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Letramento digital e representação do conceito constituído pelas

6 RELAÇÃO ENTRE AS PRÁTICAS DOCENTES, AS TECNOLOGIAS

6.3 Letramento digital e representação do conceito constituído pelas

Outra questão interessante para as práticas de letramentos e as representações está relacionada ao letramento digital, uma vez que esse conceito não está claramente definido e serve de “guarda-chuva” para um conjunto de práticas que envolvem o uso das tecnologias. Alguém letrado digitalmente pode ser aquele que liga e desliga aparelhos, opera caixas eletrônicos de bancos ou mesmo utiliza de forma satisfatória aparelhos celulares, ou seja, há níveis de letramento digital e não podemos afirmar hoje que pessoas tenham, na contemporaneidade, nível zero em letramento digital.

Os professores perguntados sobre como veem o letramento digital informaram- nos que:

Ex (30) P1: O letramento digital é importante no sentido de que eles... Tudo agora é praticamente informática, é digitalizado e que eles precisam disso pra vida deles. E aí as aulas no laboratório de informática vêm de encontro a essa necessidade que eles têm e nós temos, enquanto professores, como cidadãos, a todo o momento a gente se depara com uma novidade que todos nós precisamos estar atentos pra isso. As aulas no laboratório têm esse objetivo também, é uma maneira de tentar prender um pouco mais a atenção dos alunos, já que muitas vezes você está lá na frente, morrendo de falar e os alunos não estão nem um pouco interessados. A gente planeja aulas credenciadas no laboratório de informática com o objetivo de fazer com que eles voltem a atenção mesmo pra aquilo. Outra maneira de eles se comportarem, que é um ambiente diferente da sala de aula, que não pode ser da maneira como eles querem e aí é uma maneira de educar alunos também nesse aspecto, tentar fazer com que eles vejam essas diferenças. (Grifos nossos.)

No exemplo acima, podemos perceber um aspecto da representação do letramento digital, pelo qual é visto como uma necessidade da contemporaneidade. As aulas no LEI têm o objetivo de desenvolver práticas de letramento digital, é isso que a P1 acredita estar fazendo, mas essa questão é comum no discurso da globalização, que é uma “maneira de educar alunos também nesse aspecto”, isto é, precisamos incorporar as práticas digitais para “civilizar” esse novo homem. Não que sejamos contra desenvolver práticas de letramento digital. Mas estamos temerosos com a ingenuidade incorporada a essa “necessidade”:

(31) P2: Hoje, realmente, ser alfabetizado não basta mais, então a palavra hoje mesmo é „letrado‟. Além de fundamental, é necessário pra vida. Tem que sempre correr atrás, estar se atualizando, porque se não o professor, principalmente, vai ficando pra trás. Porque eles já são nativos digitais, já nasceram nessa era digital, então pra eles é quase que automático, eles até me ajudam na sala de vídeo, ajudam no laboratório, então quando tenho dúvidas quanto à montagem lá dos aparelhos, se o professor não estiver ou o monitor do LEI, os alunos fazem com uma desenvoltura. Então, além de ser necessário pra vida hoje, nesse mundo moderno, globalizado, é útil, altamente útil pra você viver, pra você dar continuidade a sua vida. Os gêneros digitais, toda essa tecnologia, você vai se tornar um cego se não dominar e se não se atualizar também, porque estão sempre mudando, estão sempre evoluindo. (Grifos nossos.)

(32) P4: Bom, o letramento digital, eu acho que tudo o que vem desses meios aí de comunicação, eu acho que tudo é válido. Mas, muitas vezes, nós, professores é que não sabemos lidar direito com isso, né? A questão do letramento eu acho que precisa ainda, eu já li muita coisa de letramento, mas eu confesso a você, ainda existe muita coisa que se fosse pra eu interferir, não saberia. Certo? Porque nós não temos um estudo, éramos pra ter, letramento. Professor, gente, não tem, era pra ter curso online, ou então vem aqui fazer com a gente. Pra gente fazer cursos é tudo muito difícil, até pra fazer um doutorado. Nós tínhamos um colega que estava sentindo dificuldade, já fez o pedido e tudo, ele ainda está dando aula, quer se preparar cada vez mais e cursos não têm, se a gente não procurar fazer como vocês; vão com a cara e a coragem... (Grifos nossos.)

Aqui, a representação do letramento digital se faz na figura de um professor não suficientemente letrado e do aluno 'nativo' digital. A comparação é feita a partir da metáfora da “cegueira”, a mesma que as pessoas faziam para o analfabetismo: os que sabem ler x os que não sabem ler, os que são letrados digitalmente e os que não são letrados digitalmente. Há uma dicotomia que põe em polos distintos a figura do aluno e do professor, esse último sempre em desvantagem.

Há ainda a expressão: “nós professores é que não sabemos lidar direito com isso”, na qual P4 ilustra o que a P2 já havia manifestado, essa figuratividade de não saber e se pedir ajuda porque se está despreparado, fragilizado.

