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de CDs cá em casa. As pessoas estavam a afastar- -se um bocado disso, também. Estão a perder a cena de comprar CDs.

JC E voltaram a comprar cassetes?

PA Pois… eu acho que deixou de haver a com- pra dos formatos porque as pessoas agora ou- vem música na internet. Pelo menos é mais ou menos assim que vejo as coisas. Havendo sim, edição física, o vinil não deixando de existir mas sendo muito dispendioso, a cassete apresen- tou-se como a mais económica… e não sei que mais… assim um glamour cor-de-rosa. Mas eu acho que não faz sentido produzires cassetes na Republica Checa, aí tens montes de fábricas de vinil talvez faz mais sentido produzires em vinil. Aqui, para mim, é mesmo porque está aqui esta fábrica. Pego no autocarro ou metro e vou lá. JC Desafios da produção nos dias de hoje? PA Não sei… Por agora temos de pensar como é que isto está a crescer em termos de objecto? Há aquelas capas feitas em papel não é? Que o pessoal faz. Cortantes diferentes e não sei quê. Mas a relação da música com o formato não está a mudar. Está a mudar toda a envolvência e o aspecto da coisa. Mas não está a formar a tua relação com a música, a não ser por negligência. Falta de conhecimento no que é este formato e no que ele precisa. E isso sim, o pessoal está todo a fazer cassetes pelo objecto. Não é por o que a cassetes lhes dá. Eu não estou a ver ninguém aqui que esteja a fazer isso… Tirando uma ou outra cena. Mas as pessoas não estão a fazer cas- setes por aquilo que o material lhes dá. JC Achas que é superficial?

PA Imagina que eu pego numa cassete e sei que a ideia deste gajo é que quer fazer uma casse- te porque quer levar a música dele à exaustão

e sabe que a exaustão, neste mídia, é muito especial e tem tudo a ver com a sua ideia ini- cial. Isto faz sentido. Da mesma maneira que tu tinhas uma capa que foi fotocopiada mil vezes, esta cassete vai chegar ao seu clímax e vai atingir todos os pressupostos conceptuais do música quando realmente for reproduzida mil vezes e ficar exausta até rebentar. Fecha- -se o ciclo. Ninguém está a pensar assim. Pelo menos não estou a ver. Isto é uma das coisas que podes brincar com a cassete, com o for- mato. Eu há vinte anos que estou a fazer uma cena com a fita da cassete que se aproxima um pouco disto, mas também não é sobre isto percebes? Sobre a cassete em si, tem mais ver com o desperdício e heranças musicais. JC Mas é uma instalação?

PA Pode ser um arquivo, uma instalação, uma edição… é uma recolha que ando a fazer. Vai acontecer mas ainda falta. Mas… os desafios de produção… faz sentido isto continuar a crescer se houver também produção daque- les dispositivos (aponta para um leitor), não é? Isto não vai crescer para lado nenhum se as pessoas não tiverem onde ouvir. Estão-se a produzir cassetes mas ainda se estão a produ- zir leitores de cassetes? Ainda tenho esta dúvi- da. Se comprares um gira discos hoje em dia, vai reproduzir melhor que há quarenta anos atrás. Não há dividas, tem por onde melho- rar. Agora um leitor de cassetes tem por onde crescer? Em termos tecnológicos? Sim… tem uma extensão USB gravas logo para a pen… Então para que queres a cassete se gravas logo para a pen? Tem de haver a outra parte e onde é que isso está? Parou? Já é peça do museu? Então quando já não houver leitores de cas- setes como é que as vou ouvir? Vou querer

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POP

comprar um novo e novo não há, usados estão caríssimos. Se as pessoas estão a comprar cas- setes sem leitores é mais um motivo que estão a comprar só pelo objecto. E na cena DIY está um pouco com falta de ideias e a cassete conti- nua a ser a ideia mais engraçada. Porque quem quer editar uma cena sua, mas não tem dinheiro para o vinil, acha que a cassete não faz sentido nenhum e ninguém compra cassetes, os meus amigos querem ouvir a minha música não tem leitor de cassetes, sei lá… Não têm outra opção. Estou a lembrar-me de um amigo meu que fez isto… É simples, é uma fotografia com o código para o link. A cassete está a tornar-se a mesma coisa que esta fotografia, é só uma maneira de gravação para encaixilhares o teu código de

download, mas é mais… querida e fofinha.

JC A próxima pergunta seria como pensas que a k7 se pode reinventar? Mas é o que temos estado a falar, a cassete em si não se pode reinventar mas sim como a usas?

PA Pois, ela está a reinventar assim, exactamen- te dessa maneira. Pode tornar-se o caixilho do código de download, ou pode tornar-se o objec- to na tua estante, viva decoração da tua casa… Lembro-me que na última vez que fui à Edisco, o gajo estava em vias de fazer um negócio com a Benetton para fazer uma montra forrada a cas- setes. São estes os desafios da cassete. JC Qual o Futuro que prevê para a cassete? PA Depende daquela outra tecnologias. JC Sim, depende se continuar a ouvir rádios para ouvir em cassete.

PA Imagina que tu ainda consegues continuar a ouvir com o teu leitor, um dia ele avaria, quem é que o arranja? Tens de encontrar quem tenha conhecimentos para o fazer. A Edisco tem um técnico, para quando é preciso, mas quando esse

tipo morrer o que é que acontece? A cassete tem umas especificidades brutais… há cenas que não são electromagnetismo, não é electricidade, não é mecânico, é outra cena qualquer…

JC Como última questão, gostava de perguntar- -te, em relação aos Live Low e ao Toada, porque do que conheço, deve ser o teu projecto onde é mais notório. Como é que se opera o processo de recolha do que será mais próximo de uma música tradicional portuguesa e depois como é que esta pode influenciar uma produção con- temporânea?

PA Há várias coisas, primeiro, em termos de contemporaneidade o resultado final sonoro de Toada, tu nunca dirias que vai buscar aqui, a um disco de música tradicional, porque na verdade estamos completamente noutro sítio. Tecnica- mente, ideologicamente, em termos recursos, de musicalidade… A mim custa-me… há coisas que me custam mesmo… oiço algumas bandas e não percebo como é que se pode estar ainda a fazer aquilo. Por exemplo, estive a ouvir o disco das tais Sopa de Pedra e penso: ‘Há quarenta anos (sobre disco com recolhas de Fernando Lopes Graça e Michel Giacometti), este gajo não mor- reu para tu estares a fazer a mesma merda?’ O que está aqui, não podemos completamente esquecer esta herança, mas também não podes pegar naquele universo e fazer a mesma merda, aquilo é mesmo mau. O que está aqui é mil vezes mais interessante. Tens de fazer sempre alguma coisa a seguir a isso, usa a tecnologia, usa ou- tros recursos, se musicalmente não consegues, usa outra coisa qualquer. Nós houve várias pes- quisas que estamos aqui a fazer. Primeiro, este universo de música tradicional é muito amplo e há muitos estudos sobre isto, é fixe perceber qual é o estado da arte disto. Em termos acadé-

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