan (2009) aponta como elementos que podem ser relacionados à inveja, dentre outros: o olhar e o objeto indeterminado, podendo variar muito do qualquer coisa ao tudo. A inveja envolve uma oscilação entre a distância e a coincidência; envolve a intensidade, rapidez, o involuntário; envolve a agressividade, a
astúcia, a sagacidade, o roubo e a rapina. Segundo o autor, há uma necessidade inerente à inveja que é a arrebatar o objeto (suporte) invejado por meio da violência ou agressividade ou por meio da astúcia.
O olhar desempenha função decisiva, e também pode abarcar os outros elementos que acompanham a inveja, pois, por meio dele, o contato é mantido, isto é, a busca de coincidência (desejo de coincidência) e ao mesmo tempo permite a manutenção da distância entre o invejoso e o invejado, porque é simultaneamente um “incorporar” e “distanciar”; trata-se de apreender de modo que se incorpora o que é apreendido, porém é irredutível exatamente por essa forma de apreensão: a inveja almeja o impossível que é, em alguma instância, a completude narcísica.
Em Lavoura Arcaica (1975), a cadeia semântica que acompanha o verbo olhar é posta exemplarmente:
Olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou violáceo; o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo; eu estava deitado no assoalho do meu quarto, quando meu irmão chegou para me levar de volta; minha mão pouco antes dinâmica e em dura disciplina, percorria vagarosa a pele molhada do meu corpo [...] (NASSAR, 2002, p.9, 10)
O signo “olhos” é a inserção metonímica desse narrador-personagem. Lacan também falou do olho como representação do sujeito do inconsciente em sua teoria: “O olho está aqui como, muito frequentemente, o símbolo do sujeito” (LACAN, 1998, p.97). Em literatura, esse é um sujeito que já se apresenta como sujeito do desejo. Os olhos representam o desejo, desejo de contato, desejo de coincidência:
[...] minha cabeça foi de repente tomada pelas mãos da mãe [...] curvando-se, ela amassou depois seus olhos, o nariz e a boca, enquanto cheirava ruidosamente meus cabelos, espalhando ali em língua estranha, as palavras ternas com que sempre me brindara desde criança: ‘meus olhos, meu coração, meu cordeiro’... (NASSAR, 2002, p.171).
Também é pelo ato de ver que esse sujeito desnuda a memória:
Pedro, meu irmão, engorde os olhos nessa memória escusa, nesses mistérios roxos, na coleção mais lúdica desse escuro poço: no pano
murcho dessas flores, nesta orquídea amarrotada, neste par de ligas cor-de-rosa, nesta pulseira, neste berloque, nestas quinquilharias todas que eu sempre pagava com moedas roubadas ao pai (NASSAR, 2002, p.73).
Ao mesmo tempo em que esse sujeito alcança os objetos de afeto e acessa a memória pelos “olhos”, também pelos olhos a apreensão desses mesmos objetos e o acesso aos fatos se torna impossível. Os olhos viabilizam o desejo, mas representam o limite entre o eu e o outro; são símbolos da individuação e inibem a possibilidade de fusão, mesmo que os olhares se encontrem profundamente.
Ainda sobre a astúcia, a rapidez e os olhos (elementos da inveja), o incesto, na obra, é descrito da seguinte forma:
[...] voltando ao quarto onde eu ficava, mal entrei voei para a janela, espiando através da fresta (Deus!): ela estava lá, não longe da casa, debaixo do telheiro selado que cobria a antiga tábua de lavar, meio escondida pelas ramas da velha primavera, assustadiça no recuo depois de um ousado avanço, olhando ainda com desconfiança pra minha janela, o corpo de campônia, os pés descalços, a roupa em desleixo cheia de graça, branco o rosto branco e eu me lembrei das pombas, as pombas da minha infância me vendo também assim, espreitando atrás da veneziana, como espreitava do canto do paiol quando criança a pomba ressabiada e arisca que media com desconfiança os seus avanços, o bico minucioso e preciso bicando e recuando ponto por ponto, mas avançava sempre no caminho tramado dos grãos de milho, e eu espreitava e aguardava [...], e era então um farfalhar quase instantâneo de asas quando a peneira lhe caíra sorrateira em cima, e minhas mãos já era um ninho, e era então um estremecimento que eu apertava entre elas enquanto corria pelo quintal em alvoroço gritando é minha é minha e me detendo pra conhecer melhor seus olhos pequenos e redondos, matreiros mas agora em puro espanto... (NASSAR, 2000, p.97).
