3 ESTIGMATIZAÇÃO LGBT E SELETIVIDADE PENAL
3.3 Labeling approach: a seletividade intrínseca do processo penal
As perspectivas de patologização das teorias clássicas do comportamento criminoso, que, a partir de amostras limitadas da criminalidade, a atribuíam a condições econômicas, socio ou psicopatológicas, encontraram forte crítica na “teoria das associações diferenciadas” de Edwin H. Sutherland, que se usou de crimes tipicamente cometidos pelas classes mais economicamente favorecidas da sociedade, como os crimes de colarinho branco para apontar as inerentes incoerências e limitações desses modelos (BARATTA, 2002, p. 71).
Foi no eixo norte-latino americano onde a criminologia floresceu enquanto verdadeira sociologia criminal, da segunda metade do século XX, quando se anunciavam mudanças no paradigma de estudo das ciências criminológicas. Aqui, passa-se a enxergar uma interdependência entre a “conduta desviada” e a “reação social” que ela provoca, além de retirar daquela primeira o desvio e a criminalidade como suas qualidades intrínsecas (ANDRADE, 1995, pp. 25-27).
Aponta Baratta (2002, p. 49) para um deslocamento do foco de análise do sujeito criminalizado para o sistema penal, para os processos de criminalização que dele fazem parte, e, finalmente, para todo o “sistema da reação social ao desvio”.
A estadunidense obra intitulada “Outsiders” de Howard Becker é considerada central na argumentação criminológica a partir desse novo paradigma. A labeling
approach, ou ainda teoria do etiquetamento ou da rotulação, então, nasce do contato
da sociologia do desvio e do controle social com correntes sociológicas de origem fenomenológica — tal qual o interacionismo simbólico e etnometodológico — além de outras linhas de estudos criminológico e penal (BARATTA, 2002, p. 210).
A Labeling approach, de Becker, se desvencilhando dos modelos dos séculos precedentes, de patologização, de uma suposta determinação biológica ou sociopsicológica, pondera que é o desvio criado pelas sociedades, que nenhuma conduta é fundamentalmente criminosa, nem ninguém, por quanto, é naturalmente criminoso, sendo esse um rótulo recebido, como discorre Becker (2008, pp. 21-22, grifos no original) :
[o desvio] é criado pela sociedade. Não digo isso no sentido em que é comumente compreendido, de que as causas do desvio estão localizadas na situação social do desviante ou em “fatores sociais” que incitam sua ação. Quero dizer, isto sim, que grupos sociais criam desvio ao fazer as regras cuja infração constitui desvio, e ao aplicar essas regras a pessoas particulares e rotulá-las como outsiders. Desse ponto de vista, o desvio não é uma qualidade do ato que a pessoa comete, mas uma conseqüência da aplicação por outros de regras e sanções a um “infrator". O desviante é alguém a quem esse rótulo foi aplicado com sucesso; o comportamento desviante é aquele que as pessoas rotulam como tal.
Determinados sujeitos, então, a partir de um processo criminalizador, estão em posição de vulnerabilidade ou de imunidade frente à incidência estigmatizada do sistema punitivo (CARVALHO, 2012, p. 159). A estigmatização que sofrem os implicados em ações penais lhes extirpa de qualquer “valor” que pudessem ter. Becker (2008, p. 42) se debruçou sobre essa marcação, essa atribuição de um status de desviante que afeta de maneira irreparável sua identidade pública. Volta-se, então, — e aqui podem ser retomadas as formulações de Davis sobre branding social do capítulo anterior, especialmente para que a herança escravista das práticas penais não seja esquecida — para a atribuição de valor transacional, um “bem negativo”, na forma da criminalidade:
Na perspectiva da criminologia crítica a criminalidade não é mais uma qualidade ontológica de determinados comportamentos e de determinados indivíduos, mas se revela, principalmente, como um status atribuído a determinados indivíduos, mediante uma dupla seleção: em primeiro lugar, a seleção dos bens protegidos penalmente, e dos comportamentos ofensivos destes bens, descritos nos tipos penais; em segundo lugar, a seleção dos indivíduos estigmatizados entre todos os indivíduos que realizam infrações a normas penalmente sancionadas. A criminalidade é [...] um ‘bem negativo’, distribuído desigualmente conforme a hierarquia dos interesses fixada no sistema socioeconômico e conforme a desigualdade social entre os indivíduos [...] (BARATTA, p. 161, 2002).
