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4.1. INTRODUÇÃO

Atualmente, poucos são os usuários de drogas que usam apenas uma única substância (Gossop, 2001). O Manual Diagnóstico e Estatístico de Trans-tornos Mentais (APA, 1994) aponta que os episó-dios de intoxicação por substâncias têm envolvido a participação de mais de uma droga, um consumo que, se considerados determinados critérios, pode evoluir para um estado de transtorno de uso (abuso e dependência) de múltiplas substâncias. Ainda mais preocupante é a possibilidade desse uso estar co-mórbido a outras doenças mentais (ex.: transtornos de conduta entre adolescentes; transtornos de per-sonalidade antisocial e “borderline”; esquizofrenia e transtornos de humor, entre outros) (APA, 1994), dificultando a identificação da gravidade do abuso e dependência de drogas, assim como das condições comórbidas, causando uma complicação no curso e no tratamento das doenças existentes.

Esse uso múltiplo de drogas remonta a histó-ria quando tribos indígenas fumavam folhas de coca e tabaco com fins religiosos (Buhler, 1946; Siegel, 1982), um uso que, atualmente, tem repetido o pas-sado, entretanto, com algumas modificações.

Em foco pela literatura internacional, o uso múltiplo de drogas tem sido subdividido em “con-current polydrug use” (CPU) e “simultaneous polydrug use” (SPU) (Earleywine et al., 1997; Collins et al., 1999; McCabe et al., 2006; Mida-nik et al., 2007), a princípio, diferenciados entre si pelo contexto temporal de uso. Enquanto o CPU faz referência ao uso de mais de uma substância em ocasiões diferentes (ainda sem denominação em português), o SPU envolve o emprego de duas ou mais drogas em uma mesma sessão de consu-mo (uso múltiplo do tipo simultâneo). Embora a diferença seja meramente temporal, a modalidade simultânea é potencialmente mais perigosa, dados os efeitos aditivos entre as drogas co-administra-das e o aumento da toxicidade de cada substância em relação à situação em que é usada isoladamen-te (Zevin & Benowitz, 1999; Hernández-López et al., 2002).

Quanto às drogas em si, tem sido sugerido que o álcool seja a substância mais frequentemen-te envolvida na situação de uso múltiplo, seguida imediatamente pela maconha (Earleywine et al., 1997; McCabe et al., 2006; Midanik et al., 2007; EMCDDA, 2002). Entre as inúmeras possibilida-des, álcool-tabaco, álcool-maconha, álcool/cocaína (e crack) têm sido as associações mais regularmen-te relatadas (Earleywine et al., 1997; Collins et al., 1999; Midanik et al., 2007), embora a associação de bebidas alcoólicas a ecstasy (Hernández-López et al., 2002), medicamentos psicotrópicos (analgésicos, estimulantes, sedativos ou tranqüilizantes) (McCabe et al., 2006; Arria, 2008; Hibell et al., 2009) e bebi-das energéticas (O’Brien et al., 2008) tenham des-pertado a atenção da comunidade científica, fazendo presença nas publicações.

Em termos de prevalência de uso, o “2000 Na-tional Alcohol Survey” apontou que 10% da popu-lação geral norte-americana relatou ter feito uso de álcool e maconha (e outros 5,0%, o uso de álcool e outras drogas) em dias diferentes (uso paralelo; “con-current polydrug use”). Além disso, 7,0% dos entre-vistados relataram fazer o uso simultâneo de álcool e maconha e 1,7%, de álcool e outras drogas (Mi-danik et al., 2007). Ainda nos EUA, os dados mais recentes do “SAMHSA’s National Survey on Drug Use & Health” têm apontado que entre os 17,3 mi-lhões de bebedores pesados (com idade superior a 12 anos) 58,0% fumam enquanto que 29,4% são usuá-rios de drogas ilícitas (SAHMSA, 2009). De forma semelhante, na França, um levantamento nacional apontou que 8,3% da população já fez uso regular de alguma combinação entre álcool, tabaco e maconha, com forte associação do uso de maconha a outras drogas ilícitas (Beck et al., 2007).

