2. Gêneros literários
2.1 Texto dramático e texto espetacular
2.2.2 Lessing
23 Sofridos membros nesta posição,
Caída aqui no chão desconfortável53
As características líricas da obra euripidiana, porém, assim como as coincidências e diferenças com a obra brechtiana, serão enfocadas posteriormente54.
2.2.2 Lessing
Como Brecht, muitos analisaram e interpretaram as concepções aristotélicas no decorrer dos séculos, nem sempre, porém, da mesma maneira – muitas afirmações dos estudos de Aristóteles se tornaram polêmicas, gerando discussões e novas teorias. No século XVIII, um alemão vai a socorro do filósofo, desmistificando, sob seu ponto de vista, a teoria aristotélica. Gotthold Ephraim Lessing (1729 – 1781), responsável pelo início de uma escrita genuinamente alemã, criando, inclusive, o primeiro drama burguês e a primeira comédia55 em seu idioma, incluiu, em Dramaturgia de Hamburgo, a explicação para as definições de gênero estabelecidas por Aristóteles, afirmando que o filósofo não pretendia “dar uma definição rigorosamente lógica da tragédia”56,por não se limitar à essência, mas conter aspectos duvidosos: “Que a tragédia é, em suma, um poema que excita compaixão. De conformidade com a sua classe, é imitação de uma ação, da mesma forma como a epopéia e a comédia; mas, de conformidade com o seu gênero, é imitação de uma ação digna de compaixão. Destes dois conceitos, é possível derivar
53EURÍPIDES. As troianas. Trad. M. G. Kury. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.
p. 202.
54No capítulo dois.
55 Miss Sara Sampson e Minna von Barnhelm ou A felicidade do soldado, respectivamente.
56 LESSING, G.E. De teatro e literatura. Trad. J. Guinsburg. São Paulo: Herder, 1964. p.
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inteiramente todas as suas regras e mesmo a sua forma dramática pode ser daí determinada”.57
Lessing critica os estudos feitos ao capítulo VI de Poética, em que, ao afirmar que a tragédia “é Imitação de uma ação de caráter elevado (...) não por narrativa, mas mediante atores, e que, suscitando o terror e a piedade, tem por efeito a purificação dessas emoções”, Aristóteles parece incoerente por misturar o gênero da obra (não narrativa), ao efeito de purificação. Para o alemão, essa lacuna, vista comumente como “uma negligente construção verbal”, não passou de uma abreviatura de Aristóteles na explicação dos gêneros em relação ao tempo, em que o grego tentou dizer “que, portanto, é mister imitar a ação, através da qual desejamos despertar compaixão, não como passada, isto é, não da forma narrada, porém, como atual, isto é, na forma dramática.58
Essa afirmação remete ao estudo posterior de Goethe e Schiller sobre as características que diferiam o épico do dramático, e à insistência de Brecht em apresentar a ação como passada, afastando sua obra do teatro dramático.
Em Laocoonte, obra na qual Lessing compara a pintura à poesia, essa diferença entre os gêneros fica evidente em diversas abordagens. Quando comenta, por exemplo, o “clamor horrendo” que chegava até “as estrelas”, do Laocoonte de Virgílio, à expressão comedida da pintura referente a essa expressão, ele analisa que ambos acertaram no seu enfoque, pois cada um buscou o melhor efeito no público59, e estende o seu estudo ao poeta dramático, no bramido de Filoctetes, de Sófocles com o comentário: “É uma impressão que a narrativa do grito de alguém
57 Id., Ibid.
58Id., Ibid., p. 68.
59 LESSING, G. E. Laocoonte ou sobre as fronteiras da pintura e da poesia. Trad.
M.S.Silva. São Paulo: Iluminuras, 1998. Cap. 4.
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faz; esse grito mesmo produz uma outra”60. Aproximando o drama à pintura e mostrando que o acerto do exagero da expressão de Virgílio é tão inadequado em Sófocles quanto numa pintura, porque nestes, ela se presentifica, o que suprime o distanciamento épico daquele. Sendo assim, em Virgílio, o receptor analisaria todo o contexto do personagem, e vincularia o grito “não ao seu caráter, mas, antes, apenas ao seu sofrimento insuportável”, e no drama, ele ouviria o grito, o que violentaria os ouvidos, e inibiria essa análise. O Sófocles da análise de Lessing, portanto, deveria ser mais comedido, mas o dramaturgo alemão exalta o “gênio” do poeta para justificar o sucesso da obra.
A diferença entre o épico e o dramático pode ser incluída, também, na contraposição entre os escudos de Aquiles, em Homero, e de Enéias, em Virgílio:
“Homero (...) pinta o escudo não como algo pronto, perfeito, mas antes como um escudo sendo feito. (...) Virgílio, pelo contrário, parece tê-lo feito (...) depois do escudo estar há muito terminado”61.
Enquanto o poeta romano optou por descrever a cena de seu escudo como um objeto feito no passado, de forma épica, Homero traz o momento da composição para o texto, tornando a passagem dramática; Lessing explica essa conclusão quando aborda o tratamento homérico à vestimenta de Agamenon, mostrando que
“se Homero quer nos mostrar como Agamenon estava vestido, então o rei deve vestir-se diante dos nossos olhos, peça por peça; (...) um outro teria pintado as roupas até a menor franja e nós não teríamos visto nada da ação.”62 É dramático porque é “ação”, acontecendo no momento que o poeta revela ao receptor,como convém a esse gênero. Incluído num texto narrativo, intermediado por Homero, garante o hibridismo épico dramático na obra grega.
60Id., Ibid., p. 106.
61Id., Ibid., p. 214-216.
62Id., Ibid., p. 195.
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Apesar da admiração pelo filósofo grego, Gothold Ephraim Lessing foi um defensor do hibridismo de gêneros em sua teoria, como quando, ao exaltar o teatro de Shakespeare, concluiu o porquê da separação em gêneros: “O que, afinal, se pretende com a mistura dos gêneros? Que se os separe nos manuais, com a máxima exatidão possível: mas quando um gênio, em virtude de intuitos mais altos, faz confluir vários gêneros em uma e a mesma obra, que então se esqueça o manual e examine apenas se atingiu a esses intuitos mais altos”63.
Ou em sua clássica comparação “Por ser a mula nem cavalo nem asno, será ela, por isso, em menor grau, um dos animais... mais úteis?”64
Nas suas principais obras dramáticas, porém, mostrou-se um escritor que pouco recorreu à mescla de gêneros. Suas peças primam pela ação e por diálogos submetidos a sua função. Em alguns momentos, há uma ou outra fala com características épicas ou líricas, mas raramente se encontra um material capaz de justificar o estudo do hibridismo em seus textos. Seus escritos teóricos, porém, influenciaram toda a literatura alemã; Brecht, ao afirmar que o teatro de Schiller sacrificou a realidade à arte, apesar do interesse do escritor pelas condições de seu tempo, comenta que “o teatro de Lessing era ainda bem diferente nesse aspecto”
(DT:190), mostrando que este autor comungava com a idéia da arte influenciar a sociedade.