JC: Normalmente fazes edições de quantas? RS: Eu só vendo em feiras, então normalmente vou fazendo edições de 12, como são 4, gravo 3 de cada. E nas feiras vai tudo, quase nunca levo nada de volta comigo. Queria fazer mais edições, mas dá trabalho, como gravo uma a uma. JC Leva muito tempo então?
RS Mais ou menos, é mais uma questão de mé- todo, estares em casa e ires fazendo outra coisa enquanto gravam.
JC Podes contar como era quando passavas som ainda em cassetes?
RS Eu cheguei a passar música em cassete em alguns sets do Instituto, porque só tinha aque- las músicas em cassete. Levava um walkman para passar música. O problema é que tinha um walkman muito fraquinho, quando puxava pelo volume começava a destorcer. Para passar música de cassete preciso de arranjar uma coisa portátil mas que consiga aguentar com a ampli- ficação. Foi uma das razões pelas quais deixei de passar em cassetes, porque o som distorcia bas- tante, não era equilibrado com os vinis. Portanto cansei-me, vi que não dava mesmo. Imagina a cabeça é um pequeno microfone e quando puxas muito e amplificas ele está a captar tudo, então ouvias o barulho da fita a passar.
JC Uma dúvida que tenho, é como seleccionas que é aquele trecho da fita que queres passar? RS Andas ali para trás e para a frente no pré-es- cuta. Ainda era um pouco pior porque só tinha para a frente, então tinha que virar a cassete ao contrário. Levava as coisas pré-preparadas, tam- bém eram só duas músicas que queria passar. JC Não é tão pratico como passar em vivil? RS Ah, mas dá! Não é por não ser prático que deixei. É engraçado, é leve, só que preciso de
ter outro equipamento. Na última feira em que tive a vender cassetes, aconteceu uma coisa en- graçada, vendi a última cassete e o walkman. A pessoa não tinha um leitor mas queria comprar, então vendi tudo. Agora tenho mesmo de com- prar um walkman. Nas feiras gosto de ter para escuta. O problema de comprar cassetes diria, é ter paciência, porque há muitas. Mas na feira da ladra e na vandoma ainda não ligam muito às cassetes. É normal já te pedirem um euro, nor- malmente era a vinte cêntimos.
JC Tens alguma memória específica da cassete? RS Eu ouvi durante muitos muitos anos em cas- sete, fazia parte do dia-a-dia.
JC Sim, pertencemos a gerações diferentes… RS Sim, os cd’s apareceram a meio da minha adolescência diria, então nunca comprei muitos cd’s. Enquanto fomos sempre tendo bastantes cassetes e gravávamos muita em cassete, jogáva- mos computador a partir de cassete. Portanto, a cassete desde que me conheço que está por todo o lado. O cd teve uma relevância menos impor- tante, eu diria. Portanto, a memória da cassete é aquilo que ouves no carro, aquilo que tens em casa… Ouvia mais em cassete do que o vinil, por- que quando era mais novo não podia mexer, o que é normal, não podes deixar os miúdos mexer no vinil, não faz sentido. Apesar de ter os meus vinis em criança, mas quando começou a apare- cer a cassete os meus pais deixaram de comprar em vinil. Não me lembro de fazer edições, acho eu, o que muita gente fazia…
JC Que mais valias poderá ter a cassete em relação a outros suportes musicais, analógicos ou digitais? RS Funciona. A única coisa que pode acontecer de pior a uma cassete é sair a fita, não risca, ela acaba por ser bastante durável. A nível de som não tem nenhuma mais valia em termos de alta
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fidelidade, mas tem valias de portabilidade e du- rabilidade, acho eu. É portátil, é levezinha, é bué fixe. Ah, e o cd nunca foi um objecto que crias- se o mínimo consenso enquanto objecto. Em termos físicos ninguém gosta particularmente do cd, como aquilo é óptico não entendes bem como é que funciona, enquanto que com a casse- te sabes que está a ser lido. É um objecto ingrato o cd e não tem viabilidade nenhuma, acho que o vinil e a cassete tem mais que um cd.
JC Tens alguma ideia sobre a história do apare- cimento da cassete em Portugal?
RS Final dos anos 70. Primeiro ainda haviam os cartuchos, cassetes chegam no final dos anos 70, início de 80.
JC Enquanto designer, o que te desperta mais o interesse nas capas das k7’s?
RS Ahhh é o formato. A escala. Aquele rectan- gulozinho e o facto de, ao contrário dos cd’s, as cassetes têm um padrão de tamanho, variam muito pouco. Há umas variações de modelo para modelo em termos de largura, mas é um formato praticamente standard que o vinil tam- bém já tinha. Com o cd aquilo abandalhou um bocado, nunca ninguém ficou muito satisfeito com aquele formato quadrado e houve peque- nas variações de centímetros dentro da caixa de cd. Tanto que é sempre um grande problema quando se tem de editar cd’s, nunca ninguém fica satisfeito com o objecto que cria. A cassete tem um volume e uma proporção… Eu gosto de fazer capas de cassetes, é engraçado… JC Enquanto designer também, quais as preo- cupações enquanto produzes o design para uma capa de cassete?
RS Eu só fiz as do Instituto… Elas seguem uma lógica padrão, são mais ou menos todas iguais. A ideia é adaptar o título àquele tamanho… O
que não é muito grave, é adaptar. São todas do mesmo tamanho, com a mesma composição, o que altera são as cores e as imagens. As imagens de fundo vou buscar a arquivo, tento descobrir imagens de arquivo relacionadas, por exemplo, no caso de Angola e Cabo-Verde com a Guerra Colonial e as de cúmbia foi uma imagem encon- trada de um salão de dança. Existe uma imagem de fundo, um pouco ambiental, o que interessa é manter a composição para que elas possam funcionar como uma colecção. A que poderá ser diferente é a do Dj Urânio.
JC Sim, com o trabalho plástico dele? RS Sim, à partido sim, certamente. JC Porquê produzir ainda cassetes?
RS Pela questão do auto-rádio. Eu não tenho leitor de cd’s, ponto número um…
JC Tens mesmo uma implicância com o cd… RS Opá odeio, odeio o objecto. Já me livrei de quase todos e hei-de-me livrar de todos. Acho mesmo que é um objecto que não funciona. Os computadores deixaram de ter leitor de cd’s e eu deixei de ter. Mas tenho vários leitores de casse- tes, quer dizer, já tive mais. Com o Instituto, com o vinil tens uma ideia de fazer uma compilação, com a cassete tens uma ideia de proximidade que, para mim, não tens ao partilhar mix’s no soundcloud ou fazer misturas, primeiro não te- nho esse tipo de aspirações. A minha ideia em produzir cassetes é criar um objecto que sirva como cartão de visita para o Instituto, que aquilo possa funcionar como uma forma de difusão da minha colecção. Porque eu no fundo sou um co- leccionador que gosta de partilhar música que vai encontrando e a cassete acaba por ter o formato ideal para o fazer. Podia fazer cd’s, mas para mim o cd tem um ar mais institucional, enquanto a cassete, como usei sempre cassetes, é uma coisa…