Contrariamente ao que se pudesse imaginar, o uso múltiplo de drogas não é um comportamen-to marginal ou restricomportamen-to a usuários que tenham de-senvolvido um uso pesado de drogas. Tem iniciado precocemente, tendo sido identificado com preva-lências expressivas entre os jovens europeus de faixa etária entre 15-17 anos (Hibell et al., 2007), sofren-do um aumento de até 40% na transição sofren-dos 14

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aos 19 anos de idade, atingindo uma prevalência de 60% de uso entre os adolescentes (Choquet et al., 2004). Igualmente preocupante é a situação entre os universitários. O “The Harvard School of Public

Health College Alcohol Study” – CAS apontou que

87% a 98% dos usuários de maconha ou de outras drogas ilícitas têm desenvolvido um padrão pesa-do de uso de álcool (entre eles, episódios de “binge

drinking”), dos quais muitos bebem até a

embria-guez (Gledhill-Hoyt et al., 2000; Mohler-Kuo et al., 2003), estando sujeitos a todos os riscos que o uso múltiplo de drogas representa.

Embora estudos apontem que o uso múltiplo de drogas possa refletir uma história natural de con-sumo que inicia com álcool e progride para subs-tâncias de maior potencial de intoxicação (Hopper et al., 2006), há opiniões que defendem que o uso múltiplo é empregado propositadamente com os fins estratégicos de (a) aumentar o efeito agradável, (b) suavizar o efeito desagradável ou (c) controlar o uso da outra droga que co-administram (Magura & Rosenblum, 2000; Schensul et al., 2005; Oliveira & Nappo, 2008). O DSM-IV (APA, 1994), por exem-plo, já indicava que indivíduos dependentes de co-caína, por exemplo, frequentemente usavam álcool, ansiolíticos e opióides para combater os sintomas persistentes de ansiedade induzidos pela cocaína, enquanto que indivíduos com dependência de opi-óides ou canabinopi-óides desenvolviam transtornos de uso para álcool, ansiolíticos, anfetaminas ou cocaína. Paraxodalmente, como citado anteriormente, o uso múltiplo de drogas também é empregado para pro-longar ou intensificar os efeitos positivos ou agradá-veis de uma droga. Nesse sentido, por exemplo, o uso múltiplo é empregado para dar continuidade ao con-sumo de crack, por dias e horas a fio, sendo associado a tabaco, bebidas alcoólicas, drogas ilícitas (maconha e cloridrato de cocaína) e medicamentos controlados por receituário especial, em especial, tranqüilizantes e anfetamínicos (Oliveira & Nappo, 2008).

Independente das substâncias associadas, à

me-droga leva ao consumo de outra, de tal forma que se influenciam reciprocamente e os consumos passam a caminhar pari-passu (Anthony & Echeagaray-Wagner, 2000; Magura & Rosenblaum, 2000; Hu-ghes & Kalman, 2006; Reed et al., 2007; O’Brien et al., 2008). A situação é alarmante, principalmente quando o usuário passa a associar a droga de prefe-rência a substâncias que antes não tolerava ou não tinha o hábito de consumir. Assim, com o tempo, o usuário não apenas passa a aceitá-las, como aumenta exponencialmente seu uso, como é o caso, por exem-plo, da associação entre crack e heroína (Oliveira & Nappo, 2010 – in press). Consequentemente, o uso múltiplo pode dificultar a identificação apropriada dos transtornos de uso de substâncias existentes, ser-vindo como um fator de confusão sobre a interferên-cia de uma dada substâninterferên-cia sobre a saúde (Gouzou-lis-Mayfrank & Daumann, 2006), além de dificultar a adesão e o sucesso de uma possível abordagem terapêutica a que o usuário possa a vir submeter-se.

Quanto aos outros riscos do uso múltiplo de drogas, a primeira preocupação é sobre a periculosi-dade que representa, já que substâncias combinadas podem interferir reciprocamente sobre os respecti-vos mecanismos farmacocinéticos e farmacodinâmi-cos ou levar à formação de substâncias intermediá-rias e potencialmente tóxicas à saúde, aumentando a toxicidade da droga em relação ao seu uso isolado (Zevin & Benowitz, 1999; Magura & Rosenblum, 2000; Hernández-López et al., 2002).

