DA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO
3.4 LEAN THINKING E LOGÍSTICA
Os métodos da construção enxuta têm sido propagados, tanto nos meios acadêmicos quanto nos empresariais, pelas técnicas de planejamento e controle da produção no canteiro. Uma
42 forma particular de divulgação da construção enxuta tem sido a defendida pelos adeptos do Lean Thinking4 ou Pensamento Enxuto. Na visão desses agentes, o pensamento enxuto é mais do que uma transferência pura e simples de conhecimentos na administração da produção, significando uma nova postura comportamental diante da realidade a ser enfrentada, tendo em vista que os princípios do pensamento enxuto exigem, sobretudo, uma mudança de mentalidade por parte de todos os atores envolvidos no processo produtivo.
ANDERY (1999) preconiza que o pensar enxuto deve ser estendido a todas as fases do empreendimento, particularmente à do projeto. Diz também que o projeto ainda é encarado como uma seqüência de atividades de conversão, configurando uma atitude de gerenciamento de contratos, não focada na expectativa do cliente. Para ele, esta ausência de enfoque sistêmico deve ser compensada através da aplicação dos conceitos de Engenharia Simultânea.
WOMACK & JONES (1998) enfatizam que, antes de produzir enxuto, a organização precisa pensar enxuto; isto significa a mudança de paradigma do atual modelo de gestão, sendo fundamental direcionar o foco para se obter uma clara definição de:
a. Valor - entender o quê o cliente necessita e qual a melhor maneira para que este valor seja gerado e ofertado é o ponto de partida para o pensamento enxuto; b. Fluxo - manutenção de um fluxo contínuo na produção de pequenos lotes, fazendo
com que as etapas sucedâneas, que criam valor, efetivamente fluam; reportando à construção civil, CONTE (1999) afirma que, tão ou mais importante quanto estudar novos processos e tecnologias é fazer com que a obra tenha um ritmo de produção planejado, o que contribui para a estabilização do ambiente operacional;
4 Lean Thinking : traduzido para o português como pensamento enxuto; expressão usada para significar uma
c. Produção puxada - baseada na filosofia Just in Time, ou seja, nenhuma atividade deve ser iniciada antes que haja necessidade dela. Dessa forma, a produção puxada contrapôe-se ao sistema tradicional de produção empurrada, onde os produtos são produzidos em lotes e armazenados como estoques reguladores da cadeia de suprimentos, conforme FIGURA 3.3 :
Por sua vez, HIROTA (2001) considera que, tão ou mais importante que o desenvolvimento de modelos, métodos e ferramentas para a consolidação de uma teoria de gestão da produção na indústria da construção, é a maneira de como se dá esse processo de transferência de
Fonte : Reproduzida de CHRISTOPHER (1999, p.162).
Produtos acabados (Nível de previsão da demanda) Produtos acabados ARMAZÉM DA FÁBRICA FÁBRICA CRD1 CRD2 Centros regionais de distribuição (CRD) FORNECEDORES D1 D2 D3 D4 CLIENTES Produtos acabados Produção em andamento Componentes Subconjuntos
FIGURA 3.3 : Puxar x Empurrar na cadeia logística Produção
empurra
Demanda puxa
44 conhecimentos. A introdução de mudanças necessárias à implementação dos conceitos da produção enxuta na construção passa pela capacitação dos profissionais envolvidos na produção que, segundo HIROTA (2001), deve se dar através da Aprendizagem na Ação.
3.5 LOGÍSTICA COMO FERRAMENTA DA CONSTRUÇÃO ENXUTA
Como dito anteriormente na seção 2.2 do Capítulo anterior, para diversos autores, a Logística é uma ferramenta da Construção Enxuta, no sentido de que a primeira se constitue em suporte às atividades desta última; assim, mesmo não contribuindo de forma direta para adicionar valor ao produto, as atividades a ela atribuídas (Logística) são necessárias para a execução das atividades descritas como trabalho efetivo, ou melhor dizendo, das atividades ditas de conversão. Conforme se depreende da QUADRO 3.2 : Conceito lógico de Trabalho/ Perda na produção (p. 37), as atividades logísticas são classificadas como trabalho adicional, e geram custos, sem no entanto agregar valor.
Vistas, portanto, sob a ótica da Construção Enxuta, as atividades logísticas devem ser reduzidas a um mínimo necessário e suficiente para a execução do processo produtivo, o que, infelizmente, nem sempre ocorre. Contribui para isto a falta de planejamento prévio na elaboração dos fluxos físicos do canteiro. ALVES & FORMOSO (2000a) relatam experiência de estudo de caso em canteiro de obra na cidade de Porto Alegre onde a não observância dos conceitos logísticos gerou uma carga adicional de esforço físico e movimentação desnecessária de trabalhadores, o que poderia ser evitado caso se estabelecesse uma hierarquização dos fluxos físicos segundo três níveis para o Planejamento e Controle da Produção - PCP, conforme exposto no QUADRO 2.4 (p. 24).
A esse respeito, BERNARDES & FORMOSO (2000) propôem um modelo de PCP para ser implementado em empresas construtoras de pequeno porte baseado nas ferramentas da Construção Enxuta, para planejamento de curto e médio prazo.
REIS & ANDERY (2000) afirmam que as filosofias e práticas implantadas pelos Sistemas de Gestão da Qualidade em empresas construtoras propiciam o ambiente favorável para a implementação dos conceitos da Construção Enxuta, por exigir um grau de comprometimento da alta administração, evidenciado pela versão 2000 da ISO 9000. Salientam também que a Logística de Suprimentos foi a principal beneficiada pelas rotinas originadas pelos sistemas da qualidade, pela padronização de procedimentos utilizados na inspeção e recebimento de materiais em obra.
SABATINI (1998) apud PEREIRA et al (2000) visualiza como futuro para as empresas construtoras o papel de Integradora de Sistemas Complexos, cabendo-lhes a imcumbência de promover esta integração como compradoras de sub-sistemas por ela projetados, ao passo que os fornecedores de materiais e serviços passariam atuar como fornecedores de sistemas ao invés de simples produtos.