Com tais formulações, procura-se evidenciar a natureza burguesa do sistema criminal, quanto o conflito de classes marca e define a seletividade penal. As condutas mais atacadas, os desvios mais violentamente repreendidos são aqueles típicos das classes subalternas, enquanto são imunes a esses processos de criminalização indivíduos que compõem a classe que controla o capital, “ligados funcionalmente à existência da acumulação capitalista” (BARATTA, 2002, pp.161-165).
Loic Wacquant, em sua crítica à política de “Tolerância Zero” adotada em Nova York nos anos 1990, política essa tão amplamente exportada que até os dias atuais ainda podem ser encontrados seus reflexos nos discursos jurídicos — especialmente simpáticos à Teoria da Vidraça Quebrada, essa que nunca chegou a ser comprovada empiricamente (WACQUANT, 2001, p. 16) —, policiais e políticos no Brasil, escreve em sua Nota aos leitores brasileiros:
A penalidade neoliberal apresenta o seguinte paradoxo: pretende remediar com um "mais Estado" policial e penitenciário o "menos Estado" econômico e social que é a própria causa da escalada generalizada da insegurança objetiva e subjetiva em todos os países, tanto do Primeiro como do Segundo Mundo. Ela reafirma a onipotência do Leviatã no domínio restrito da manutenção da ordem pública - simbolizada pela luta contra a delinquência de rua (WACQUANT, 2001, p.4)
Com esse olhar voltado, enfim, para as populações LGBT, relevante considerar como acontece o contato desses sujeitos com o aparato estatal que se dá em duas frentes: a primeira, o anseio por proteções, como forma de minar as violências sofridas, garantias e igualdade civis, e a segunda, na violência institucional, especialmente policial, e enquanto agentes criminalizados, como “réus”, como foram, e ainda são, historicamente marginalizados, perseguidos e repreendidos.
Sob o cenário de frágeis e aparentes igualdades civis — afinal, casamentos, adoções e restrições a tratamentos de reversão não estão sequer expressos nos textos legais brasileiros, podendo, à conveniência política, serem revogados — e de desmonte das assistências sociais no país, para esses grupos marginalizados que dessas últimas tão emergencialmente precisam, pela falta de suporte nos núcleos familiares e as diárias violências a que são submetidos, o único contato desses sujeitos com o Estado, será na sua forma policial, penal e repressora. Até mesmo o acesso ao processo — de imediato, dificultado pela linguagem jurídica excludente —, à assistência jurídica da qual sua plena defesa e exercício do contraditório dependem
tão irremediavelmente, para o recluso no sistema carcerário, é uma função que fica relegada à família. Para sujeitos LGBT, então, o direito à ampla defesa é mitigado pela sua condição marginal, pois existe uma aqui dimensão social específica: são pessoas excluídas dos núcleos familiares tradicionais, e é a comunidade, em que normalmente se confiam as políticas para abordar a violência sofrida, quem reproduz e internaliza os sistemas de opressão, que, por fim, impulsionam o sistema penal (MOGUL; RITCHIE; WHITLOCK, 2011, pp. 149-150).
Trevisan (2018, pp. 21-22) coloca que, com uma tolerância variável, que atribui a sujeitos LGBT maiores ou menores graus de periculosidade a conveniência circunstancial, a permissividade social é basicamente oportunista. A prisão — e todo o sistema penal, em verdade —, enquanto instituição de poder serve a interesses específicos, de controle e normatização, e é facilmente manipulada. Como já foi explorado no capítulo prévio, cogitar que quaisquer seguranças ou garantias legais erguidas, oferecem obstáculo a usos arbitrários de poder é uma fantasia dos discursos legitimadores dos sistemas penais que não encontra respaldo na história e realidade, a exemplo de campos de concentração, passados e presentes19, afinal, “a civilização sempre precisou de reservatórios negativos que possam funcionar como bodes expiatórios nos momentos de crise e mal-estar, quando então, por um mecanismo de projeção, ela ataca esse bolsões tacitamente tolerados” (TREVISAN 2018, pp. 21- 22).