Em termos do funcionamento mental, o uso múltiplo de drogas aumenta a incidência de trans-tornos neuropsiquiátricos, problemas psicológicos e prejuízos cognitivos (Gouzoulis-Mayfrank & Dau-mann, 2006; Hoshi et al., 2007; Medina & Shear, 2007; Van Dam et al., 2008; Soar et al., 2009), dimi-nuindo a capacidade de inibirem comportamentos impulsivos (Fillmore & Rush, 2006) e predispondo os usuários de múltiplas drogas a comportamentos de risco à sua integridade física, emocional e social. É

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para o desenvolvimento de doenças cardiovascula-res (Earleywine & Newcomb, 1997; Pennings et al., 2002; O’Brien et al., 2008). Socialmente, têm mais problemas legais com aprisionamento e comporta-mento sexual de risco (especialmente pelo aucomporta-mento da frequência de encontros e número de parceiros sexuais, uso inconsistente de preservativos e relações sexuais indesejadas) (Pennings et al., 2002; O’Brien et al., 2008) aumentando a incidência de infecções sexualmente transmissíveis (IFT) nessa sub-popu-lação de usuários de drogas. Em termos acadêmicos, usuários de drogas múltiplas têm pior desempenho já que faltam mais aulas, socializam mais e estudam menos (Arria et al., 2008).

Dado que mundialmente o consumo isolado de álcool é relatado por quase 2 bilhões de pessoas (UNODC, 2008) e é causa atribuível de 3,8% das mor-tes e 4,6% dos casos de doença e dano (Rehm et al., 2009), o relato de ser a substância mais regularmente envolvida em casos de uso múltiplo é preocupante para a saúde pública e merece esclarecimento. Soma-se a isso, o fato de que é necessidade pública conhecer as as-sociações de drogas atualmente praticadas, simultâneas ou não, assim como as motivações a elas subjacentes. Acreditamos que essas informações conscientizarão as autoridades competentes da problemática e da ne-cessidade de planejamento de medidas específicas que possam impedir sua realização ou minimizar seus da-nos, além de providenciar programas de atendimento específicos a usuários de múltiplas drogas.

No Brasil, os levantamentos nacionais sobre o uso de substâncias psicotrópicas não têm feito men-ção direta sobre esse uso múltiplo (Carlini et al., 2002; Noto et al., 2003; Galduróz et al., 2005; Car-lini et al., 2007), sentindo-se a falta de uma base de dados que reflita a problemática em âmbito nacional e que permita a comparabilidade do retrato brasi-leiro à situação mundial do uso de drogas, especial-mente entre os universitários.

4.2. OBJETIVO

Estimar a prevalência do uso múltiplo de drogas entre os universitários brasileiros, de tal

forma a identificar as associações de drogas mais frequentes no país. As informações sobre a combi-nação de bebidas alcoólicas a outras drogas, assim como as motivações subjacentes foram apresenta-das com detalhes. Entretanto, é importante ressal-tar que, embora algumas associações tenham sido encontradas com maior frequência dependendo de determinada região, tipo de IES, área e período de estudos, gênero ou faixa etária do universitário, análises estatísticas pormenorizadas deverão ser realizadas para que essas sugestões sejam confir-madas, já que a avaliação aqui apresentada é ape-nas exploratória.

4.3. RESULTADOS

Os resultados estão divididos em dois blocos, um sobre o uso múltiplo de drogas em geral (refle-tido pelo número de drogas usadas) e outro sobre o uso simultâneo de álcool e outras drogas.

4.3.1. Número de drogas usadas

pelos universitários

Na presente amostra de universitários brasi-leiros, 11,2% (N = 1.420) relataram nunca terem utilizado álcool ou outras substâncias psicotrópi-cas na vida. Por outro lado, 30,7% deles fizeram uso de apenas uma única droga (N = 3.904) na

vida e 58,1% usaram mais de duas drogas (N =

7.387), dentre os quais quase 68% (4.932/7387) fizeram uso de três ou mais substâncias (Figura 4.1).

Considerado o uso nos últimos 12 meses, 24,1% dos universitários relataram não ter feito uso de substâncias psicotrópicas, enquanto 38,3% o fizeram para apenas uma única substância e, finalmente, 37,6% usaram duas ou mais drogas. (Figura 4.2) Para a medida de uso nos últimos 30

dias, 34,7% dos universitários relataram não ter

feito o uso de substâncias, enquanto que 37,9% o fizeram para apenas uma única droga e, final-mente, 27,4% fizeram-no para mais duas ou mais substâncias. (Figura 4.3).

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Figura 4.1: Número de drogas usadas na vida entre os 12.711 universitários entrevistados.

Figura 4.2: Número de drogas usadas nos últimos 12 meses entre os universitários entrevistados.

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