Capítulo 1-. Bases teóricas para compreensão dos princípios
2.2 Leitura: sistemas de conhecimentos e processamento textual
No processo de leitura e construção dos sentidos, várias estratégias sociocognitivas são mobilizadas. É por meio dessas estratégias, mediante a ativação dos conhecimentos armazenados na memória, que se realiza o processamento textual.
Para Kleiman (2004, p.26), o conhecimento prévio é importante no processo de leitura, pois o ―leitor poderá tornar-se ciente da necessidade de fazer da leitura uma atividade caracterizada pelo engajamento e uso do conhecimento, em vez de mera recepção passiva‖. Nesse sentido, no processo de leitura, o leitor interage com o texto quando ativa o seu conhecimento prévio.
Ler e construir sentidos, em suma, são atividades altamente complexas que envolvem, como já foi afirmado, estratégias. Cabe ressaltarmos que a leitura não é apenas um ato cognitivo, ela é, também, um ato social que envolve o autor do texto e o leitor interagindo em uma determinada situação comunicativa, com uma determinada finalidade. Entendemos, diante disso, que a leitura só tem sentido dentro de um contexto específico.
Mediante a perspectiva sociointeracional, Kleiman (1998, p. 151) observa que a construção dos sentidos ―é um processo altamente subjetivo, pois cada leitor traz sua carga experiencial que determinará uma leitura para cada leitor num
mesmo momento e uma leitura diferente para o mesmo leitor, em momentos diversos‖.
Devemos, então, considerar que o texto se constitui mediante à interação entre o autor que, ao produzir o texto, possui intenções e propósitos, e o leitor, que pode aceitar, ou não, o que o texto lhe propõe. Isso significa que o aspecto social da leitura está diretamente associado à interação, pois a leitura varia de leitor para leitor e a construção dos sentidos depende dos conhecimentos que cada um possui, bem como dos interesses das comunidades onde estão inseridos.
Solé (1998, p.31) salienta que ―o processo de leitura deve garantir que o leitor compreenda o texto para que possa ir construindo uma ideia sobre seu conteúdo, extraindo dele o que lhe interessa, em função dos seus objetivos‖. Assim, por existirem várias possibilidades de leitura, os objetivos devem guiar o processo de leitura, de modo que o leitor delimite alguma finalidade para a leitura. Nesse caso, ―assumir o controle da própria leitura e regulá-la, implica ter um objetivo para ela‖ (SOLÉ, op.cit., p.27).
Para a construção dos sentidos, é necessária a participação ativa do leitor que, tomando como base seus conhecimentos prévios, atribuirá sentidos ao texto e acrescentará informações novas ao seu conhecimento. O leitor, então, constrói conhecimentos por meio de conhecimentos representados na memória, ativados e partilhados no processo de interação.
Esses conhecimentos partilhados são sistemas de conhecimento, acessados por ocasião do processamento textual, descritos por Heinemann & Viehweger (1991 apud Koch, 2002, p. 48) como ―conhecimento linguístico, enciclopédico e interacional‖.
Para Koch & Elias (2006, p.40), o conhecimento linguístico
[...] abrange o conhecimento gramatical e o lexical. Baseados nesse tipo de conhecimento podemos compreender: a organização do material linguístico na superfície textual; o uso dos meios coesivos para efetuar a remissão ou sequenciação textual; a seleção lexical adequada ao tema ou aos modelos cognitivos ativados.
Em outras palavras, o conhecimento linguístico abrange aspectos da língua a respeito de sua organização, itens lexicais, estruturas sintáticas, marcas linguísticas que, se desconhecidas, impossibilitam a compreensão. O conhecimento é responsável pela articulação do som, seleção de componentes da língua e pelos modelos cognitivos ativados. O conhecimento envolve a ciência de como pronunciar a língua, passando pelas regras da língua, chegando até o seu uso.
O conhecimento enciclopédico, ou conhecimento de mundo, refere-se ―a conhecimentos gerais sobre o mundo – uma espécie de thesaurus mental – bem como a conhecimentos alusivos a vivências pessoais e eventos espácio- temporalmente situados, permitindo a produção de sentidos‖ (KOCH & ELIAS, 2006, p.42-43).