É consensual que, sem todas as habilidades do letramento digital, os futuros cidadãos estarão tão excluídos quanto aqueles que hoje não escrevem, não leem ou não usam a biblioteca. Estas são as habilidades necessárias para nossos letramentos futuros próximos e, em muitos casos, já ocorrentes, aquelas habilidades de que todos nós precisaremos. Porém, as novas tecnologias da informação também possibilitarão ampliar nossos letramentos em novas formas. Muitos de nós escolheremos (e esse é o conceito que nossos participantes não ousaram assimilar) desenvolver tipos adicionais de letramentos dos quais talvez nem todos precisem, mas que trarão grandes benefícios para aqueles que os adquirirem, uma vez que as tecnologias devem estar na escola porque ela deve ser o espaço de preparação e enfrentamento para o que se encontra fora dela.

No excerto abaixo, teremos um aspecto do letramento digital que porá em contraste o urbano x rural e suas implicaturas:

(33) P3: Os alunos da zona urbana apresentam facilidade intensa, até porque eles têm mais contato, tem o aspecto financeiro que eles têm em casa, têm até internet. Nossos alunos da zona rural, alguns, em sua maioria, não têm e-mail, eles não têm esse letramento digital, embora dos quatro anos pra cá tenha melhorado, mas eles ainda apresentam grandes dificuldades. Numa turma que é heterogênea, quando você vai trabalhar o e-mail, tem várias circunstâncias, o aluno da zona urbana é mais rápido no aprendizado, na realização das atividades. Já o da zona rural, você tem que pegar do elementar, então esse letramento digital é bem relativo, dependendo da turma. A intervenção é orientar, geralmente, o da zona urbana, que já vai mais rápido, a gente divide em determinadas ocasiões com auxílio do professor do laboratório, ficam vendo as dificuldades bem elementares pra conseguir avançar na atividade do conteúdo propriamente dito, a atividade linguística. Então, a minha intervenção, assim, busco orientar em relação à mídia, ao computador mesmo tem uns que precisam de aula específica do que é cada parte do computador, como deve ser utilizada, porque eles sentem dificuldades em como acessar uma página. (grifos nossos)

O relato acerca do letramento digital remete para uma representação acerca da relevância que esse assume na vida dos alunos e conforme que finalidades propõem-se a atingir, uma vez que o aluno que vive na área urbana e para o qual as práticas de letramentos com o uso das tecnologias são corriqueiras tem melhores condições financeiras que o aluno da área rural. Esse aluno não convive com muitos recursos tecnológicos e por essa razão não participa de eventos de letramentos com a presença de tecnologias, não conhece práticas de letramentos necessárias para desenvolver o letramento digital, daí o professor sentir a necessidade de desenvolver e intervir no aprendizado desse aluno em especial.

Em suma, as representações feitas quanto ao letramento digital podem ser configuradas em relação às práticas de letramentos, levando-nos a afirmar que o LEI é um espaço para desenvolver o letramento digital porque esta é uma necessidade prevista em documentos, embora os professores não se sintam preparados para fazê-lo ou mesmo apenas creiam que o estejam fazendo.

Outra representação depreendida centra-se na forma como o professor metaforiza a ação com a expressão "correr atrás", porque o aluno sempre sabe mais que ele e é muito difícil para o professor saber como fazer para acompanhar ou dirigir o processo. Há, ainda, a polaridade do componente rural e urbano que se exemplifica em relação à representação de que o aluno da área urbana domina mais e melhor o processo de letramento digital que o aluno da área rural e por isso professores acreditem que precisam intervir no letramento digital desse último, mesmo que para isso propostas de trabalho diferenciadas devam ser desenvolvidas.

Conforme vimos, há sempre traços no letramento digital que remetem à condição de contemporaneidade e adequação às necessidades de estar incluído no mundo de alguma forma, mesmo que essa inclusão não seja uma opção do indivíduo e seja vista até mesmo como forma de civilidade. Ao apresentar a fragilidade diante da situação de insuficiência do letramento digital o professor se descategoriza também na condição de pertencimento a esse mundo, mesmo que, apesar das dificuldades, a ação de letrar digitalmente em alguma medida esteja ocorrendo e a utilização do espaço esteja sendo feita para cumprir orientações previamente estabelecidas.

A representação na relação entre o que dizem os professores acerca de suas práticas docentes e as tecnologias digitais encontra-se em um processo de construção com grandes mudanças já demarcadas. Não podemos dizer que elas tenham objetivado a situação, porque os conceitos são complexos e elas ora se encontram discutindo condições de produção do texto, ora estão preocupadas com aspectos formais de um texto e se perdendo em um emaranhado de situações tipicamente escolares, mas podemos dizer que são situações para as quais a escola também não encontrou respostas. Entretanto, os professores acreditam na diversidade textual como um dos caminhos e a oferecem aos seus alunos, sempre que possível, embora sem muita sistematização ou mesmo ampliação de domínios textuais, pois os textos, em geral, são literários.

A grande dificuldade parece ainda advir da formação que não responde acerca do como transpor didaticamente os conhecimentos tão profusamente divulgados, principalmente no tocante à formação inicial. Durante o exercício da profissão, os professores deparam-se ainda com a falta de sistematicidade de distribuição de material de trabalho e a manutenção de recursos, uma vez que o livro didático ainda é o principal recurso a orientar a seleção dos gêneros e a distribuição dos conteúdos, consequentemente a opção pelos recursos tecnológicos passa também por esse processo e as práticas de letramentos resultantes são bastante afetadas pelas escolhas.