Nesse trecho, o narrador compara a sedução em relação à irmã – como ele a atraiu até ali – à captura da pomba, como nas brincadeiras de infância. Nesse trecho, há a descrição de toda sagacidade, perspicácia e cautela do pequeno caçador para capturar a pomba, fazendo um caminho com grãos de milho até atraí-la ao cativeiro. Assim foi feito com a irmã ao atraí-la para a velha casa da fazenda na tentativa de seduzi-la.
Há também a presença do olhar (olhos), por meio dos lexemas, “vendo”, “espreitando”, “olhos pequenos e redondos”. Há o jubilo por ter alcançado o objeto da inveja e ao mesmo tempo objeto do desejo “é minha é minha”. A presença do pronome possessivo antecedido pela atualização do verbo indica a façanha empreendida por André: “o roubo” da irmã, a captura da pomba. Por uma questão de trato com o tempo
(“há o tempo de aguardar e o tempo de ser ágil”), para assim, nesse intervalo, nessa suspensão – como se fosse possível comandar o tempo -, reverter a ordem das coisas: burlar o tabu do incesto, tangenciar o impossível:
Foi este o instante: ela transpôs a soleira, me contornando pelo lado como se contornasse um lenho erguido à sua frente, impassível, seco, altamente inflamável; não me mexi, continuei o madeiro tenso, sentindo contudo seus passos dementes atrás de mim, adivinhando uma pasta escura turvando seus olhos, mas a sombra indecisa foi aos poucos descrevendo movimentos desenvoltos, perdendo-se logo no túnel do corredor: fechei a porta , tinha puxado a linha (NASSAR, p.102-103).
A sagacidade é linguística. Nessa manobra com as palavras, o ritmo da descrição é aumentado, como se o narrador quisesse, por um triz, ultrapassar as barreiras da forma e fundir-se. Mas é sempre um quase:
[...] alguém mais forte do que eu é que puxava a linha e, menino esperto e sagaz, eu tinha caído na própria armadilha do destino [...] houve medo e susto quando tateei a palha, abri os olhos eram duas brasas, e meu corpo, eu não tinha dúvida, fora talhado sob medida pra receber o demo: uma sanha de tinhoso me tomou de assalto assim que dei pela falta dela... (NASSAR, 2000, p.116).
Diz Mezan (2009, p.134) que o invejoso também é movido pelo ódio: “O invejoso procurará dessa forma, destruir a coisa alheia, e nisso age movido também pelo ódio; mas a situação não se esgota aí, caso contrário a inveja não se distinguiria do ódio”. Uma vez que André percebe a impossibilidade de junção com Ana, ele é tomado pelo ódio(“uma sanha de tinhoso me tomou de assalto assim que dei pela falta dela...”).
Há astúcia e sedução na linguagem metafórica e poética de André. Esse narrador, sujeito do discurso, é ardiloso no jogo com as palavras: não poderia assim seduzir também o leitor? Na verdade, a proposta de André de união com a irmã – e depois com o irmão - é “indecente”, impossível, mas há algo em seu discurso que faz com que o leitor seja seduzido, vendo isso de outra forma; ele, inclusive, tem um discurso argumentativo e lógico para que essa união seja respeitada, como na passagem:
‘Ana, me escute, é só o que eu te peço’, eu disse forjando minha calma, eu tinha de provar minha paciência, falar-lhe com a razão, usar a versatilidade, era preciso ali aliciar os barros santos, as pedras lúcidas, as partes iluminadas daquela câmara, fazer como tentei fazer na casa velha, aliciar e trazer para meu lado toda capela: ‘foi um milagre o que aconteceu entre nós, querida irmã, o mesmo tronco, o mesmo teto, nenhuma traição, nenhuma deslealdade, e a certeza supérflua e tão fundamental de um contar sempre com o outro no
instante de alegria e nas horas de adversidade; foi um milagre, querida irmã, descobrirmos que somos tão conformes em nossos corpos, e que vamos com nossa união continuar nossa infância comum, sem mágoa para nossos brinquedos, sem corte em nossas memórias, sem trauma para nossa história; foi um milagre descobrirmos acima de tudo que nos bastamos dentro dos limites da nossa própria casa, confirmando a palavra do pai de que a felicidade só pode ser encontrada no seio da família (NASSAR, 2002, p.119-120).
Mas essa união não é possível, claro, na nossa cultura, e isso chama a atenção. O pai figura como “vilão”, em alguns momentos, mas ele, de alguma forma, “resguarda” algo.