Em outras palavras, o conhecimento enciclopédico corresponde ao conhecimento que está armazenado na memória de cada sujeito; ele representa as experiências vividas em sociedade, servindo de base para os processos conceituais. Logo, pode ser obtido por meio de relações formais ou informais e, nesse caso, abrange desde o domínio que um profissional tem sobre a sua área de trabalho até o conhecimento de fatos relacionados às relações com outras pessoas no seu cotidiano.
O conhecimento interacional refere-se ―às formas de interação por meio da linguagem e engloba os conhecimentos ilocucional – que permitem ao leitor reconhecer quais são os objetivos ou intenções do autor, comunicacional, metacomunicativo e superestrutural‖ (KOCH & ELIAS, op.cit., p.45). Isso significa
dizer que o conhecimento interacional é o conhecimento que ocorre mediante a interação do leitor com o texto.
O conhecimento comunicacional refere-se ―à quantidade de informação que é necessária para que um parceiro seja capaz de reconstruir o objetivo do produtor do texto‖ (KOCH & ELIAS, op. cit., p. 33). Para essa reconstrução, é necessário selecionar uma variante linguística adequada à situação de interação e também que o gênero textual seja adequado ao contexto.
O conhecimento metacognitivo, segundo Koch & Elias (2006), possibilita ao autor do texto assegurar ao leitor a compreensão do texto escrito, por meio de várias ações linguísticas – paráfrases e repetições, por exemplo –, com o intuito de garantir a compreensão global do texto.
O conhecimento superestrutural ou conhecimento sobre gêneros textuais, por seu turno, permite ao leitor reconhecer os textos como pertencentes a determinados gêneros, ou seja, é o conhecimento que faz o leitor distinguir uma crônica de uma fábula. Esse conhecimento diz respeito, também, à identificação de sequências textuais (narrativa, descritiva, expositiva, argumentativa).
Para Koch (2007, p.33), o conhecimento superestrutural
[...] permite reconhecer textos como exemplares de determinado gênero ou tipo; envolve também conhecimentos sobre macrocategorias ou unidades globais que distinguem os vários tipos de textos, sobre sua ordenação ou sequenciação, bem como sobre a conexão entre objetivos, bases proposicionais e estruturas textuais globais.
Segundo Kleiman (1998, p.20), ―quanto mais conhecimento textual o leitor tiver, quanto maior a sua exposição a todo tipo de texto, mais fácil será sua compreensão‖.
Assim, no ato de leitura, o leitor registra diversas informações que envolvem, desde a decodificação das letras até o uso do conhecimento de mundo, armazenadas em sua memória. No ato de leitura, o leitor apreende o material escrito, por meio dos olhos, com o objetivo de decifrá-lo e compreendê-
lo. O material visualizado e apreendido é levado para a memória de trabalho; esta memória é a responsável em configurar a capacidade do leitor, no processo da construção dos sentidos, uma vez que as informações são reunidas, na memória, em unidades significativas.
O passo seguinte do processo envolve a memória intermediária, responsável por acessar, na mente do leitor, os conhecimentos relevantes para a construção dos sentidos. Em seguida, esse novo conhecimento é depositado na memória de longo prazo do leitor que, a depender das suas necessidades, poderá regressar à memória de trabalho.
Nesse cenário, na interação com o texto, o leitor processa, por meio de um conjunto de ações, as informações apresentadas no texto e estabelece ligações informativas e contextuais. Nessa perspectiva, o leitor é sujeito ativo no processo de leitura e faz uso de vários recursos – conhecimentos linguístico, enciclopédico e interacional – para auxiliá-lo na construção dos sentidos.
Assim, tendo em vista as necessidades que surgem na interação, os conhecimentos adquiridos são recuperados e agrupados em forma de modelos que resultam da experiência no dia-a-dia de um determinado grupo social. Por isso, a leitura é tão importante na perspectiva sociocognitivo-interacional para construção de sentido.
Portanto, o leitor constrói sentido por meio de experiências socialmente compartilhadas; estabelece esquemas cognitivos e, por meio dessas representações, é levado à construção do sentido.
2.3 A prática de leitura: abordagem dos Parâmetros Curriculares