2 LETRAMENTO(S), MULTILETRAMENTOS, PRÁTICAS E EVENTOS:
2.1 Letramento(s)
2.1.1 Os modelos de letramento
2.1.1.1 Modelo autônomo
Street (1984) considera o estudo do letramento sob duas perspectivas ou modelos: o autônomo e o ideológico. O autor esclarece que a utilização do termo modelo é por si mesmo uma adoção de posicionamento, mas serve para clarear uma “grande divisão” instaurada nos estudos de aquisição da linguagem, ou seja, aquela que coloca de um lado a escrita como propulsora dos avanços cognitivos da humanidade, dissociada de contextos e, de outro, a escrita como coadjuvante de processos vários relacionados à história, à cultura e à economia de um povo.
(...) os modelos servem em um sentido como „tipos ideais‟ para ajudar a clarificar linhas significantes de clivagem no campo dos estudos do letramento e fornecem um estímulo de uma fundação teórica mais explícita para descrever práticas de letramentos e comparações que podem ser construídas entre culturas (STREET, 1984, p. 3. Tradução nossa) 2.
O modelo autônomo refere-se, basicamente, às habilidades individuais do sujeito, incluindo as atividades de processamento da leitura, tanto as que ocorrem de forma consciente como as inconscientes na construção de sentido do texto. E, conforme podemos atestar com as palavras do autor, há uma forte tendência a considerar quase que „automática‟ a mobilidade social promovida pelo acesso à escrita, o que não é condizente com a realidade, mas que é largamente difundido entre aqueles que consciente ou inconscientemente isolam as demais variáveis envolvidas no processo de aquisição da escrita pelas pessoas.
Este modelo é, muitas vezes, pelo menos parcialmente explícito na literatura acadêmica, embora seja mais frequentemente implícito no que lá se produz como parte de programas práticos de alfabetização. O modelo tende, a basear-se em uma forma de "ensaio de texto" de alfabetização e de generalizar amplamente do que é de fato uma particularidade, a prática de alfabetização de cultura específica. [...]. O modelo assume direção única em cujo desenvolvimento a alfabetização pode ser rastreada, e associada ao "progresso", "civilização", a liberdade individual e mobilidade social (STREET, 1984, p. 1-2. Tradução nossa)3.
2 (...) models serve in a sense as „ideal types‟ to help clarify the significant lines of cleavage in the field of
literacy studies and to provide a stimulus from which a more explicit theoretical foundation for descriptions of literacy practice and for cross-cultural comparison can be constructed. (STREET, 1984, p. 3).
3This model is often at least partially explicit in the academic literature, though it is more often implicit in that
produced as part of practical literacy programs. The model tends, I claim to be based on the „essay-text‟ form of literacy and to generalize broadly from what is an fact a narrow, culture-specific literacy practice.[…] The model assumes a single direction in which literacy development can be traced, and associates it with „progress‟, „civilization‟, individual liberty and social mobility (STREET, 1984, p. 1-2).
O modelo autônomo parte do princípio de que, independentemente do contexto de produção, a língua tem uma autonomia (resultado de uma lógica intrínseca) que só pode ser apreendida por um processo único, normalmente associado ao sucesso e desenvolvimento próprios de grupos “mais civilizados”. Estamos diante de uma prática reducionista de visão da língua, diante de uma perspectiva etnocêntrica, porque, no modelo autônomo, “o conhecimento é algo para ser apenas consumido e não produzido, transformado, desafiado. Ele trabalha com a concepção das verdades absolutas, dos sentidos prontos e acabados, fechando os espaços para a contestação e a resistência” (SILVA, 2006, p. 77).
A perspectiva do modelo autônomo, as suposições culturais e ideológicas são transformadas a ponto de se apresentarem como neutras e universais e os efeitos do letramento são considerados benignos e científicos. Por isso, “as deficiências do sistema educacional na formação de sujeitos plenamente letrados (...) são decorrentes dos próprios pressupostos que subjazem ao modelo de letramento escolar” (KLEIMAN, 1995, p. 47) e se os sujeitos não aprendem, é porque não adquiriram habilidades específicas para isso e as ações tornam-se pontuais, descontextualizadas e fadadas ao insucesso, na maioria das vezes.
Deste modo, os estudos que se enquadram neste modelo concebem que há grupos não letrados, podendo mesmo ser categorizados como analfabetos, excluídos do processo educacional e do que ele implica. Essa concepção de letramento pressupõe que há apenas um tipo de letramento – o que se refere à escrita – e determina as práticas escolares, considerando a aquisição da escrita como um processo neutro, que, independentemente de considerações contextuais e sociais, deve promover as atividades necessárias para desenvolver no aluno a capacidade de interpretar e escrever textos abstratos, dos gêneros expositivo e argumentativo, dos quais os protótipos seria o texto tipo ensaio (KLEIMAN, 1995, p. 44).
Assim, se tivermos o modelo autônomo como aquele manifesto nas práticas escolares, podemos afirmar que elas reforçam as desigualdades sociais, reproduzem-nas e são estimuladas nas instituições de ensino. Isso acontece porque temos um aparato de pesquisadores, incluindo linguistas que durante muito tempo situaram os estudos da língua sob uma perspectiva alheia ao viés social. É por essa razão que a escola exclui não somente porque ensina a escrita de modo sistematicamente descontextualizado, mas principalmente porque há, no modelo de escola que temos, um aprisionamento no modelo autônomo, fortemente defendido por aqueles que veem as ciências sociais e da linguagem sob um viés estruturalista e preso a dogmas de um conhecimento apartado de suas relações contextuais.
A escrita passou para a história como um elemento divisor de períodos enquanto critério de confiabilidade. No entanto, muitos historiadores e antropólogos pesquisaram em
outros objetos e nas histórias contadas pelos povos e perceberam que muitos documentos foram forjados, sendo o critério de confiabilidade ele mesmo dependente do contexto e da cultura. Isso pode ser atestado por etnógrafos que se basearam na oralidade e em artefatos que comprovaram, por exemplo, a posse de terra e demais situações escritas nem sempre condiziam com a verdade. Povos inteiros foram dizimados por minorias ambiciosas sob a alegação que essas detinham os documentos escritos da posse das terras.
Os linguistas, a partir dos estudos da Sociolinguística, conceberam em uma visão pluralista as variações na língua e as distâncias ficaram menores entre a fala e a escrita. O peso dessas variações encontra-se mais em aspectos sociais que cognitivos. Elas são inerentes a aspectos linguísticos e, por essa razão, os estudos da linguagem e os estudos do letramento aproximam-se de uma perspectiva mais ideológica ou do que Street (1984) denominou de modelo ideológico de letramento.